quarta-feira, 30 de novembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Apostasia

O outro é infiel, o outro não tem alma, o outro é imperdoável. Para os fanáticos fica fácil aceitar a morte daqueles que não compartilham sua fé, pois entre eles não há mera diferença de opinião, mas uma distinção de espécie. Se Deus é o que define o ser humano, e alguém renega Deus, logo converte-se em renegadoPor isso, poucos atos de liberdade são tão definitivos quanto aos de apostasia, quando se admite a possibilidade de um dogma estar equivocado, e de não haver problema algum em desconfiar dele. 

Fato é que todos temos um fanático formigando nas veias, louco para sair se o que se põe em jogo é o que entendemos por liberdade, país, família. Pois para domar o fanático, há que se liberar o apóstata. Fazer da apostasia parte de nossa educação existencial: ainda que logo voltemos a acreditar em deuses e axiomas, façamos a la Pierre Menard: as palavras podem até ser as mesmas, mas já têm significados distintos. 

Teríamos que renunciar nosso nome repetidamente. Renunciar essa voz que nos define e nos faz sentir seguros. Eleger o nome da pessoa que mais desprezamos, de quem mais ativamente ignoramos. Dar-nos como nome o nome de uma pedra ou de um mal estar. E se, ao retornarmos para o nome que nos deram sem nos perguntar, pudermos abraçá-lo como um presente livre de qualquer linhagem, estaremos melhor preparados para amansar essa parte em cada um de nós, ávida por sangue.


Eis um belo texto do meu amigo Yuri Herrera. E juro que a versão original, em espanhol,  soa muito melhor do que essa presunçosa tradução não juramentada. Recomendo. O original está postado aqui

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Minha Lista de Aniversário e Natal 2011

Atenção! Os itens riscados estão fora da lista! Thanks to Pilar e Ivan.



Meus amados, dia 15 de dezembro faço 33.
Pela primeira vez terei mais idade do que dentes.
E daqui pra frente, a gente sabe, a diferença só tende a aumentar!
Mas deixemos isso pra lá. Vamos ao que interessa!

Presentes! Eu adoro ganhar presentes.

Mas cruuuuuuzes! Como estão caros os livros no Brasil, hein!
A sabedoria aí custa uma fortuna!
Não me admira nada o povo continuar na ignorância.

Mas vcs sabem. Estou escrevendo minha tese: e livros, filmes, DVDs são meu tesouros.

Queria começar com um artigo baratinho, a Breve História do Rock de Ayrton Mugnini. Ou com um básico ABZ do rock brasileiro do Marcelo Dolabela, 1987. Raridade. Se alguém achar na prateleira dum sebo, ótimo. Senão, só clicar no título/link que dá pra comprar online, no Mercado Livre.

Mas cuidado com fraudes ao comprar online! E é bom agilizar, porque vamos ficar no Brasil somente entre 17 e 30 de dezembro. O correio já saiu de greve?

Tem que pensar tudo isso.

Afinal, essa é A Moderna Tradição Brasileira, que por sinal é o nome de outro livro que quero muito. Quem escreveu foi Renato Ortiz, grande filosofo brasileiro! Vocês conhecem? Já leram? Se ainda não fica aí a dica. Deixa o Nietzsche de lado e se afunda em filosofia tupiniquim da boa! Precisamos de mais Renatos Ortiz. Mais filósofos brasileiros.

Outros livros que fariam minha tese mais feliz são: A aventura da Jovem Guarda de Paulo de Tarso C. Medeiros. Tropicália: A História de Uma Revolução Musical, do maravilhoso Carlos Calado. Rock Underground, de Pablo Ornelas Rosa. Eu não sou cachorro, não de Paulo Cesar Araújo. Dias de Luta, de Ricardo Alexandre. E por fim, Meu Nome Não é Johny do Guilherme Fiuza; Renato Russo: o filho da revolução, de Carlos Marcelo; e Almanaque do Rock, do Kid Vynil.

Um livro que não pode faltar na minha biblioteca (que vocês estão me ajudando a construir!) é o Pequeno Livro do Rock, do Hervé Bourhis. Ouvi dizer que é história em quadrinhos. Vou adorar analisar essa pequenice!


Agora chega de livros né, nunca que vou conseguir ler todos.

Para descansar entre uma leitura e outra, vou assistir uns filmes e DVDs que por sinal também poderão contribuir com a tese. A tese. Ai a tese!

