quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Ação de Graças



Agradeço por este blog. Por este laptop. Por esses dedos que rapidamente digitam esta postagem e por essa mente que duvida se irei ou não publicá-la.

Agredeço também aos meus ouvidos que, funcionando perfeitamente, agora ouvem uma canção executada ao vivo por uma banda que parece acompanhar o Paul Weller e que, sim, "é o Paul Weller do Zé" -- obrigada ao Bruno que acabou de me confirmar esta informação, e ao Zé que foi ao show em Élei e depois veio nos visitar. Agradeço a todas as nossas habilidades físicas e mentais.

Agradeço às oportunidades que me surgiram, e também as que perdi, no decorrer deste ano. Agradeço aos familiares e amigos que me apoiaram e me encorajaram, me incentivaram, me inspiraram, e inclusive aos que não fizeram nada disso, e nada fazendo, não me atrapalharam.

Sou grata a tudo que tenho, e ao que não tenho -- dívidas, doenças graves, piolho, olho de peixe e outras perebas, essas coisas que a gente sem espírito nunca lembra de agradecer? Então, mas eu lembro. Eu agradeço por essas coisas que não tenho.

Agradeço à vida. Agradeço diariamente quando acordo com o beijo matinal do meu marido. Viver é melhor que sonhar. Porque é vivendo que sonhamos, e é amando a vida (e, claro, o trabalho) que realizamos os sonhos que temos.

Agradeço pelo final dos ciclos acadêmicos. Ufa, não tenho mais que pensar na tese!

E agradeço a você, leitor que me lê agora e, principalmente, aos que educadamente comentam as postagens.

Happy Thanksgiving everyone!

Amém.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Minha terra tem pinheiros e artistas deste naipe!




Conheci o Rafael através de um amigo que caiu de paraquedas um dia lá em casa, André Ribeiro. Um belo dia eu recebo um telefonema esquisito, era o André -- oi você não me conhece mas eu sou seu fã e tenho um presente pra você. Achei tudo muito estranho, mas o cara conhecia meu trabalho desde as épocas do Wasted, e ele disse que conseguiu meu telefone com uma loja de música onde eu ensaiava. E o presente era uma guitarra, a minha semi-acústica Giannini que até hoje, reformada, me acompanha aqui nos States.

André então foi me visitar, com o presente e uma garrafa de Vodka, que ele tomou quase sozinho. Eu, Bruno, e minha mãe, que fazíamos sala, o proibimos de ir embora e ele dormiu no sofá. Assim conhecemos o talentoso multi-instrumentista, banjista, bandolisnista, violonista, e guitarrista da banda Los Diaños, André Ribeiro. E foi através dele que acabamos por conhecer o Dr. Silveira, que além de pintor, desenhista, designer, é o frontman, cantor, trumpetista e compositor do Los Diaños, ao lado de Toshiro, o baixista (que também foi meu motorista naquela manhã chuvosa em que me casei). 

Eu, André, Rafael, Toshiro e Bruno chegamos a ensaiar uma ou duas vezes um projeto de músicas de cabaré, que infelizmente nunca saiu da nossa sala. Mas as lembranças boas ficaram! E só de constatar que compartilhei momentos com amigos e artistas deste naipe, me deixa muito feliz e orgulhosa! 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Just... The Who!

Ninguém gritou We are mods! We are mods!
Aposto que os velhinhos iam enfartar se fossem tocar em Curitiba.


Sexta-feira, 9 de novembro de 2012. Último dia para submeter a versão final e definitiva da tese. Processo complicado. Você passa três anos lendo, pesquisando, escrevendo, revisando. Pirando, não dormindo, comendo mal, passando mal. Até o dia da defesa em si (que foi no dia das bruxas!), em que você defende a dita, e depois de cinco minutos de deliberação (que duram uma eternidade) -- você sozinha na sala, esperando sua nota -- recebe um A, e um monte de sugestões pra melhorar mais seu "already outstanding job." São tantas emoções!

Sexta-feira, 9 de novembro de 2012. Além de toda paranoia referente à graduação, tinha que apresentar, ao meio dia, um workshop sobre transições culturais que o Center for Graduate Life me encomendou no início do semestre, para alunos e professores da Graduate School. Então enquanto eu aprontava aulas, a tese e a defesa, eu também preparava esta palestra. Uma hora e meia de duração. Dias de muita pesquisa, estudo e planejamento, e por isso mesmo, um sucesso.

