quinta-feira, 20 de março de 2014

Dolorosas Reflexões Após Chutão na Cara


Ontem na capoeira levei um chutão na cara, meus óculos por pouco não viraram lentes de contato. Pem. Do nada. Também, onde estava a minha guarda? Protegendo o lado de onde o chute não vinha, e do outro lado o chute veio. Doeu. Chorei e o berimbau parou. Todo mundo na roda se comoveu, tentou ajudar, ajudou, olhou e disse: não foi nada, põe gelo, toma um comprimido pra dor que passa. Oi sim sim sim. Oi não não não. Será que depois da primeira porrada a gente passa a levar mais porrada e esquece como era a vida antes sem levar porrada? Foi a vida que me chutou a cara ontem. De novo. Ta achando que eu gosto. Que sou masoquista. Será que sim, que sou masoquista? Será que gosto de ser subjugada, de só ouvir sem dizer nada, de dar o olho pro soco, sem fugir agachada, pra fora da possibilidade do soco? Talvez eu seja sórdida e queira só sofrer, porque pra ser masoquista não precisa ser perverso nem pervertido demais não. No fundo de toda alma cristã a gente sabe que só o sofrimento traz prazer. Por isso é que a tal estrada que leva para o céu, por ser demasiado estreita, está interditada, obstruída de homens, de gente sofrida, gente humilde, cada qual com sua cruz, no seu calvário, seu brejo da cruz, à toa na vida e imagina então na morte. Foi a vida que me chutou a cara ontem. Ontem que vadiei, que lavei roupa, que cozinhei, que afinei a viola, que estudei por uma hora, que calejei os dedos e deixei o indicador cheio de cortes de tanto fazer pestanas nas guarânias. Ontem que respondi e-mails e esqueci de mandar e-mails, que roí o esmalte das unhas, que não limpei a casa, nem tirei o pó, nem preparei as aulas, ontem porque não sofri nem fui muito útil, a vida resolveu me machucar. Pra sentir pulsando desesperadamente no meu peito essa culpa ociosa, presa, ferida e frágil, quase sufocada, quase arte, lastimavelmente implorando piedade, por favor uma chance. Esquecer não, esquecer nunca será o bastante. Sempre haverá vingança. Afinal o que é o juízo final senão a grande estrondosa vingança divina? E depois Deus e a natureza estão sempre se vingando da ignorância e da maldade humanas. E por isso, nem por ser bom ou ruim demais não, nenhum verso que eu escrever nunca vai retumbar ao longe, na cabeça dos transeuntes, nem vai soar distante, ou sobreviver ao tempo, pois como sempre o julgarei ridículo, o condenarei medíocre, o matarei antes que outro o mate. Jamais vou terminá-lo e como sempre, deixarei os fabulosos planos habitarem os sótãos de minha mente, e permitirei que outros, mais medíocres e motivados que eu, tomem meu lugar. Não os executarei nem ao menos pela metade. Tenho gelo no olho e tenho frio. Meus dedos estão roxos macilentos ressecados e sem vida. É primaverno ainda. Mas em abril sim, tudo pode melhorar. E ainda há esperanças.

Ps.: Este texto foi inspirado na poesia de Pessoa (que também tinha preguiça e questionava a religião), e cita o trecho mais "covarde" de seu "Poema em Linha Reta."

segunda-feira, 17 de março de 2014

¡Arriba Mexico!



Visitar o México foi uma das experiências mais incríveis que já tive. Claro que seria ainda melhor se mabeibe tivesse ido comigo. Mas eu estava bem acompanhada de minha amiga Elyzabeth – mexicana e professora de Espanhol na UNCC - e de uma amiga dela, Susy, de Querétaro. Juntas, las tres amigas percorreram Ciudad de Mexico, Veracruz, Puebla e arredores. Saímos de Charlotte na sexta-feira, 28 de fevereiro. Em apenas quatro horas de voo, desembarcamos no Distrito Federal do México. Para nossa surpresa, no aeroporto fomos recepcionadas pela torcida organizada do América, um dos maiores times do futebol mexicano. O craque Jimenez passou assim bem do meu ladinho! Aposto que muitas meninas futeboleiras adorariam estar no meu lugar! 

