segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

As Cinco Fases da Encomenda



Um fenômeno curioso vem ocorrendo desde que nos mudamos para os EUA. Um fenômeno, aliás, digno de ser observado sistematicamente! Dele poderiam derivar estudos acadêmicos de toda espécie: sociais, culturais, econômicos, antropológicos, e até mesmo linguísticos (examinando níveis de discurso e estratégias de enunciação), a respeito da alma e do comportamento dos brasileiros! Este fenômeno chamaremos de... encomenda.

Após 5 anos de observação, identifiquei cinco fases distintas na encomenda: a primeira, é um período de aproximação; a segunda, o período de averiguação seguida de uma sub-fase, que chamo afetação comemorativa. A terceira fase é o ápice do processo, aqui denominada determinação de conteúdo. A quarta consiste do período de elaboração e, finalmente, a quinta e última fase, conhecida como fechamento

Para clarificar os termos, segue abaixo uma breve descrição de cada estágio da encomenda.

1. Aproximação

À medida em que o fim do ano vai chegando, inicia-se o período que chamei de, aproximação. Nessa primeira fase -- que pode durar de seis meses a uma semana antes de nossa partida para o Brasil -- parentes, velhos e novos amigos e conhecidos, e até mesmo pessoas com as quais não tenho a mínima intimidade fora das redes virtuais, começam a demonstrar interesse por nosso cotidiano. Oi e aí! Tudo tranquilo? Saudades! Como vão as coisas? Bruno vai bem? Uma vez que o período de aproximação se estabelece, ele atinge um pico, geralmente caracterizado pelo esgotamento de assuntos pertinentes. Inicia-se então o período de averiguação.

2. Averiguação 

Durante esta fase, o encomendador busca confirmar a data de nossa próxima visita ao Brasil. Enunciações nesta fase variam. Tô sabendo que vocês vêm pra Curitiba! Ou: Quando vocês vêm para o Brasil? Ou ainda: Vão vir pra cá no final do ano? E nos casos mais obtusos: vocês já chegam semana que vem, né! 

O período de averiguação é fatalmente seguido por uma pseudo fase, que denomino sub-período de afetação comemorativa. Gifs animados e enunciados do tipo :) Que legal! Uhuuu! Joia! \o/ podem ocorrer nesta fase.

Apesar de ser considerada uma pseudo fase devido à duração efêmera e ao conteúdo muitas vezes esvaziado de sentido, a afetação comemorativa não deve ser subestimada. Pois ela estabelece uma ponte importante para a mensagem verdadeira, período que chamo determinação de conteúdo. 

3. Determinação de conteúdo

Enunciações nesta fase começam não raro com um então. Então, queria perguntar se por um acaso vocês não trariam um i-phone... ou um i-mac, um i-pad, um i-pod, um i-pod-touch, uma máquina, uma câmera... É nesta fase, portanto, que o encomendador identifica o produto desejado, definindo a intenção da encomenda. Alguns encomendadores inclusive demandam pesquisa de preços e modelos disponíveis!

4. Elaboração

Depois da encomenda vem o período de elaboração, onde o interlocutor busca justificar o conteúdo, apontando as qualidades (é pequeno, é levinho, é barato, é raridade, é a última moda, só tem aí) e os motivos  (às vezes trágicos) pelos quais seria importante, para o interlocutor, obter tal encomenda.

5. Fechamento

Finalmente atingimos a fase final,  que denomino período de fechamento. Há dois tipos de fechamento. Comecemos pelo fechamento positivo que, obviamente, determina o sucesso da encomenda. Ela tende a ocorrer a) com os sujeitos que iniciaram o período de aproximação  com antecedência e b) quando o interlocutor já tem laços afetivos preestabelecidos, sendo classificado como merecedor da encomenda. 

O fechamento negativo, por outro lado, determina a frustração do processo. Ele tende a ocorrer a) com indivíduos com quem raramente ou nunca falo, não havendo, portanto, parâmetros para classificá-los como merecedores da encomenda; e b) com indivíduos com quem já tenho laços afetivos preestabelecidos, mas que iniciaram o período de aproximação de forma tardia, inviabilizando assim, o sucesso da empreitada. 

