sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral: Espelho da Nação



Dia desses compartilhei um tuit do meu primo Boaz, no qual ele constatava, com muita dor no coração, que o horário político brasileiro era o espelho da nação.

Algumas semanas antes eu tinha chegado à mesma conclusão vendo as propagandas políticas da disputa eleitoral entre Barack Obama e Mitt Romney aqui nos States. Eu fiquei admirada sobretudo pela forma simples, dura e direta com que um candidato ataca o outro.

Americano é grosso mesmo, eu pensei. Depois ponderei, refleti, filosofei. Tst. Não. Isso é puro trato cultural. No Brasil a gente preza pelos processos de eufemismazação (acho que inventei essa palavra, mas tudo bem). Com isso quis dizer que, para nós, é sinal de educação dar voltas pra amenizar o recado. Por exemplo. Quando a gente diz: passa lá em casa, ou: me liga depois, a gente na verdade só quer uma desculpa pra se livrar da pessoa o mais rápido possível. Curitibanos, principalmente.

Enfim, se candidatos brasileiros empregassem o estilo do discurso político americano, não teriam tempo para política, pois eles estariam muito ocupados enfrentando a morosidade dos processos jurídicos que abririam um contra o outro por calúnia e difamação. Isso não seria lindo? Sonhemos!

Outra diferença interessante é que aqui nos States não existe horário político gratuito. Os candidatos têm que comprar seus segundos nos intervalos de programas televisivos ou radiofônicos ou banners na internet, como qualquer outro produto comercial. Então você está vendo TV e depois da propaganda de margarina vem uma música dramática de filme de terror:

BUM! TELL OBAMA THE PRIVATE SECTOR IS NOT FINE! 

E 30 segundos depois, como se nada tivesse acontecido, vem outra propaganda, smartphone, speed internet, seguro de carro, comida, e a felicidade volta a reinar até que:

BUM! THIS IS WHAT MITT ROMNEY THINKS OF IMMIGRANTS! 

E cada um insere uma frase do outro -- logicamente fora de contexto -- capaz de fazer qualquer queixo cair. Já os discursos são proferidos com eloquência tal que qualquer pessoa, instruída ou não, se admira. Porém, como todos os discursos políticos, os de Obama e Romney também manipulam dados, fatos, números e informações SEM NENHUM ESCRÚPULO. Então além da eloquência, qual seria a diferença?

Aqui tem um serviço chamado FACT-CHECKER, criado especialmente para desmascarar as mensagens políticas dos candidatos. Ou seja, aqui nos States só é enganado e desinformado quem quer. Mas antes de tudo! Aqui só vota quem quer. Enquanto no Brasil todo mundo é obrigado a votar em candidatos que, em sua maioria esmagadora, nem sequer sabem sustentar seus discursos políticos, e mesmo que soubessem, não estariam se comunicando com a grande massa.

Pois esse é o espelho da nossa nação, que não é uma nação apolítica -- para desespero da nata aristocrática. Mas é uma nação DES-politizada, que há anos -- desde quando, desde 1500, desde sempre? -- privou o cidadão das ferramentas básicas para exercer o que chamam cidadania.

O Brasileiro está tão ocupado com sua miserável sobrêvivencia -- ou ao menos os brasileiros que trabalham pra comer, pagar suas contas e seus impostos -- que não tem tempo, muito menos saco, pra refletir sobre como esse horário de propaganda política de merda reflete a situação de merda em que esse país se encontra.

As propagandas eleitorais estão refletindo nossa própria decadência. E o cidadão comum não está incomodado. Porque afinal, o que existe em nós senão um profundo desprezo pela política? E, o que existe na nossa política, senão um profundo desprezo pelo cidadão?

Um beijo raivoso.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Saudações Pandaleminskianas, terráqueos!



Hoje Paulo Leminski completa (ria em algum lugar do planeta) 68 anos.

Farei aqui minha breve homenagem
À besta primeira dos pinheirais

Há pouco tuitei alguns poemas
Agora blogo uns haikais.


(Tod@ poeta tem um caderninho)

Abrindo um antigo caderno  
foi que eu descobri:  
Antigamente eu era eterno.

(Tst. Convenhamos. Melhor antigamente eterno do que eternamente antigo. Mas nenhum desses foi o seu caso, caro Leminski!)



amar é um elo 
entre o azul 
e o amarelo 


(Todo mundo cantando! "De repente me lembro do verde. A cor verde, a mais verde que existe. A cor mais alegre, a cor mais triste, o verde que vestes o verde que vestiste no dia em que te vi...")


tudo dito, 
nada feito, 
fito e deito

(E Tuíto)

domingo, 19 de agosto de 2012

Breve elogio aos doentes do pé



Ontem tive minha primeira balada forte aqui em Charlotte. Uma memorável girls' night out. Fomos num bar-restaurante chamado COSMOS, que até às 11 funciona como um sushi-bar e restaurante comuns. Depois tem aula de salsa, bachata, merengue e outras danças latinas. E de repente aquilo se transforma num inferninho, com gente de todos os tipos, cores, raças, credos, cheiros e religiões, dando muito sentido ao nome do lugar.