Ciudad de Mexico

Em Ciudad de Mexico ficamos hospedadas no Hotel Geneve, na Zona Rosa. A localização e o hotel eram excelentes. O hotel, em funcionamento desde 1907, é praticamente um museu, mas muito bem conservado. Tirando o wifi que não funciona direito, os quartos, a comida e os demais serviços são excelentes. E não sei se por razão ou consequência, mas desconfio que  "la sona róça" tenha esse nome por ser o bairro gay da cidade. É comum ver casaisinhos exibindo com orgulho sua homossexualidade por ali. Se você é muito puritano, conservador e/ou preconceituoso, evite a região para não se escandalizar. 


O hotel fica a duas ou três quadras do Angel de la Independencia (vide foto), um dos monumentos mais importantes na avenida Reforma. Na sexta exploramos os arredores do hotel, jantamos um carneiro na brasa delicioso, e fomos a um show de danças e música folclórica. No sábado compramos um ingresso para o Turibus e fizemos um recorrido dos principais pontos turísticos da cidade. Paramos no Zócalo (o centro histórico da cidade) e visitamos a Praça da Constituição à frente de uma enorme catedral e as ruínas do Templo Mayor. 


Ruínas do Templo Mayor, destruído para a construção da
gigantesca catedral no Zócalo de Ciudad de Mexico.


Depois seguimos para o Museo de Arqueología, atração imperdível e impressionante não apenas pela coleção de artefatos e obras de arte pré-hispâncas, mas também pela própria arquitetura do lugar. Depois, atravessando a avenida Reforma, visitamos uma espécie de "central park" ou "ibirapuera" mexicano. O nome do parque é Bosque de Chapultepec, e ali está El Castillo, uma fortaleza construída para, ou a mando de, o Imperador Maximiliano, hoje aberta ao público mediante a bagatela de 50 pesos, ou seja, pouco menos de 10 reais ou 4 dólares.

La Condessa e Coyoacán


Na entrada da pracinha de Coyoacán tem uma espécie de portal.
A praça é pelo jeito a balada mais forte da cidade!

Cansadas, seguimos de táxi para outro bairro agitado e histórico, La Condessa, e ali jantamos mariscos e tacos deliciosos num restaurante chamado La Morena. De lá pegamos outro táxi e fomos a Coyoacán, onde se pode visitar a casa/ museu de Frida Kahlo. Pena que chegamos e o museu já estava fechado. Mesmo assim, valeu o passeio: ali experimentamos sorvetes de sabores inusitados – que eles chamam de nieve – produzidos localmente, e vimos que mesmo estando tão perto da cidade grande, os mexicanos ainda conservam o modo de vida pacata de interior. De noitinha todo mundo estava na praça, famílias inteiras, casais de namorados, crianças brincando nos jardins da pracinha, artistas expondo artesanatos na calçada, vendedores carregando nuvens de algodão doce e de balões coloridos, e os restaurantes e bares ao redor com as mesas pra fora, lotados de gente... e conforme você vai andando, vai inalando aquele cheiro de comida, de tortillas, e vendo a diversidade do povo, e ouvindo o sotaque e os trejeitos da língua! É assim uma coisa fascinante!

Desastre em Veracruz

O famoso carnaval de Veracruz...

No domingo acordamos, desayunamos nossos huevos divorciados e fomos para o aeroporto, tínhamos um voo para Veracruz. Porém, mal chegamos, decidimos abandonar a cidade antes do programado por uma série de fatores. O primeiro deles foi o motivo pelo qual fomos pra lá: o tal carnaval veracruzano. Bom, eu particularmente não gosto muito de carnaval nem no Brasil, quem dirá em outros lugares "menos credenciados". Mas como estava à mercê da vontade das minhas amigas mexicanas, não tive outra escolha senão ir onde elas iam. Enfim, foi uma ideia infeliz. A cidade estava impraticável, as praias sujas, as ruas interditadas, quando não por policiais, por carros alegóricos, e por bêbados estirados no chão, a coisa era assim um pouco assustadora para três madames indefesas como nós. Fora o hotel que minha amiga reservou, que acho que foi o pior hotel que eu já dormi, o mais infestado de formigas e o mais fedorento e xexelento de todos. E mesmo conseguindo nos mudar para um hotel melhor no dia seguinte, na terça a Susy teve uma intoxicação alimentar e começou a passar muito mal. Por tudo isso saímos dali o quanto antes, e ainda assim achei que fomos tarde...