Bete Balanço (1984)
Rock Estrela (1985)
Rádio Pirata (1987)
Um trem para as estrelas (1987)
Cazuza: o tempo não pára (2004)
Wood & Stock: sexo, oregano e rock’n’roll (2006)
Meu nome não é Johny (2008)
Rock Brasilreiro: História em Imagens (2009)
Rock Brasília (2011)

Então é isso! Quem quiser me presentear tem aproximadamente 20 opções dos mais variados preços! Aceito cópias usadas, xerox e pirata, tá! Valendo o ditado do cavalo dado…

sábado, 19 de novembro de 2011

Pergunte ao Pó



 Ask the Dust by Xanda Lemos

Fiz essa música em agosto, inspirada num personagem do John Fante chamado Arturo Bandini, do livro Pergunte ao Pó. Li este livro há muitos anos atrás, e lembro-me de ter ficado profundamente marcada por ele. A sensação maior ao lê-lo era de revolta. Indignava-me as tempestades que Bandini fazia em copos d'água, e por isso mesmo, eu tinha certeza, sua vida era uma vida de merda.

Eu conheço muitos Bandinis, e às vezes eu mesmo me torno um. Então fiz a canção pra mim, pra eu parar de me incomodar e de ser mal agradecida, e ficar só reclamando. Meus problemas são mesmo insolúveis? Vale a pena sacrificar vidas inteiras por causa de coisas tão ínfimas?

E por fim, essa é só uma demo que será futuramente gravada com mais cuidado.

sábado, 12 de novembro de 2011

Vergonha!

Filho de comandante da PM de SP é acusado de agredir mulher

Ele foi detido sob a suspeita de ter batido em garota de programa numa casa noturna

Adriano Soronsen Camilo, filho mais velho do comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, coronel Álvaro Batista Camilo, foi detido, por votla das 5 horas deste sábado, acusado de agressão contra uma garota de programa, ocrrida dentro de uma casa noturna em Santana, na zona norte de São Paulo.
De acordo com a assessoria da PM, ao ser procurado, ainda de madrugada, o comandante-geral afirmou que seu filho é maior de idade e que deve responder por seus atos como um cidadão comum. Ainda segundo a PM, o filho do alto oficial é divorciado e mora com outra mulher.   
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP), Adriano foi levado para o 9º Distrito Policial, no Carandiru, seria elaborado um Termo Circunstanciado (TC), empregado quando o crime é considerado uma infração de menor potencial ofensivo.
Para evitar especulações, o coronel informou aos seus comandados que não iria ao 9º DP.
Esta matéria da Revista Veja saiu hoje e foi divulgada no tuíter primeiro como: filho de comandante é preso por agredir mulher. Depois a matéria foi re-divulgada: filho de comandante é acusado de agredir mulher. Chamou-me a atenção a mudança da chamada. Mas logo notei que essas são apenas as sutilezas de um jornalismo medíocre e de um sistema de injustiças bem lubrificado.

De preso, o tal do filho do coroné passou a assinante de um termo circunstanciado, que é um documento que, pelo visto (eu nunca tinha ouvido falar), ameniza o crime. Porque é claro. Bater em mulher é uma infração de menor potencial ofensivo. Por que? Porque era uma garota de programa e estava numa boate? Ou porque o agressor é filhinho de comandante? Ah! Tenham dó! Isso sim é crime, discriminação, um insulto, uma violação dos direitos humanos, cruelmente institucionalizada e mediocremente divulgada. País de merda. Leis de merda. Revista de merda.


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Social Construct or Social Constraint?

Lendo esses artigos sobre raça e sexualidade e comportamento humanos, notei algo interessante.

Tudo que não se pode explicar e definir e delimitar claramente é descrito assim, como uma "construção social" que muda de acordo com cada contexto histório, político, econômico, conjuntural, isso sem mencionar a relatividade das perspectivas micro (individual, psicológica) e macrocósmicas, e blá blá blá.

Toda a ladaínha pra explicar que esses conceitos e essas instituições que a sociedade cria, não importa onde nem pra quem nem o momento, nos é imposta para "dar sentido" a nossa vida. Aham.

Há sempre uma voz fora de você que insiste em te lembrar. Aja de acordo com as expectativas, preze pela previsibilidade, porque o sucesso depende de sua capacidade de não subverter essas instituições, os social constructs da vida. Andar na linha. Seguir à risca. Jamais dar motivo para que os outros se espantem. Invariavelmente somos todos uns bundões. Damos a Cesar o que é de Cesar, e somos tristes para sempre, amém.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

TODAY I WOKE UP KINDAKINK!

