sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Bob Dylan em Charlotte



Assim que anunciei aos quatro ventos que ia no show do Bob Dylan, muita gente manifestou invejinha, inveja branca. Pois bem! Inveja branca eu não admito. Porque esse foi um show pra deixar, quem não foi, roxinho de inveja! Hoje eu vi um mito fazer um show intimista, num ginásio pequeno e espantosamente não lotado. E um Bob Dylan nem um pouco mais afinado; mas rouco, contido, velhinho e bem comportado.

Antes, um breve contexto:

Depois de dias e noites de auto comiseração acadêmica, sentindo pena de mim mesma por tanto esforço só ter - por enquanto - me rendido míseros B+, eu segui tentando, em vão, ser boa mulher, professora, dona de casa e musicista. Meu marido, Bruno, amado, também tem se sacrificado. Me ajudando nos afazeres de casa, lavando, cozinhando, fazendo compras, trabalhando, pagando contas. Eu ainda limpo. Boto a louça na máquina. E os meus sogros queridos, mal consegui paparicá-los... porque não tem sobrado tempo para mais nada além de livros, papers, book reviews, class plans. Quanto menos tempo pro Blog. Aliás, minha vida de blogueira anda pendurada por um fio. Portanto, nada mais merecidamente conquistado, do que um show do Bob Dylan num ginásio não lotado.

O espanto:

Estamos no outono, e o Ivo e a Fátima quando vieram, trouxeram o friozinho antes de partir em Outubro. O céu tem ficado do jeito que eu gosto, azulzinho daqueles de inverno. As folhas colorindo, e caindo. Um clima Halloween nas casas enfeitadas com abóboras e bruxas. Trinta e um tem trick-or-treat, e eu, não me dando conta de como o tempo passa rápido, ontem me lembrei num espanto: amanhã tem o show do Bob Dylan! Na hora escrevi no facebook. Mais pra me gabar do que pra lembrar pra mim mesma. Confesso.

O Ingresso:

Custou 25 dólares pra mim e 45 pro Bruno que não é aluno da UNCC. Barato. Primeira fila da arquibancada, poltronas 4 e 5. Pelo menos a fila era A (já que eu até agora só tirei B).


O show:

Proibido tirar foto com flash. Proibido filmar. Proibido fumar também. E a gente, na primeira fila, virou alvo dos lanterninhas, que sempre nos importunavam e uma hora até quase confiscaram nossa máquina. Portanto, as fotos que tirei (e ficaram uma meleca) são tudo o que tenho para oferecer, salvo dois videozinhos que gravei na malandragem. Nenhum completo, infelizmente. Assim que eu botar no computador, ilustro a postagem.
O show atrasou mais de meia hora - o que não é comum. Talvez porque esperassem por um público que nunca veio. E apesar de muita gente ter chegado depois que o show já havia começado, ainda assim a Halton Arena ficou com muitos bancos vazios. Um desperdício. Um espanto! Ah se fosse no Brasil. Ah se fosse em Curitiba!


O Palco:

Com um pano de fundo fosco, onde imagens do passado se projetavam, o palco era um palco simples, iluminação básica, e nenhum sinal de superprodução.Tirando, é claro, os equipamentos de som. Duas mesas gigantescas, uma pro som no palco, outra pro som na geral. Um rodie manco andando apressado, afinando instrumentos, conferindo cabos. Acho que ele tinha uma perna-de-pau. Nenhum telão. Mais intimista que este, só mesmo o show do Roger Daltrey ano passado.

O Mito e a História:

Bob Dylan é uma lenda viva. E para mim, só de pensar em Bob Dylan é abordar, mais do que música,  a história. Uma história de luta poética. Que podia até ser desafinada, mas tinha estética. Estética política e muito, muito romântica e controvertida. Os anos 60 e seus mil movimentos, a guerra fria, o Vietnã, Che Guevara e Cuba, o homem na lua, a liberação da mulher, as  grandes arquiteturas, as ditaduras. As imagens refletidas naquele pano de fundo tosco contavam tanto mais dessas histórias que qualquer livro de história que eu já tenha lido nesse semestre pro mestrado. Até as imagens, em tempo real, da própria banda tocando atrás de si mesma, num tom sépia, preto-e-branco envelhecido, lembravam esse tempo ido, que nunca vivi, e que só descobri na música e nos livros. O show em si foi... como posso traduzir? Uma catarse.