Puebla 

Los Sapos: um distrito artístico no centro histórico de Puebla

Em compensação, Puebla foi maravilhoso! Uma cidade pitoresca, de onde se avistam os vulcões Popocatépetl e Iztaccihualtl (quem quiser pode ler a lenda que conta a história desses dois vulcões aqui). Sua arquitetura conserva séculos de história nas igrejas, escolas, museus e monumentos. Fundada em 1534, Puebla foi uma das cinco principais colônias da Espanha, e hoje, além de um centro cultural, é um dos pólos industriais e a quarta maior cidade do país, depois de D.F., Guadalajara e Monterrey. Como D.F. e as grandes cidades brasileiras, Puebla também tem zonas pobres e feias, e muitos problemas estruturais devido ao rápido crescimento urbano: esgoto a céu aberto, trânsito infernal, poluição. Mas é uma cidade que está investindo muito em educação e no turismo: além do zócalo bem conservado, há uma série de museus, monumentos, bibliotecas, e espaços modernos como a imensa roda gigante com vista panorâmica 360 graus da cidade, um zoológico no estilo Bush Gardens, e parques completamente renovados. Na parte mais alta da cidade há os fortes de Loreto e de Guadalupe, símbolos de resistência, da força e da raça mexicanas. Foi ali que, sob o comando de General Zaragoza, os bravos soldados venceram o exército francês, então conhecido como o exército mais poderoso do mundo, na Batalha de Cinco de Mayo. E além de tudo isso, Puebla é a menina dos olhos da cozinha mexicana. Ali foram criados os pratos mais saborosos e tradicionais do país, como o mole e o chile en nogada. Mmmmm...


Comidas Típicas (pero no mucho)

O autêntico "mole poblano": franco ao molho de... chocolate!

O México é certamente um lugar que se conhece melhor pelo estômago. As cores, os aromas, e as texturas são de encher os olhos, as narinas, e a pança de qualquer um disposto a sair de sua zona de conforto culinário. Eu perdi a conta das bizarrices que experimentei: chapulines (grilos verdes fritos e condimentados com chile), guzanos (vermes encontrados debaixo do nepal), ova de formiga, salada de cactus, quesadillas com um tipo de fungo que dá no milho... sem falar nas doses de tequilas, mezcal, pulque, micheladas (cervejas servidas com limão e condimentos), margaritas e Buchanas... Certamente a cozinha mexicana foi um dos fatores que mais influenciaram a paixão que tenho por este país! E foi em Puebla que comi as coisas mais saborosas. Ali ficamos hospedados na casa de um casal amigo da Ely, o Adolfo e a Conchi. Conchi é uma cozinheira de mão cheia, e Adolfo um mexicano nato, daqueles com bigodão, botas de bico fino, jeans e cinto com fivela em forma de sombrero. Nunca comi, bebi, nem me senti tão bem recebida fora do Brasil como na casa deles. Inclusive, numa noite, fomos acordadas com uma banda de Mariachis nos fazendo serenata à beira da piscina! A serenata na verdade era para a filha da Conchi, Denise, que estava de aniversário. Tirando o susto de acordar à meia-noite com o cornetazo reverberando no pátio interno da casa, foi uma experiência maravilhosa ver tão de perto a emoção e o talento desses músicos!


Ah, a música! 

Ely e o organillero. Tem que saber girar a manivela,
senão a música fica um negócio descompassado e triste!


Por mais que o estilo não seja lá muito do meu agrado, não há como não admirar o sentimento e a musicalidade desse povo. Você anda pelas ruas e há música em todo lugar: seja na manivela dos organilleros tocando seus velhos realejos nas esquinas movimentadas do centro, ou no braços e nos dedos ágeis dos sanfoneiros e  no rasqueado das “guitarras”, na voz forte e determinada dos cantores, nos radinhos das carroças de vendedores ambulantes, nos velhos amplificadores de estabelecimentos comerciais, e até mesmo dentro dos ônibus, a música e a dança mexicanas estão por toda parte. Pra vocês terem uma ideia, em Coyoacán entramos numa igreja antiga e, para nossa surpresa, realizava-se um casamento. Mas ao invés do tradicional órgão tocando a marcha nupcial, tinha uma banda de Mariachis tocando músicas as típicas canções de amor mexicanas. Até o padre dançava! E no último sábado, em Ciudad de Mexico, assistimos à Orquestra Filarmônica de San Petersburgo tocando as sinfonias 1 e 2 de Tchaicovsky na praça. Como não conseguimos encontrar ingressos (esgotaram-se uma semana antes), assistimos tudo de graça pelo telão em frente ao local onde eles estavam tocando, o majestoso Palácio de Bellas Artes. Incrível ver a praça lotada de pessoas sentadas nas cadeiras e no chão, e um silêncio digno de auditório de teatro!