Primeiras Conclusões:

Embora muito distintos, ambos os tipos de fechamento estabelecem o fim de todas as mensagens trocadas até então. Determinam, ao menos para o encomendante, o fim do fenômeno da encomenda, lhe cabendo apenas o incômodo da ansiedade pela espera do produto. 

No que concerne a mim, entretanto, o fechamento é geralmente a fase mais complexa do processo. Ela se arrastará por muitos dias. Vai primeiro obstruir a minha porta, e quando muito exigir minha assinatura no correio. E depois vai vagar pela sala, e pelo quarto, até que as malas fiquem prontas e bem distribuídas para, com sorte, não pagarmos excesso de bagagem. 

Uma vez despachadas, as malas serão inspecionadas, e não deverão despertar suspeitas da receita federal pois isso adicionaria mais algumas horas a uma viagem já bem demorada e cansativa. Que péssima maneira seria essa de começar o meu aniversário, não? 

Por fim, a última fase do fenômeno só termina no momento em que a encomenda chega ao seu destino, e de preferência, intacta. O que, pela característica mesma do processo, está completamente fora de meu controle.

Por tudo isso, a última fase da encomenda é fortemente marcada por stress, paranoia, chateação e arrependimento constantes. Além de me sentir diretamente responsável pelo futuro bem estar das relações pessoais com o encomendante, essa refração de efeitos indesejáveis faz das minhas férias, que deveriam ser fonte de alegria e descanso, um verdadeiro inferno.

I-vocês querendo driblar os impostos exorbitantes! Lembrem-se de que eles são a base da economia brasileira! I-phoda-se. I-não vou levar! I-não vai dar mesmo. I-phim.

sábado, 30 de novembro de 2013

Mutantes em Raleigh

Cartaz - souvenir do show
Tudo é por acaso! Postei uma canção no feice de um amigo, cujo apelido por acaso é Macumba. A canção? "Bat Macumba" dos Mutantes, banda que até então ele desconhecia. Dominicano de alma brasileira e apaixonado por música e capoeira, Macumba começou a ouvir Mutantes e, por  acaso, (ou por essas misteriosas  ferramentas de anúncio personalizado das redes sociais), apareceu no seu feed de notícias um show deles em Raleigh. E duas semanas depois estávamos nós a caminho da capital  para outro show que viria a ser um dos mais emocionantes das nossas vidas.

ROADTRIP

Compramos os ingressos pela internet, 20 doletas. Alugamos um hotel no centro da cidade, que ficava a poucas quadras do Pourhouse Music Hall, onde seria o show. Bruno saiu mais cedo do trabalho na sexta 20 de novembro, e às 4 da tarde botamos o pé na estrada rumo ao nordeste do estado.   

Nós em Raleigh. Fotografia de Jorge Macumba Torres

Chegamos em Raleigh de noite, e o clima estava agradável se comparado à friaca de Charlotte. Fizemos nosso check-in no hotel, conferimos o quarto, tomamos um banho, nos aprontamos e fomos jantar no Big Easy, um restaurante "cajun" -- cozinha da Lousiana. Que jantar maravilhoso! A comida, nota dez! Já a bebida e a mocinha que nos atendeu, mmm, nem tanto. 

A garçonete: what would you like to drink? Eu, no clima propício, pedi um Hurricane. Excuse me? Ela disse. Hur-ri-cane, repeti. E a guria, pelo jeito, não entendia nem o meu inglês, nem as bebidas do restaurante onde ela trabalhava, pois Hurricane deveria ser assinatura de qualquer lugar chamado Big Easy. Já narrei a história deste famoso drink de New Orleans, quem quiser pode clicar aqui e ler o parágrafo "Haja rum, e houve rum". Impaciente, apontei o Hurricane no cardápio para a moça, e só então ela entendeu: Oh, you DO have an accent!

É óbvio que eu tenho um accent. Todo mundo tem sotaque. O dela inclusive era desses bem southern, oh God, bless her heart. Deu vontade de perguntar pra ela quantas línguas vc fala mesmo? Fiquei uma arara! E o tal Hurricane estava uma BOSTA! Não tomei nem um quarto da bagaça. Horrível. Mas a comida, mmmm, a comida estava deliciosa. Enchemos a pança e fomos pro bar. 

