quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O Aniversário!

Uma das minhas turmas de Protuguese Classes resolveu comemorar o aniversário de um aluno na sala. Foi uma festa surpresa planejada pelo John, meu aluno mais velho (de camisa azul no lado direito da foto).


Ele mandou fazer um bolo especial para a ocasião, e olha que bonitinho que ficou!



Eu achei engraçado, "O Aniversário", mas pelo menos foi bem didático. E não disse nada sobre o que geralmente se escreve nos bolos (o nome do aniversariante, ou ainda, Parabéns, Fulano!) , porque afinal de contas, aula é aula... festa é festa.

E agora eles já sabem cantar "Parabéns pra você". Na próxima festinha vou ensinar "Com quem será", hehehehe...

Me acharam na foto? Uma dica: estou com a jaqueta de couro bege que ganhei da Vó Vivinha.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Carta Outonal


E assim o tempo vai passando, e o vento sussurando sucessivas estações. E nestas folhas de plátano que se deixam cair rubras e graciosas no gramado do quintal, escuto lamentos, canções. Uma sensação de saudade inevitável sempre invade as horas vagas do meu coração. No meu pulso, o relógio sibila os segundos que vagarosamente - por ínfimos que sejam - aumentam tic-tac tic-tac tic-tac alimentam tic-tac tic-tac o meu amor, tic-tac a minha saudade.

Falo por mim, mas façam também do Bruno as minhas nostálgicas palavras. No calor da distância, na ausência das visitas, na fria constatação de que há de se levar a vida, não importa onde, nem o tamanho da ferida, sim temos de constatar que vamos bem, obrigado! Contudo, todavia, dentro da medida, desconsiderando aquela dorzinha de não tê-los por perto, nunca antes na nossa história tivemos tanta convicção de nossas conquistas. Somos felizes! E estamos com saudades.

Trabalhando muito, se divertindo um pouco, aos poucos a gente vai se agregando à nova realidade, se acostumando com ela e, para tornar tal processo um pouco mais fácil, vai assim deixando de lado as atualizações do que era para ser um diário de bordo, as visitinhas premiadas com comentários nos blogs prediletos, os chats eletrônicos via twitter, msn, orkut ou skype. A vida exige demais da gente. A gente exige demais da vida.

A verdade é que o tempo vai passando sem deixar tempo pelo caminho. E nessas horas que não passam tic-tac-tic-tac nove meses já se foram tic-tac-tic-tac muitas águas já rolaram tic-tac-tic-tac mas nenhuma novidade tic-tac tic-tac. Já são meia noite e cinco tic-tac-tic-tac e o Bruno está dormindo tic-tac-tic-tac eu bebendo vinho tinto tic-tac-tic-tac nesta noite de outono.

As baratas rarearam, se bem que ante-ontem uma apareceu para encarar o destino trágico fatal do aerosol. Amanhã é dia de Maria, mais dois trabalhos para fazer de Cinema Cubano, aula pra preparar, e ainda por cima festinha na casa do Arthur que mora logo ali na Carolina do Sul. Conseguirá Panda Lemon cumprir com todas as suas tarefas domésticas estudantis docentes e sociais? Provavelmente não. Para que fazer no sábado o que se pode fazer no domingo e na segunda?

Limpamos o terreno da horta na semana passada. Agora jazem ali um pé de hortelã e um de manjericão, já ficando queimados da friaca charlotteana. Ano que vem espero Dondaliet nova em folha para plantar nova horta, desta vez com menos pepinos... mas antes disso, esperamos Caetano, para dar mais graça ao nosso primeiro feriado de Ação de Graças. E por enquanto é só, pessoal! Até a próxima carta - quiçá outonal.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Eu, me, comigo.

Chamaram-me Alexandra desde o dia em que nasci.
O tempo foi passando e, é claro, eu cresci.
Passou o tempo, passou o ônibus, passou o Halley, mas eu não vi.
Aliás, perdi muita coisa.
E na insignificância de minha existência, ainda não fiz nada de muito importante.
Mas ao longo do caminho eu, errante,
aprendi que – como tudo – o muito importante
é muito relativo.
Mesmo assim, não entendo nada sobre a relatividade das coisas.
Para mim, ela é somente uma explicação simples pra tudo.
E talvez seja por isso que simplicidade resida nas coisas mais belas do mundo.
Mas peraí! O mundo não é complexo?
E existe coisa mais relativa do que as coisas mais belas do mundo?
Não, definitivamente! Não posso discorrer sobre a complexa relatividade de tudo.
Do belo, do mundo, de mim e de todos.
O paradoxo é inevitável.
Todos os caminhos são ruas sem saída.
Sei que minha história será apenas mais uma parábola.
Uma repetição de tudo que nasce, cresce, fortalece, reproduz, enfraquece e depois morre.
E assim, recolhida em minha finitude, ajudo a expandir o infinito circundante.
Explosões de constante mudança pulsam em mim agora e a cada segundo.
Nunca fui a mesma pessoa.
Nunca serei.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Fantasmas do Largo


Num dos casarões mal-assombrados do Largo da Ordem, num boteco sujo, mas muito bem frequentado pela freguesia de bêbados, artistas e burocratas das classes média e burguesa-decadente curitibanas, encontrei Ruan e Taiana. Era o fim de uma tarde sem vento, de céu carregado e um calor  intenso, incomum à paisagem.

