sábado, 30 de novembro de 2013

Mutantes em Raleigh

Cartaz - souvenir do show
Tudo é por acaso! Postei uma canção no feice de um amigo, cujo apelido por acaso é Macumba. A canção? "Bat Macumba" dos Mutantes, banda que até então ele desconhecia. Dominicano de alma brasileira e apaixonado por música e capoeira, Macumba começou a ouvir Mutantes e, por  acaso, (ou por essas misteriosas  ferramentas de anúncio personalizado das redes sociais), apareceu no seu feed de notícias um show deles em Raleigh. E duas semanas depois estávamos nós a caminho da capital  para outro show que viria a ser um dos mais emocionantes das nossas vidas.

ROADTRIP

Compramos os ingressos pela internet, 20 doletas. Alugamos um hotel no centro da cidade, que ficava a poucas quadras do Pourhouse Music Hall, onde seria o show. Bruno saiu mais cedo do trabalho na sexta 20 de novembro, e às 4 da tarde botamos o pé na estrada rumo ao nordeste do estado.   

Nós em Raleigh. Fotografia de Jorge Macumba Torres

Chegamos em Raleigh de noite, e o clima estava agradável se comparado à friaca de Charlotte. Fizemos nosso check-in no hotel, conferimos o quarto, tomamos um banho, nos aprontamos e fomos jantar no Big Easy, um restaurante "cajun" -- cozinha da Lousiana. Que jantar maravilhoso! A comida, nota dez! Já a bebida e a mocinha que nos atendeu, mmm, nem tanto. 

A garçonete: what would you like to drink? Eu, no clima propício, pedi um Hurricane. Excuse me? Ela disse. Hur-ri-cane, repeti. E a guria, pelo jeito, não entendia nem o meu inglês, nem as bebidas do restaurante onde ela trabalhava, pois Hurricane deveria ser assinatura de qualquer lugar chamado Big Easy. Já narrei a história deste famoso drink de New Orleans, quem quiser pode clicar aqui e ler o parágrafo "Haja rum, e houve rum". Impaciente, apontei o Hurricane no cardápio para a moça, e só então ela entendeu: Oh, you DO have an accent!

É óbvio que eu tenho um accent. Todo mundo tem sotaque. O dela inclusive era desses bem southern, oh God, bless her heart. Deu vontade de perguntar pra ela quantas línguas vc fala mesmo? Fiquei uma arara! E o tal Hurricane estava uma BOSTA! Não tomei nem um quarto da bagaça. Horrível. Mas a comida, mmmm, a comida estava deliciosa. Enchemos a pança e fomos pro bar. 

POURHOUSE MUSIC HALL 



A casa de show era um bar de rock tosco como qualquer outro, com a diferença de ter um técnico e equipamentos de luz e som de primeira. A entrada era por um beco de tijolo e muro grafitado. Dentro tudo era escuro. A pista de dança era um espaço bom, mas não chegava a ser grande. Isso nos deixou com o coração cheio de expectativas, pois sabíamos que íamos ficar cara a cara com nosso ídolo! Um dos maiores, senão o maior, guitarrista brasileiro -- Sergio Dias! E eu estava apreensiva, imaginando se ele iria ou não nos reconhecer. Afinal, mais de 11 anos anos se passaram desde que produzimos esta linda canção, Outono.

Às nove da noite começou a primeira atração: um cara, voz e violão. O bar ainda estava vazio, meia dúzia de público diversificado, senhoras e senhores, jovens e gente de meia idade. Todos muito elegantes, em seus estilos chic largado alternativo. Aliás, as pessoas de Raleigh todas parecem personagens de filme de histórias em quadrinhos, a cidade inclusive, suas praças, seus prédios, seus becos, seus moradores de rua, suas mansões e casas abandonadas, tudo tão lindo, lúgubre e elegante! 


CAPSULA


Quando a segunda atração da noite -- Capsula -- subiu no palco, o bar já estava mais cheio. Era um trio peculiar. O cantor e guitarrista era a personificação do rockstar andrógino: alto, magro, comprido, cabelos semi-longos negros, escorridos na cara. A menina que tocava baixo parecia uma índia, morena e com as maçãs do rosto sobressalentes e o cabelo castanho claro, comprido, com franja. O baterista era calvo, quase careca, e era o mais contido -- mas nem por isso menos competente e carismático que os demais. 