POURHOUSE MUSIC HALL 



A casa de show era um bar de rock tosco como qualquer outro, com a diferença de ter um técnico e equipamentos de luz e som de primeira. A entrada era por um beco de tijolo e muro grafitado. Dentro tudo era escuro. A pista de dança era um espaço bom, mas não chegava a ser grande. Isso nos deixou com o coração cheio de expectativas, pois sabíamos que íamos ficar cara a cara com nosso ídolo! Um dos maiores, senão o maior, guitarrista brasileiro -- Sergio Dias! E eu estava apreensiva, imaginando se ele iria ou não nos reconhecer. Afinal, mais de 11 anos anos se passaram desde que produzimos esta linda canção, Outono.

Às nove da noite começou a primeira atração: um cara, voz e violão. O bar ainda estava vazio, meia dúzia de público diversificado, senhoras e senhores, jovens e gente de meia idade. Todos muito elegantes, em seus estilos chic largado alternativo. Aliás, as pessoas de Raleigh todas parecem personagens de filme de histórias em quadrinhos, a cidade inclusive, suas praças, seus prédios, seus becos, seus moradores de rua, suas mansões e casas abandonadas, tudo tão lindo, lúgubre e elegante! 


CAPSULA


Quando a segunda atração da noite -- Capsula -- subiu no palco, o bar já estava mais cheio. Era um trio peculiar. O cantor e guitarrista era a personificação do rockstar andrógino: alto, magro, comprido, cabelos semi-longos negros, escorridos na cara. A menina que tocava baixo parecia uma índia, morena e com as maçãs do rosto sobressalentes e o cabelo castanho claro, comprido, com franja. O baterista era calvo, quase careca, e era o mais contido -- mas nem por isso menos competente e carismático que os demais. 


As músicas eram uma porrada no ouvido: transitavam entre um power pop, rock mantra psicodélico, glam punk. E eles tocaram a melhor versão de David Bowie que  já ouvi. Depois disso o show virou um campo de batalha, e o frontman empunhava a sua guitarra metralhando o público com notas e acordes distorcidos que simulavam o estrondo de aviões e bombardeios, e a menina também apontava o baixo para frente, para o lado e para o alto, marchando, depois se ajoelhava, e tocava sem errar uma nota, fazendo uma cara de concentrada, de menina má, chupando as bochechas assim para salientar ainda mais sua ossada. Do caralho! Depois conversando com eles descobri que os dois são argentinos, e o baterista é espanhol do País Basco.


OS MUTANTES



Às onze veio a atração principal. De "mutante original" só mesmo Sérgio Dias Batista. Mas como brincou Macumba, se Os Mutantes fossem sempre os mesmos o nome da banda não podia ser Mutantes. Foi bom encontrar um conterrâneo nosso, o curitibano Henrique Peters nos teclados, programação e vocais, e rever Vinícius Junqueira, baixista do Sérgio há mais de uma década. Ambos músicos talentosíssimos! Aliás, a banda inteira, Bia Mendes no vocal, esse baterista novo que não lembro nome, mais o guitarrista Victor Trida que eu também não conhecia (compõe, canta e toca pra caralho!), todos musicalmente impecáveis. 

Sérgio foi o último a entrar no palco com uma bata de pajé, ou de monge tibetano. Ele subiu tossindo, se desculpou explicando que acabava de tomar um flu-shot, e plugou a réplica da guitarra de ouro (sim, pois a original, muito velhinha, não sai pra passear). 

Sergio sorria, mas estava gripado e abatido. E ainda assim cantando e tocando muito! Aquele era o décimo quinto show SEGUIDO (o penúltimo desta turnê, que terminaria no sábado, 23 de novembro, em Washington DC). Mas Dias ainda não estava à vontade, e depois uma corda estourou ele ficou meio puto, parou de cantar pra trocar de guitarra. Henrique com profissionalismo e sangue frio segurou os vocais, mesmo sem guitarra, enquanto o Sérgio se embananava com os cabos. Fiquei confusa. O Deus da guitarra não tem rodie? Deu uma vontade de pular no palco e ajudá-lo a plugar o instrumento, e depois trocar a corda que tinha arrebentado. Mas tive medo de ser muito intrusiva e levar um xingão! 



