sexta-feira, 4 de abril de 2014

Dias Felizes em New Orleans




Acordamos antes do sol nascer, pegamos as malas e partimos pro aeroporto. New Orleans era o nosso destino. Apresentar um trabalho sobre narcocorridos -- um tipo de Mexican-American Music -- a minha missão. Ou melhor. A minha desculpa. Quem me conhece sabe. Minha verdadeira arte é unir o útil ao agradável. Assim, uma apresentação no Southeastern Council of Latin American Studies (SECOLAS) seria a oportunidade perfeita para dar um upgrade no meu currículo acadêmico. Útil! 

E agradável -- uma ótima ocasião para aproveitar NOLA, The Big Easy, The Crescent City; New Orleans. A cidade mais fascinante que conheço aqui no sul dos Estados Unidos. Esta foi a minha segunda vez em NOLA. A primeira, já narrada aqui, foi no início do ano passado. E foi maravilhosa. 

O voo foi. Eu tinha uma pilha de provas para corrigir, mas uma americana engraçadona sentada na janela resolveu tirar um sarro: what's the point of spring break if you have to grade papers? E eu pra ser simpática disse não, spring break foi há um mês, agora ia numa conferência. Pra quê? Ela não me deixou trabalhar nem dormir, e me contou tintim por tintim sua vida íntima, os problemas de sua família e o motivo da viagem que unia nossos destinos em meio a turbulências. 

Uma tempestade impedia nosso avião de pousar no Louis Armstrong International Airport, de forma que depois de duas horas de histórias mirabolantes ficamos sobrevoando os céus da cidade com três outras aeronaves: urubus de metal que viámos da janela, também esperando a chuva passar, (ou o combustível acabar), para uma aterrissagem segura (ou -- que bom que não -- de emergência).

Finalmente em solo louisiano entramos num táxi e fomos pro hotel. Chuva torrencial. Os celulares todos buzzing. Flood warning. Toró de fazer o dia virar noite e até taxista dirigir bem devagarinho. 

Location

Nosso hotel: ao lado do French Quarter
Ficamos num hotel na entrada do centro histórico, e onde se deve ficar se quiser desfrutar do melhor da cidade. Um Best Western -- quite decent price, nice place -- ótimo custo benefício. Bem entre a Canal e o Ruby Slipper, o point da cidade para breakfest, lunch ou brunch nas manhãs ressaqueadas. 

Caminhando três quadras à esquerda, chegávamos na Bourbon Street, a rua mais insana e famosa da região, palco do carnaval de New Orleans. Alameda das missangas nas sacadas de ferro, onde mulheres, homens e dinheiro dão mais que chuchu na cerca e onde há maior incidência de bêbados e colares de mardi gras esparramados pelo chão -- apesar de que você pode encontrá-los até mesmo nos distritos mais afastados da cidade, dependurados nas árvores, nos portões, nas pontes, postes, fontes, fios de luz, cercas e monumentos. No caso dependurados os colares de missanga, e não os bêbados. Ou pelo menos não que eu tenha visto.

Mais Chuva

Late morning. Gotta get ready pra conferência. Vesti as pérolas, uma calça social cinza, sapato de couro preto, blusa preta e casaco listrado branco e cinza cujo botão mamis vai se orgulhar, preguei na noite anterior com um primor inédito. Pois é. A necessidade é a mãe da eficiência. 

Quem disse que eu não levo jeito pra costura?
Maquiei-me perfumei-me fiquei chique como de praxe mas no meio do caminho choveu no meu glamour, ficamos encharcados e chegamos no Deanie's com a maior pinta de pinto molhado. Oh well. Devorei meio poboy de camarão -- um sanduíche clássico da southern food: pão francês recheado de camarão à milanesa, alface, picles e maionese e tomei uma Blue Moon. Agora assim estava recomposta. A uma da tarde era a minha apresentação.

Olha os PhD's indignados com o meu paper. Não basta ser nerd.
Tem que causar polêmica.

