sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Connecticut


É quase meu aniversário eu sei. Mas hoje venho aqui lamentar. Com o coração pesado, de luto. Péssimo pesadelo. Incompreensível. Cruel. São incomensuráveis as perdas dessas famílias.

Agora eu me pergunto: que tipo de experiência tiveram esses atiradores malucos, a ponto de terem se tornado tão vis? E como sujeitos dessa estirpe conseguem obter, legalmente, tais letais máquinas mortíferas?

Quão doloroso será o final de ano para esses pais? Eu não sei, nem você sabe, Obama, nem ninguém que teve a sorte de não ter sido eles. Sabemos que é triste e injusto, e só.

Por isso eu gosto dos Pandas. Os Pandas passam metade da vida lutando pela vida. Porque eles, ao contrário de muitos de nós, amam e valorizam a vida. Sabem que ela é frágil. Sabem que o tempo para viver naturalmente acaba. De modo que ninguém nunca verá um panda assassino matando seu pai panda, sua mãe panda, e vinte pandinhas na escola. Prefiro os pandas porque, sendo pandas, são mais humanos do que nós.

Se dia 21 o Mundo Acabar...

...vou morrer no palco com os Bad Folks!


Para mim é muito mais do que uma honra fazer parte desses momentos históricos! Bad Folks é, sem dúvidas, uma das melhores bandas que Curitiba já teve. Esta festa anual já está se tornando uma tradição na cidade, e como de costume, eles convidaram outros artistas para celebrar! Viver a música, a arte, a amizade, o amor, e claro, o rock'n'roll! Nos vemos lá?

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Inferninho Astral em Flat Rock

Eu no centro de Hendersonville, nas montanhas da Carolina do Norte.

Em contagem regressiva para o fim do meu inferno astral, procuro com esta postagem amenizar os azares que rondam estes dias que precedem meu aniversário.

Eu tenho um sério problema de estabanamento desde que nasci, e este parece ser o maior agravante do meu inferno astral: ando me esbarrando nas quinas, quase caindo de escadas e quase virando o tornozelo, já torcido muitas vezes, mas como nada de muito grave ocorreu até então, vou atravessando o  inferninho bem feliz. Colecionando roxos, arranhões e vitórias.

Este fim de semana fomos para as montanhas, e considerando a dificuldade de algumas trilhas -- condição em muito piorada pelo final do outono e a quantidade de folhas no chão, que escondem possíveis armadilhas como buracos, pedras e desníveis -- a expedição foi um sucesso. Conhecemos pequenos paraísos fantasmagóricos, já que a paisagem não estava lá aquelas coisas, tudo muito seco, frio, e desolado... acresça-se a isso os sons agourentos dos corvos e a possibilidade de encontrar com algum urso. Ué, no meio de um inferno astral, nunca se sabe o que pode aparecer no caminho. Mas afortunadamente não topamos com nenhum black bear. Apesar de sermos parentes, tenho a impressão de que eles não gostam muito de Pandas.

Bruno na beira da cachoeira.

Sábado à noite, depois de explorarmos vales e montanhas, fomos assistir uma adaptação do Nutcracker (o famoso Quebra-Nozes) do Tchaicovsky. Um teatrinho muito batuta que fica bem em cima da Flat Rock, pedra gigantesca que dá nome ao lugar. A adaptação do ballet ficou muito boa, que incluiu vários tipos de danças modernas e não somente ballet clássico. Musicalmente, porém, a peça deixou a desejar, os arranjos ficaram muito aquém da delicada grandiloquência sinfônica da obra original, que nunca ouvi ao vivo e pensei que esta seria uma oportunidade. Fuen, fuen, fuen. Além da adaptação, era tudo gravação. Mesmo assim, foi lindo, lindo! Deu vontade de sair dançando!

Muito bem! Faltam 5 dias para meu aniversário e para o dia da minha formatura, e a única queixa mais contundente que eu tenho é que NINGUÉM do meu Brasil emocional (digo, das pessoas que realmente fazem parte do que reconheço como meu lugar no Brasil) estará aqui pra me ver. Chuif!

Mas como eu digo, antes um queixume do que uma queixada. Que As Sete Pandas me protejam das argruras do inferninho astral e que me permitam chegar aí no Brasil com todas as vossas encomendas (que de pouco em pouco, foram muitas) na próxima segunda, ao lado do meu querido domador e marido Bruno.

Até loguinho!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Lista de Presentes 2012



Meus caros!

Por incrível que pareça, já estamos naquela época do ano em que ele passou e ninguém viu! Para alguns este momento é de extrema depressão. Para mim, no entanto, é o momento mais esperado do ano inteiro. Afinal, e muito por gostar de ganhar (e de dar) presentes, adoro ir para o Brasil no Natal, e adoro fazer festas de aniversário.

Este ano tenho mais motivos ainda pra comemorar, porque o dia da minha formatura coincidiu com meu aniversário. Melhor para mim, que terei três motivos para ser presenteada: aniversário, formatura e Natal... se o mundo fosse acabar em 2012, eu morreria feliz!

Mas como ele não vai acabar, viverei feliz. Principalmente se ganhar alguns dos itens desta lista... Mas os amigos que eventualmente queiram me surpreender, sintam-se à vontade. Para os que preferem não arriscar, aqui vão as minhas sugestões!

Beijos a todos!


·      Livros:
·       Eu não sou cachorro, não – Paulo Cesar Araújo
·       Dias de Luta – Ricardo Alexandre
·       Renato Russo: o filho da revolução – Carlos Marcelo
·       Roberto Carlos em Detalhes (aquele que era meu e foi extraviado)
·       Quaisquer coletâneas da Mafalda em espanhol - Quino
·       Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil – Leonardo Narloch
·       1822 – Laurentino Gomes
·       Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre
·       Adaptação de Casa Grande e Senzala para quadrinhos, Gilberto Freyre (Editora Letras e Expressões, 2012)
·       Cultura Brasileira e Identidade, Renato Ortiz
·       O Homem e seus Símbolos, Carl Gustav Jung

·      DVD’s ou Blu-ray’s:
·       Rock Brasileiro: História em Imagens (2009)
·       Rock Brasília (2011)
·       Estômago
·       Tropa de Elite
·       Cidade de Deus
·       Cidade dos Homens
·       O Povo Brasileiro (coleção, Darcy Ribeiro)


·      Roupas e Acessórios:
·       Conjunto de prata: colar, pingente, anel e brinco
·       Camisa branca de manga comprida (tamanho 42 ou G)
·       Uma jaqueta da Nike oficial da seleção brasileira (tamanho G), nas cores vermelha ou amarela.
·       Uma sandalinha de couro estilo romano (tamanho 37)
·       Calça fusô (bootleg, ou seja, corte reto pra não ficar agarrada na batata da perna) de algodão nas cores preta, vinho ou grafite (tamanho 42, ou G)
·       Lenços para o pescoço


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Xanda em Washington



Como boa brasileira, adoro voltar às raízes e retornar à finalidade primeira deste blog, fazendo jus ao seu nome. Afinal, e antes de tudo, isso é um Diário de Bordo. Então contarei um pouco das minhas mais recentes experiências em Washington D.C., a capital dos United States of America.


Primeira Missão

Aterrissei no Ronald Reagan sexta-feira, às onze e meia de uma manhã ensolarada e sob o efeito caótico de cólicas galopantes, vários buscopans e um esplendoroso céu azul. De todos os motivos que me levaram a Washington, o primeiro (e oficial) era o Seminário de Agenda da Georgetown University (SAGU), sobre Práticas de Ensino de Português como língua estrangeira. Principalmente agora que terminei o mestrado e fui formalmente contratada pela UNC, sinto-me mais motivada a participar de tais eventos. Além de conhecer pessoas (e aprender coisas) novas, estas conferências são oportunas desculpas para simplesmente sair da rotina, relaxar, botar o pé na estrada e desvendar novos horizontes.