Sexta-feira, 9 de novembro de 2012. Depois da palestra e de corrigir provas e de colocar no sistema um monte de notas de alunos, cheguei em casa esbaforida pra encontrar nosso ilustre hóspede, Zé Ivan, o Invisível, e meu adorado marido, Bruno, pra mais uma aventura rock'n'roll. Show do The Who em Greensboro! Nossa vizinha, Belinda, acabou comprando o ingresso que teria sido do Fábio Elias, ou do Caetano, ou do Du, ou da Taísa, ou da Lu, ou do Crivano...

Entramos no carro e, pé na estrada! Mal podíamos esperar pra ver e ouvir ao vivo uma das maiores óperas-rock da história do rock: Quadrophenia, executada pela banda que pra sempre fará parte do hall dos maiores ídolos de rock de todos os tempos: The Who!


Roger Daltrey e seu mamilo sexy. Rá, rá!


- Who??!

Puta merda! O rock é mesmo um dinossauro, espécie em extinção. Incrível a quantidade de gente que não conhece, não faz ideia, nunca ouviu falar de The Who. Roger DaltreyPete TouwshenJohn EntwistleKeith Moon? Ignorância? Insapiência? Mudança radical de geração e comportamento? Incipiente gosto de derrota musical pela indústria? Não importa! Os últimos dois não morreram, se eternizaram. E os dois primeiros continuam vivos, muito vivos, e bem vovôs, mas vovôs roqueiros, galãs, vigorosos superstars! Revivendo e fazendo história. Só quem conhece sabe o que está perdendo!

Acompanhados pelo baterista-quase-cinquentão Zach Starkey (filho de Ringo, baterista é...) do baixista Pino Palladino; do vocalista, guitarrista e irmão de Pete, Simon Towshend; dos tecladistas Chris Stainton, Loren Gold e Frank Simes -- este assina a direção musical do espetáculo -- o show é uma verdadeira maratona musical! E conta com dois multi-instrumentistas nos metais, além de efeitos visuais e sonoros, que dão um show à parte. Quando Quadrophenia and More chegou perto de Charlotte a gente nem titubeou. Vamos? Vamos! E fomos. Eu, Bruno, Zé e Belinda. 

- Let's Go to Greensboro!

Greensboro está para Charlotte assim como Ponta Grossa está pra Curitiba. Não é longe, mas é uma viagem. E pegamos um congestionamento no caminho. Chegamos na cidade com a maior cara de fome, meio mal-humorados, e concordamos que, famintos, ninguém iria curtir o show. Paramos num restaurante e pedimos um banquete: cerveja, 20 asinhas, uma pizza grande, e quatro palitos de mozzarella à milaneza para aperetivar. Quando a comida chegou, Bruno deu chilique porque viu que era um exagero, mas enfim a fome era tanta que nos empanturramos sem nenhum esforço -- exceto a Belinda que beliscou uma asinha e passou mal (como sempre... ela fez aquela cirurgia do estômago e tudo que ela come que é frito faz mal. Condição estomacal delicada). 

Zack Starkey: Ringo loiro!


- Let's see The Who!

Chegamos no pavilhão do Greensboro Coliseum e rapidamente nos dirigimos aos nossos assentos, que ficavam na pista, fila 14. A vista do palco era excelente, tirando é claro o fato de estarmos numa terra de gigantes, onde todos são mais altos que nós. Não teve problema, a gente pulou alto e ultrapassou todas aquelas carecas brancas, leques e laquês. Assim, exultantes e eufóricos, assistimos a um dos maiores e maiores shows de nossas vidas! A sensação de felicidade era tanta que só tinha uma coisa capaz de não aumentá-la ainda mais: o fato de outras pessoas que amamos não estarem com a gente lá. Fora isso, o mundo era perfeitamente quadrophênico. 

Oito e meia em ponto. As luzes se apagam. Nos telões principais, três esferas -- uma maior no meio, e duas menores ao lado -- lembravam os alvos, símbolo da aeronáutica britânica. Ou os faróis de uma vespa. Projetavam o nome da banda, como se ele boiasse na água. Nos telões inferior e laterais, retangulares e enormes, imagens de um mar revolto lambendo as rochas. Som de oceano e chiados de  ondas sonoras, uma radiola velha tocando The Who, é claro. Pouco a pouco, sintetizadores foram enchendo o ambiente de expectativa. E no palco, a meia luz desvendava os nossos astros! De repente, Pete canta...