Apresentei ao lado de três doutores em literatura e cultura mexicanas e não sei por quê, se fui a última a apresentar, ou se era a única a não ter um PhD, ou por não ser uma autêntica mexicanista, ou ainda se eu adotei uma perspectiva muito polêmica ao defender os narcocorridos como a continuidade de uma rica tradição oral nortenha, os doutores da mesa viram mil poréns no meu trabalho. Apenas refutei um dos comentários, os outros acatei e/ou tentei explicar (em espanhol e em inglês) que o que eu li ali era um terço do trabalho original, onde eu tratava com mais profundidade da questão mercadológica e do caráter transnacional do gênero.

The Rain Won't Stop Us

Mabeibe e o Mississipi
Depois da minha, fomos a uma outra panel em que um professor e amigo nosso se apresentou. Depois do dever cumprido fomos fazer o que todos que vão em New Orleans pra fazer: comer, beber, dançar, ouvir música boa e se divertir.

As especialidades do Café du Monde
Com aquele tempo horrorozinho, nada melhor que tomar um chocolate quente e comer os famosos beignets (leia-se benhêtz), que na verdade não passam de bolinhos de chuva -- ou melhor, cuecas viradas -- banhadas em quilos de açúcar de confeiteiro. Nada saudável, e como tudo que não é saudável e é frito, delicioso.

Bar Hopping

Bourbon Street: de dia inofensiva, de noite, não recomendada para menores.

Depois de o estômago forrado, iniciamos peregrinação pelos bares e ela só terminou sei lá, às três da manhã. Eu perdi as contas de quantos lugares visitamos. Vi meninas trepando numa barra de ferro, suas botas de salto tocando o teto, depois escorregavam espiralando o corpo como cobras, empinando as nádegas quase inexistentes a troco de notas de um dólar. E nós, os bêbados, outcast of American society, tapando os desvãos da autoestima com o carinho fake das gogo dancers. Na hora é legal, depois é patético.

E em cada bar entornávamos um ou dois drinks, e no fim da noite já conversávamos sem nexo com outros bebuns, e pedíamos água e coca-cola. Voltamos pro hotel singing in the rain e afundamos na cama. A cama, aliás, muito boa, parecia que nos abraçava, e os travesseiros então, que conforto!

The Day After

Sábado amanheceu indeciso entre o cinza e o azul. Acordei com uma sede cã, mas na garrafa de água vazia só havia o vapor de uma gota ilusória. Com medo de tomar água da torneira -- mississipi mud, nunca se sabe -- engoli dois Advils a seco e depois fomos curar a ressaca no Red Gravy, um restaurante italiano que serve um café da manhã tão ou mais delicioso que o Ruby Slipper, só que com bem menos fila. Também tinha um músico tocando banjo e cantando aquelas antigas canções da era de ouro da rádio americana. O ambiente, a música, o sabor e a qualidade dos pratos fez a espera valer a pena. Sim, pois a comida demorou quase uma hora pra chegar. Mas Big Easy. Não adianta se desesperar. New Orleans é a Bahia americana. 

Garden District

Esta casinha está à venda por um milhão e meio de dólares.

Depois do café alugamos duas bikes e saímos desbravar um bairro populado por mansões pitorescas  estilo família Adams. Lá também encontramos o Lafayette No.1, o cemitério municipal mais antigo de New Orleans, onde as almas descansam ou perambulam, quem sabe, desde mil oitocentos e bolinhas.



Explorar de bike aquelas ruazinhas repletas de azaleas floridas de primavera, ladeadas por casas antigas construídas entre 1832 e 1900, foi um dos pontos altos do passeio. Considerado "National Historic Landmark", o Garden District é a uma excelente amostra da arquitetura southern americana, e um exemplo de esmero, respeito e conservação do patrimônio histórico e arquitetônico da cidade.


