quinta-feira, 31 de maio de 2012

Boas Lembranças! Breve Homenagem a Nelson Jacobina

Nelson Jacobina e Jorge Mautner

Na minha curta carreria de "cantora MPB" tive a oportunidade de tocar e cantar ao lado de Jorge Mautner e Nelson Jacobina. Na época eu tinha uma dupla com Naína, e lindas e talentosas como éramos (e ainda somos, claro), encantamos grandes nomes da música brasileira, como Sérgio Dias dos Mutantes (que inclusive, produziu um single nosso, Outono), Chico César (com quem gravamos Pirulito, no CD/ Song Book do Braguinha), Jards Macalé. Tudo isso graças ao nosso mecenas, Odilon Merlin, que com ouvido e gosto musical afinadíssimos, sempre apostou na gente, nos promovendo em sua casa de shows, o Era Só o Que Faltava. Hoje veio de Odilon, via twitter, a notícia de que Nelson Jacobina, o tímido parceiro de Mautner, e genial compositor de Maracatu Atômico, tinha morrido no Rio de Janeiro.

Meu contato com Jacobina foi breve e passageiro. Resumiu-se a um final de semana prolongado, talvez de uns quatro dias, na Ilha do Mel. Eu e Naína fazíamos o show de abertura para esses dois mestres da música brasileira -- graças ao nosso outro mecenas, Helinho Pimentel, então dono da única rádio rock de Curitiba.

Eu nunca vou me esquecer do quanto me admirava ver os dois amigos (só parceiros musicais, ou também namorados?, eu me perguntava) na praia, fazendo uma espécie de meditação e alongamento. Não bebiam, não fumavam baseado, e sempre riam um do outro, e se alimentavam muito bem, eram assim uma espécie de últimos dos moicanos macrobióticos naturebas.

Na manhã antes de voltar pra cidade, observando o horizonte na praia, sentados na areia, conversávamos eu e Jorge Mautner sobre música. Enquanto isso, Nelson Jacobina fazia seu ritual meio ioga-tai-shi-shuan, a alguns metros afastado de nós. Eu, ignorante, pra saber mais sobre seu início de carreira, perguntei como foi, se foi muito difícil, se foi fácil. Ele disse que foi natural, que conhecia grande parte dos baianos e que essa relação inevitou sua entrada no mundo da música.

Pois olha, eu lhe disse. Meus tios também andavam com os baianos, um deles inclusive namorou a Gal. Eles chegaram a gravar vocais com Caetano, Gil e o pessoal da tropicália todo. Hoje só um vive, ou melhor, sobrevive, de música. E Mautner, curioso, me perguntou: quem são seus tios? E eu disse, Saulo, Saul, Batista e Bacana. Ele arregalou os olhos e perguntou na mesma hora: Bacana? Você é sobrinha do Bacana? Nelsô, chega aqui!

Jacobina interrompeu o ritual e veio correndinho em nossa direção. As ondas quebrando ao fundo e sua postura impecável davam uma cadência cinematográfica à cena. Ele então se agachou em nossa frente, de costas pro mar, franzindo a testa aumentada pela calva. Você sabe de quem essa menina é sobrinha? Perguntou Mautner. Ele ergueu as sobrancelhas esperando a resposta. Do Bacana! Lembra do Bacana? Nelson sorriu. E eles falaram do meu tio com muita admiração, e perguntaram por onde ele andava, o que fazia, etc. E eu me senti feliz, mas também frustrada, pensando que merda minha família é um desperdício de talentos natos.

Então uma hora da tarde, depois de pegar a balsa e atravessar para Pontal, um sol de rachar e a gente aguardando o carro que ia nos levar de volta, fui numa lojinha dessas de artesanato pra fazer hora. Nisso veio Nelson, pra fugir do sol também, e disse, com aquela serenidade que lhe era característica: que colar bonito! Eu concordei, ainda me olhando no espelho e admirando a peça feita de fio encerado, madeira e sementes. Ele então, sem falar nada, foi comprando o colar e uma presilha de cabelo no formato de peixe, tudo combinando, e me deu de presente.

O colar ainda vive. A presilha quebrou. E hoje a música brasileira perdeu mais um de seus grandes talentos. Mas essa lembrança ficou. A gente não manteve contato. Agora, sorrio aqui, com saudades, e penso: que sorte a minha ter tido a oportunidade de compartilhar a brevidade do tempo e o mesmo espaço ao lado dessa estrela que brilha mais agora em algum lugar do infinito.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Efeito Calado: Uma Visão Antropicalista da Música Popular Brasileira



Tropicália: A História de Uma Revolução Musical Brasileira é narrada com maestria no livro de Carlos Calado. Costurando biografias, análises de obras de arte, depoimentos, e muita muita música, o livro é uma fonte inesgotável de informação histórica em torno dos eventos que marcaram o crescimento das indústrias fonográfica e de entretenimento no Brasil ditatorial. Por tudo isso o livro de Carlos Calado é, antes de tudo, uma máquina do tempo capaz de nos transportar para o incrível anacronismo da nossa história político-musical. Uma descoberta incômoda para nós, consumidores mais críticos de qualquer arte, pré ou pós-tropicalista. Explico.

O livro narra como os jovens "tropicalientes" (não resisti, Calado nunca usou essa expressão, isso foi o meu lado latino aflorando na análise) eram ávidos por inovações ideológicas e estéticas que proporcionassem uma reflexão mais crítica a respeito da evolução da música brasileira. Conseguiram, mas não sem enfrentar a hostilidade tanto dos linha-dura da MPB, como dos truculentos militares. Ok, vocês dirão, mas todo mundo sabe disso. E esse é o problema! A gente tá careca de saber que a ditadura militar não entendia nada de música, e que a música popular brasileira não entende nada de inovação estética radical. Mas de uma forma ou de outra, o livro mostra que aos poucos, a MPB relaxa, goza, e até evolui. Afinal, os revolucionários de ontem não são a nata da MPB de hoje? Será que a MPB que evoluiu, ou os revolucionários que caretanearam? Um pouco dos dois, eu diria.