Segundas Intenções 

Como diz meu nobre amigo Zé Ivan, a Xanda tem que chegar chegando. Sabendo já de antemão que na Georgetown University está Bryan McCann -- autor do melhor estudo já feito sobre a institucionalização do samba no Brasil -- resolvi entrar em contato com ele e tentar marcar um encontro. Sempre muito atencioso, respondeu-me prontamente dizendo que teria um tempinho na sexta-feira à tarde. Então daria certo pra eu chegar no hotel, desbravar um pouco os arredores da Universidade e visitá-lo antes da conferência começar, às 6 da tarde. É óbvio que minha visita destilava terceiras intenções. Georgetown poderá vir a ser um dos meus paradeiros futuros, afinal esta é uma das instituições que me interessam para o PhD. Neste caso, é sempre melhor estabelecer contatos prévios, evitando assim ser apenas um mais nome em meio muitos nomes num monte de papel. 

O Seminário

Rendeu muito. Menos formais e competitivos do que conferências de história, seminários de  ensino de língua são eventos de colaboração acadêmica. Todo ano, professores de português atuando nos Estados Unidos reúnem-se para discutir e pensar o ensino da língua. Vem gente de tudo quanto é canto pro SAGU, mas a maioria dos professores era de lá. Davam aula em escolas e universidades, travalhavam em ONGs, nas embaixadas, dando aula pra diplomata, políticos, empresários. Estamos construindo um momento histórico da profissão. Nunca antes na história desse país o português brasileiro esteve tão em voga! Agora é a hora de aproveitar e aperfeiçoar isso. 

Há sempre uma primeira vez...

No SAGU tive a oportunidade de conhecer o Professor Dr. José Carlos Paes de Almeida Filho, um dos lingüistas mais atuantes na área de PLE (Português como língua estrangeira). No sábado à noite, depois de um dia inteiro de aulas, palestras e apresentações, houve uma  confraternização com quitutes e vinhos deliciosos. Fiquei muito emocionada pois pela primeira vez ganhei um sorteio. O prêmio, um livro do Dr. Zé Carlos. 

Com o autor do livro: Prof. Dr. Zé Carlos Paes de Almeida Filho

P.S.: O contraste de usar o título de doutor e o apelido Zé Carlos foi proposital, pra traduzir a aura hierárquica e a informalidade do professor. Embora um fodão na sua área, ele é um ser humano  incrível. Simples, simpático, atencioso, muito brilhante e muito humilde. Enfim, creio serem essas as características de um ser realmente sábio. Afinal, ser inteligente é fácil, mas ser inteligente sem ser babaca é que são elas... 

Lá também conheci uma garota de Paranaguá, a Daniele. Incrível como ela tinha cara de curitibana, e mais que isso, cara de Daniele! Morena, bonita, com os olhos levemente puxados e um sotaque que deu saudades de casa (e do meu hall de Danis). Mas olha que incrível, ela dá aulas para a força aérea americana! Aliás, você sabia que há uma proliferação de bases aéreas norteamericanas  no Brasil? Por que será hein, eu me pergunto. E o marido dela tem uma churrascaria brasileira. Pena que eu não fui comer lá... mas se há sempre uma primeira vez, então na próxima, com certeza.

Georgetown, Washington D.C. e seus Monumentos Nacionais

Georgetown University: prédio que vemos da entrada principal.

O distrito de Georgetown, onde fica a Universidade, é um setor antigo e de arquitetura extremamente europeia. Tem casas ali que datam de mil e seiscentos e bolinhas. A Universidade foi fundada em 1789, sendo a mais antiga instituição jesuíta dos Estados Unidos. Apesar de antigos, os prédios estão muito bem conservados e limpos. Com seus sobrados coloridos, calçadas de tijolos, ruas de paralelepípedo (e ainda mais agora que as casas e os postes estão enfeitados com guirlandas e luzes de Natal,) Georgetown é um distrito muito charmoso. Vale  a pena conhecer.


Abraham Lincoln: o homem que aboliu a escravidão e garantiu que os Estados fossem unidos.

Como esta foi minha primeira visita a Washington D.C., não poderia deixar de conhecer aqueles pontos turísticos mais manjados, como o Memorial do Lincoln, a Casa Branca, o Arquivo Nacional, a Biblioteca do Congresso, o Obelisco, e os museus que ficam nos parâmetros do que eles chamam de "National Mall." O nome não mente. O passeio é de fato uma vitrine a céu aberto que exacerba e escancara a grandiosidade do nacionalismo americano.


Water Mirror e Washington Monument fotografados do Lincoln Memorial

Deslumbrada com a beleza e o zelo com que eles tratam seus monumentos nacionais, comecei a caminhada pelo Lincoln Memorial. De lá se tem uma vista maravilhosa da piscina que eles chamam de Water Mirror, do Obelisco, e do U.S. Capitol, onde republicanos e democratas se reúnem desde 1800 para tomar as decisões mais importantes do país. 


U.S. Capitol Building

O parque é repleto de memoriais: além do Lincoln, tem o memorial da Guerra da Coréia, da guerra do Vietnam, o Roosevelt Memorial, Martin Luther King Memorial, Thomas Jefferson Memorial, é monumento que não acaba mais, todos às margens do Rio Potomac... foram bem uns cinco quilômetros de caminhada.

Dos oito museus visitei apenas o National Gallery of Art, onde pude contemplar as obras dos grandes artistas  do impressionismo e do modernismo europeus, além de conferir, na ala de arte contemporânea, uma mostra maravilhosa das gravuras e colagens de Roy Lichtenstein.

Go Home! I wanna go home!

Viajar, conhecer cidades novas, sentir os ritmos e pulsações e as diferentes urbanidades, seus sotaques e até mesmo suas tensões raciais, que parecem ser mais evidentes na cidade grande, é sempre muito interessante. Mas voltar pra casa não tem preço. Depois de conhecer mais e tanto admirar a cultura patriota americana,  e descobrir outras facetas étnicas e raciais que se enredam formando este tecido social diversificado de Washington (o que lhe confere um constraste que poderíamos chamar de bairrismo cosmopolita) foi bom chegar em casa e descansar ao lado de mabeibe. Enfim, não há melhor lugar que o nosso lar, que os braços, abraços, beijos e sorrisos do meu amor, que foi me buscar e depois preparou um jantar delicioso com picanha ao alho... mmmm... mabeibe is awesome.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Ação de Graças



Agradeço por este blog. Por este laptop. Por esses dedos que rapidamente digitam esta postagem e por essa mente que duvida se irei ou não publicá-la.

Agredeço também aos meus ouvidos que, funcionando perfeitamente, agora ouvem uma canção executada ao vivo por uma banda que parece acompanhar o Paul Weller e que, sim, "é o Paul Weller do Zé" -- obrigada ao Bruno que acabou de me confirmar esta informação, e ao Zé que foi ao show em Élei e depois veio nos visitar. Agradeço a todas as nossas habilidades físicas e mentais.

Agradeço às oportunidades que me surgiram, e também as que perdi, no decorrer deste ano. Agradeço aos familiares e amigos que me apoiaram e me encorajaram, me incentivaram, me inspiraram, e inclusive aos que não fizeram nada disso, e nada fazendo, não me atrapalharam.

Sou grata a tudo que tenho, e ao que não tenho -- dívidas, doenças graves, piolho, olho de peixe e outras perebas, essas coisas que a gente sem espírito nunca lembra de agradecer? Então, mas eu lembro. Eu agradeço por essas coisas que não tenho.

Agradeço à vida. Agradeço diariamente quando acordo com o beijo matinal do meu marido. Viver é melhor que sonhar. Porque é vivendo que sonhamos, e é amando a vida (e, claro, o trabalho) que realizamos os sonhos que temos.

Agradeço pelo final dos ciclos acadêmicos. Ufa, não tenho mais que pensar na tese!

E agradeço a você, leitor que me lê agora e, principalmente, aos que educadamente comentam as postagens.

Happy Thanksgiving everyone!

Amém.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Minha terra tem pinheiros e artistas deste naipe!




Conheci o Rafael através de um amigo que caiu de paraquedas um dia lá em casa, André Ribeiro. Um belo dia eu recebo um telefonema esquisito, era o André -- oi você não me conhece mas eu sou seu fã e tenho um presente pra você. Achei tudo muito estranho, mas o cara conhecia meu trabalho desde as épocas do Wasted, e ele disse que conseguiu meu telefone com uma loja de música onde eu ensaiava. E o presente era uma guitarra, a minha semi-acústica Giannini que até hoje, reformada, me acompanha aqui nos States.