E a guitarra finalmente soou nos amplificadores, e dali pra frente o som foi melhorando exponencialmente ao infinito! Os que estavam sentados se levantaram, os que estavam lá fora entram, e todos dançavam e cantavam aos acordes e às harmonias celestiais em Tecnicolor, Virginia, Ando Meio Desligado (com direito a uma intervenção psicodélica instrumental que sugeria O Meu Refrigerador Não Funciona), Jardim Elétrico, Minha Menina ou She's my choo-choo, TOP-TOP,  Panis et Circensis, Bat Macumba, A Hora e a Vez do Cabelo Nascer, Balada do Louco, Cantor de Mambo, entre outras. E também algumas do repertório do último disco.

Como eu devia ser a única na plateia que cantava a letra de praticamente todas as músicas, e estava na frente, colada ao palco, hora ou outra a Bia botava o microfone na minha boca e lá estava eu, uhuuu! Cantando com Os Mutantes! Muita emoção! E assim o show terminou e todos pediram ONE MORE! ONE MORE! Com direito a bis, todo mundo foi pra casa feliz!

Christmas Parade

Raleigh está nos aguardando para uma visita mais prolongada pois no sábado acordamos a tempo só de ver uma parada de Natal, tomar café e botar o pé na estrada rumo a Biscoe, onde teríamos uma experiência cultural maravilhosa: una fiesta tradicional mexicana de Quinceañera (festa de 15 anos) da prima de um aluno meu. 


Depois de tantas emoções, voltamos pra casa com a alma transbordando de música, alegria, margaritas e memórias inesquecíveis! 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Who got the Blues?


Ao lado do novo museu, o Knight Theater fica no prédio à esquerda

Quinta-feira, dez de outubro. Nada planejado. Mais um dia de trabalho duro, mas bem recompensado. Tudo porque de noite resolvemos tentar a sorte no Knight Theater. Tinha show do Buddy Guy: um dos maiores bluesmen ainda vivos na face da terra.

Salve Buddy!


Foto de divulgação que achei na net
Bruno estava rouco das vomitadas dos dias anteriores devido à dieta bulímica imposta por um rota-virus, e bravo porque marquei errado o endereço do teatro no GPS. Eu também não estava das mais amigáveis: poucas coisas me irritam mais do que 1) levar bronca de uma voz sufocada e rouca e 2) ter que ficar teclando no celular com o carro em movimento. Depois de nos perdermos nas vielas de uptown Charlotte, entramos num estacionamento público nos subterrâneos da cidade. Five bucks. Saímos do carro, entramos em um corredor branco, pegamos um elevador e emergimos à superfície. Lá em cima, a Queen City iluminada. Esvaziava-se de gente uma praça hypster onde um evento provavelmente acabara de acabar. E eu impaciente e apressada, de vestido vermelho, bota e cinto pretos, estava menos para uma Panda produzida que para um Papai Noel fora de época. Sem ideia de como a noite iria ser bowa.

Chegando lá...




Compramos nossos tickets com desconto universitário: dezessete dólares cada. Que pechincha. Subimos a escada para o mezanino, Bruno comprou água, eu vinho. Nove dólares, mais um de tip. E devidamente abastecidos, fomos conduzidos aos nossos assentos, bem no meio da fila F.

A banda de abertura – bem ruinzinha por sinal – já terminava sua apresentação (muito meia boca). Que desnecessário dizer, mas direi mesmo assim, mais por maldade que por inveja: beirava o patético. Tradicionalmente, o som das bandas de abertura dos grandes shows é um pequeno fiasco. Agora eleve esta máxima ao infinito. Pois então. O som daquela banda era assim. Soava mais como um insulto.

Meia hora depois tudo escureceu e o teatro inteiro aplaudiu de pé. O palco era outro. Bruto. E do mezanino, mais parecia uma caixinha mágica de música. Mas que mágica. E que música!

Black Magic 




A banda de apoio entra no palco: um tecladista tipo Tim Maia; um baterista enorme – e como diria o Rafa e o Caetano – de peso; um baixista virtuoso de headphone e um guitarrista pra lá de charmoso com chapéu Panamá. Cada qual se apoderou de seu instrumento, e com a sorte e a calma solene de quem acorda e pode ficar na cama, tocaram os primeiros acordes.

Polca Dot Blues




Os quatro músicos negros mais pareciam personagens de gibi. No meio do palco o canhão de luz iluminava um vazio sobre o tapete preto com bolinhas brancas. E nos acordes suspensos e rufadas de bateria, eis que surge o homem. De bonezinho e calça branca, camisa Polka Dots, stratocaster, e o blues. Hell yeah. He got the Blues.