Ruan era a mesma pessoa: baixo, jambo, invocado, mal-humorado. Taiana fisicamente não mudara também, baixinha, magrinha, bocuda, sorridente, dentes bem grandes mas alinhados, cabelos escorridos pretos, com franja. Casados recentemente, namoraram desde criança. Na época do colégio, viviam brigando e fazendo as pazes. E pelo que pude notar nesta ocasião, as coisas continuavam as mesmas. Ruan estúpido, Taiana sorridente. Em cada dentão de Taiana reluziam boas doses de paciência para com seu par. Ruan não fazia questão mesmo de ser simpático. Sua sinceridade às vezes irritava.

Agora já beirando os 30, as convenções da sociedade o tornaram um Ruan mal-humorado e meio mudo. Pra não ter que ser sincero, preferiu se calar, mas demonstrava no corpo uma certa indiferença forçada. Um desprezo pelas pessoas e pela mulher. Sentado assim, meio largado na cadeira, com um braço esticado alcançando o copo, e o outro apoiando a cabeça, dava pra ver que ele ainda era a mesma criança triste e enfadonha. Só que agora ele não dizia tudo que pensava e isso o deixara mais velho e um pouco calvo.

Taiana ninguém podia imaginar que passava dos 30. Seu sorriso pueril e rostinho anjelical enganavam bem. Eu nunca confiei muito nela, confesso, e além de paciência, via nos seus dentões sempre à mostra um quê de falsidade. Porque para mim não era possível alguém sempre estar feliz às sete horas da manhã fazendo fila pra cantar o hino nacional. Talvez eu tivesse inveja de sua disposição matinal. Talvez eu tivesse uma pontinha de ciúmes porque ela era bonita e tinha namorado, e eu era feia e todos caçoavam de mim e me chamavam de juruna, e porque eu, e não ela, era alvo das bulliers, amigas da minha irmã.

Talvez eu invejasse sua capacidade para comer e não engordar; ela sempre comia bom-bons, pipoca, salgadinho, e no almoço, daquele prato feito - salada, bife acebolado e uma montanha de arroz e feijão - não sobrava nada. Ela ainda trazia uma banana na lancheira e comia junto. Eu também devia ter inveja de ela gostar de salada e ter coragem de comer uma banana assim, na cantina, na frente de todo mundo. Eu tinha vergonha de comer banana porque sempre achei que juruna era um tipo de macaco e as pessoas iriam caçoar ainda mais de mim; assim, minhas bananas apodreciam na mala, embolorando meus cadernos e cartilhas, fazendo a professora, minha mãe e meu pai brigarem comigo.

Mas agora eu não lembrava dessas coisas, eu estava feliz por reencontrá-los assim, do nada, naquela tarde pesada e escura, naquele bar decadente frequentado por fantasmas do Largo da Ordem. Tomei uma cerveja com eles e trocamos frases feitas, fizemos perguntas retóricas como o que tem feito, tem visto o fulano?, você não mudou nada, quem te viu quem te vê, e conversa vai, conversa vem, copos de cerveja vazios, cheios, vazios, cheios, a noite foi caindo e as luzes se acendendo, aquela garoinha sem-vergonha deixando a tarde ainda mais surreal, indecisa agora entre o chumbo e o vermelho de um sol de outono prestes a nos deixar.

Vinte e poucos anos depois, e ainda assim sem assunto, nos pusemos a observar aquele véu de cerração que não molhava nada além dos paralelepípedos, fazendo brotar no chão um limo que ora ou outra quase derrubava o sujeito desavisado. Ruan olhava as pessoas distraído da mulher e de mim, e disse, com seu falar tsatsibissatsi, que asssim que alguém esscorregassse ele ia se levantar para ir ao banheiro. Foi uma das poucas coisas que ele disse sorrindo. E como não fosse mais possível, Ruan desistiu de esperar e foi ao banheiro, mas antes de alcançar os degraus do boteco, escorregou e levou um tombo fenomenal, daqueles patéticos, em câmera lenta.

De pronto eu e Taiana levamos um susto, tentamos segurar o riso mas não conseguimos, e ele ficou puto, não aceitou a ajuda dela para se levantar e foi pisando pesado pro banheiro. Na volta ele pegou a mulher pelo braço e disse que se visse ela se engraçar de novo pra outra mesa lhe dava uma surra, deixou uma nota de 50 e os dois se foram, ele andando rápido, ela correndinho atrás, olhando pra mim e dando tchauzinho, sempre sorrindo.

As luzes amareladas acentuavam ainda mais a neblina-quase-garoa curitibana, e o calor abafado fazia uma fumaça rala emanar dos paralelepípedos. Eu continuei ali, olhando os dois sumirem no Largo. Achei tão bonita minha cidade surreal, embaçada num sorriso sarcástico que no canto dos meus lábios se desenhava, como um alívio... alívio saudoso... de não mais fazer parte daquela cena, de não mais pertencer à paisagem que insistia em me apagar daquela mesa úmida. Alívio de naquele momento ter compreendido, numa epifania meio embriagada, que eu acabara de exorcisar os meus fantasmas do Martinus.