André então foi me visitar, com o presente e uma garrafa de Vodka, que ele tomou quase sozinho. Eu, Bruno, e minha mãe, que fazíamos sala, o proibimos de ir embora e ele dormiu no sofá. Assim conhecemos o talentoso multi-instrumentista, banjista, bandolisnista, violonista, e guitarrista da banda Los Diaños, André Ribeiro. E foi através dele que acabamos por conhecer o Dr. Silveira, que além de pintor, desenhista, designer, é o frontman, cantor, trumpetista e compositor do Los Diaños, ao lado de Toshiro, o baixista (que também foi meu motorista naquela manhã chuvosa em que me casei). 

Eu, André, Rafael, Toshiro e Bruno chegamos a ensaiar uma ou duas vezes um projeto de músicas de cabaré, que infelizmente nunca saiu da nossa sala. Mas as lembranças boas ficaram! E só de constatar que compartilhei momentos com amigos e artistas deste naipe, me deixa muito feliz e orgulhosa! 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Just... The Who!

Ninguém gritou We are mods! We are mods!
Aposto que os velhinhos iam enfartar se fossem tocar em Curitiba.


Sexta-feira, 9 de novembro de 2012. Último dia para submeter a versão final e definitiva da tese. Processo complicado. Você passa três anos lendo, pesquisando, escrevendo, revisando. Pirando, não dormindo, comendo mal, passando mal. Até o dia da defesa em si (que foi no dia das bruxas!), em que você defende a dita, e depois de cinco minutos de deliberação (que duram uma eternidade) -- você sozinha na sala, esperando sua nota -- recebe um A, e um monte de sugestões pra melhorar mais seu "already outstanding job." São tantas emoções!

Sexta-feira, 9 de novembro de 2012. Além de toda paranoia referente à graduação, tinha que apresentar, ao meio dia, um workshop sobre transições culturais que o Center for Graduate Life me encomendou no início do semestre, para alunos e professores da Graduate School. Então enquanto eu aprontava aulas, a tese e a defesa, eu também preparava esta palestra. Uma hora e meia de duração. Dias de muita pesquisa, estudo e planejamento, e por isso mesmo, um sucesso.

Sexta-feira, 9 de novembro de 2012. Depois da palestra e de corrigir provas e de colocar no sistema um monte de notas de alunos, cheguei em casa esbaforida pra encontrar nosso ilustre hóspede, Zé Ivan, o Invisível, e meu adorado marido, Bruno, pra mais uma aventura rock'n'roll. Show do The Who em Greensboro! Nossa vizinha, Belinda, acabou comprando o ingresso que teria sido do Fábio Elias, ou do Caetano, ou do Du, ou da Taísa, ou da Lu, ou do Crivano...

Entramos no carro e, pé na estrada! Mal podíamos esperar pra ver e ouvir ao vivo uma das maiores óperas-rock da história do rock: Quadrophenia, executada pela banda que pra sempre fará parte do hall dos maiores ídolos de rock de todos os tempos: The Who!


Roger Daltrey e seu mamilo sexy. Rá, rá!


- Who??!

Puta merda! O rock é mesmo um dinossauro, espécie em extinção. Incrível a quantidade de gente que não conhece, não faz ideia, nunca ouviu falar de The Who. Roger DaltreyPete TouwshenJohn EntwistleKeith Moon? Ignorância? Insapiência? Mudança radical de geração e comportamento? Incipiente gosto de derrota musical pela indústria? Não importa! Os últimos dois não morreram, se eternizaram. E os dois primeiros continuam vivos, muito vivos, e bem vovôs, mas vovôs roqueiros, galãs, vigorosos superstars! Revivendo e fazendo história. Só quem conhece sabe o que está perdendo!

Acompanhados pelo baterista-quase-cinquentão Zach Starkey (filho de Ringo, baterista é...) do baixista Pino Palladino; do vocalista, guitarrista e irmão de Pete, Simon Towshend; dos tecladistas Chris Stainton, Loren Gold e Frank Simes -- este assina a direção musical do espetáculo -- o show é uma verdadeira maratona musical! E conta com dois multi-instrumentistas nos metais, além de efeitos visuais e sonoros, que dão um show à parte. Quando Quadrophenia and More chegou perto de Charlotte a gente nem titubeou. Vamos? Vamos! E fomos. Eu, Bruno, Zé e Belinda. 

- Let's Go to Greensboro!

Greensboro está para Charlotte assim como Ponta Grossa está pra Curitiba. Não é longe, mas é uma viagem. E pegamos um congestionamento no caminho. Chegamos na cidade com a maior cara de fome, meio mal-humorados, e concordamos que, famintos, ninguém iria curtir o show. Paramos num restaurante e pedimos um banquete: cerveja, 20 asinhas, uma pizza grande, e quatro palitos de mozzarella à milaneza para aperetivar. Quando a comida chegou, Bruno deu chilique porque viu que era um exagero, mas enfim a fome era tanta que nos empanturramos sem nenhum esforço -- exceto a Belinda que beliscou uma asinha e passou mal (como sempre... ela fez aquela cirurgia do estômago e tudo que ela come que é frito faz mal. Condição estomacal delicada). 

Zack Starkey: Ringo loiro!


- Let's see The Who!

Chegamos no pavilhão do Greensboro Coliseum e rapidamente nos dirigimos aos nossos assentos, que ficavam na pista, fila 14. A vista do palco era excelente, tirando é claro o fato de estarmos numa terra de gigantes, onde todos são mais altos que nós. Não teve problema, a gente pulou alto e ultrapassou todas aquelas carecas brancas, leques e laquês. Assim, exultantes e eufóricos, assistimos a um dos maiores e maiores shows de nossas vidas! A sensação de felicidade era tanta que só tinha uma coisa capaz de não aumentá-la ainda mais: o fato de outras pessoas que amamos não estarem com a gente lá. Fora isso, o mundo era perfeitamente quadrophênico. 

Oito e meia em ponto. As luzes se apagam. Nos telões principais, três esferas -- uma maior no meio, e duas menores ao lado -- lembravam os alvos, símbolo da aeronáutica britânica. Ou os faróis de uma vespa. Projetavam o nome da banda, como se ele boiasse na água. Nos telões inferior e laterais, retangulares e enormes, imagens de um mar revolto lambendo as rochas. Som de oceano e chiados de  ondas sonoras, uma radiola velha tocando The Who, é claro. Pouco a pouco, sintetizadores foram enchendo o ambiente de expectativa. E no palco, a meia luz desvendava os nossos astros! De repente, Pete canta...

- Is it me for a moment?  

E a banda entra. Era pra ter sido um estrondo! Mas por algum motivo ou falha no som, veio uma guitarra magrinha que não condizia com a empolgação de nosso herói. O baixo quase não se ouvia. A bateria ainda soava meio metálica. Porém, conforme o show foi seguindo, o som foi ficando mais redondo. Ou deveria dizer, mais quadrophênico?

Pete, o autor da obra... o mentor da banda? 


A obra...

Quadrophenia é um musical idealizado e escrito por Pete Towshend, o disco foi lançado em Outubro de 73. Baseados nesta obra a banda lançou, em 1979, um filme homônimo. Trata-se da história de Jimmy, um mod meio loser e depressivo, que não tinha nenhum talento e nenhuma perspectiva de vida. Só tomava boletas e arranjava tretas, junto com os demais mods, que odiavam os rockers, e vice versa.

Ps.: Qualquer semelhança com o underground do terceiro mundo não será mera coincidência. O filme, por pior que seja, inspirou gerações, inclusive a minha. Muitos dos meus amigos se auto-denominam "mods". Eu mesma fui "modificada" pela "cena" da cidade, enfim. Para muitos, só o fato de gostar de The Who já faz de você um mod. E te obriga a vestir uma parca verde, e costurar um alvo na parca, e tatuar um alvo no peito, ou no mínimo, comprar um bóton de alvo, etc. etc. etc. Enfim, copiar velhas modas europeias porque as modas novas é que são demodés.

O filme...

