quarta-feira, 24 de abril de 2013

Parabéns, Paizão!



Meu pai era fã de Ayrton Senna e do Zico. Do Dino Cabello e da Mercedes Sosa. Adorava Fundo de Quintal. Meu pai era fã de samba. Compositor de marchinhas de carnaval. "Ando de Olho no Terreiro da Vizinha" é um de seus clássicos.

Ele me ensinou a jogar bola e a cantar. Acho que a primeira música que aprendi foi o hino do Flamengo. Ele me incentivou em todos os esportes, me ensinou muitas coisas, e também tentou me explicar matemática sem muito sucesso. Me deu uns croques pra ver se os números passavam a fazer algum sentido na minha cabeça -- tão brilhante, e ao mesmo tempo, tão incapaz de compreender a lógica exata, a matéria das coisas que regem o mundo.

Meu pai era de poucas palavras. Bravo. Tinha um vozeirão que só vendo, ou ouvindo. Trazia a testa sempre tensa, franzida, um olhar duro, preocupado, protetor, amoroso, emoldurado nas sobrancelhas grossas e grisalhas, que se uniam bem onde começa o nariz. Puxei às sobrancelhas do meu pai. 

Suas mãos eram frias no inverno. As unhas sempre bem polidas e lixadas, não escondiam o amarelado nas pontas do indicador e do médio, unhas sempre bem nicotinadas. Puxei às mãos e às unhas de meu pai. 

Ele acordava religiosamente às seis da manhã e fazia a barba. Quando lavava o rosto, esfregava a cara com as duas mãos e respirava forte para que a água gelada das manhãs curitibanas não lhe adentrasse as narinas. Isso de acordar às seis não puxei ao meu pai. 

Puxei à paixão pela cerveja e pelo violão do meu pai. Puxei à curiosidade insaciável, sua gana de aprender, sua vontade de trabalhar, seu discurso prático de vencer, vencer, vencer (uma vez Flamengo, Flamengo até morrer!). Seu prazer de caminhar na trilha, sua mania de andar na linha, seu orgulho teimoso e sua autosuficiência. 

Mas de tudo que herdei do meu pai, o que eu mais gosto são os dentes pequenos que seguram a pontinha da língua quando a gente ri. E aquele gesto de enfado, como quem diz: próximo! Geneticamente, 50% do que sou é meu pai. Conforta-me saber que metade de mim sempre lhe terá por inteiro. 

Paizão guerreiro hoje faria 76 anos. Saudade que dá... mas como cantou minha irmã Cris Lemos, se foi tão bom, sempre será...

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Best Terça Ever!



Today tinha tudo para ser uma terça-feira ordinária. E no entanto, antes de eu dar a última aula do dia, meu pandaphone delivered me a message. Era mabeibe:
"Please call me to see about tonight's concert. Kisses! Ticket prices are lowering and vanishing"
Tonight's concert era o show do Eric Clapton!!! Sim!!! Aquele para o qual não tínhamos comprado o ingresso antecipado. Aqui os caras são loucos. Eles vendem os tickets 3 meses antes, os preços vão lá nas alturas... mas Bruno tinha um plano e seu plano era tentar a sorte. E sorte, ladies and gentlemen, é com Panda Lemon!

Resumindo: por dez mangos estacionamos num public parking moderníssimo bem na frente da Time Warner Cable Arena. Caminhamos até a entrada do ginásio. Vários policiais, rockers, peruas, casais, coroas, famílias. E nenhum cambista à vista, nem a prazo. Mas as máquinas vendedoras de ingresso estavam ali, convidativas. Sem fila nenhuma. Bruno então disse, com a voz calma dos sábios: a primeira coisa antes de caçar cambistas, é ver se ainda tem ingresso pra vender na porta. 