Hoje vendo -- ou melhor, lendo, via twitter -- Renato Russo sendo homenageado por uma leva desafinada de artistas, e testemunhando o renascimento musical dos anos 80 (inclusive, minha pesquisa é fruto dessa renascença!), cheguei à conclusão de que a MPB é uma ameba -- monocelular e sem forma definida. A MPB não é um gênero, é um conceito envolto em uma membrana formada por preconceitos. É um mito. É também um indicador de classe social. A MPB é exclusiva! Não só porque única, mas porque exclui tudo que não é digno de ser rotulado como MPB.

Mas enfim, a MPB, como uma ameba, sofre mutações, e abraça aos poucos, alguns corpos musicais estranhos, incorporando em sua monocelularidade primitiva novos gêneros, ritmos, sonoridades e instrumentos. A MPB é uma força repressora, que primeiro bate, depois resiste, depois se adapta e finalmente se transforma, mas sempre, sempre, se repete.

Eu que me proponho a olhar criticamente para as revoluções musicais brasileiras, noto que o grande erro da MPB sempre foi cativar seu ego autoritário e político. Mas isso é erro de todo brasileiro, goste você de MPB ou de rockinho inglês, eu, você, a gente é tudo frutinho madurinho do absolutismo monárquico do império. Ok, tô exagerando.

Agora, tudo bem que a partir dos 90 houve uma certa liberação tardia dessas amarras, aceitando-se certas inovações, mesmo que para favorecer tradições (ó, espírito autofágico tropicalista!). Nada de errado com isso. Nada de errado com as tradições. Mas o que me incomoda, é a repetição dos mesmos discursos. A gente, parece, não aprende. Analisa a música somente em termos de modernidade e tradição. Eu não gostaria que minha tese se resumisse à isso. Mas ó. É difícil não sair da mesmice. Continuarei tentando.

No mais, desvirtuei. Não me levem a mal. O livro do Carlos Calado é leitura obrigatória. Músicos e artistas jovens, principalmente. Se querem fazer a diferença, façam com que sua arte seja uma reflexão crítica do seu tempo, e não menosprezem o novo, nem condenem o velho, porque a arte, para ser completa, precisa se livrar de preconceitos, briguinhas bobas, regionalismos bestas.

Isso não significa perder o senso estético e crítico da arte, não se trata de ser eclético a ponto de indefinir seu (bom o mau) gosto artístico musical. Significa, antes de mais nada, nutrir um respeito (nem que seja distante) com outras formas de arte. Interesse para conhecer e incorporar elementos tradicionais da sua história com os da sua contemporaneidade. Em suma, tropicalizar. Assumir conscientemente que somos sujeitos históricos, e como tal, temos o dever de interferir nessa linha do tempo de forma crítica, mas positiva e, quiçá, revolucionária e inovadora.

terça-feira, 29 de maio de 2012

A queda



Hoje acordei cedinho, e de bom humor, que milagre! Desci as escadas para preparar um café especial pro meu marido antes de ele ir para o trabalho. Mas antes de chegar na curva meu pé virado revirou e bum bum bum, lá fui eu de novo pro chão. Dor filha da puta, dessa vez machuquei o braço esquerdo tentando me segurar no corrimão da escada, e a mão direita, tentando parar a queda no degrau. Meleca. Mas sobrevivi. Do chão não passei. E no fim, fora as dores, tá tudo no lugar. Só escrevi mesmo pra registrar que essa foi a milionésima queda na escada, e a trilionésima torcida no pé... fora isso, tô bem!


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Memorial Day



Hoje aqui nos EUA é feriado de Memorial Day: um dia para honrar a memória dos soldados que foram (e ainda estão sendo) mortos em tantas guerras. God bless America! Também uma nação de contrastes: o mesmo jovem que não pode beber até os 21, pode morrer na guerra com 18. Compartilhei essa foto no mural do meu Facebook para denunciar a estreita relação entre o falso moralismo dos incentivos à natalidade e os interesses ideológicos, políticos e militares, que no fundo, não passam de interesses econômicos. É proibido não fazer filhos, não produzir mais necessidades, mais cidadãos - civis ou militares - para servir nossas maquiavélicas máquinas ideológicas, econômicas e políticas! 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Last Day in L.A.

The Getty Museum: só pela arquitetura, já vale a visita

Infelizmente, nossos dias estavam contados em L.A. Sábado era dia de partir. Juntar as tralhas, sair do hotel até meio dia, e tentar percorrer mais alguns lugares imperdíveis: o J. Paul Getty Museum e The Grove -- um conglomerado de bares, restaurantes, lojas chiques, e inclusive, uma feirinha que aqui eles chamam de Farmers Market.

Chegamos no Getty Museum pouco antes do meio dia. Meu mau "humouro" já estava à flor da pele, mais especificamente, à flor da pele do meu pé direito, por causa da dor. E quando eu vi o tamanho do museu eu disse pro Bruno ah não, eu não vou caminhar pelo museu a pé, porque depois de noite a dor fica insuportável, e ter que enfrentar aeroporto com dor, e não conseguir dormir no avião por causa da dor, ah não, eu não! E assim que desembarcamos do trenzinho elétrico que sobe a ladeira até chegar no topo da montanha onde fica o museu, solicitei uma cadeira de rodas e eles deram! Não precisamos pagar nada.

Foi muito engraçado a gente percorrendo o museu com o Bruno me empurrando na cadeira de rodas. As pessoas nos sorriam piedosas e abriam alas e saíam da frente pra eu olhar as obras: Monet, Manet, Van Gogh, Renoir, Toulouse Lautrec, Goya, entre muitos outros artistas europeus renomados. Foda foi aguentar o Bruno me chamando de Aleijadinha, e me ameaçando jogar das escadas, que eram muitas!