Wait a Minute!


Sorria para nós!
Uma hora e meia cravada de sonzeira inacreditável. Que voz! Que presença de palco! E de espírito! Aliás, o teatro virou praticamente uma encruzilhada. Todos os espíritos do Blues baixaram naquele show. Muddy Waters, Jimmy Hendrix, Albert King. Lousiana Blues, Chicago Blues. O verdadeiro e inimitável blues. E haja adjetivo inútil. Mas let’s just say Buddy Guy Blues. A uma certa altura o cara sai do palco e aparece no auditório, tocando e andando no meio do público, parando pra sorrir e interagir com as pessoas, que lhe estendiam os abraços e lhe davam leves tapinhas nas costas.

Setenta e sete anos...

E o diabo no corpo. I got the bluuuuuueeeeess... pam pam (acompanhados de movimentos frenéticos do quadril penetrando a guitarra)! Ooohhh, yeeaaah, I’ve GOT the bluuuuuueeeessss.... pam . . . pam! Mais duas investidas eróticas no instrumento. E de repente a banda silencia, e toca tão baixo, and so smooth, que entre um sussurro e outro dava pra ouvir o chiado que vinha do paredão de amplificadores no palco. E frases intermitentes surgiam da plateia, salpicando interjeições americanizadas. Intervenções características de blues de cabaré: oh yeah baby! A-ham! Come on! Wooohoo. Tá louco. O velho não precisa de viagra. E esses americanos são um povo muito característico. 

Seventy seven years young!

Entediado, atrevido, endiabrado, dócil, político, engajado, impertinente, sensato, solícito, explícito, irônico, sarcástico, lacônico, velhinho, porreta, e sempre vivo, sempre genial. Quantas facetas e quantas histórias. E quanto talento e competência sonora. Buddy Guy no hall dos melhores shows. Sem dúvidas. Junto com The Who, Ray Davies, Stones, B.B. King, Bob Dylan, Paul McCartney, EricClapton... inesquecível! E tão viável... se fosse no Brasil quanto custaria a brincadeira? A gente era infeliz e não sabia. Amanhã tem show em Greensboro, duas horas daqui. Que vontade de vê-lo de novo! Bruno vamos? Prometo que dessa vez boto o endereço certo no GPS.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Altos Sons em Atascadero


Rumo a Atascadero

Dando continuidade ao memoir californiano, narrarei agora a última parte -- nem por isso menos prazerosa -- de nossa inesquecível viagem à California. Saindo do coração do Big Sur, a próxima parada era em Atascadero, uma cidadezinha nas montanhas, perto de San Luis Obispo. 

Missão de San Luis Obispo

Lá, num rancho perdido em Paradise Valley mora Alexandre Lacerda. Talentoso curitibano que, além de ser meu xará e um designer fudidão, toca baixo, guitarra, sax, bateria, e agora também se aventura numas produções caseiras de áudio. Ou seja, o cara é oááátimo.


Rancho dos Lacerda


Foi graças a essas curiosas coincidências da vida que encontrei Alexandre. Segundo ele, a gente já se conhecia desde o final da década de 90, ainda na época em que eu tocava no Wasted. E talvez por encarnar com tal afinco o nome da banda, eu já estivesse muito wasted naquela época, confesso que não fazia ideia que o conhecia pessoalmente. 

O anfitrião


Enfim, por esses mistérios mesmo da vida, foi justamente o exílio -- ainda que distinto, em costas  opostas -- quem nos aproximou. Desde que fizemos uma produção juntos no ano passado (cujo resultado vocês ouvem aqui), foi decretada a feitura de novas empreitadas sonoras. Depois de Lucy in the Sky já havíamos iniciado outro projeto musical à distância. Mas quando decidimos ir à California, resolvemos deixá-lo de lado e terminarmos por lá. 

Endo e Mister Cat
Assim, num belo dia ensolarado, Ale e sua esposa Maria, uma alemã linda, e seus cãezinhos enormes, mais três cavalos guapos e o Mr. Cat nos receberam em sua casa com todas as pompas dignas de convidados VIP. Foram dois dias de muita música, cerveja, churrasco, e até um lual sem lua, mas de um céu tão estrelado, e à beira de uma fogueira sem a qual certamente estaríamos todos congelados. Pois parece que em Atascadero é assim: de dia, calor do inferno. De noite, frio de deserto. Enfim! Dias e noites felizes! E o resultado da nossa segunda parceria você pode conferir aqui.