As músicas eram uma porrada no ouvido: transitavam entre um power pop, rock mantra psicodélico, glam punk. E eles tocaram a melhor versão de David Bowie que  já ouvi. Depois disso o show virou um campo de batalha, e o frontman empunhava a sua guitarra metralhando o público com notas e acordes distorcidos que simulavam o estrondo de aviões e bombardeios, e a menina também apontava o baixo para frente, para o lado e para o alto, marchando, depois se ajoelhava, e tocava sem errar uma nota, fazendo uma cara de concentrada, de menina má, chupando as bochechas assim para salientar ainda mais sua ossada. Do caralho! Depois conversando com eles descobri que os dois são argentinos, e o baterista é espanhol do País Basco.


OS MUTANTES



Às onze veio a atração principal. De "mutante original" só mesmo Sérgio Dias Batista. Mas como brincou Macumba, se Os Mutantes fossem sempre os mesmos o nome da banda não podia ser Mutantes. Foi bom encontrar um conterrâneo nosso, o curitibano Henrique Peters nos teclados, programação e vocais, e rever Vinícius Junqueira, baixista do Sérgio há mais de uma década. Ambos músicos talentosíssimos! Aliás, a banda inteira, Bia Mendes no vocal, esse baterista novo que não lembro nome, mais o guitarrista Victor Trida que eu também não conhecia (compõe, canta e toca pra caralho!), todos musicalmente impecáveis. 

Sérgio foi o último a entrar no palco com uma bata de pajé, ou de monge tibetano. Ele subiu tossindo, se desculpou explicando que acabava de tomar um flu-shot, e plugou a réplica da guitarra de ouro (sim, pois a original, muito velhinha, não sai pra passear). 

Sergio sorria, mas estava gripado e abatido. E ainda assim cantando e tocando muito! Aquele era o décimo quinto show SEGUIDO (o penúltimo desta turnê, que terminaria no sábado, 23 de novembro, em Washington DC). Mas Dias ainda não estava à vontade, e depois uma corda estourou ele ficou meio puto, parou de cantar pra trocar de guitarra. Henrique com profissionalismo e sangue frio segurou os vocais, mesmo sem guitarra, enquanto o Sérgio se embananava com os cabos. Fiquei confusa. O Deus da guitarra não tem rodie? Deu uma vontade de pular no palco e ajudá-lo a plugar o instrumento, e depois trocar a corda que tinha arrebentado. Mas tive medo de ser muito intrusiva e levar um xingão! 



E a guitarra finalmente soou nos amplificadores, e dali pra frente o som foi melhorando exponencialmente ao infinito! Os que estavam sentados se levantaram, os que estavam lá fora entram, e todos dançavam e cantavam aos acordes e às harmonias celestiais em Tecnicolor, Virginia, Ando Meio Desligado (com direito a uma intervenção psicodélica instrumental que sugeria O Meu Refrigerador Não Funciona), Jardim Elétrico, Minha Menina ou She's my choo-choo, TOP-TOP,  Panis et Circensis, Bat Macumba, A Hora e a Vez do Cabelo Nascer, Balada do Louco, Cantor de Mambo, entre outras. E também algumas do repertório do último disco.

Como eu devia ser a única na plateia que cantava a letra de praticamente todas as músicas, e estava na frente, colada ao palco, hora ou outra a Bia botava o microfone na minha boca e lá estava eu, uhuuu! Cantando com Os Mutantes! Muita emoção! E assim o show terminou e todos pediram ONE MORE! ONE MORE! Com direito a bis, todo mundo foi pra casa feliz!

Christmas Parade

Raleigh está nos aguardando para uma visita mais prolongada pois no sábado acordamos a tempo só de ver uma parada de Natal, tomar café e botar o pé na estrada rumo a Biscoe, onde teríamos uma experiência cultural maravilhosa: una fiesta tradicional mexicana de Quinceañera (festa de 15 anos) da prima de um aluno meu. 


Depois de tantas emoções, voltamos pra casa com a alma transbordando de música, alegria, margaritas e memórias inesquecíveis!