Muito do que passa nos telões do show são imagens retiradas do próprio filme, que eu, particularmente -- e como os leitores mais espertos já devem ter constatado -- acho bem ruinzinho. Um ator inexpressivo que tenta incorporar forçosamente a esquizofrenia quádrupla, ou quadrophenia, da personagem que, na verdade, representava a banda, composta pelos egos de cada músico do Who - Pete, Roger, John e Keith.

O plot é previsível, apesar do "open end." O cara é incapaz de se relacionar, leva um pé na bunda da gatinha, é botado pra fora de casa pela própria mãe (ao descobrir que o filho andava tomando remedinhos). Desolado, ele fode sua scooter, e logo em seguida descobre que seu maior herói, o líder da gangue mod, trabalhava como bellboy de um hotel. Jimmy então, num ato ímpar de valentia, rouba a scooter do ex-herói que tava lá, batalhando no seu sub-emprego, e foge em direção a um penhasco. Ninguém sabe se ele vai conseguir se matar ou não. Provavelmente não.

O show...


Puta show. 


O show é do caralho. E tem no mínimo dois pontos altos, que dão nó na garganta de emoção! São os tributos a Moon e Entwistle. Eles participam do show, projetados no telão. John Entwistle aparece fazendo um solo mostruoso de baixo em que Zack Starkey o acompanha com a precisão de Ringo Star, e a desenvoltura estabanada de Keith Moon. Impressionante.

E depois a banda toda toca pro Moon intercalar os versos com Roger Daltrey em Bellboy. Ele aparece sorridente no telão, e a gravação é acompanhada ao vivo pela banda. Nessa hora o olho enche de lágrima e damos três vivas à tecnologia. Portanto, barões vermelhos, podem sim, trazer o Cazuza de volta em forma de holograma. Os heróis não morrem nunca. Principalmente quando os ressuscitam.

Por não querer me preocupar com nada além daquele momento único -- afinal, estava curtindo minhas primeiras horas de "mestra" e minha atual (e relativa) liberdade acadêmica -- não gravei o show, não marquei o nome das músicas, não fui me matar pra pegar o set list no palco. Apenas aproveitei, sem me incomodar com o que eu ia escrever pra vcs depois... porque nada, absolutamente nada do que eu escreva aqui, vai traduzir o que eu presenciei lá. Quem quiser saber como foi o show, tem um vídeo aqui (escolhi o momento em que Keith Moon canta com a banda, porque nessa hora eu chorei). E o setlist você acessa aqui. Woo who! Deixo-vos com o conselho de Roger, que ao final da apresentação, com uma xícara de chá na mão, se despediu assim: sejam saudáveis, mas principalmente: tenham sorte! Até o próximo show!

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Obamanos em frente!


E avante por mais quatro anos! 

Quatro anos, quase, faz que eu moro aqui. E pela segunda vez voltarei ao Brasil incumbida de justificar a minha ausência nas urnas eleitorais de meu país. Não digo isso com orgulho. Exerci meu direito-dever de voto desde os 16 anos, e confesso que me dá uma agonia imensa não votar, mesmo sabendo que o meu voto não será decisivo, mesmo sabendo que os candidatos não são lá aquelas coisas. Votar é um monte de clichês. Votar é exercer a cidadania. Votar é encontrar amigos de infância -- e de ressaca -- na  sua zona eleitoral,  devido ao churrasco regado a muita cerveja no dia anterior, só por causa da lei seca. É sentir cheiro de papel na cidade. Sentir o chão grudar nos pés, de tantos santinhos. Entrar na fila e cutucar a maquininha, depois voltar pra casa pensando na sina dos mesários... Mas enfim, faz quatro anos que eu não sei o que é isso, e não me orgulho. Acredito no poder transformador das eleições!

Mas vim lhes falar desta experiência, que foi presenciar a disputa eleitoral entre Obama e Romney aqui na Carolina do Norte, um estado extremamente conservador -- quer dizer, não tão extremamente conservador quanto os estados da Carolina do Sul ou Alabama. Mas sim, conservador. O cinturão bíblico dos States. Aqui tem o maior número de igrejas por metro quadrado que já vi na minha vida, em uma quadra chega a ter duas, três... haja fiel! Mas religião não parece ser assim um empecilho para o processo eleitoral. Exceto quanto engloba tabus. A maioria dos fieis que é contra aborto vota no Romney, cuja plataforma política sustenta que, se uma mulher é estuprada, a culpa é dela. Ou vontade de Deus.  

Judeus preferem Obama. Também, depois de tanta lambeção de saco! Obama governa duas nações, uma aqui outra no Oriente Médio. Claro que tem judeu querendo voar no pescoço do Obama, dada sua falta de disposição bélica. Antes de tudo, porém, trata-se de uma indisposição econômica. Só isso que pode afetar a grandiosa belicosidade americana. Aí você pensa, tantos soldados servindo no outro lado do oceano mal vêem a hora de voltar pra casa. Mas em casa não tem empregos. Por isso tão mandando tantos latinos embora, e por isso uma certa morosidade em trazer as tropas de volta. Por isso mais e mais os latinos estão lutando guerras que são americanas, em troca de um green card que na verdade tem grandes chances de nunca ser emitido... 

É interessante olhar de dentro um país que sempre vi de fora. Admirar suas virtudes, que são muitas, e suas atrocidades, que são tantas. É interessante ver um país com cidadãos que não precisam votar, mobilizando-se voluntariamente por seus candidatos, batendo de porta em porta, telefonando pra arrecadar fundos. Praticando suas cidadanias porque querem, e não porque são obrigados. É lindo ver um debate presidencial em que os dois candidatos investem um contra o outro com a força das palavras, com posturas firmes, em tom incisivo, e com muita eloquência, um pouco de humor e sorrisos cínicos, bem verdade, mas acima de tudo, com preparo e competência. 

O melhor de tudo, porém, é ver Obama ser reeleito! Para nós, que não somos tão conservadores (porque aqui nos States todo mundo é conservador, inclusive os democratas), foi um alívio imenso o Romney não ter ganhado a disputa. Bem verdade que Romney botou medo em todo mundo, mas  como observou meu amigo Idelber Avelar, Romney perdeu em Michigan, estado onde nasceu; em Massachusetts, estado onde ele mora; e em New Hampshire, estado onde ele tira férias. Penso se até os mórmons da igreja que ele frequenta não teriam deixado de votar nele.

Afinal, dois dos meus vizinhos que são Republicanos votaram no Obama, simplesmente porque "no Romney não, no Romney não dá."

E ontem vi meus alunos com adesivinhos na lapela dizendo: I Voted! Votar eu não posso, são ossos do exílio. Mas há um certo prazer neste voyeurismo eleitoral. Apenas observar uma nação crescer, mesmo em meio à queda livre da derradeira decadência econômica. Exultante. Obamaivos uns aos outros, irmãos! Amém. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Nicolas: O Oitavo Passageiro!

Não. Você é o 196.655.015º passageiro do Brasil.


Hoje, oito de outubro, sou tia pela oitava vez. Você é meu oitavo sobrinho no mundo! Quiçá, querido Nicolas, você tenha vindo para mudá-lo para melhor. Mas não quero lhe incumbir de responsabilidades logo assim, de cara. Afinal você mal acabou de nascer e ainda vai experimentar muito as coisas do mundo sem sequer saber que, a cada experiência, vc estará mudado. E consquentemente, terá mudado o mundo.

Mudar o mundo é o destino de todos nós... mas ultimamente os que se acham donos do mundo, lutam para manter tudo igual. Eles são uns brutos! E detestam mudança. Mas adoram mudar coisas bestas, de preferência por decreto. Tipo o trema de conseqüentemente. Ano passado era facultativo. Ano tataratasado era obrigatório. Hoje é erro gramatical.

Então é isso... os homens que se acham donos do mundo só pensam em mudar oficialmente essas coisinhas bobas, como o trema das palavras! Exterminaram dois pingos nos U's, assim como exterminaram índios em tempos de colonização, judeus e russos nos campos de concentração, bichas, travecos, mendigos, bandidos, nas ruas, nos morros, nos campos e na prisão.

E quando precisam de graaaaandes mudanças, sabe o que eles mudam? As leis. Ou o número de tropas militares nas favelas ou no Afeganistão, na Líbia, no Iraque, no Iêmen, em Israel, no Egito, nas Filipinas, no Saara! É uma lista enorme.

