quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Filosofando...


Eu tive uma amiga que era irritantemente apaixonada pelos Estados Unidos. O Brasil era uma merda, bom mesmo era os EUA. Os Estados Unidos isso, os Estados Unidos aquilo... Porra, eu dizia, vai pra lá então e pára de falar mal do Brasil. E ela foi. Está aqui em algum lugar, ou pelo menos deve estar, pois nunca mais tive contato com ela.

Antes de vir pra cá, sempre torci meu nariz pra América. Mas bastou eu chegar aqui pra mudar os meus conceitos. É preciso admitir que quase tudo aqui é quase sempre melhor, mais confortável, mais prático, mais organizado. Aqui em regra tudo funciona, as normas são obedecidas, a polícia é educada, o povo é acolhedor e gosta de bater um papo. Quer te conheçam ou não, sempre te dão oi. Para mim, que sempre morei em Curitiba - onde a gente finge que não vê pra não ter que cumprimentar, e tem que ser apresentado três vezes ou mais para as pessoas começarem a te considerar um conhecido - isso é muito curioso.

Então fiquei pensando: se eu nunca tinha vindo pra cá, como eu não podia gostar daqui? Puro preconceito. Mas como e por que a gente cria esses preconceitos?

Quando me fiz essa pergunta, me veio uma lembrança da infância. Tenho uma prima americana que às vezes nos visitava, o nome dela é Chantel. No auge dos anos 80 uma americana adolescente era algo traumatizante, pelo menos para uma criança como eu. Ela usava um cabelo armadão, e vivia muito maquiada, usava roupas estravagantes e tinha hábitos alimentares duvidosos, como comer feijão frio misturado com açúcar. Sua mala era quase um container, e dentro dela tinha os mais variados acessórios, secador, laquê, maquiagem, curva-cílios, bobes elétricos, bolsas de vinil, cintos com fivelas automáticas, sapatos de plataforma, polainas com lantejoulas, roupas de couro com franjas, cruzes, aquilo era um horror. A américa para mim era uma fábrica de drag-queens. Baseei minha imagem dos americanos numa prima que só vi duas vezes nos anos 80.

Depois, quando eu comecei a formular o que propriamente seria minha visão de mundo, não pude deixar de me revoltar com as estratégias políticas norte-americanas. Com uma tendência mais ou menos comunista, que absorvi durante bebedeiras no DCE do CEFET, fui veementemente contra o capitalismo e o neoliberalismo americanos, mesmo sem nunca ter me dedicado a reflexões mais profundas sobre o que tudo isso significava para o mundo ou para mim. E o Bush foi a gota d'água. Ele, o símbolo da prepotência, do orgulho e da intolerância norte-americanas, foi o maior responsável pela minha antipatia para com este país.

Mas quando cheguei aqui notei que a maioria dos americanos, assim como eu, estava revoltada com as manobras políticas de seu governante. Então percebi que eles, os americanos de verdade, pessoas comuns como eu, não tinham nada a ver com a imagem que construí ao longo dos anos. E mais, percebi que a nossa cultura brasileira é muito influenciada pela americana, e que esta, por sua vez, é influenciada por outras culturas européias, e que afinal sempre haverá diferenças e semelhanças culturais, e que isso é que dá o maior sentido ao que somos, porque reconhecemos que fazemos parte de algo maior, mais abrangente e menos excludente do que, sem notar, queremos ser.

Os preconceitos são, antes de tudo, uma resistência ao que é novo, a tudo aquilo que é diferente de mim. Eu não gostava dos americanos porque achava que eles se achavam melhores do que nós. Detalhe, eu nunca tinha conhecido os americanos, a não ser minha prima e um pastor da igreja que costumava freqüentar, e nenhum deles me deu motivo para pensar tal coisa. Cresci com este conceito, algo ou alguém deve ter colocado isso na minha cabeça, porque eu mesmo não tinha parâmetros reais para formulá-lo, e nem tive a presença de espírito de me questionar sobre ele antes.

E olha, conheço muita gente com esta opinião, e na mesma situação de ignorância, no sentido de nunca ter vindo para cá, ou nunca ter conhecido mais do que 10 americanos para assim poder fazer uma estatística ou um estudo de caso. A verdade é que eles são - ou eram - uma potência mundial, e importaram, ou impuseram, como preferir, sua cultura em muitos países. Mas isso não é ruim. Quem não gosta de blues, ou de carro, ou de calça Levis, coca-cola, Mc Donalds, tênis All Star, que atire a primeira pedra.

Hoje eu tiro o meu chapéu pros Estados Unidos e para os americanos. Mas espero nunca me tornar uma pessoa rancorosa para com meu próprio país, porque afinal de contas, o Brasil, assim como aqui ou qualquer outro canto do mundo, tem seus encantos e seus defeitos. Hoje, graças às experiências que tive, sei que generalizar é ignorar as diferenças, as peculiaridades e a diversidade que fazem desse mundão um lugar interessante para se viver e (se) descobrir.

7 comentários:

Ivo e Fátima disse...

Oi Xandinha

Bela reflexão. Nada a acrescentar!

Beijos do Sogrão.

talitazevedolemos@yahoo.com.br disse...

é isso aí filhota, sábia reflexão mesmo.Aproveitem tudo o que este povo têm de bom pra oferecer, e tenham sobretudo gratidão.
bjs

Ana B. disse...

Xanda,
Infelizmente nós não nos conhecemos pessoalmente( não pudemos ir no casamento de vocês), e o Bruno, certamente nem me reconheceria se topasse comigo na rua... Seu sogrão me passou o end do blog e eu fiquei fã!
Beijos para os dois, sucesso nos EUA!

Panda disse...

Obrigada, sograo!!!

Mami, my dear, nao bobeie e veja os tramites do seu passaporte para porder ver as maravilhas norte-americanas com seus proprios olhos

E Ana Balbinot, vc e uma pessoa muito famosa no cla dos Zagonel, e' uma honra te-la como leitora do nosso blog!

Ora, ora, por que os acentos nao funcionam aqui???

Evi disse...

Xanda, minha querida irmanzinha (aquela que tive a sorte de escolher ou de ser escolhida), sinto tanto orgulho de vc!!!
Beijão para os dois!!!

Tete disse...

Puxa....nao sabíamos que voce era uma escritora de primeira!!!
Parabéns! Muito bom ler seus comentários!
Beijos de todos os que estao em Guaratuba!

Panda disse...

Evi, bom te ver por aqui! Vc tambem me orgulha muito, viu? Te amo do fundo do meu coracao e espero em breve nos encontrarmos em NewARK.

E povo de Guaratuba, acho que 5 anos de letras na federal serviram pra alguma coisa ne? mas fico lisonjeada pelo elogio! obrigada!!! amo vcs tambem.

mas que pena, meu computador nao ta mais aceitando os acentos...