- Is it me for a moment?  

E a banda entra. Era pra ter sido um estrondo! Mas por algum motivo ou falha no som, veio uma guitarra magrinha que não condizia com a empolgação de nosso herói. O baixo quase não se ouvia. A bateria ainda soava meio metálica. Porém, conforme o show foi seguindo, o som foi ficando mais redondo. Ou deveria dizer, mais quadrophênico?

Pete, o autor da obra... o mentor da banda? 


A obra...

Quadrophenia é um musical idealizado e escrito por Pete Towshend, o disco foi lançado em Outubro de 73. Baseados nesta obra a banda lançou, em 1979, um filme homônimo. Trata-se da história de Jimmy, um mod meio loser e depressivo, que não tinha nenhum talento e nenhuma perspectiva de vida. Só tomava boletas e arranjava tretas, junto com os demais mods, que odiavam os rockers, e vice versa.

Ps.: Qualquer semelhança com o underground do terceiro mundo não será mera coincidência. O filme, por pior que seja, inspirou gerações, inclusive a minha. Muitos dos meus amigos se auto-denominam "mods". Eu mesma fui "modificada" pela "cena" da cidade, enfim. Para muitos, só o fato de gostar de The Who já faz de você um mod. E te obriga a vestir uma parca verde, e costurar um alvo na parca, e tatuar um alvo no peito, ou no mínimo, comprar um bóton de alvo, etc. etc. etc. Enfim, copiar velhas modas europeias porque as modas novas é que são demodés.

O filme...

Muito do que passa nos telões do show são imagens retiradas do próprio filme, que eu, particularmente -- e como os leitores mais espertos já devem ter constatado -- acho bem ruinzinho. Um ator inexpressivo que tenta incorporar forçosamente a esquizofrenia quádrupla, ou quadrophenia, da personagem que, na verdade, representava a banda, composta pelos egos de cada músico do Who - Pete, Roger, John e Keith.

O plot é previsível, apesar do "open end." O cara é incapaz de se relacionar, leva um pé na bunda da gatinha, é botado pra fora de casa pela própria mãe (ao descobrir que o filho andava tomando remedinhos). Desolado, ele fode sua scooter, e logo em seguida descobre que seu maior herói, o líder da gangue mod, trabalhava como bellboy de um hotel. Jimmy então, num ato ímpar de valentia, rouba a scooter do ex-herói que tava lá, batalhando no seu sub-emprego, e foge em direção a um penhasco. Ninguém sabe se ele vai conseguir se matar ou não. Provavelmente não.

O show...


Puta show. 


O show é do caralho. E tem no mínimo dois pontos altos, que dão nó na garganta de emoção! São os tributos a Moon e Entwistle. Eles participam do show, projetados no telão. John Entwistle aparece fazendo um solo mostruoso de baixo em que Zack Starkey o acompanha com a precisão de Ringo Star, e a desenvoltura estabanada de Keith Moon. Impressionante.

E depois a banda toda toca pro Moon intercalar os versos com Roger Daltrey em Bellboy. Ele aparece sorridente no telão, e a gravação é acompanhada ao vivo pela banda. Nessa hora o olho enche de lágrima e damos três vivas à tecnologia. Portanto, barões vermelhos, podem sim, trazer o Cazuza de volta em forma de holograma. Os heróis não morrem nunca. Principalmente quando os ressuscitam.

Por não querer me preocupar com nada além daquele momento único -- afinal, estava curtindo minhas primeiras horas de "mestra" e minha atual (e relativa) liberdade acadêmica -- não gravei o show, não marquei o nome das músicas, não fui me matar pra pegar o set list no palco. Apenas aproveitei, sem me incomodar com o que eu ia escrever pra vcs depois... porque nada, absolutamente nada do que eu escreva aqui, vai traduzir o que eu presenciei lá. Quem quiser saber como foi o show, tem um vídeo aqui (escolhi o momento em que Keith Moon canta com a banda, porque nessa hora eu chorei). E o setlist você acessa aqui. Woo who! Deixo-vos com o conselho de Roger, que ao final da apresentação, com uma xícara de chá na mão, se despediu assim: sejam saudáveis, mas principalmente: tenham sorte! Até o próximo show!