A coleção de arte do Getty é variada, tem alas só de móveis e objetos de decoração desde a idade média até a renascença. Tem uma exposição maravilhosa de fotografia. Outra de desenhos. Tem um instituto de pesquisa e de conservação de obras de arte. E claro, tem a paisagem, e a própria arquitetura do lugar, tão moderna, clara, imponente. Gastamos quase a tarde inteira lá e já eram mais de cinco horas quando saímos para o Grove.

Uma das vielas charmosinhas do The Grove


The Grove é um centrinho meio histórico e moderno, super hipster, com música e performances artísticas, lojas chiques, restaurantes descolados, chafarizes, jardinzinhos, até um bonde passa por lá! Jantamos numa barraquinha de comida italiana no Farmers Market, escutando uma banda estilo bluegrass (mas sem banjo, se é que isso é possível). Depois tocou uma outra banda, de blues. Lá pelas nove da noite fomos pra downtown. Eu tinha sido gentilmente convidada no dia anterior a comparecer a uma festa de aniversário de duas estudantes da UCLA que conheci na conferência.

Under the bridge downtown...

O barzinho onde estava rolando a festa, Las Perlas, era especializado em tequilas e mescais. O pub era muito legal, não muito grande, e todo decorado com Chican@ Art. Cactus, caveirinhas, Nossas Senhoras de Guadalupe, flores, garrafas, chapéus. As paredes eram verde-água, o banheiro era cor-de-rosa, todas as coisas tinham umas cores meio esdrúxulas, mas de certa forma davam um senso estético que fazia todo sentido naquela hora.

A vista do balcão do Las Perlas.


Tomei duas margueritas e o Bruno uma coca-cola, curtimos a festa até às onze e pouco, nos despedimos e saímos rumo ao aeroporto. Que pena, bem quando a festa estava ficando tão boa!

Algumas informações (in)úteis:

  • Músicas que não saíram da minha cabeça: California Dreaming... Garoto eu vou pra California viver a vida sobre as ondas... Eu já tenho um Cadilac, moro aqui em Hollywood, sou o rei cantando mambo. Mambo! Mam! Bo!
  • O que mais tocava nas rádios e dentro dos estabelecimentos comerciais: Red Hot Chili Peppers
  • Músicas incompatíveis que a banda de bluegrass sem banjo tocou: Viva la Vida, ou algo assim, daquela banda chata bragarai, Cold Play, e Can't Buy me Love, dos Beatles.
Algumas observação (in)cômodas:
  • Pela primeira vez que eu vi o mundo sob a perspectiva de um cadeirante. As obras de arte obviamente ficam numa altura inadequada se quiser ver a obra de perto, e a luz incide de maneira que a contemplação de algumas telas fica comprometida. 
  • Manobrar uma cadeira de rodas exige muita força e destreza. Parece tão fácil, vendo aqueles jogadores de basquetes nas Para Olimpíadas! Mas não é. E, acima de tudo, impossível não se sentir uma estranha, dependente, e um estorvo, diante de tanta piedade das pessoas, e do esforço de quem te empurra pra lá e pra cá, abre a porta, segura o elevador, tira foto, e faz tudo pra você. 
  • De noite passamos por um monte de moradores de rua em barracas (iglus) armadas ao longo da calçada, no centro da cidade. Cheiro de fumaça e urina. Muito chocante ver aquela pobreza escancarada, depois de ter visto tanta neighborhood maquiada, perfumada e perfeitinha. 
Assim, nosso California Dreaming was over. Aaahhh... que triste, né? Ná. Nem tanto. Afinal, não há melhor lugar que o nosso lar. E outras aventuras logo virão. Quem viver, lerá. 


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Sexta-Feira Farta



Experimento 1 - Gastronomia

Sexta de manhã acordamos e fomos tomar um delicioso café da manhã no Alcove Cafe and Bakery. O Alcove, nas palavras de José Emílio Rondeau,

...fica num casarão duplex de 1919 e é favorito entre os chamados “industry types” – gente jovem que trabalha em cinema, TV e música, na frente e detrás das câmaras. A grande atração – apesar do ótimo almoço – é o café-da-manhã, servido até 14h30 nos fins de semana. Mas chegue cedo, porque a partir das 9 já existem filas e senhas para uma das mesinhas al fresco e à sombra de um guarda-sol num jardim impecável. Vale a espera por omeletes que você customiza e panquecas de batata cobertas de salmão defumado. Anexo, você encontra a Village Gourmet, uma deli estocada com uma variedade de saladas prontas, enlatados, azeites e vinagres do mundo inteiro, vinhos e uma das melhores seleções de queijos e azeitonas de toda Los Angeles. 
Como não era fim de semana, não precisamos de senha nem enfrentamos fila de espera. Pudemos escolher uma mesa no terraço, à sombra de um guarda-sol, com vista para o jardim. Aguardamos por nossas omeletes enquanto observávamos os jovens "industry types," cada qual com seu próprio "file"(pastas de papel cartão com sei lá o quê dentro: uma fala? Um currículo? Um questionário? Eu me perguntava) e seu estilo único, apesar de que portavam mais ou menos as mesmas coisas: a pasta, um i-phone ou um i-pad, e um amigo, ou amiga, gay. Interessantíssimos esses industry types. Simpáticos, sorridentes, falantes, articulados, bem vestidos, maquiados, penteados, L.A.gantes, nos trinques! Mas em questões de L.A.gância e gL.A.mour, the Oscar goes to... The bathroom!



Que banheiro mais lindo, aliás, a decoração em geral, tal qual o jardim, é impecável. E o Oscar de melhor ator vai para... O sol! Que brilhava no céu azul sem abafar a brisa que soprava leve, proporcionando um clima de agradável perfeição. Aplausos! Aplausos! 