Há algum tempo atrás, quando ainda não fazia ideia de que iria presenciar um show tão arrebatador do Ray Davies, participei de uma daquelas brincadeiras inúteis de mural de facebook, em que você escolhe músicas de seu artista preferido para se descrever. Eu escolhi THE KINKS. Ei-la:

Você é um homem ou mulher: Little Women
Descreva-se: I'm Not Like Everybody Else! I Am Free, a Phenomenal Cat, and sometimes a Dedicated Follower of Fashion
Como você se sente: There's Too Much on My Mind
Descreva o local onde você vive atualmente: Dead End Street
Se você pudesse ir a qualquer lugar, onde você iria? A House in the Country in The Village Green Preservation Society at Oklahoma U.S.A.
Sua forma de transporte preferido: Gotta Get the First Plane Home
Seu melhor amigo? A Well Respected Man
Você e seu melhor amigo são: very Fancy
Qual é o clima? Sunny Afternoon
Hora do dia favorita: Till The End Of The Day
Se sua vida foi um programa de TV, o que seria chamado? Where Have All The Good Times Gone
O que é vida para você: Time Will Tell
Seu relacionamento: You Really Got Me
Seu medo: It's Too Late 
Qual é o melhor conselho que você tem a dar: The World Keeps Going Round
Pensamento do Dia: Get Back in Line
Meu lema: Got to Be Free



OH, YES IT IS! 

Meu coração estava cheio de certezas ontem antes do show: uma delas dizia que seria um saco ficar ouvindo a banda de abertura e esperar a hora do Ray Davies subir no palco. Eu estava redondamente enganada. The 88 não só abriu o show com músicas próprias maravilhosas, como demonstrou uma competência sonora que eu só vi nos shows do Supergrass e do Paul McCartney. Eu, na minha já conhecida ignorância e prepotência musicais (geralmente as pessoas ignorantes são as mais prepotentes, notaram?) não sabia que a banda era, de certa forma, um novo The Kinks: a banda de apoio do Ray.  


ALL THE GOOD TIMES RIGHT HERE IN CHARLOTTE!

Lá estava eu com meu marido, um livro da Opereta, um CD dos Criaturas, camiseta da Giannini, lencinho no pescoço, chapéu coco e um cartaz: YOU REALLY GOT ME! FROM BRAZIL JUST TO SEE YOU! Of course vocês vão dizer que mentirosa, ela mora lá, nem foi só pra ver o Ray Davies. Oh well. Fodam-se vocês que me condenam. Se existe essa coisa de predestinação então o motivo musical maior de eu ter vindo morar pra Charlotte foi a noite de ontem. Paul que perdoe, mas é que os shows do Filmore são assim, tão emocionantes porque mais intimistas. 

HE IS NOT LIKE EVERYBODY ELSE, INDEED.

Meu coração disparou com aquele mi menor rasqueado das mais agudas pras graves. Um Filmore ainda tímido, só eu mais meia dúzia de fanáticos cantava a plenos pulmões completamente convencidos de que nós éramos diferentes dos demais. Justamente era com essa música que abríamos tantos shows dos Criaturas. A emoção só éstava começando. Depois de I'm Not Like Everybody Else ele cantou Waterloo Sunset e poxa vida, eu soluçava, eu chorava tanto, tanto, mas tanto, que o Bruno ficou com vergonha e disse: behave! Waterloo Sunset foi o pôr do sol mais lindo que já ouvi. Um pôr do sol cantado por Ray Davies no Dia de Finados e todas as metáforas do mundo se desfizeram em lágrimas. Eu estava chorando, mas estava feliz. Eu podia chorar e lavar a alma assim em show do Ray Davies uma vez por mês e viveria feliz para sempre, como nos contos de fada.

Eis que depois de ser ovacionado, Ray chama os meninos da The 88 e canta uma canção nova que dizia It's Here That I Belong - ou algo parecido. Tudo fez tanto sentido, aquela sonzeira, o rock, claro que ele queria dizer. Adoro um banquinho e um violão, mas com banda é tão mais rock'n'roll, é tão mais o que eu soul.