Quer queiram ou não, preste muita atenção: no mundo, tudo muda constantemente. Mesmo o que parece não mudar, é como um rio profundo, de tão fundo, disfarça a corrente. Mas a água corre... deságua no mar.

Você já sabia disso bem antes de nascer. Acontece que, quando a gente cresce, a gente esquece desses princípios básicos do ser... Mas aqui estou pra te lembrar: não se esqueça. Mudar, a gente muda sempre! Se pra melhor ou pra pior, este sim é o X da questão, o segredo da vida.

Não. O X da questão é o que é pior, o que é melhor... vai depender de muita coisa. Por exemplo, do que te ensinaram, do que você viveu, e até de uma questão de perspectiva temporal: o que é bom agora poderá fazer mal a longo prazo. E vice versa. É complicado! Mas fascinante.

***

Na segunda-feira em que você nasceu estava sol em Curitiba. E como você sabe (quando ler essas linhas saberá que) uma manhã ensolarada em Curitiba é um negócio bonito de lascar!

Daqui, do outro lado do mundo, tava tudo cinza e chovendo. Era eu imaginando: que cara vc tem? E vc se parece com quem? É grande? Pequeno? Forte? Rabugento? Manhosinho?

E chovia, e a chuva caía na calha, e a calha  batucava freneticamente e eu imaginando. Você já sorriu? Você chora muito? Mama muito? Dorme muito? Eu não sei. Que agonia!

Daqui dessa lonjura, meio borocoxô pela impossibilidade de compartilhar ao vivo e a cores este momento, desejo a vc, Nicolas, muita saúde e felicidade! E à toda a família, amor e respeito que nunca acabe!

! ! ! W A R N I N G ! ! !

Você vai crescer sob a égide de um prefeito de merda, vai entrar numa escola que vai te doutrinar para não questionar nada, você vai aprender a dizer coisas que esperam que você diga, vão te levar para a igreja e na igreja você vai ouvir um monte de histórias bonitas, terríveis e impressionantes, e lhe dirão que só ali está o caminho, a verdade e a vida... e lá você vai inconscientemente criar um monte de preconceitos e de medos bobos que vão paralizar um pouco sua capacidade filosófica... mas tudo isso é mutável.

E aqui estou eu... pra te lembrar que você veio ao mundo com o dom de pensar, com o dom de mudar tudo a sua volta, com o dom de ouvir e questionar, com o dom de ser você mesmo, e de escolher o que  quer, e como quer mudar... são essas escolhas nos fazem grandes ou pequenos.

Beijos da tia coruja. Digo, beijos da tia panda.

sábado, 8 de setembro de 2012

Sonho do Sovaco



Eu sonhei que estava jantando com essa vaca que não gosto e desconheço. A internet tem dessas de nos fazer "adicionar" ou "seguir" pessoas por educação. Mas pra que, né... a convivência diária com gente inútil e de extrema pobreza de alma vai minando a paciência, amargando, até que o desprezo inicial vira raiva e se condensa na vida real em forma de pesadelo.

Pois quando a raiva atinge esses patamares reais, ultrapassando a tela do computador e projetando-se na cortina misteriosa do sonho, é hora de tomar uma atitude. A boa educação não vale tanto quanto a boa noite de sono. Unfollow. Block. Unfriend. Tudo de uma vez. Ufa! 

Mas no sonho, vejam só, eu levantava os braços pra juntar a cabeleira num coque e prender com a piranha, e essa mulher olha pro meu sovaco e diz, desapontada: vc também tem o sovaco mole! E eu franzo a cara inteira, o quê? Sovaco mole? É, ela diz. Mole, enrugado. E eu disse tá e daí? Mas no fundo me senti profundamente insultada. Tst. Eu também tenho, ela diz tentando ser legal. E eu solto um rá de inacreditável, desde quando sovaco é pra ser bonito? E ela me olha com cara de otária, sem dizer nada. Eu fecho a porta do porta-malas balançando a cabeça... 

Acordei no mesmo gesto. Pfff. Que tipo de sonho é esse? Acho que estou ficando maluca.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral: Espelho da Nação



Dia desses compartilhei um tuit do meu primo Boaz, no qual ele constatava, com muita dor no coração, que o horário político brasileiro era o espelho da nação.

Algumas semanas antes eu tinha chegado à mesma conclusão vendo as propagandas políticas da disputa eleitoral entre Barack Obama e Mitt Romney aqui nos States. Eu fiquei admirada sobretudo pela forma simples, dura e direta com que um candidato ataca o outro.

Americano é grosso mesmo, eu pensei. Depois ponderei, refleti, filosofei. Tst. Não. Isso é puro trato cultural. No Brasil a gente preza pelos processos de eufemismazação (acho que inventei essa palavra, mas tudo bem). Com isso quis dizer que, para nós, é sinal de educação dar voltas pra amenizar o recado. Por exemplo. Quando a gente diz: passa lá em casa, ou: me liga depois, a gente na verdade só quer uma desculpa pra se livrar da pessoa o mais rápido possível. Curitibanos, principalmente.

Enfim, se candidatos brasileiros empregassem o estilo do discurso político americano, não teriam tempo para política, pois eles estariam muito ocupados enfrentando a morosidade dos processos jurídicos que abririam um contra o outro por calúnia e difamação. Isso não seria lindo? Sonhemos!

Outra diferença interessante é que aqui nos States não existe horário político gratuito. Os candidatos têm que comprar seus segundos nos intervalos de programas televisivos ou radiofônicos ou banners na internet, como qualquer outro produto comercial. Então você está vendo TV e depois da propaganda de margarina vem uma música dramática de filme de terror:

BUM! TELL OBAMA THE PRIVATE SECTOR IS NOT FINE! 

E 30 segundos depois, como se nada tivesse acontecido, vem outra propaganda, smartphone, speed internet, seguro de carro, comida, e a felicidade volta a reinar até que:

BUM! THIS IS WHAT MITT ROMNEY THINKS OF IMMIGRANTS! 

E cada um insere uma frase do outro -- logicamente fora de contexto -- capaz de fazer qualquer queixo cair. Já os discursos são proferidos com eloquência tal que qualquer pessoa, instruída ou não, se admira. Porém, como todos os discursos políticos, os de Obama e Romney também manipulam dados, fatos, números e informações SEM NENHUM ESCRÚPULO. Então além da eloquência, qual seria a diferença?

Aqui tem um serviço chamado FACT-CHECKER, criado especialmente para desmascarar as mensagens políticas dos candidatos. Ou seja, aqui nos States só é enganado e desinformado quem quer. Mas antes de tudo! Aqui só vota quem quer. Enquanto no Brasil todo mundo é obrigado a votar em candidatos que, em sua maioria esmagadora, nem sequer sabem sustentar seus discursos políticos, e mesmo que soubessem, não estariam se comunicando com a grande massa.

Pois esse é o espelho da nossa nação, que não é uma nação apolítica -- para desespero da nata aristocrática. Mas é uma nação DES-politizada, que há anos -- desde quando, desde 1500, desde sempre? -- privou o cidadão das ferramentas básicas para exercer o que chamam cidadania.

O Brasileiro está tão ocupado com sua miserável sobrêvivencia -- ou ao menos os brasileiros que trabalham pra comer, pagar suas contas e seus impostos -- que não tem tempo, muito menos saco, pra refletir sobre como esse horário de propaganda política de merda reflete a situação de merda em que esse país se encontra.

As propagandas eleitorais estão refletindo nossa própria decadência. E o cidadão comum não está incomodado. Porque afinal, o que existe em nós senão um profundo desprezo pela política? E, o que existe na nossa política, senão um profundo desprezo pelo cidadão?

Um beijo raivoso.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Saudações Pandaleminskianas, terráqueos!



Hoje Paulo Leminski completa (ria em algum lugar do planeta) 68 anos.

Farei aqui minha breve homenagem
À besta primeira dos pinheirais

Há pouco tuitei alguns poemas
Agora blogo uns haikais.


(Tod@ poeta tem um caderninho)

Abrindo um antigo caderno  
foi que eu descobri:  
Antigamente eu era eterno.