Experimento 2 - História, Língua, Cultura

Depois deste saboroso e sofisticado brunch Bruno me deixou na UCLA para outro dia de conferência, e foi passear. Esse dia tive o prazer de conhecer Armin Schwegler, um "natural born linguist." Schwegler compartilhou conosco um exemplo fascinante de poder, resistencia e transformação em San Basilio de Palenque, na Colômbia. Hoje patrimônio tombado pela Uniesco, Palenque nasceu de um quilombo: lugar para onde os escravos fugitivos se escondiam e se organizavam para resistir o domínio branco e europeu.



Até hoje, Palenque existe e preserva seus costumes e seus ideais de liberdade. Resistem à tendência miscigenadora da latino-américa, casando-se apenas entre eles. Resistem ao sistema capitalista de industrialização e urbanização, mantendo seus modos de subsistência rural e recusando-se a ser empregado ou empregador de alguém. Resistiram ao domínio da língua espanhola, criando mesmo uma outra língua. Recentemente, Palenque foi ameaçada pela guerra do narcotráfico. As FARC e as forças do exército estavam invadindo as cercanias do povoado, provocando a morte de alguns palenqueros. E mais uma vez -- através de negociações e muitas manobras políticas -- defenderam seu território, fazendo com que a guerrilha se mudasse para outros campos de batalha. Até Obama entrou na história. Em tempos de globalização, a modernidade transformou Palenque em atração turística internacional. Mas ainda assim, há um esforço para manutenção dos costumes e, inclusive, preservação da língua e da raça.

Outra palestra maravilhosa foi a do Fernando Arenas: um olhar sobre a influência da cultura africana nas produções culturais Portuguesas do século 20: música, literatura, cinema. Fernando Arenas é um historiador de renome aqui nos States, especializado em culturas africana, afro-brasileira e afro-portuguesa. Triangulando suas pesquisas entre Brasil, Portugal, e África, Arenas foi para mim a grande descoberta desta Conferência. Além de uma pessoa cativante e inteligente, seu trabalho e seus conselhos expandiram minhas ideias de explorar novas metodologias e ampliar minha área de pesquisa.

Experiência 3 - Faça arte, não faça guerra.

De noite, fomos ao famoso Kodak Theatre para assistir ao espetáculo Iris, do Cirque du Soleil. Uma super-produção maravilhosa, envolvendo cinema, música, dança, malabarismo, acrobacia, mágica, tecnologia, intrigas e história de amor! Não tem o que falar, palavras não conseguem traduzir tudo que a gente vê nesse espetáculo. Mesmo porque nossa íris nem consegue captar tudo que se pode ver nesse espetáculo. É um espetáculo! Um espetáculo!



Tampouco tem foto pra mostrar, tirar foto é completamente proibido. Só vendo, mesmo, pra acreditar. Arrepia, dá nos nervos, cai o queixo, dá medo, dá vontade de rir, de chorar, e principalmente, vontade de ver tudo outra vez, por outro ângulo.

Este é o segundo espetáculo que vejo do Cirque du Soleil, e pela segunda vez tive a mesma sensação, de que os corpos daqueles artistas são máquinas que desafiam quaisquer limites. E também novamente pude constatar que sim, a raça humana ainda pode produzir coisas incrivelmente boas, capazes de despertar em nós um profundo amor pelo próximo, pelo belo, pela vida, pela arte, pelo artista.

É um misto de agonia e admiração que me invade quando vejo se retorcerem e formarem ângulos inacreditáveis aqueles corpos perfeitos, e tão contraditórios: fortes e frágeis. Maleáveis e rijos. Musicais, musculosos. Bailarinos, malabares, atores e atrizes, trapezistas, todos eles são verdadeiras esculturas vivas, paradoxais. Seus rostos brilhantes de sorrisos e suor. Juntos, cada um deles forma um imenso organismo dinâmico, colorido e pulsante. A esse organismo, dá-se o nome Cirque du Soleil.

Ver o Iris (assim como ter visto o Love em 2009) é experimentar a arte em sua forma mais lapidada, talvez até superior, e certamente mais sublime. Uma pena que são poucos os que podem conhecer essa emoção. Com o preço absurdo dos ingressos -- mas vejam, vale cada centavo! -- somente as classes mais privilegiadas podem se dar ao luxo de assisti-lo. Isso sim me dá uma tristeza. E eu ainda acho que espetáculos do Cirque du Soleil poderiam dominar o mundo.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Quinta Acadêmica

Conferência na UCLA: Power, Resistencia & Transformação

Quinta era o primeiro dia da conferência. Cheguei na UCLA cedinho pra socializar um pouco antes das apresentações. Logo de cara conheci dois dos organizadores - Daniel e Mariska, e depois outros: o Julio, a Inês, o Armando, o Bryan, a Amber, a Jhonni. Todos muito simpáticos, literatos, poliglotas, linguísticos, falantes de inglês, espanhol, português, russo, uf! Sem dúvidas aquele era um departamento de línguas.

Minha apresentação era a última do dia, e foi me dando um nervosismo tanta espera, porque todas as apresentações pareciam ter sido mais apresentáveis do que a minha. Eu não tinha power point animado, e não tinha uma caneta laser pra apontar coisas no telão, tudo que eu tinha era eu, meu sorriso amarelo, minhas bochechas vermelhas, e um paper de 20 páginas transformado em 8 pra resumir em 15 minutos!

Enfim, selecionei algumas informações pra dar uma ideia da minha pesquisa, e um video clipe que não deu tempo de mostrar porque eu falo demais. Ó! Que fracasso, eu pensava. Oh well! Mabeibe acha que eu sou muito defeccionista (i.e., boto defeito em tudo). O mais importante é que a missão foi cumprida. Compartilhei minha pesquisa, recebi bons conselhos e feedback positivo da audiência. Quando acabou, ufa! Pela primeira vez nessa viagem eu pude relaxar de verdade e me sentir de férias!