TILL THE END OF THE DAY


Behave? Em show de rock? Tst. Levantei minha bunda da cadeira pra buscar uma cerveja, e nunca mais sentei, porque depois de Till the End of the Day veio uma emendada atrás da outra, eu dancei e cantei e me esguelei e tanto, sem me importar com a voz rouca no dia seguinte. Queria que o Ray escutasse meus backings. Estavam lindos! Tanto que o cara da mesa de som virou pra trás em Sunny Afternoon e me elogiou. Notando seu British Accent, perguntei em lágrimas (claro que eu chorava enquanto cantava) se ele não entregaria o cartaz que fiz com tanto carinho pro Ray. Ele disse claro que sim! E de quebra, demos o CD e o livro da Opereta. E o Bruno, enquanto eu tietava os The 88, ficou cuidando pra ver se o técnico não ia esquecer o cartaz e o material ali no chão, onde ele tinha deixado até terminar de desligar os equipamentos. Felizmente, o cara saiu da cabine com o cartaz, o livro e o CD embaixo do braço!!!

WE REALLY GOT HIM!

Ao fim do show a tímida plateia não queria deixar o Ray ir embora. Ele voltou duas vezes. O primeiro bis foi pra tocar You Really Got Me. Depois ele tocou David Watts e umas tantas outras que eu não lembro. Eu estava em êxtase. No fim do show conversamos com a banda de apoio, além de lindos e talentosos, os meninos eram muito simpáticos! Compramos dois discos da banda, ainda não ouvimos tudo, mas o que já escutamos agradou-me muito. Recomendo.

Infelizmente, não falamos com o Ray, mas afinal! A Well Respected Man como Ray Davies já seria importunado por uma fila de fãs que o aguardavam ansiosamente no lado de fora do Filmore Theater... e já tínhamos conseguido entregar disco, livro, cartaz, pro cara do som. Os meninos da banda quando me viram falaram: you were the girl with the sign, right? Então eu consegui muito mais do que eu queria: além de me fazer notar em um bom show de rock, fiz novos amigos (todos se comoveram com a minha comoção, tiravam foto de mim com o cartaz, bla bla bla), e de quebra uma banda nova que preste!

THERE IS TOO MUCH ON MY MIND

Uau. Foi demais. E tudo que eu disser aqui será uma mera descrição inútil. Foi muita emoção. Uma emoção monstra. Emoção um grau além. Melhor mesmo só se TODOS vocês estivessem aqui com a gente.

*Não anotei o set list e pra variar não tem nenhuma review do show nos jornais charlatões de Charlotte. Mas estão aí destacadas algumas canções que lembrei de cabeça. O show durou aproximadamente duas horas, mas ecoará para sempre aqui na caixa acúsica retumbante do meu peito: tum tum, Ray Davies, Ray Davies, Ray Davies, tum tum... Ray Davies, tum tum...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Caros Finados

A morte. A inevitável maldita das gentes. A tal única certeza sorumbática. Abjecto final de todos. A morte da carne. 

O fim? 

O espírito dá um suspiro e sai. Vamos zabedê pra onde?
Vamos dançar entre a árvore e o bonde?

Dar uma volta na rua? Soltar, expandir-se no espaço? 
Há um melhor lugar aqui, ali, lá! Por aí tem tanto lugar! 

Voar.
Ir de barco.
Atravessar pro outro lado.
Luminosas estrelas que nunca se apagam.
Não dá pra voltar?
Aguarde e verá.

A saudade.
Pra sempre? 
Será?
Sim, senhor.
O amor. 

Lembranças que ficam, memórias tácteis
Saborosas sinestesias sonoras 
Sorrisos saudosos
Solitários e mudos

Pai, vô, vó, padrinho, 
tio, tia, primo, vizinho, 
amigos, vocês, do lado de lá
Aguardem sem pressa. 
Nosso dia virá. 

Gostosura ou travessura?


Nessa segunda de outono, 31 de outubro. Último dia: outubro ou nada. Dias das Bruxas. Não saí de casa. Não cruzei com gato preto. Não saí caçar saci. Nem me deparei com monstrinhos na porta perguntando: trick or treat?

Gostosura ou travessura? Nem um nem outro: vida dura. Tese tá atirada pra tudo quanto é canto. Ideias misturadas. Confusas. Como esses livros todos, por aqui espalhados. Eu olho pra eles, assim, cada qual marcado numa página, se eu acho o que eu procuro. Olho pra mim e dou um suspiro. Quase fico com dó. Mas ah. A gente precisa começar de algum lugar. O caos por exemplo. O caos é um lugar. O caos é um bom começo. Eu mereço. Eu mereço.