(Tst. Convenhamos. Melhor antigamente eterno do que eternamente antigo. Mas nenhum desses foi o seu caso, caro Leminski!)



amar é um elo 
entre o azul 
e o amarelo 


(Todo mundo cantando! "De repente me lembro do verde. A cor verde, a mais verde que existe. A cor mais alegre, a cor mais triste, o verde que vestes o verde que vestiste no dia em que te vi...")


tudo dito, 
nada feito, 
fito e deito

(E Tuíto)

domingo, 19 de agosto de 2012

Breve elogio aos doentes do pé



Ontem tive minha primeira balada forte aqui em Charlotte. Uma memorável girls' night out. Fomos num bar-restaurante chamado COSMOS, que até às 11 funciona como um sushi-bar e restaurante comuns. Depois tem aula de salsa, bachata, merengue e outras danças latinas. E de repente aquilo se transforma num inferninho, com gente de todos os tipos, cores, raças, credos, cheiros e religiões, dando muito sentido ao nome do lugar.

Vestida elegantemente, mas acima de tudo, com um traje recatado, o meu primeiro choque foi reparar a forma ousada de como as meninas se vestem, e o segundo, a naturalidade com que assumem seus sobrequilos e celulites.

Finalmente, o queixo caiu quando presenciei um casal dançando com uma destreza tal que entre aquilo e o vulgar não havia muita diferença. E depois de mais uns drinks, os dançarinos carpichavam ainda mais nos movimentos.

Notando meus olhos incrédulos, minha amiga perguntou: so what? Don't you dance like that in Brazil? E eu disse, hell no, we fuck like that in Brazil. Depois confessei. É claro que no Brasil tá cheio de gente que faz da dança a dança do acasalamento. Mas enfim. Tô velha. Algumas cenas eram disgusting.

E talvez não haja nada mais dose do que dançarinos amadores talentosos e afetados. Seus trajes moderninhos, aquela calça justa nas pernas e meio cagada na bunda, a cueca aparecendo. Os que não usavam baby look, vestiam camisa de seda meio aberta, pulseiras, anéis, corrente no pescoço. Eram a personificação perfeita do estereótipo "amante latino," mas sem o bigodinho -- o que de certa forma era um pouco frustrante. Gente! Onde foram parar os bigodinhos?

Ontem eu vi o lado brega da latinidade pulsar à flor da pele. Brilhar, reluzir de suor.

Logo me peguei agradecendo. Me veio uma paz, alívio e orgulho enormes de ter me casado com um gentleman latino de elegância italiana, que sabe seduzir, sem saber dançar.

Aos doentes do pé, rendo minha homenagem.

Sua timidez e seu recato, e até mesmo suas desengonçadas tentativas de dar uns passos quando seus pares insistem para que dancem, são infinitamente mais louváveis e atraentes.

Deve ser por isso que bons dançarinos são solteiros, e bons maridos não sabem dançar.

sábado, 18 de agosto de 2012

Tiny Little Pills



Musiquinha nova, composta aos dezessete de agosto de dois mil e doze. Mais um dia inspirador de sucesso. Pela manhã dei um workshop sobre Cultural Transitions na UNC para os novos Graduate Teaching Assistants, pela tarde trabalhei e no break me veio essa canção... que na verdade foi inspirada por muitas cousas. Não exatamente nessa ordem, mas pensei na música dos Stones, Mother's little helper, e também na música Remédio do Uh La La, e finalmente,  na proposta que a minha terapeuta fez: would you consider taking any pills? Nope! I said. I do prefer beer. I didn't say this part. Mas fiz a música mesmo assim.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Overdose de Amor e de Fondue

Sobremesa: doces pecados. Com mensagem personalizada e vela de aniversário.
Notaram o número 4 de chocolate?

Hoje foi nosso quarto aniversário de casamento e mais uma vez o Bruno superou as expectativas de best husband ever. Chegou em casa com flores: uma orquídea e um buquê. Depois me levou pra jantar no Melting Pot, um restaurante de fondue muito romântico.

Como prega o site, o lugar transforma qualquer ocasião em uma experiência personalizada e inesquecível.

E como chegamos meia hora antes da nossa reserva, matamos tempo no bar ao lado, onde servem margarona, meu atual drink favorito -- margarita com corona. Maravilhoso. What a lovely day today! E agora vamos pra caminha. Mmmm. Boa noite.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Pequena Saga de um Grilo Manco



Era noite, eu falava com um amigo coisa qualquer por telefone, quando presenciei do outro lado da janela a cena mais chocante do dia. A luz da cozinha atraía naturalmente os insetos, que tontos, davam cabeçadas no vidro, como murros em ponta de faca.

A voz do meu amigo desapareceu bem quando o grilo surgiu. Veio de um salto na escuridão, em direção à luz. Tuc. Bateu na janela e foi logo amortecido pela teia, que chacoalhou ativando os instintos assassinos da obscura operária.

Com agilidade hostil, a aranha avançou. Embrulhou o animal, girando-o entre as oito patas peludas. Foram duas ou três voltas em menos de uma fração de segundo.

Mas o grilo, bem diante dos meus olhos – sua cabeça grande, olhos compostos, longas antenas e pequenas pinças bucais mastigadoras – não estava disposto a morrer. Escapou da teia, deixando para trás uma de suas pernas traseiras, que a aranha agarrou como um troféu, e depois devorou, com gosto, em sua ceia.

Do lado de cá da janela, ouço a voz do meu amigo. Súbito fade in nos meus ouvidos. I'm sorry, what did you say, eu perguntei, sem lhe contar do trágico espetáculo que tinha visto.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Hanging out at the Hanging Rock



Ontem foi a vez de conhecer mais um parque estadual da Carolina do Norte. O Hanging Rock State Park fica em Danbury, perto de Winston-Salem e Greensboro, quase fronteira com a Virgínia. Duas horinhas de viagem. Passeio perfeito para um day-trip.


Foi minha amiga e professora de espanhol, Maria, que me convidou. Fomos eu, ela, seu marido Robert e sua amiga Susana, que veio do México para visitá-los. Passei o dia inteiro hablando español e suando em bicas até chegar no topo daquela montanha (da foto aí de cima).

A vista é de repor o fôlego, perdido nos dois quilômetros de trilha, que apesar de curta, é cansativa. Demoramos 30 minutos pra subir, e dessa vez eu não morri, só quase morri. A Hangin Rock é uma pedra que fica no topo de uma das famosas Appalachian Mountains. Trata-se de uma cadeia montanhosa no leste do continente norte americano, que abrange estados de Alabama, Georgia, Virgínia, Carolina do Sul, Carolina do Norte, estendendo-se até o sul do Canadá.



Estou adorando essas aventuras! Sentindo-me a própria Pandahontas. Não há melhor maneira de eliminar as toxinas do corpo e da mente... basta pegar a estrada rumo a um lugar que você nunca esteve, caminhar, desbravando trilhas de uma montanha, e depois é claro, nadar num lago, ou tomar banho de cachoeira pra renovar as forças, voltar pra casa e despencar nos braços de Morfeu!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Fourth of July

Pé na estrada

Este foi o nosso quarto 4 de julho aqui nos States. O primeiro, em 2009, foi o mais patriótico de todos. Dispusemo-nos a uma programação especial, que incluía várias atrações típicas americanas: bandas de country rock ao vivo e barraquinhas de cachorro quente e refrescos, com direito a pronunciamento do então vice-prefeito de Charlotte e uma criança prodígio cantando o hino, naquele feeling que só o soul americano suporta. Tudo isso, é claro, seguido de um espetáculo pirotécnico totalmente sincronizado com música orquestral gradiloquente. Foi uma experiência e tanto ver aqueles americanos vestindo as cores de seu país, carregando bandeiras, e demonstrando em cada gesto tão civilizado, todo amor e respeito à pátria!

A paisagem campestre da Carolina do Norte às vezes nos
lembra o interior de Santa Catarina

Confesso que me admirei e até senti, bem lá no fundo, uma pontinha inveja desse entusiasmo pela nação. Mas com o passar dos anos, notei que tanto patriotismo, na verdade, não era necessariamente uma qualidade, mas sim quase um defeito. Afinal que tudo bem se orgulhar do próprio país, principalmente quando ele oferece uma vida mais ou menos digna para grande parcela da população. Mas se orgulhar muito, se gabar demais, se achar o máximo dos máximos dos máximos, e não enxergar as própiras limitações, erros, fracassos e atrocidades, aí já é exagero!

