sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Who got the Blues?


Ao lado do novo museu, o Knight Theater fica no prédio à esquerda

Quinta-feira, dez de outubro. Nada planejado. Mais um dia de trabalho duro, mas bem recompensado. Tudo porque de noite resolvemos tentar a sorte no Knight Theater. Tinha show do Buddy Guy: um dos maiores bluesmen ainda vivos na face da terra.

Salve Buddy!


Foto de divulgação que achei na net
Bruno estava rouco das vomitadas dos dias anteriores devido à dieta bulímica imposta por um rota-virus, e bravo porque marquei errado o endereço do teatro no GPS. Eu também não estava das mais amigáveis: poucas coisas me irritam mais do que 1) levar bronca de uma voz sufocada e rouca e 2) ter que ficar teclando no celular com o carro em movimento. Depois de nos perdermos nas vielas de uptown Charlotte, entramos num estacionamento público nos subterrâneos da cidade. Five bucks. Saímos do carro, entramos em um corredor branco, pegamos um elevador e emergimos à superfície. Lá em cima, a Queen City iluminada. Esvaziava-se de gente uma praça hypster onde um evento provavelmente acabara de acabar. E eu impaciente e apressada, de vestido vermelho, bota e cinto pretos, estava menos para uma Panda produzida que para um Papai Noel fora de época. Sem ideia de como a noite iria ser bowa.

Chegando lá...




Compramos nossos tickets com desconto universitário: dezessete dólares cada. Que pechincha. Subimos a escada para o mezanino, Bruno comprou água, eu vinho. Nove dólares, mais um de tip. E devidamente abastecidos, fomos conduzidos aos nossos assentos, bem no meio da fila F.

A banda de abertura – bem ruinzinha por sinal – já terminava sua apresentação (muito meia boca). Que desnecessário dizer, mas direi mesmo assim, mais por maldade que por inveja: beirava o patético. Tradicionalmente, o som das bandas de abertura dos grandes shows é um pequeno fiasco. Agora eleve esta máxima ao infinito. Pois então. O som daquela banda era assim. Soava mais como um insulto.

Meia hora depois tudo escureceu e o teatro inteiro aplaudiu de pé. O palco era outro. Bruto. E do mezanino, mais parecia uma caixinha mágica de música. Mas que mágica. E que música!

Black Magic 




A banda de apoio entra no palco: um tecladista tipo Tim Maia; um baterista enorme – e como diria o Rafa e o Caetano – de peso; um baixista virtuoso de headphone e um guitarrista pra lá de charmoso com chapéu Panamá. Cada qual se apoderou de seu instrumento, e com a sorte e a calma solene de quem acorda e pode ficar na cama, tocaram os primeiros acordes.

Polca Dot Blues




Os quatro músicos negros mais pareciam personagens de gibi. No meio do palco o canhão de luz iluminava um vazio sobre o tapete preto com bolinhas brancas. E nos acordes suspensos e rufadas de bateria, eis que surge o homem. De bonezinho e calça branca, camisa Polka Dots, stratocaster, e o blues. Hell yeah. He got the Blues.

Wait a Minute!


Sorria para nós!
Uma hora e meia cravada de sonzeira inacreditável. Que voz! Que presença de palco! E de espírito! Aliás, o teatro virou praticamente uma encruzilhada. Todos os espíritos do Blues baixaram naquele show. Muddy Waters, Jimmy Hendrix, Albert King. Lousiana Blues, Chicago Blues. O verdadeiro e inimitável blues. E haja adjetivo inútil. Mas let’s just say Buddy Guy Blues. A uma certa altura o cara sai do palco e aparece no auditório, tocando e andando no meio do público, parando pra sorrir e interagir com as pessoas, que lhe estendiam os abraços e lhe davam leves tapinhas nas costas.

Setenta e sete anos...

E o diabo no corpo. I got the bluuuuuueeeeess... pam pam (acompanhados de movimentos frenéticos do quadril penetrando a guitarra)! Ooohhh, yeeaaah, I’ve GOT the bluuuuuueeeessss.... pam . . . pam! Mais duas investidas eróticas no instrumento. E de repente a banda silencia, e toca tão baixo, and so smooth, que entre um sussurro e outro dava pra ouvir o chiado que vinha do paredão de amplificadores no palco. E frases intermitentes surgiam da plateia, salpicando interjeições americanizadas. Intervenções características de blues de cabaré: oh yeah baby! A-ham! Come on! Wooohoo. Tá louco. O velho não precisa de viagra. E esses americanos são um povo muito característico. 

Seventy seven years young!

Entediado, atrevido, endiabrado, dócil, político, engajado, impertinente, sensato, solícito, explícito, irônico, sarcástico, lacônico, velhinho, porreta, e sempre vivo, sempre genial. Quantas facetas e quantas histórias. E quanto talento e competência sonora. Buddy Guy no hall dos melhores shows. Sem dúvidas. Junto com The Who, Ray Davies, Stones, B.B. King, Bob Dylan, Paul McCartney, EricClapton... inesquecível! E tão viável... se fosse no Brasil quanto custaria a brincadeira? A gente era infeliz e não sabia. Amanhã tem show em Greensboro, duas horas daqui. Que vontade de vê-lo de novo! Bruno vamos? Prometo que dessa vez boto o endereço certo no GPS.