Alfabeto Lunar, de Leandro Katz. 

Houve uma apresentação interessantíssima de um artista argentino, Leandro Katz. O trabalho desse homem é fenomenal. O cara mistura fotografia com astronomia, poesia, Chê, história Latino Americana,  antropologia, e faz instalações incríveis e constrói frases lunares! Sim, FRASES da lua. Um velhinho talentoso, de olhar tranquilo, mente sagaz e sorriso simpático!

De tardinha, passeamos pela Westwood -- a bela neighborhood da UCLA, onde entramos numa feirinha e comemos sushi. Teria sido mais gostoso se o garçon não tivesse derramado coca-cola na nossa bolsa, e se o sushi que o Bruno escolheu não tivesse sido aquele, ruim de fazer careta!

Ai, ai! Eu tava tão podre e não sabia. Mabeibe, me leva pro hotel? Sim ele disse, e curtimos uma jacuzzi quentinha, com borbulhas de amor ao pôr do sol, e comigo cantando:

Quem dera ser um Panda...

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Quarta Musical

L.A. é uma cidade enorme, cercada por mar, montanhas, e muitos outros antros de beleza, de fama, arte, música, teatro. Malibu, Santa Monica, Beverly Hills, Hollywood, são  apenas algumas cidades satélites que orbitam em torno de L.A. Aos poucos, meus ouvidos moucos foram se acomodando aos ruídos graves -- sim, eu tentava explicar pro Bruno como cada cidade tem um tom -- de Los Angeles. Demorou dois dias para eu me acostumar. É que assim, logo de cara, depois de San Diego, L.A. me pareceu pouco intimista, muito extravagante e grande demais, exigente demais, obstruída, ocupada demais. Foi quando nosso querido Zé Emílio Rondeau, que passou anos de sua vida aqui (digo lá) em L.A., me advertiu: "Curta L.A. com carinho que ela responde bonito." 


Vista de Downtown L.A.

Rondeau -- jornalista, filmmaker, escritor e produtor -- já tinha nos mandado uma lista de coisas imperdíveis pra fazer em L.A.  A lista, que foi publicada para um público mais amplo numa dessas revistas famosas, foi sendo "customizada" via facebook. Conforme eu ia postando algumas fotos no meu mural, Rondeau ia comentando e provocando: "Se não forem na Amoeba você e Bruno são mulher do padre." Assim, com um guia turístico personalizado nos dando dicas lá do Brasil, começamos a desbravar as delícias de L.A.

A calçada toda cravada de Grammies 


Iniciamos nossa quarta-feira visitando o Grammy Museum, que para mim, usando as palavras de Cazuza, foi um museu de grandes novidades. De caráter completamente tecnológico, educacional e interativo, o Grammy Museum dá uma verdadeira aula de indústria cultural. Além das linhas do tempo e dos mapas de epicentros musicais -- programas desenvolvidos com tecnologia touchscreen para contar com música, fotos, fatos, a história da música mundial e americana -- o museu tem figurinos, instrumentos, equipamentos, documentos, tem tanta coisa que em um dia só fica impossível curtir tudo.

Love when Mabeibe smiles!


Antes de seguirmos nossa excursão musical, aproveitamos para almoçar em um restaurante simpático que ficava entre o museu e o estacionamento onde deixamos nosso Jeep. Bruno pediu um hamburguer e eu uma salada muito esquisita, com folhas baby, frango, laranja, cenoura, e castanha de caju! E o molho era doce. Com a fome que eu estava, comi tudo e achei uma delícia. Ao fundo uma movimentação de câmeras, luzes e muita ação. Era a produção do programa American Idol, se preparando para mais uma seleção de futuros artistas potenciais. Quase me inscrivi. Haha. Claro que não. No, no, no. I don't wanna be the next American Idol (minha próxima música).

Nos bastidores do American Idol

Depois do almoço fomos para a Amoeba, uma loja (e também uma gravadora) imensa de discos, CD's, até fita K-7, filmes, fotos, revistas, livros, tudo, mas tudo mesmo, sobre música. A loja é um galpão enorme, você entra e tem vontade de ter um ataque, porque sabe que será impossível sair de lá com tudo que você gostaria de levar sem fazer um rombo na sua conta bancária. Como a gente já tava meio pobre, compramos somente um box dos Stones com 3 CDs e um livro. Tivemos que decidir entre esse e o box do Velvet Underground e outro do Bob Dylan. Ó, dívida cruel. (Ps.: dívida mesmo, porque dúvida não, qualquer um que levássemos teria sido uma boa compra).

Amoeba Records: uma perdição de achados musicais

Da Amoeba seguimos para a Guitar Center, a original, a maior de todas, que conta inclusive com sua própria calçada da Fama. A loja por dentro -- tirando o anfiteatro e o número absurdo de guitarras em exposição -- se parece com todas as outras. Eu já tinha me esquecido como me irrita entrar nessas lojas de música aqui nos States. Primeiro porque aqui você pode tocar qualquer instrumento. Isso não seria um problema se a maioria das pessoas que testam os equipamentos não fosse um bando de amadores sem o mínimo talento, que só sabem tocar o rife de Sweet Child of Mine - o novo Stairway to Heaven. É uma cacofonia insultante de clichés musicais. Então demorei pra entrar. Fiquei encaixando minhas mãos nos moldes das mãos de grandes guitarristas e depois me enfiei lá na última sala de violões clássicos, e fiquei matando minha saudades de tocar violão até dar a hora de ir embora.

Mãos nas mãos do guitar hero da minha juventude, Slash!