Lojinha charmosa em Santa Ynes

Tst, ah. Como tudo que é bom passa rápido, e os dois dias passaram assim, voando. Logo tocamos fumo na estrada, rumo a Santa Bárbara. Mas antes, passando pelos vales da California 154, e conhecemos cidadezinhas muito batutas. Recomendação infalível de Ale e do querido Zé Emilio Rondeau: Los Olivos, que deve ser a cidade do mundo com mais vinícolas por metro quadrado, e onde é claro, embebedei-me.


Moinho em Solvang
Depois Solvang, um povoado bem sossegado estilo europeu. Nas palavras do Rondeau: "menoreszinhas e com duas personalidades distintas, a primeira é uma cidade do faroeste que ficou chique; a outra, uma colônia dinamarquesa." E ainda passamos pela charmosa Santa Ynes,

O último pôr do sol da viagem em Santa Bárbara


E o que teria sido de nós sem as valiosas dicas dos amigos nessa viagem? Graças a estes adoráveis chegamos em Santa Bárbara com sensação de dever cumprido. E em Santa Bárbara, qual outro paraíso!  Pôr de sol maravilhoso! E a pousada em que ficamos fechou a viagem com chaves de ouro. E deixou vontade de voltar em breve... que assim seja! Aaaaameeen.

No pier de Santa Bárbara

sábado, 17 de agosto de 2013

Big Sur


Clique na foto e use as setas do seu teclado para ver slides
ampliados desta postagem.

Definição:
1. Região na costa central da California em que as montanhas de Santa Lucia se levantam gloriosamente do Oceano Pacífico.
2. Rio que nasce e corre naquelas montanhas e desemboca no mar.
3. Livro do Jack Kerouac lançado em 1962 que narra sua cold turkey na cabana do amigo, editor e poeta beat, Lawrence Ferlinghetti -- Lorenzo Monsanto na novela -- então proprietário da hoje sexagenária City Lights, a livraria que visitamos em San Francisco a alguns posts atrás

O nome Big Sur deriva do original em espanhol "el sur grande" -- o grande sul -- ou "el país grande del sur" referindo-se à península de Monterey. A paisagem, composta de cenários fabulosos, faz do lugar uma atração turística im. Per. Dí. Vel! Parte pelas pontes históricas (inauguradas em 1932) que ligam abismos impressionantes (vários deles) que passamos pelo caminho. 

Eu prefiro as curvas da California 1
Embora não tenha fronteiras definidas, o Big Sur é mais ou menos tudo que fica entre Monterey (190 km ao sul de San Francisco), e São Luis Obispo (390 km ao norte de Los Ângeles). Ou ainda o simplesmente fabuloso fim da América, onde o continente termina num belo, despopulado, assustador, espetacular e maravilhoso barranco!

Pulando a cerca em Santa Cruz

Depois da pira em Davenport e da cura na floresta das sequoias gigantes, saímos de Felton em direção a Santa Cruz. Lá tinha o Museu do Surf num pequeno farol (que estava fechado), e alguns surfistas remando num Pacífico tão pacífico que nem marola dava! E claro, uma vista estonteante!

Monterey, CA
Então seguimos viagem e fomos almoçar em Monterey -- a capital de sardinhas enlatadas, onde comemos (não sardinhas enlatadas) e onde tomei a melhor margarita da minha vida ever.

De pança cheia em Monterey
Depois do almoço tínhamos que cumprir uma missão muito importante. Procurar a casa dos sonhos da Fátima! Uma que ela viu nos idos dos 97 e desejou oniricamente. Com as "pistas" do sogrão sendo mais exatas impossíveis, tipo coordenada geográfica militar, e um GPS, ou melhor, i-phone (resumindo, com Google Maps), encontramos a casa facilmente.

A casa dos sonhos da Fátima nos 20 anos de casados dela e do Ivo
15 anos depois, a casa dos sonhos da Fátima, mas nossa foto não favorece.