Vestida elegantemente, mas acima de tudo, com um traje recatado, o meu primeiro choque foi reparar a forma ousada de como as meninas se vestem, e o segundo, a naturalidade com que assumem seus sobrequilos e celulites.

Finalmente, o queixo caiu quando presenciei um casal dançando com uma destreza tal que entre aquilo e o vulgar não havia muita diferença. E depois de mais uns drinks, os dançarinos carpichavam ainda mais nos movimentos.

Notando meus olhos incrédulos, minha amiga perguntou: so what? Don't you dance like that in Brazil? E eu disse, hell no, we fuck like that in Brazil. Depois confessei. É claro que no Brasil tá cheio de gente que faz da dança a dança do acasalamento. Mas enfim. Tô velha. Algumas cenas eram disgusting.

E talvez não haja nada mais dose do que dançarinos amadores talentosos e afetados. Seus trajes moderninhos, aquela calça justa nas pernas e meio cagada na bunda, a cueca aparecendo. Os que não usavam baby look, vestiam camisa de seda meio aberta, pulseiras, anéis, corrente no pescoço. Eram a personificação perfeita do estereótipo "amante latino," mas sem o bigodinho -- o que de certa forma era um pouco frustrante. Gente! Onde foram parar os bigodinhos?

Ontem eu vi o lado brega da latinidade pulsar à flor da pele. Brilhar, reluzir de suor.

Logo me peguei agradecendo. Me veio uma paz, alívio e orgulho enormes de ter me casado com um gentleman latino de elegância italiana, que sabe seduzir, sem saber dançar.

Aos doentes do pé, rendo minha homenagem.

Sua timidez e seu recato, e até mesmo suas desengonçadas tentativas de dar uns passos quando seus pares insistem para que dancem, são infinitamente mais louváveis e atraentes.

Deve ser por isso que bons dançarinos são solteiros, e bons maridos não sabem dançar.

sábado, 18 de agosto de 2012

Tiny Little Pills



Musiquinha nova, composta aos dezessete de agosto de dois mil e doze. Mais um dia inspirador de sucesso. Pela manhã dei um workshop sobre Cultural Transitions na UNC para os novos Graduate Teaching Assistants, pela tarde trabalhei e no break me veio essa canção... que na verdade foi inspirada por muitas cousas. Não exatamente nessa ordem, mas pensei na música dos Stones, Mother's little helper, e também na música Remédio do Uh La La, e finalmente,  na proposta que a minha terapeuta fez: would you consider taking any pills? Nope! I said. I do prefer beer. I didn't say this part. Mas fiz a música mesmo assim.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Overdose de Amor e de Fondue

Sobremesa: doces pecados. Com mensagem personalizada e vela de aniversário.
Notaram o número 4 de chocolate?

Hoje foi nosso quarto aniversário de casamento e mais uma vez o Bruno superou as expectativas de best husband ever. Chegou em casa com flores: uma orquídea e um buquê. Depois me levou pra jantar no Melting Pot, um restaurante de fondue muito romântico.

Como prega o site, o lugar transforma qualquer ocasião em uma experiência personalizada e inesquecível.

E como chegamos meia hora antes da nossa reserva, matamos tempo no bar ao lado, onde servem margarona, meu atual drink favorito -- margarita com corona. Maravilhoso. What a lovely day today! E agora vamos pra caminha. Mmmm. Boa noite.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Pequena Saga de um Grilo Manco



Era noite, eu falava com um amigo coisa qualquer por telefone, quando presenciei do outro lado da janela a cena mais chocante do dia. A luz da cozinha atraía naturalmente os insetos, que tontos, davam cabeçadas no vidro, como murros em ponta de faca.

A voz do meu amigo desapareceu bem quando o grilo surgiu. Veio de um salto na escuridão, em direção à luz. Tuc. Bateu na janela e foi logo amortecido pela teia, que chacoalhou ativando os instintos assassinos da obscura operária.

Com agilidade hostil, a aranha avançou. Embrulhou o animal, girando-o entre as oito patas peludas. Foram duas ou três voltas em menos de uma fração de segundo.

Mas o grilo, bem diante dos meus olhos – sua cabeça grande, olhos compostos, longas antenas e pequenas pinças bucais mastigadoras – não estava disposto a morrer. Escapou da teia, deixando para trás uma de suas pernas traseiras, que a aranha agarrou como um troféu, e depois devorou, com gosto, em sua ceia.

Do lado de cá da janela, ouço a voz do meu amigo. Súbito fade in nos meus ouvidos. I'm sorry, what did you say, eu perguntei, sem lhe contar do trágico espetáculo que tinha visto.