quarta-feira, 5 de junho de 2013

Noturno da Alcova



A morte toma sempre a forma da alcova 
que nos contém. 

É côncava, e escura, e morna, e silenciosa, 
se dobra nas cortinas onde se aninha a sombra,
é dura no espelho, e tensa, e congelada,
profunda nas almofadas, e nos lençóis da cama, branca. 

Nós dois sabemos que a morte toma 
a forma da alcova e que, na alcova, 
é o espaço frio que levanta 
entre nós dois um muro, um cristal, um silêncio. 

Então só eu sei que a morte 
é o eco deixado no leito
quando de súbito e sem razão alguma
te incorporas e te pões de pé. 

E é o ruído das folhas calcinadas 
que fazem teus pés desnudos ao fundirem-se na grama. 

E é o suor que molha nossas coxas 
que se abraçam e lutam e que, logo, se rendem.

E é a frase que deixas cair, interrompida. 
E a pergunta minha que não ouves, 
que não compreendes ou que não respondes. 

E é o silêncio que cai e te sepulta 
quando velo teu sono, e o interrogo. 

E sozinho, somente eu sei que a morte 
é tua palavra trunca, teus gemidos estranhos 
e teus involuntários movimentos obscuros 
quando no sonho lutas com o anjo do sonho. 

A morte é tudo isso e mais que nos circunda,
e nos une e separa alternadamente, 
que nos deixa confusos, atônitos, suspensos, 
como uma ferida que não verte sangue. 

Então, e só então, nós dois sozinhos sabemos 
que não o amor, mas a escura morte 
nos precipita a ver-nos cara aos olhos,
e a nos unirmos e nos estreitarmos, mais do que sós e 
náufragos, 
Ainda mais, e cada vez mais, ainda.


Créditos: "Nocturno de la Alcoba" do poeta e dramaturgo mexicano Xavier Villaurrutia (1903-1950), traduzido por Xanda Lemos. A foto que ilustra o texto é do blog do Ricardo Manieri.