Fim de tarde fomos para o Griffith Observatory ver o sol se pôr! Dentro do observatório tem muitas coisas interessantes, como um Pêndulo de Foucault, e outros equipamentos e experimentos científicos muito malucos. Eu, na minha ignorância astronômica, não fazia ideia de que Foucault era um físico e que o pêndulo era um experimento para comprovar a rotação da terra sobre seu próprio eixo, oh well, nem sei se é isso mesmo. Mesmo depois de ler a respeito, ainda não consegui compreender como o pêndulo funciona. Segundo a Wikipedia:

Domo de um dos telescópios abertos para visitação


Sem se levar em conta a rotação da Terra as equações do movimento são as do pêndulo simples, ou seja: \left \{ \begin{matrix} x'' = - \omega^2 x\\ y''= - \omega^2 y \end{matrix} \right.
onde ω é a oscilação própria do pêndulo simples, ou seja:
\omega = \sqrt{g/l}
Entenderam? Não? Tst, tst, tst... pô, gente, é um pêndulo simples! Hahahaha. Ta bom. Eu confesso, também não entendi lhufas!

Pôr do Sol em L.A.


O mais legal do Griffith Park é que você consegue ver a cidade inteira numa vista panorâmica de perder o fôlego.

Quiz: quantas cores tem um só horizonte em L.A.?


Além do quê, a gente pôde entrar num daqueles domos de astrônomo, e ver Venus pelo Telescópio! Foi lindo! Assim, no Griffith vimos L.A. anoitecer lá do alto, e de lá pudemos constatar: que cidade linda! Que lugar maravilhoso! Que vontade de ficar aqui!

The City of Angels...


Não tem como não se apaixonar por uma cidade que anoitece assim... com tantos tons... com tanto céu, com tanto mar, com tantas luzes, e com tantos lugares lindos como esse. Daqui também tivemos uma das melhores vistas do famoso letreiro de Hollywood, que pode ser visto de longe, de vários pontos da cidade. Não sei se alguma das trilhas do parque nos levaria até ele, mas com a minha pata injuriada, nem pudemos percorrê-las. Fica pra uma próxima!

Olhem só o meu gL.A.mour!


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Programação para Terça em L. A.

MANHÃ:

Acordar a tempo de pegar o café da manhã do hotel.Arrumar-se pra ir passear na praia em Santa Mônica.



Caminhar na praia que nunca acaba até chegar no mar.
Pacificar os pés na água.
Lembrar sem querer daquela música piegas: O seu nome eu escrevi na areia...
Desistir de escrever seu nome na areia porque enfim, que coisa mais brega!
Passar debaixo do píer e tirar a música brega da cabeça com outra menos brega.
Cantarolar com voz caricata o refrão mais surf do planeta: Under the board walk, board walk!


Subir no píer com a pata pedindo água.
Caminhar no píer.
Ver um parque de diversões falido.
Simpatizar com alguns artistas decadentes, psychic readers, com um mundo artístico de fracassos, que vive no píer trocando arte por alguns tostões e muito desprezo por parte da maioria dos transeúntes.
Lembrar da bossa triste: tristeza não tem fim, felicidade sim...
Contrastar o fracasso do píer de Santa Mônica com o sucesso das praias privadas de Malibu.
Percorrer 27 milhas de paisagem cenográfica natural.


Descobrir uma praia particular por acaso.
Almoçar com possíveis drug lords e outros magnatas no Paradise Cove.



TARDE:

Lembrar que esqueceu o protetor e ir direto pra farmácia.
Chegando na farmácia, comprar:

  • 1 protetor solar
  • 1 piranha de cabelo
  • 1 chapéu

Recusar-se a pagar 7 dólares por uma mísera piranha, e 50 dólares por um chapéu meio feio.
Voltar pra casa e:

  • Bruno: dormir para repor as energias.
  • Xanda: botar o pé pra cima; ler, escrever, planejar, estudar, treinar pra conferência. Acordar Bruno com cafuné.

NOITE:



Desbravar L.A.
Caminhar pela calçada da Fama
Percorrer as famosas Boulevards, Sunset and Hollywood, Rodeo, Vermont Ave, etc.
Entrar numa lojinha chinguilingue pra comprar souvenirs e roubar - sem perceber, sem lembrar - uma pulseirinha linda de strass que custava cincão.

Ir no Fred 62, seguindo recomendações do L.A.xpert - Zé Emílio Rondeau, for a late dinner.




MADRUGADA:
Ter pesadelos com cenas Hollywoodianas.
Mãos ao alto! Isso é um assalto! Me dá essa pulseira, vamos logo! A pulseira!
Tá bom, tá bom, claro, fica calma! Leva a pulseira, toma aqui o relógio, leva o chapéu, esse chapéu vai ficar lindo em você! E a mercedes, toma, leva também a chave da minha mercedes.

Mercedez! Mercedez! Escuto vozes no corredor.
Ai, ai, já é de manhã... e eu ainda preciso atualizar a quarta-feira no blog.


Segunda, 14 de maio de 2012



Segunda era dia de acordar e botar o pé (manco) na estrada. San Diego amanheceu tranquila, meio cinza e silenciosa, nem parecia dia de semana. Depois de arrumarmos as tralhas, saímos tomar café da manhã numa padaria moderninha retrô. Minhas dores no pé se alastraram perniciosas pela perna e pelas costas e então fomos, eu e Bruno, fazer...

Uma Hora de Massagem Oriental



A massagem em San Diego foi uma experiência curiosa. Ao entrarmos naquela portinha, todo um mundo relaxante se revelou diante de nós. Uma garota sorridente nos recebeu. Sempre sorrindo, nos abriu outra porta, atrás da qual outro mundo, mais aconchegante e mais escuro, nos aguardava.

Era um vasto quarto comprido. Enfileiradas ao lado direito, umas vinte camas de massagem. Um buda gigante meditava à meia luz ao centro. A trilha sonora era um misto de Oriental World New Age Music. Duas ou três pessoas já estavam ali, sendo massageadas por massagistas dóceis e simpáticas que nos sorriram na penumbra, enquanto passávamos em direção às nossas macas.