O Set List

Ao todo tenho certeza de que não foram mais de 20 músicas. Muitas delas eu não conhecia. E as que eu já sabia, demorava pra eu reconhecer. Os arranjos eram completamente diferentes, mas não menos geniais. Lay Lady Lay, Just Like a Woman, My Wife's Home Town, A Hard Rain's Gonna Fall, Ballad of a Thin Man e Like a Rolling Stone são as que minha memória parca - e ainda soferndo do baque - consegue ordenar, assim logo de cara, mas pelo menos eu acho que está em ordem de tocada. Amanhã provavelmente vai ter o set list em algum lugar na net e eu coloco aqui! Mas Max! Ele não tocou Blowing in the Wind nem Hurricane. 


A banda

A banda que acompanhou o bom e velho Bob Dylan era composta por 5 músicos. Um baterista, um baixista, um violonista, um guitarrista, e um multi-instrumentista que tocava de tudo: sopro, teclado, ukulele, guitarra, percussão. Bob Dylan na gaita, às vezes revezava instrumento, ora tocando um tecladão antigo, ora uma guitarra velha e um pouco desafinada. O som em si - principalmente no incício do show, tava meio emboladão. O baixo quase não se ouvia. A bateria dava estalo na orelha. E os primeiros acordes da gaita quase mataram os velhinhos do coração. Mas de Lay Lady Lay (que certamente foi a segunda música) em diante, tudo ficou melhor!


Like a Rolling Stone

E Bob Dylan fez o que ele sabe fazer melhor. Chegou no palco, mal o público começou a aplaudir, a música começou. Ele cantou uma atrás da outra. Não disse uma palavra. Um olá, um obrigado, nada. Todos os sinais de satisfação para com o público se traduziram em gestos simples, numa leve curvada de cabeça. Fiquei com a impressão de que para ele, falar qualquer palavra seria comprometer a rouquidão que lhe restara. Foi cuspir pra cima e levar na testa. Logo após este sentimento malicioso, ele saiu do palco. Os músicos saíram atrás. O público enlouqueceu, se levantou, começou a aplaudir e gritar muito mais do que tinham gritado em todas as músicas anteriores. O que? Acabou? Não pode ser!
Nada... tinha sido só um break de 5 minutos, logo eles voltaram com tudo, para dar um tapa na orelha da plateia! Tocaram uma sequência de hits num set-list de segundo turno bombástico, abrindo com Like a Rolling Stone. Chorei. Achei que ele cantou essa música com tanta paixão, com tanta força na voz rouca, que me fez pensar se ele não estava cantando pra si mesmo a canção. Chorei porque me lembrei que o Alexandre me disse: "Fomos num show dos Stones em São Paulo onde Dylan fez a abertura. Foi lamentável o que a produção fez: Dylan não pode usar os equipamentos dos Stones em sua apresentação." Chorei, enfim,  porque me emocionei. Chorei de felicidade, de saudade, de vontade ir lá e invadir o palco e de cantar junto! Nem que fosse só um refrãozinho!
Logo depois que o público foi ao delírio, ele agradeceu, apresentou a banda, voltou a tocar e dali 5  mais músicas Bob Dylan se despediu do palco, e desta vez não ia voltar. Acabou muito rápido. Se tudo que é bom dura pouco, Bob Dylan foi oááááááátimo, porque durou pouco demais pro meu gosto!


Efeito Colateral

Eu ainda estou em êxtase. E tudo o que eu disser aqui não vai traduzir nem uma nota deste show. No fim, não importa o público pacato. Não importa o Bob Dylan pacato. Nem a guitarra alta, com solos meia-bocamente executados. Não importa nada disso. Afinal, estamos falando de Bob Dylan, do melhor Walt Whitman de todos os tempos. A carga emocional é chocante. Delirante. E certamente, vai ficar pra sempre encrustada no meu id, alimentando minha alma de lembranças e arrepiando todos os pelinhos desta panda que vos escreve!


Lamentações 

A divulgação do show foi nula. E no cartaz (não vi nenhum pendurado na Universidade) está escrito: don't you dare miss it. Yet many dared, many missed it. Stupid University kids... lamentável. 



Últimas considerações 

Melhor pra quem foi. Sem stress, sem muvuca, sem confusão... e como cantou o mestre, the answer, my friend, is blowing in the wind. The answer is blowing in the wind.





quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Constatação

O que mudou em mim
Depois que eu me mudei?
Alguém me perguntou
Certo dia em que voltei.