De lá pegamos a Seventeen Mile Scenic Drive, uma estradinha à beira mar com pedágio de 10 dólares para você passear por entre veredas e mansões do mais famoso campo de golfe na costa oeste, em Pebble Beach. Você paga para ser lembrado de seu lugar na escala social. Paga para ver com os próprios olhos que a riqueza do outro não tem limites, e que os magnatas que jogam golfe cagam e andam de carrinho elétrico para os problemas do mundo. Porque eles sabem muito bem como e onde se ocupar e esbanjar, e manter, sua fortuna. Compram paraísos depois te cobram uma taxa para cobiçá-los.

Recortando a costa milionária da California, chegamos em Carmel, uma cidadezinha charmosa, historicamente conhecida como a cidade dos poetas e dos artistas. O próprio nome é uma imagem poética, um verso: Carmel by the Sea. 

Mais uma antiga Missão em Carmel

Dizem que Carmel é a melhor amiga dos cães. Restaurantes, mercados, hotéis, todos os estabelecimentos são dog friendly. Por outro lado Carmel não trata assim tão bem as mulheres nem os travecos e suas vaidades. Há uma lei que proíbe o uso de salto alto e/ou plataforma na cidade! Porque o pavimento não é high-hill friendly e muita donzela processou prefeito por lesões no tornozelo. Pois é. Vejam vocês que até Carmel tem seu calcanhar de Aquiles.

Saindo de lá tem outra estrada com pedágio. Trata-se de uma reserva natural de proteção à fauna e flora, chamada Point Lobos State Reserve. Mal entramos no parque e nos deparamos com uma família de veadinhos atravessando a estrada!

Parada para descansar e admirar a vista em algum ponto do Point Lobos State Reserve

De Point Lobos e Carmel na beira mar, fomos para nossa cabana nas montanhas. O Big Sur River Inn é um pequeno paraíso cravado no vale, à beira da estrada. Atingimos o ápice da comemoração das nossas Bodas de 5 anos de casamento ali.


Fizemos o check in depois jantamos no restaurante finíssimo do hotel e ficamos namorandinho sentados numas cadeiras que ficavam na beira do rio (mais especificamente dentro do rio) Big Sur. 

Rio Big Sur, atrás do nosso hotel/cabana.

Depois voltamos para o quarto, e por lá nos entretemos até onze da noite. Pois à uma da manhã (portanto na primeira hora de 08 de agosto, nosso aniversário), tínhamos um compromisso inusitado: um banho de madrugada, da 1 às 3 da matina, nas piscinas térmicas do Instituto Esalen a mais ou menos 14 milhas do hotel. 

Uma das piscinas térmicas do Esalen Institue, do lado de lá da escuridão, o mar.

Esta foi outra grande dica do blog da Candice Bittencourt e funciona exatamente como ela explica lá... a gente chega, estaciona o carro, espera dar uma hora, outros carros vão chegando e estacionando e esperando, até que aparece um carinha super zen do nada e nos explica como o tour funciona. 

Bem vindos ao Esalen Institute, quem tiver lanternas, use pois hoje não tem lua e o caminho está mais escuro. Vamos descer uma trilha de 10 minutos até as Hot Springs. Por favor façam silêncio e tentem caminhar com o mínimo de ruído possível, pois há pessoas dormindo nas cabanas e elas não devem ser incomodadas, etc.

Tudo assim, num tom místico e misterioso. E à medida em que fomos descendo a escuridão foi aumentando. O céu estava tão estrelado, eu nunca tinha visto tanta estrela cadente na vida! Umas dez ou mais! Repeti pedidos. Perdi a conta.

A experiência é única! Você peregrina com um grupo de mais ou menos 15 pessoas -- homens e mulheres, velhos e jovens, heteros e viados, barrigudos ou em forma -- até chegar num vestiário grande e todo mundo vai tirando a roupa e ficando peladão, maior clima naturista! Você não precisa usar roupa, mas também não é obrigado a ficar pelado.

A gente primeiro foi com roupa de banho mas depois acabou ficando nu, afinal de contas não é sempre que podemos nos despir de roupas e dogmas e imergir em termas naturais nas montanhas do Big Sur à beira do Pacífico!