Entrando no South Mountain State Park

Então como curiosidade cultural antropológica, foi bom ter ido ao menos uma vez conferir como um bom e orgulhoso cidadão americano comemora seu Dia da Independência. Nos dois quatro de julho seguintes deixamos passar. Eu realmente não me lembro se fizemos algo e se fizemos, não lembro onde nem com quem. Ontem, no entanto, foi o primeiro quatro de julho realmente inesquecível. Acordamos sem hora, lá pelas onze da manhã, e decidimos fugir pro meio do mato. Pegamos a estrada rumo a Morganton, uma cidadezinha no meio das montanhas, a uma hora e meia de Charlotte. É lá que fica o South Mountain State Park, uma reserva florestal imensa, com todo tipo de atração natural: mata nativa, cachoeira, rio com truta e trilhas de tirar o fôlego -- tanto pela dificuldade quanto pela beleza.

Pausa para pose!
(mera desculpa para um descanso, pois a trilha não é mole não!)

O ponto alto deste passeio foi tomar banho de cachoeira num paraíso quase shakespeareano, com pétalas de flores na água e uma banheira de hidromassagem natural, onde pudemos recostar nas rochas e sentir como os musgos faziam a expressão "pedra macia" -- que não fui capaz de compreender quando li, se não me engano, num livro da Clarice Lispector -- fazer todo sentido do universo!

Hidromassagem natural

Pedra macia, verão quente, cachoeira fria, que fórmula perfeita para um feriado de quatro de julho! Confesso que meu "patriotismo americano" aflorou bastante quando eu vi como eles mantêm e investem nesses parques estaduais, sempre repletos de programas educacionais e com a melhor infraestrutura pra camping, passeio a cavalo, mountain bike, piquenique, hiking, são mais de 40 milhas de trilhas! Todas bem sinalizadas, com placas e murais educativos explicando tudo sobre fauna e flora, em inglês e em espanhol. E que fauna e que flora! E tudo de graça!


High Shoals Falls
Interessante foi notar a minoria americana, se comparada com a maioria estrangeira que aproveitou o feriado pra fugir da cidade com seus desfiles de civismo. Ao que parece, brasileiros, mexicanos, coreanos, chineses, indígenas, e todas as minorias da Carolina do Norte, se encontraram no parque para praticar um outro tipo de civismo, que é o civismo universal primeiro: respeitar e ter contato com o outro, com a natureza, e sentir o quanto isso é igualmente aconchegante, não importa o país que for!




Na volta, para honrar verdadeiramente nossa gratidão por este país e tudo de bom que ele tem nos proporcionado, paramos no Sonic e dividimos um hamburguer, uma porção de onion rings e um milk shake, tudo trazido de bandeja por uma gatinha de patins!

Um brinde à América! Cheers. Salud!

sábado, 23 de junho de 2012

Na América Latina quase sempre é 1936

Ex-padre, Fernando Lugo perdeu popularidade desde a descoberta da
paternidade de duas crianças, enquanto ainda fazia parte da ordem eclesiástica. 


Duas horas. Este foi o tempo necessário para remover Fernando Lugo, presidente democraticamente eleito no Paraguay em 2008. Ontem eu expressei, via Twitter, minhas preocupações com a omissão da notícia aqui nos Estados Unidos.

"Aqui vivemos em uma bolha" -- respondeu Elias Kamal Jabbe, um jornalista americano (de descendência etíope) que conheci em LA. Uma outra amiga, Ashleigh Blue, ironizou: "Estamos muito ocupados punindo treinadores de futebol americano para nos incomodarmos com problemas presidenciais estrangeiros."

Que a América Latina já não é mais o centro das atenções da política internacional americana, isso todo mundo sabe. Que os Estados Unidos sempre apoiaram militar e financeiramente golpes de estado na região, também não é novidade. Que Obama está muito ocupado correndo atrás do prejuízo pra tentar se reeleger, isso é já do conhecimento de todos. Mas, como observa esta excelente matéria de Mark Weisbrot, se Obama aprendeu alguma coisa com o golpe que ele apoiou em Honduras há três anos atrás, ele não vai reconhecer o governo de Franco.

Weisbrot nos lembra que o caso de Honduras foi um divisor de águas nas relações entre estados Unidos e América Latina. Se a gente já nutria sentimentos anti-americanos desde meados do século passado, agora, com o mapa ideológico do continente mudado, mais do que nunca Obama se encontra isolado pelos seus vizinhos de baixo. Talvez por isso ele tenha reagido com excessiva moderação e cautela ao golpe no Paraguai. Uma porta-voz do governo americano ontem pediu "calma" e declarou que os Estados Unidos vão apoiar os valores democráticos e os procedimentos legais. Ora, o impeachment é um procedimento legal, amparado pela lei, então não devemos ficar surpresos se o mister Obama seguir a tendenciazinha tradicional americana e reconhecer prontamente o novo governo golpista que se instala logo ao lado.

Ok. Não ficar surpreso é fácil, afinal, que semaninha lazarenta essa para nós. Rio+20 considerado um sucesso pela presidenta Dilma Rousseff, mas tanto no cenário nacional como internacional, há controvérsias. Pior que isso, só o Lula passeando de mãos dadas com Paulo Maluf! Com Paulo Maluf? Sim, o mesmo Paulo Maluf que serviu de braço direito civil aos militares até o fim da ditadura. E agora mais essa.

Não ficar surpreso, no entanto, não significa não estar alerta. Afinal... quem é que nos garante que o efeito dominó não vai começar de novo? Hugo Chavez na Venezuela, Rafael Correa no Equador, Evo Morales na Bolívia, Cristina Kirshner na Argentina... todos eles estão estufando o peito e dizendo: La garantia soy yo! Mas amigos... convenhamos!

Se a gente adora botar a culpa de todos os nossos fracassos políticos, sociais e econômicos, nos Estados Unidos, apontando para o fato de que Obama não aprendeu nada com história, devemos reconhecer: a Latino América muito menos!

A gente está careca, mas careca mesmo de saber que nossas sociedades -- frutos quase podres do colonialismo europeu -- são comandadas por um grupo restrito de conservadores, ao qual damos o nome de "elite," e cujos interesses sempre prevalecem disfarçados de "valores democráticos."

A onda esquerdista da América do Sul é uma resposta aos anos de ditadura ferrenha que o continente enfrentou e que, muito mais por desgaste político e por desastres econômicos do que por senso de justiça e respeito aos direitos humanos, não conseguiram se sustentar. Só que a nossa história tem sido marcada, desde sempre, por sucessivos movimentos de democracia populista e autoritarianismo, demonstrando uma extrema incapacidade dos governos latinos de criar instituições fortes capazes de estruturar uma sociedade justa e democrática.

O caso de Fernando Lugo é curioso, porque segundo as leis eleitorais do país, nenhum presidente pode ser reeleito. Então é mais difícil de acreditar que as medidas que ele tomou -- sem no entanto obter sucesso devido à oposição que enfrentava -- para favorecer as camadas mais pobres eram somente medidas paternalistas ou populistas. Os conservadores têm mania de tachar toda política de cunho socialista como estratégia para reeleição, como é o caso do Hugo Chavez que aí está, há bem mais de uma década, destruindo a Venezuela, enquanto a esquerda aplaude e acha lindo.

Notando a irônica coincidência, no Twitter alguém relacionou o caso do Paraguai ao golpe militar do ditador espanhol Franco em 1936:

"Franco leads coup with wealthy landowners against government." Umm... is it 1936? 

Ao que outro respondeu:

"In Latin America, it is always 1936." 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Boas Lembranças! Breve Homenagem a Nelson Jacobina

Nelson Jacobina e Jorge Mautner

Na minha curta carreria de "cantora MPB" tive a oportunidade de tocar e cantar ao lado de Jorge Mautner e Nelson Jacobina. Na época eu tinha uma dupla com Naína, e lindas e talentosas como éramos (e ainda somos, claro), encantamos grandes nomes da música brasileira, como Sérgio Dias dos Mutantes (que inclusive, produziu um single nosso, Outono), Chico César (com quem gravamos Pirulito, no CD/ Song Book do Braguinha), Jards Macalé. Tudo isso graças ao nosso mecenas, Odilon Merlin, que com ouvido e gosto musical afinadíssimos, sempre apostou na gente, nos promovendo em sua casa de shows, o Era Só o Que Faltava. Hoje veio de Odilon, via twitter, a notícia de que Nelson Jacobina, o tímido parceiro de Mautner, e genial compositor de Maracatu Atômico, tinha morrido no Rio de Janeiro.