Deitamos onde a mocinha primeira nos indicou para que nos deitássemos, e aguardamos. Logo dois orientais vieram sérios, muito sérios, em nossa direção. Eles vinham segurando um balde, e tinham mãos enormes e braços musculosos. Enquanto eu levantava a barra das calças, eu tentava explicar pro Samurai:  meu tornozelo estava torcido, olha ali, era pra tomar cuidado.

O Samurai me olhava como quem não entendia nada, me respondia algo inteligível em sua língua rosnada, e eu não fazia ideia se ele era Chinês, Japonês, Coreano, Vietnamita, eu e minhas ignorâncias étnicas e linguísticas. Eu pensava: por que diabos Samurais são tão sérios, e as Gueixas tão dóceis e sorridentes? E tive medo.

Depois de afundar meus pés no balde, Samurai sentou-se na outra extremidade na cama. Colocou os dois polegares bem onde começam minhas sobrancelhas e apertou tão forte que senti meu crânio tocar o cérebro. Ele apertou vários pontos da cabeça, e atrás da orelha, nas juntas do maxilar, no eixo do queixo, atrás do pescoço. Foi pressionando de tal forma e com destreza tal que comecei a enxergar estrelinhas e ondulações na parede. Depois, numa atitude totalmente oposta, fez um carinho nas minhas bochechas. Coçou meu ouvido. Fez cafuné. Cheguei a sonhar que estava pensando. Acho que dormi. Quando acordei ele estava alongando as minhas pernas, e torcendo meu pé torcido - urrei de dor. Depois foram só gemidos. Bruno não sabia se eram de prazer, ou muita dor.

Uma hora depois, o mundo exterior brilhava e já não estava mais tão cinza, seguimos felizes e massageados para o momento mais frustrante das viagens: dizer adeus. Nos despedimos de Amy e do Daylon, e da Pearl, e fomos.

Pear pensava: Ai, até que enfim! Saco cheio desses dois.



Rumo à L.A. 

Pegamos a Highway 5 rumo ao norte, e depois a Highway 1, que era mais na costa. De um lado, o mar. Do outro, deserto. Paisagem árida, vegetação seca, rasteira. Risco de incêndio: baixo naquele dia. Assim,  beirando o Pacífico chegamos em Laguna Beach, onde almoçamos peixe e camarões, com o som azul do mar ao fundo.



Comemos e logo seguimos viagem pois eu tinha que chegar a tempo para o primeiro compromisso: entrevista na Kill Radio, durante o programa Culture Remixed (os que me acompanham já devem ter lido as cenas das postagens anteriores).

Ilustração de um dos convidados de Julian Felix para o Culture Remixed na Kill Radio

Aqui acrescento somente que a experiência foi aterradora e gratificante. A killradio fica num lado meio obscuro da cidade. O prédio, antigão, cheirava a mofo. Entramos no hall abandonado e subimos as escadas. No segundo piso, um corredor povoado de portas. Uma clínica decadente de dentista, uma clínica de consultas espirituais, um escritório de alguma coisa clandestina, e na última porta, a rádio.


www.Killradio.org

Acho que para um primeiro programa de rádio em outra língua foi oááátimo, e considerando a correria das últimas semanas do semestre, então, foi lindo! Depois fomos jantar com o produtor do programa, Julian Felix. Saboreamos um curioso churrasco coreano, onde a carne é assada na sua frente, e picotada com tesoura!

Korean B.B.Q.

Depois voltamos pro nosso hotel, onde enfim Californicamos e dormimos profundamente.

terça-feira, 15 de maio de 2012

ATENÇÃO!

Interrompemos a programação para informar aos naufragantes: 

A entrevista que foi ao ar em 14 de maio de 2012 em Los Angeles já está disponível para download.

Clique AQUI para escutar.
A primeira entrevista em Élei, e em inglês ainda por cima, a gente nunca esquece. Nem se a gente quisesse, a tecnologia não deixa. O programa é grande e toca um monte de música doida. Quem tiver tempo, ouça, quem não tiver, vai lá fazer o que vc tem pra fazer, vai!

O Julian Felix, que me chamou pra essa entrevista, fez uma seleção de músicas eletro-funk-bossa-bass e eu fiz uma seleção de bandas e artistas curitibanos que começam com C.

Toquei: Caio Marques, Cassim e Barbária, Crocodilla, Cosmonave, Criaturas, Carlos Careqa. Cris Lemos, minha irmã amada, não sei como fui deixar você de fora. Mas em breve você e outras atrações que não começam com C estarão na programação da www.killradio.org. Palavra de Panda (cruzando as patas e dando um beijinho em gesto juramentado).

Old Town: "the birthplace of California"



Uma ova! A história oficial gosta de se basear em datas, mas principalmente, gosta de frases de efeito. A história oficial é sempre a que prevalece. E é sempre narrada do ponto de vista do conquistador. E assim, Old Town se orgulha de ser um marco importantíssimo no processo de colonização do Novo Mundo. Pois ali se deu o nascimento da República da California. Os nove mil anos de vida e sociedade indígena antes da chegada dos conquistadores são simplesmente removidos do epíteto do lugar. Mas sua cultura e e as nossas memórias falsamente construídas com ajuda da indústria cultural de massa, fazem como que os estereótipos hollywoodianos valham alguma coisa, afinal, aqui estou eu reclamando desse "pormenor" histórico. Ah, a hegemonia de Gramsci. Domingo é um ótimo dia para compor uma canção sobre Gramsci, depois de um lindo passeio por esse ponto turístico onde cada esquina tem uma história contada, e outra omitida.