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Obamanos em frente!


E avante por mais quatro anos! 

Quatro anos, quase, faz que eu moro aqui. E pela segunda vez voltarei ao Brasil incumbida de justificar a minha ausência nas urnas eleitorais de meu país. Não digo isso com orgulho. Exerci meu direito-dever de voto desde os 16 anos, e confesso que me dá uma agonia imensa não votar, mesmo sabendo que o meu voto não será decisivo, mesmo sabendo que os candidatos não são lá aquelas coisas. Votar é um monte de clichês. Votar é exercer a cidadania. Votar é encontrar amigos de infância -- e de ressaca -- na  sua zona eleitoral,  devido ao churrasco regado a muita cerveja no dia anterior, só por causa da lei seca. É sentir cheiro de papel na cidade. Sentir o chão grudar nos pés, de tantos santinhos. Entrar na fila e cutucar a maquininha, depois voltar pra casa pensando na sina dos mesários... Mas enfim, faz quatro anos que eu não sei o que é isso, e não me orgulho. Acredito no poder transformador das eleições!

Mas vim lhes falar desta experiência, que foi presenciar a disputa eleitoral entre Obama e Romney aqui na Carolina do Norte, um estado extremamente conservador -- quer dizer, não tão extremamente conservador quanto os estados da Carolina do Sul ou Alabama. Mas sim, conservador. O cinturão bíblico dos States. Aqui tem o maior número de igrejas por metro quadrado que já vi na minha vida, em uma quadra chega a ter duas, três... haja fiel! Mas religião não parece ser assim um empecilho para o processo eleitoral. Exceto quanto engloba tabus. A maioria dos fieis que é contra aborto vota no Romney, cuja plataforma política sustenta que, se uma mulher é estuprada, a culpa é dela. Ou vontade de Deus.  

Judeus preferem Obama. Também, depois de tanta lambeção de saco! Obama governa duas nações, uma aqui outra no Oriente Médio. Claro que tem judeu querendo voar no pescoço do Obama, dada sua falta de disposição bélica. Antes de tudo, porém, trata-se de uma indisposição econômica. Só isso que pode afetar a grandiosa belicosidade americana. Aí você pensa, tantos soldados servindo no outro lado do oceano mal vêem a hora de voltar pra casa. Mas em casa não tem empregos. Por isso tão mandando tantos latinos embora, e por isso uma certa morosidade em trazer as tropas de volta. Por isso mais e mais os latinos estão lutando guerras que são americanas, em troca de um green card que na verdade tem grandes chances de nunca ser emitido... 

É interessante olhar de dentro um país que sempre vi de fora. Admirar suas virtudes, que são muitas, e suas atrocidades, que são tantas. É interessante ver um país com cidadãos que não precisam votar, mobilizando-se voluntariamente por seus candidatos, batendo de porta em porta, telefonando pra arrecadar fundos. Praticando suas cidadanias porque querem, e não porque são obrigados. É lindo ver um debate presidencial em que os dois candidatos investem um contra o outro com a força das palavras, com posturas firmes, em tom incisivo, e com muita eloquência, um pouco de humor e sorrisos cínicos, bem verdade, mas acima de tudo, com preparo e competência. 

O melhor de tudo, porém, é ver Obama ser reeleito! Para nós, que não somos tão conservadores (porque aqui nos States todo mundo é conservador, inclusive os democratas), foi um alívio imenso o Romney não ter ganhado a disputa. Bem verdade que Romney botou medo em todo mundo, mas  como observou meu amigo Idelber Avelar, Romney perdeu em Michigan, estado onde nasceu; em Massachusetts, estado onde ele mora; e em New Hampshire, estado onde ele tira férias. Penso se até os mórmons da igreja que ele frequenta não teriam deixado de votar nele.

Afinal, dois dos meus vizinhos que são Republicanos votaram no Obama, simplesmente porque "no Romney não, no Romney não dá."

E ontem vi meus alunos com adesivinhos na lapela dizendo: I Voted! Votar eu não posso, são ossos do exílio. Mas há um certo prazer neste voyeurismo eleitoral. Apenas observar uma nação crescer, mesmo em meio à queda livre da derradeira decadência econômica. Exultante. Obamaivos uns aos outros, irmãos! Amém.