A água é tão quente que dá 10 minutos e você já pula pra fora, e nem sente o frio das montanhas, e depois entra de novo. Não estivéssemos nós no paraíso, aquilo bem poderia ser a boca do inferno. Pois as águas sulfurosas são borbulhantes e limosas, e cheira enxofre e ovo podre. Mas hot spring é isso aí, fede e rejuvenesce, cura reumatismo, cólica, unha encravada, são infinitos efeitos benéficos de tal imersão. E depois é só tomar uma ducha de frente pro oceano (eles oferecem shampoo e toalhas) pra ficar bem cheiroso de novo, pronto pra voltar pro hotel dormir o sono dos justos!

Assim a sucessão de dias perfeitos continuou... porém já estávamos na metade do caminho. Na próxima postagem partiremos para a reta final dessas fabulosas férias...

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Floresta de Gigantes



De Davenport seguimos para Felton, uma cidadezinha que fica mais longe da costa e meio escondida nas montanhas.

Além da van do Scooby, Felton tem um passeio de Maria Fumaça!

Por ser uma viagem rápida (meia hora, nem isso, partindo tanto de Davenport quanto de Santa Cruz), vale a pena sair da rota só pra conferir o Henry Cowel State Park -- uma reserva florestal com trilhas planas e fáceis de percorrer.



Lá vimos pela primeira vez -- e inclusive entramos em uma delas -- as magníficas Redwood trees: árvores centenárias (algumas milenares), que também chamamos de sequoias (e seu nome científico é Sequoia sempevirens).

Bruno apontando para o ano do nascimento de Cristo.

Quando atinge a maturadide -- uma árvore dessas é considerada adulta a partir de 150 anos de idade -- elas podem alcançar mais de 100 metros de altura! E sua madeira é super resistente, a única capaz de suportar as queimadas que, infelizmente, são bem frequentes na California. Seu tronco é feito de um casco rugoso e forte, mas parece leve e poroso ao toque.



Durante e depois de uma queimada, a árvore produz uma seiva que protege e literalmente "cicatriza" as queimaduras. Assim, a maioria das sequoias sobrevive aos incêndios florestais. E o mais curioso é que mesmo quando morrem, de seus troncos podem nascer duas ou três ou mais árvores, que crescerão e eventualmente "ressuscitarão" a árvore que estava morta, incluindo-a em seu ecossistema para circulação de seivas e nutrientes.



Não é fantástico? E nós em nossa imensurável prepotência ainda achamos que somos seres superiores às plantas! Rá Rá!

Abaixo um vídeo da árvore mais famosa do parque, a Freemont Tree.


Ps1: O norte da California tem vários parques como esse, que são verdadeiros santuários naturais. Porém, por serem maiores e mais perto da cidade grande, são bem mais disputados e cheios de turistas. A gente tentou ir em um antes de visitar Napa Valley, mas tinha uma fila enorme de carros, e quando enfim chegamos lá, foi impossível achar lugar pra estacionar! Talvez se tivéssemos chegado mais cedo (o parque abre às 8 da manhã) teríamos conseguido. Mas no fim tudo deu certo, e o Henry Cowel caiu como uma luva em nossa viagem!


Ps2: Eu provavelmente estarei colocando a vida de uma socialite foragida em risco se disser seu nome, mas encontramos a mulher de um dos condenados do mensalão com seu cachorro, bela e formosa admirando as sequoias no parque... e o pior de tudo é que foi ela quem puxou papo com a gente, notando que éramos brasileiros.

Vocês também são brasileiros? E a gente disse arrã. E após trocarmos nossas impressões sobre a floresta, perguntamos se ela morava na California ou se só estava passeando. Ela suspirou e respondeu: Eu estou foragida. Fui ameaçada de morte no Brasil e tive que deixar o país.

Que horror!, exclamamos. E o Bruno comentou: lugarzinho bom esse que você escolheu pra se esconder, hein? É, ela concordou e completou sem cerimônia, eu sou mulher do _____________ (nome que não nos soou estranho, mas que a gente não fazia a menor ideia de quem era).

Notando a interrogação na nossa cara ela continuou: O _____________, que foi condenado agora pelo mensalão! Ahhhh! E para escancarar a nossa ignorância eu perguntei, mas e ele, está aqui com você? Claro que não, meu marido está condenado!

Então eu emendei: mas até onde eu saiba ninguém dos condenados do mensalão foi preso. Ao que ela respondeu com um certo desdém e uma dose de sarcasmo: e por acaso algum político vai preso no Brasil?

Pois é, dissemos um tanto embaraçados, bom, boa sorte. E saímos de perto! WEIRD!!!