Nos aproximamos da cabine automática. Selecionamos EriClapton 2013 Tour. Especificamos o número de ingressos. Por fim clicamos em best options available. Qual não foi nossa surpresa ao nos depararmos com ingressos muito mais baratos do que estavam anunciando há 3 meses! Comprar! Insira seu cartão. Thank you for your purchase. Entramos na arena em menos de 1 minuto. Em menos de cinco já estávamos no nosso setor -- o "North Gate" -- que mais parecia uma área VIP, com praça de alimentação e tudo. Jantamos um sanduíche tranquilamente e descemos com nossos drinks para o floor level. Para quem não sabia nem se ia, o fundão era o gargarejo! It couldn't be better. 




Apesar de o som não estar lá grandes coisas, a banda do Jakob Dylan fez um excelente show de abertura. As músicas são boas, e os caras no palco são melhores ainda. Pena que o técnico de som não tinha a menor ideia do que estava fazendo, coitado. Primeiro, não parou de mexer nos botões por um minuto. E ficava cada vez pior, e mais alto, mais agudo, e distorcendo, e nada de teclado, o cara era uma mula! O som da bateria era uma pata rota morta, um negócio horrível, mas não tinha como não simpatizar. A banda é foda! Superou a incompetência do seu técnico de som e fez um show impecável, sincronizado, afinado, no começo contido, depois nervoso, e no fim empolgado. Sem chiliques. 

The Wallflowers. Diretamente de Los Angeles, California. Eu nunca escutei um album inteiro deles, mas já conhecia algumas músicas, talvez de ouvir na rádio. Eu gostava e não sabia. Mas era óbvio! Tem muito DNA de Bob Dylan nas cordas vocais e nas veias de Jakob, no chapéu, nos trejeitos, no violão e no palco. Lembra o pai? Claro que lembra! Ainda bem, né?

Eric Clapton



Well ladies and gentlemen. Que experiência! Minha alma está lavada. Showzaço! Perfeição. Som tinindo. Timbrera de guitarras. E a grandeza do rock, do reggae (sim!), do blues e do funk passeando bem à vontade nos dedos mágicos deste mito vivo da música. A banda de apoio dispensa comentários. Talento, competência, feeling, afinidade, não faltou nada, mas nada mesmo, neste show. Ou talvez tenha faltado Layla (para os leigos, leia-se Leila). E faltou, é claro, vocês que sabem quem são, e que mesmo não indo, foram em nosso coração!

Eis o setlist... está um pouco comentado!

1-Hello Old Friend (E aí, velho Clapton!! Muito bom mesmo te ver por aqui!)

2-My Father's Eyes 

3-Tell the Truth 

4-Gotta Get Over 

5-Black Cat Bone 

6-Got to Get Better in a Little While 

7-Tempted 

8-I Shot the Sheriff (ponto alto do show, hora de tomar uma Margarita)

9-Driftin' Blues (bluesêra da bowa!)

10-Nobody Knows You When You're Down and Out

11-Tears in Heaven (reggae style)

12-Goodnight, Irene 

13-Wonderful Tonight 
(romântico, como o Rei)
14-How Long 

15-Stones in My Passway 

16-Love in Vain 

17-Crossroads (at this point my jaw was on the floor)

18-Little Queen of Spades 

19-Cocaine (dance! shout! dance! shout! dance!)



Encore (MAIS UM! MAIS UM!)



20-Sunshine of Your Loooooooove! (nada melhor que uma psicodelia no final)

21-High Time We Went (ouiés indeed)


The Smoothness of the English Sound

Entre a banda de abertura e o show principal foram 30 minutos de break. O palco mudou, mudaram os rodies, o técnico era outro. De orelhas grandes, nariz adunco, as sobrancelhas circunflexas na testa sempre atenta. Tratava-se de um senhor respeitável. Não fosse uma leve curvatura nas costas, teria a postura de um Lord inglês. Esse sim, manjava das coisas. Quase não mexeu nos botões, conhecedor da arte de captar e projetar o som ideal, o volume perfeito, vigoroso, sem distorção. Também! Anos de experiência. Deve trabalhar com o Clapton desde o Cream.