Meu contato com Jacobina foi breve e passageiro. Resumiu-se a um final de semana prolongado, talvez de uns quatro dias, na Ilha do Mel. Eu e Naína fazíamos o show de abertura para esses dois mestres da música brasileira -- graças ao nosso outro mecenas, Helinho Pimentel, então dono da única rádio rock de Curitiba.

Eu nunca vou me esquecer do quanto me admirava ver os dois amigos (só parceiros musicais, ou também namorados?, eu me perguntava) na praia, fazendo uma espécie de meditação e alongamento. Não bebiam, não fumavam baseado, e sempre riam um do outro, e se alimentavam muito bem, eram assim uma espécie de últimos dos moicanos macrobióticos naturebas.

Na manhã antes de voltar pra cidade, observando o horizonte na praia, sentados na areia, conversávamos eu e Jorge Mautner sobre música. Enquanto isso, Nelson Jacobina fazia seu ritual meio ioga-tai-shi-shuan, a alguns metros afastado de nós. Eu, ignorante, pra saber mais sobre seu início de carreira, perguntei como foi, se foi muito difícil, se foi fácil. Ele disse que foi natural, que conhecia grande parte dos baianos e que essa relação inevitou sua entrada no mundo da música.

Pois olha, eu lhe disse. Meus tios também andavam com os baianos, um deles inclusive namorou a Gal. Eles chegaram a gravar vocais com Caetano, Gil e o pessoal da tropicália todo. Hoje só um vive, ou melhor, sobrevive, de música. E Mautner, curioso, me perguntou: quem são seus tios? E eu disse, Saulo, Saul, Batista e Bacana. Ele arregalou os olhos e perguntou na mesma hora: Bacana? Você é sobrinha do Bacana? Nelsô, chega aqui!

Jacobina interrompeu o ritual e veio correndinho em nossa direção. As ondas quebrando ao fundo e sua postura impecável davam uma cadência cinematográfica à cena. Ele então se agachou em nossa frente, de costas pro mar, franzindo a testa aumentada pela calva. Você sabe de quem essa menina é sobrinha? Perguntou Mautner. Ele ergueu as sobrancelhas esperando a resposta. Do Bacana! Lembra do Bacana? Nelson sorriu. E eles falaram do meu tio com muita admiração, e perguntaram por onde ele andava, o que fazia, etc. E eu me senti feliz, mas também frustrada, pensando que merda minha família é um desperdício de talentos natos.

Então uma hora da tarde, depois de pegar a balsa e atravessar para Pontal, um sol de rachar e a gente aguardando o carro que ia nos levar de volta, fui numa lojinha dessas de artesanato pra fazer hora. Nisso veio Nelson, pra fugir do sol também, e disse, com aquela serenidade que lhe era característica: que colar bonito! Eu concordei, ainda me olhando no espelho e admirando a peça feita de fio encerado, madeira e sementes. Ele então, sem falar nada, foi comprando o colar e uma presilha de cabelo no formato de peixe, tudo combinando, e me deu de presente.

O colar ainda vive. A presilha quebrou. E hoje a música brasileira perdeu mais um de seus grandes talentos. Mas essa lembrança ficou. A gente não manteve contato. Agora, sorrio aqui, com saudades, e penso: que sorte a minha ter tido a oportunidade de compartilhar a brevidade do tempo e o mesmo espaço ao lado dessa estrela que brilha mais agora em algum lugar do infinito.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Efeito Calado: Uma Visão Antropicalista da Música Popular Brasileira



Tropicália: A História de Uma Revolução Musical Brasileira é narrada com maestria no livro de Carlos Calado. Costurando biografias, análises de obras de arte, depoimentos, e muita muita música, o livro é uma fonte inesgotável de informação histórica em torno dos eventos que marcaram o crescimento das indústrias fonográfica e de entretenimento no Brasil ditatorial. Por tudo isso o livro de Carlos Calado é, antes de tudo, uma máquina do tempo capaz de nos transportar para o incrível anacronismo da nossa história político-musical. Uma descoberta incômoda para nós, consumidores mais críticos de qualquer arte, pré ou pós-tropicalista. Explico.

O livro narra como os jovens "tropicalientes" (não resisti, Calado nunca usou essa expressão, isso foi o meu lado latino aflorando na análise) eram ávidos por inovações ideológicas e estéticas que proporcionassem uma reflexão mais crítica a respeito da evolução da música brasileira. Conseguiram, mas não sem enfrentar a hostilidade tanto dos linha-dura da MPB, como dos truculentos militares. Ok, vocês dirão, mas todo mundo sabe disso. E esse é o problema! A gente tá careca de saber que a ditadura militar não entendia nada de música, e que a música popular brasileira não entende nada de inovação estética radical. Mas de uma forma ou de outra, o livro mostra que aos poucos, a MPB relaxa, goza, e até evolui. Afinal, os revolucionários de ontem não são a nata da MPB de hoje? Será que a MPB que evoluiu, ou os revolucionários que caretanearam? Um pouco dos dois, eu diria.

Hoje vendo -- ou melhor, lendo, via twitter -- Renato Russo sendo homenageado por uma leva desafinada de artistas, e testemunhando o renascimento musical dos anos 80 (inclusive, minha pesquisa é fruto dessa renascença!), cheguei à conclusão de que a MPB é uma ameba -- monocelular e sem forma definida. A MPB não é um gênero, é um conceito envolto em uma membrana formada por preconceitos. É um mito. É também um indicador de classe social. A MPB é exclusiva! Não só porque única, mas porque exclui tudo que não é digno de ser rotulado como MPB.

Mas enfim, a MPB, como uma ameba, sofre mutações, e abraça aos poucos, alguns corpos musicais estranhos, incorporando em sua monocelularidade primitiva novos gêneros, ritmos, sonoridades e instrumentos. A MPB é uma força repressora, que primeiro bate, depois resiste, depois se adapta e finalmente se transforma, mas sempre, sempre, se repete.

Eu que me proponho a olhar criticamente para as revoluções musicais brasileiras, noto que o grande erro da MPB sempre foi cativar seu ego autoritário e político. Mas isso é erro de todo brasileiro, goste você de MPB ou de rockinho inglês, eu, você, a gente é tudo frutinho madurinho do absolutismo monárquico do império. Ok, tô exagerando.

Agora, tudo bem que a partir dos 90 houve uma certa liberação tardia dessas amarras, aceitando-se certas inovações, mesmo que para favorecer tradições (ó, espírito autofágico tropicalista!). Nada de errado com isso. Nada de errado com as tradições. Mas o que me incomoda, é a repetição dos mesmos discursos. A gente, parece, não aprende. Analisa a música somente em termos de modernidade e tradição. Eu não gostaria que minha tese se resumisse à isso. Mas ó. É difícil não sair da mesmice. Continuarei tentando.

No mais, desvirtuei. Não me levem a mal. O livro do Carlos Calado é leitura obrigatória. Músicos e artistas jovens, principalmente. Se querem fazer a diferença, façam com que sua arte seja uma reflexão crítica do seu tempo, e não menosprezem o novo, nem condenem o velho, porque a arte, para ser completa, precisa se livrar de preconceitos, briguinhas bobas, regionalismos bestas.

Isso não significa perder o senso estético e crítico da arte, não se trata de ser eclético a ponto de indefinir seu (bom o mau) gosto artístico musical. Significa, antes de mais nada, nutrir um respeito (nem que seja distante) com outras formas de arte. Interesse para conhecer e incorporar elementos tradicionais da sua história com os da sua contemporaneidade. Em suma, tropicalizar. Assumir conscientemente que somos sujeitos históricos, e como tal, temos o dever de interferir nessa linha do tempo de forma crítica, mas positiva e, quiçá, revolucionária e inovadora.