Inventei qualquer resposta
Só pra não passar em branco
Mas na verdade, por enquanto
O que mudou foi pouca bosta.

Continuo a mesma pessoa
Um pouco mais velha
Um pouco mais feia
Um pouco mais gorda

Mas a mesma menina boba
Zombando dos outros
Sentindo a falta dos outros
Fazendo tudo pelos outros
Dependendo da hora.

Mas o  que mudou em mim
Não foi nada
Perto do que mudou por aí
Depois que eu vim me embora.

Por que será que quando a gente se vai
Leva junto uma ideia fixa
De um lugar que era nosso
E que idealmente nunca muda?

Aprendi estudando imigração
Que o nome dessa atemporalidade
É desculturação.

Hoje estou desculturada.
Mesmo com a globalização!
Pois por mais que eu acompanhe as notícias
E nelas eu veja que as coisas não mudam
A minha história particular
Deste lugar que sempre foi meu
Essa história, que não sai no jornal
Da vida em família
Dos amigos, dos bares
Muda revolucionariamente.

E me deixa descontente
Esta triste realidade:
Na verdade eu mudei muito pouco.
E minha ausência é um fato silencioso
Que alguns sentem, e poucos demonstram.

E quando eu volto pra aí
Eu fico no limbo
Tudo mudou
Mas em mim
Nada mudou

Dentro de mim
Esteja eu aí ou aqui
Tudo resiste à mudança.

Eu queria que meus sobrinhos continuassem crianças
Eu queria me sentar naquela mesma mesa de bar
Eu queria ter fé em Deus e no mano Mateus.

Mas o bar já não existe
As crianças fizeram filhos
As reles bandas não mais existem
E o mano Mateus virou irmão na fé de Deus.

E você, Xanda Lemos, você ainda existe?

. . .

Os meus heróis játinham morrido de overdose quando eu nasci.
Mas pelo menos, eu tirei um inimigo do poder.

. . .

Eu votei sempre no Lula.
Eu me decepcionei pra caralho.
Eu não gosto da Dilma.
Eu gosto da Marina 
Mas acredito que o Serra é a única opção.

...
Só que eu não mudo nada.
Porque eu não voto nesta eleição.

Muito triste, minha constatação.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Clássicos Paranaenses

Paulo Leminski e Alice Ruiz


Uma apresentação da literatura do Paraná, com leituras e comentários.

Orientador: Ivan Justen Santana
(Mestre em Letras pela USP)

Início: 07/10/2010

Período: Quintas-feiras à tarde, das 15h às 17h,
no Centro Paranaense Feminino de Cultura
(Visconde do Rio Branco, 1717, tel. 3232-8123).

Curso aberto a todos os interessados, gratuito
(certificado aos participantes com 80% de presença).

Carga horária: 20h(em 10 sessões semanais de duas horas).

***

O curso Clássicos Paranaenses objetiva divulgar a literatura paranaense (desde suas origens e formação até a produção contemporânea) e assim ampliar a consciência do público leitor sobre a literatura feita no Paraná.

Compõe-se especialmente de leituras de textos selecionados, acompanhadas de comentários sobre autores e obras.

Apesar de primordialmente destinado às integrantes do Centro Paranaense Feminino de Cultura, o curso estende-se também à comunidade em geral (jovens e adultos), sendo gratuito e franqueando a todos os interessados as instalações do Centro Feminino.

O orientador, Ivan Justen Santana (Licenciado pela UFPR, Mestre pela USP), pesquisa as letras paranaenses desde 1991.

Sinopse da ementa:

(No. da sessão – Tema – Principais autores)
1 – Origens da Literatura Paranaense – Bento Cego
2 – Romantismo no Paraná – Fernando Amaro; Júlia da Costa
3 – Origens do Simbolismo – Dario Vellozo; Silveira Neto; Nestor Victor
4 – Evolução do Simbolismo – Emiliano Perneta; Andrade Muricy
5 – Pré-Modernismo x Modernismo – Emílio de Menezes; Euclides Bandeira; Sharffenberg de Quadros
6 – O Modernismo paranaense – Tasso da Silveira; Ada Macaggi; Newton Sampaio
7 – O caso Dalton Trevisan – Dalton Trevisan
8 – A síntese da poesia paranaense – Helena Kolody
9 – Pós-Modernismo – Jamil Snege; Paulo Leminski; Alice Ruiz
10 – Contemporaneidade – Cristóvão Tezza; Marcos Prado; autores atuais