Claro que há casas e até mesmo ruas inteiras esquecidas e negligenciadas, o que colabora para o clima "mal assombrado" do distrito. Mas acima de tudo, o lugar revela uma época de extrema prosperidade quando ricos do sul -- poderosos proprietários de plantations de algodão e tabaco -- exploravam mão de obra escrava e faziam questão de exibir seu status e opulência num lugar mais afastado dos crioulos que vivam no coração pulsante do French Quarter. 

Ps.: uso o termo crioulos no sentido louisiano, histórico da palavra, ou seja, para designar os descendentes dos primeiros colonizadores da região que eram espanhóis, franceses e/ou africanos. 

French Market



Não sei que fantasma sabotou a bike do Bruno no caminho, mas o guidom da bicicleta ficou completamente frouxo e já não obedecia os comandos do ciclista. Paramos no Museu da Civil War -- o mais velho da Louisiana, mas meio caro e bem sem graça -- e depois fomos devolver as magrelas. Por causa do problema a moça nem cobrou o aluguel, e seguimos para o French Quarter, onde estava tendo um festival gastronômico. De novo enchemos a pança e a cara e fizemos a via sacra percorrendo as quadras do centro histórico. Entramos em algumas Voodoo Stores, bares e restaurantes, mas eu estava exausta e com bolha no pé, voltamos pro hotel para planejar a aventura de domingo.

Airboat Ride at the Louisiana swamps

Baby gator
Domingo ensolarado e quente, resolvemos encarar a fila do Ruby Slippers, que nem estava tão grande se comparada com a do dia anterior. Tomamos um café da manhã reforçado e fomos a pé para o Museu da Segunda Guerra -- um dos principais pontos turísticos da cidade. Fascinante. Dá pra passar um dia inteiro lá. Mas como tínhamos que voltar pro hotel pra aguardar a van que nos levaria para os swamps, não pudemos conferir todas as atrações. O Swamp Tour é outra excelente opção. Um passeio radical por canais hídricos cavados nas proximidades do Mississipi, onde as cobras e os jacarés se escondem e reproduzem.

Existem idiotas para tudo nesse mundo.

O preço do passeio é um pouco salgado, mas vale a pena. Pra quem gosta de emoção e velocidade é um prato cheio. E tem muito jacaré, alguns imensos. Eles chegam bem pertinho do barco, e o piloto provoca e brinca com os bichos, até beija o focinho deles. E adivinha o que eles usam para chamar a atenção dos gators? Comida, sim, claro. Mas a comida não é carne, nem peixe, nem bichos menores, como eu imaginava. É marshmellow, aquelas bolas brancas engordantes que a gente  daqui espeta num graveto e assa na beira da fogueira durante o inverno! Pois é, até jacaré curte  um marshmellow.



Depois do passeio, que dura praticamente quatro horas, voltamos de van pro hotel e saímos jantar no Palace Café -- um clássico da cidade. Ambiente, comida, bebida e atendimento excelentes. Só os quadros que eram de péssimo gosto, e a conta que talvez não nos tenha agradado muito. Para quem está acostumado a tomar huge ass margaritas por 7 dólares na Bourbon Street, tomar uma mini skinny margarita e pagar o dobro dói no bolso. Mas enfim! No Palace Café come-se, bebe-se e gasta-se muito bem. 

Dias Felizes em New Orleans!




Voltamos pro hotel arrumar as malas pois nosso voo saía na segunda às 7:15 da matina. E cá entre nós, já não tínhamos muito fígado e nem dinheiro para abusar na Bourbon Street. Decidimos então deixar tudo pronto para a volta, que foi bem tranquila, sem turbulência, e sem mulher-matraca narrando episódios familiares bizarros... 

Tem uma música infeliz do Caetano em que a certa altura ele canta bem pelo nariz, "dias ruins em New Orleans"... tst, tst, tst... não podemos dar bola pra tudo que Caetano diz. Principalmente pra quem vai a passeio, não há dias ruins em New Orleans. Nem mesmo quando chove.