A República da California nasceu bem ali, em 1769, quando um padre (sempre tinha um padre envolvido nessas atrozes políticas de conquista) chamado Junipero Serra fundou a primeira missão colonizadora nesta região. Em 1820 já existia por aqui uma comunidade propriamente mexicana, que foi emancipada à condição de "pueblo" -- El Pueblo de San Diego. Depois, em 1846, quando trilhos de trem já estavam cruzando o continente de leste a oeste, e o domínio da tecnologia funcionava como nova arma para subjugar os povos, nova guerra, e nova invasão branca, terminou a saga da conquista. É claro que a história é muito mais complicada (e mais interessante) do que isso. Quer saber mais? Vá ler um livro.


Visitar Old Town em San Diego é uma experiência fascinante, um quadro vivo do hibridismo cultural da California, com seus índios, mexicanos, americanos, chinesinhos, e mais uma variedade de turistas. Vi brasileiro, vi francês, vi alemão, Old Town é uma babel de povos e línguas e cheiros e sabores, e um contraste entre passado e presente. A paisagem é remota. As pessoas pós modernas. Depois desse passeio maravilhoso, voltamos pra casa e tomei algumas Margueritas - esqueci de dizer que a Amy é a melhor marguerita-maker de todos os tempos - e compusemos uma música pro Gramsci e depois, sinceramente, amigos, eu não lembro mais de nada!

Sábado em San Diego

12 de Maio. Depois de uma noite estranhamente mal dormida e povoada de pesadelos nerds de fim de semestre - tipo: onde estão as provas dos meus alunos? Tirei um B na minha aula de U.S.-Mexico Borderlands! - acordei ofegante com as fungadas fortes de Pearl na minha orelha. Tomamos um café da manhã delicioso que Daylon e Amy nos prepararam.




Depois de todos satisfeitos e de banhos devidamente tomados, fomos ao San Diego Zoo, o maior zoológico da California e um programa imperdível para quem está visitando a cidade. Amy e eu parecíamos duas crianças felizes: olha a girafa! Olha o elefante! O coala! Os flamingos! O hipopótamo! O urso polar! O tigre! O canguru! Oh, come on, canguru, você não vai pular um pouquinho só pra eu ver? Eu perguntava enquanto o canguru não me dava a mínima e se espreguiçava ao sol. E o camelo, so sweet! Oun! Tudo era tão lindo! Mas eu ansiava mesmo pra chegar no Panda Trail, pra ver os meus parentes. Infelizmente, os pandas também estavam com soninho e dormiam profundamente à sombra dum bambuzal. De modo que só vimos suas costas! E aquele bumbumzão enorme, que me é tão familiar.

Depois de umas 4 horas no zoo, minha pata manca começou a incomodar e fomos pra casa. Descansamos um pouco e saímos desbravar as praias de San Diego. Passamos por várias neighborhoods uma mais linda que a outra, e cada quadra era um ooohhhh!, um encantamento maior. Escolhemos várias possíveis futuras casas e chegamos em Coronado Beach a tempo de ver o sol se por, enquanto molhávamos nossos pés no Pacífico.




Mais uma parada em casa para trocar de roupa e dar uma relaxada antes do jantar. Daylon já tinha feito as reservas no Tractor Room uma semana antes. Pois esse restaurante além de fancy é muito disputado, principalmente nos fins de semana, pela comida simplesmente impecável que servem. Cada um de nós pediu um prato diferente e realmente, era um melhor que o outro. O ambiente é sofisticado mas não muito formal, de modo que o resturante agrada tanto os mais granfinos como os mais descolados. Recomendo. Five and a half Giant Pandas (Giant Panda é meu futuro selo de qualidade, ok).

segunda-feira, 14 de maio de 2012

INTERROMPEMOS A PROGRAMAÇÃO

PARA INFORMAR QUE HOJE, SEGUNDA-FEIRA ÀS 8 DA NOITE EM LOS ANGELES, À MEIA NOITE EM CURITIBA, E 11PM EM CHARLOTTE, 
ENTREVISTA EXCLUSIVA PARA O PROGRAMA CULTURE REMIDEX



TUNE IN TONIGHT! 

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domingo, 13 de maio de 2012

Sexta-feira, 11 de maio de 2012.

Mal saí da prova fiz as malas, fui pro Aeroporto, paguei 115 dólares pelo excesso de bagagem que carreguei com o pé meio quebrado, o mesmo tornozelo torto. Atravessei os Estados Unidos verdes das Carolinas, as nuvens brancas de Memphis, e o vermelho hostil do deserto com quadrantes verdes — milagres da tecnologia e controle de irrigação. 



Aterrissar em San Diego é uma sensação emocionante. San Diego tem palmeiras, prédios, pontes, pedras, mar. O pé latejava um pouco e ainda restavam algumas provas para corrigir, o que decidi fazer enquanto ouvia uma banda de jazz e bossa, e esperava o Bruno que vinha voando de Indianápolis. Corrigi as provas, cantei com a banda, conheci os músicos que eram amigos da minha prima, e peguei o primeiro shuttle pra companhia onde alugamos nosso Jeep. Bruno já estava lá, me aguardando furtivamente para mais uma aventura!



Famintos, chegamos na casa da Amy e do Daylon, um casal de amigos nosso que acabou de se mudar pra cá. Descarregamos as bugigangas e fomos dar uma volta a pé — lembra da pata manca da Panda? — e paramos num lugar chamado Pink Noodle. Um vento gélido cortava a rua, e na frente desse restaurante uma menina convidativa perguntava pro Bruno se ele queria provar daquele noodle. Yes, ele disse, sem titubear mas nem por um segundo. Eu comi uma sopa chamada Tom Kha Kai — em tailandês, moqueca de frango doce — e o Bruno pediu a sugestão da casa segundo a garçonete, que também muito lhe agradou. Comemos bem. Estávamos tão podres que, se nos deixassem, dormiríamos ali mesmo no nosso booth. Voltamos pra casa e nos entregamos todos aos braços de Morfeu.