La Raza Cósmica

A teoria aparentemente inclusiva de José Vasconcelos
que celebra a mestiçagem, pode também ser interpretada
como proposta científica para eliminação da raça indígena

Roubo honestamente o título do ensaio de José Vasconcelos para iniciar esta breve observação sobre o povo mexicano. O México, como o Brasil, é um país mestiço. Além da mestiçagem original, que se deu com a brutal chegada dos conquistadores no hemisfério, há uma porção de outras misturas em andamento. A mais evidente, claro, resulta de uma inevitável influência da cultura western, principalmente americana, seja pela proximidade entre os dois países, ou pelo domínio econômico de um país sobre o outro. Incrível o número de Seven Elevens, Star Bucks, Mc Donalds e Burger Kings por metro quadrado em Puebla e em Mexico City. Mas talvez pela mesma proximidade que permite a invasão dos monopólios, pode-se notar também uma forte resistência, uma atitude de valorização e senso de orgulho histórico e estético, geralmente dirigido às raízes pré-hispânicas de suas culturas, na identidade mexicana. Ainda assim, foi possível entrar numa tradicional cantina mexicana em D.F. e ouvir uma inusitada dupla de roqueiros, um deles com fortes traços indígenas, tocando Creedence, AC/DC, Led Zeppelin, Beatles, Stones, Who, Animals e Kinks na guitarra. E sem dúvida eles tinham um aguçado senso musical pois quando alguém lhes pediu Roberto Carlos eles responderam, quase ofendidos: ¡No! ¡Roberto Carlos no! 


As Pirâmides Teotihuacán

Peguei essa foto da Internet pois ela dá uma noção mais panorâmica do lugar


Minha última aventura, já de volta à Ciudad de Mexico, foi uma excursão à basílica de Guadalupe, -- um centro de peregrinação, tipo a Aparecida do México -- à Praça dos Três Poderes, e às pirâmides de Teotihuacán. Teotihuacán é um município que fica a mais ou menos 40 minutos do Distrito Federal, e guarda verdadeiros tesouros arqueológicos: uma cidade inteira pré-hispânica, que sobreviveu à fúria católica dos conquistadores graças ao rápido declínio da civilização que ali habitara. Não se sabe bem o que levou Teotihuacán ser abandonada séculos antes dos espanhóis chegarem. Mas isso permitiu à natureza cobrir as pirâmides com vegetação, de forma que quando os espanhóis por ali passaram, não viram que as montanhas eram, de fato, pirâmides. Assim eles não destruíram as gigantescas estruturas para construir igrejas ainda maiores. Muitas igrejas que datam dos séculos XV, XVI, e XVII em D.F, Puebla e Cholula (uma zona arqueológica perto de Puebla), foram erguidas nos mesmos locais onde haviam pirâmides, e com as mesmas pedras. Teotihuacán – que em nahualt signigica “cidade dos deuses” – é uma feliz exceção.

¡Adiós, Mexico, y hasta prontito!

Música e baile folclórico na rua.

No fim foram onze dias de viagem e muitos lugares percorridos, mas não sei porquê... ficou a impressão de que tudo que fizemos foi pouco! Voltar é preciso. E da próxima vez vou com meu amor, é claro! Termino esta postagem com um breve apontamento que encontrei no meu caderninho de viagens (o verdadeiro diário de bordo é um caderno, viu gente): 

"Viver é uma oportunidade transitória que tenho de me relacionar com o mundo ao meu redor. Deve ser por isso que eu amo viajar. Quando eu viajo e vejo pessoas, paisagens, noites e dias passarem rapidamente por meus olhos, estou na verdade apreciando a transitoriedade de tudo, e principalmente, a efemeridade da minha relação com o mundo." 

É. Não é à toa que dizem ser a vida uma viagem! Bem, por mim, a vida pode continuar sendo não somente uma, mas muitas outras mil divertidas viagens! E até a próxima!