domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Frio e a Fifa



Este é praticamente o quinto dia de reclusão após uma nevasca histórica na cidade de Charlotte. Em algumas regiões a neve trouxe mais destruição do que beleza mas felizmente para nós não foi bem o caso.

Entretanto quase tudo entrou em recesso. Não havia sons de trem nem de avião e nem de carro. Apenas algumas vozes brincavam na rua. Eram crianças, snow angels alguns homens de neve. A paisagem se disfarçou de noiva e a tempestade passou devagar, pesada e branca como um fantasma. Dentro de casa acendemos a lareira e os corações, foi uma semana de muito fogo essa da neve em nosso Valentine. 

E o contraste da neve derretendo aqui e vocês derretendo de calor aí não se resume à inversão climática inerente aos dois hemisférios... aqui fevereiro é um mês frio e sóbrio. No Brasil fevereiro é de festa e blocos e marchas e fantasias carnavalescas. 

Eu nunca pensei que fosse sentir falta dessas folias porque a bem da verdade nunca fiz parte delas, o carnaval sempre foi um território proibido para mim, primeiro pela igreja depois pela minha preferência estética, e bem lá no fundo acho que o que eu sinto é uma monotonia triste e uma certa saudade do apito do sorveteiro, ascendente e descendente, passando na rua da minha casa, e eu com duas moedas de 10 centavos podia comprar 5 geladinhos e chupá-los na calçada. Essa nostalgia primeiro me deprime, depois esboça um sorriso no meu rosto já mais velho. 

Confesso que hoje acordei irritada, com raiva gratuita de tudo. Acho que foi por causa da Copa. Eu ando tendo pesadelos terríveis com a Copa. Vocês aí podem rir da minha cara, e até pensar ela nem mora aqui, pra que se incomodar. Mas é uma responsabilidade tremenda, a minha, de dar aulas de português para gringos que querem ir ao Brasil para ver, vocês sabem, o carnaval, o chocalho, a mulata, o corcovado, o samba, o funk, o futebol. 

Tudo bem. Às vezes eu me dou crédito demais. Pensando o quê, que eu sou a personificação do Brasil na sala de aula? Não é bem por aí. Eu não rebolo, não jogo bola, não roubo um pouco nem milhões, não chego atrasada, não deixo para preparar minhas aulas no último minuto, ou às vezes sim, às vezes deixo. Quem nunca? Mas ó, melhorei muito a minha brasilidade desde que mudei cá para o império capitalista. 

E agora mané? Minha vida mudou. A Dilma sorriu. Real desabou. O dólar subiu. O pão foi pro céu. O pau comeu, a cara partiu. Otimismo acabou, acabou o Brasil. Meu país me desertou. Meu governo me traiu. Meu PT que te pariu e cuspiu no prato que me comeu. E agora mané? E agora você? Você que é sem dente, sem alma, sem teto, você indigente e semi-analfabeto e que provavelmente nunca vai ler esta merda! E eu e você, da mais alta cultura! E agora Carlos? E agora Lula?

Entram sete bonecos saltitantes, sete tatu-bolas gigantes, cantando: Quem tem medo do mundial, do mundial, do mundial? Um estádio todo desaba. E aqui acaba o sonho.

Bem, os franceses têm medo do mundial. Saiu na revista francesa que a Fifa sim, a Fifa tá tremendo. Tá dando murro na mesa. 

Fifa amava Lula que amava Marisa que amava Lula que amava Rose que amava Lula que amava os companheiros que amavam Lula que amava Dilma que amava Lula com a maior cara de ocaso tomando vinho francês e dizendo companheiro que vinho fresco, melhor que uma branquinha. 

Pois que papelão hein! A Fifa e todo seu know-how deixou-se levar pelas seduções econômicas e achou que ia ser fácil, mas o jeitinho brasileiro é de foder, não é mesmo! É um jeitinho fuleco de ser. 

Ps.: Vou parar por aqui porque onde já se viu, alguém aí quer me dizer aonde isso vai dar? 

Termino com aquela máxima positivista velha conhecida nossa que diz: ordem e progresso.