quinta-feira, 5 de março de 2009

Meu passado me condena!

PAIXÃO. Gazeta do Povo, 21/02/09.

Devo admitir que, exceto na última eleição, só votei no Lula. Como alguns já sabem, adquiri tendências esquerdistas na minha mocidade, quando costumava freqüentar os porões do CEFET, para reuniões no Diretório Central dos Estudantes . Durante a era Collor, lá ficávamos preparando cartazes, faixas e adesivos para a grande passeata do Impeachment. Eu não manjava nada de política, só queria mesmo era me divertir, e naquela época em que a maioria não tinha computador nem TV a cabo, a gente não ficava com a bunda sentada no sofá o dia inteiro. Assim tínhamos tempo para ficar maquinando revoluções que julgávamos úteis à sociedade.

O Plano Collor ferrou com a nossa vida e com a vida de muita gente. Meu pai, que foi obrigado a se aposentar devido a um derrame que paralisou parte de seu corpo, acabou ganhando uma bolada da Volvo, empresa em que trabalhou durante anos. Sempre muito precavido, não era de arriscar investimentos e preferiu quitar a casa e guardar o resto na poupança. E assim, de um dia pro outro, ele se viu pobre. Não que a gente fosse rico, pois meu pai, sustentando sozinho uma casa com 4 filhos e um neto recém vindo ao mundo, não conseguiria jamais enriquecer. Mas ele sempre nos deu muito conforto, pudemos estudar em bons colégios, frequentamos aulas de natação e piano, jantávamos fora...

Quando as poupanças foram confiscadas, meu pai, que já estava doente, ficou ainda mais abatido. Até Yakult, que eu tomava todo dia, teve que ser banido da nossa lista de compras. Ele, que sempre fumou uma marca determinada de cigarro e gostava de saborear uma Antártica geladinha no fim da tarde, passou a comprar aqueles maços de cigarro mata-rato, e Caninha 51, cuja garrafa ele sorvia aos poucos, fazendo-a durar mais de mês... e vivia nos pedindo: apague a luz! Saia do banho! Feche bem a torneira!

Ele não tinha mais condições nem físicas, e muito menos financeiras, para sustentar a família que ele tanto, e com tanto carinho, cuidou. Infelizmente eu só sei disso agora, passados mais de 10 anos de sua morte. Porque na época eu não enxergava desse jeito. Adolescente e burra como uma porta, quantas vezes não lhe dei as costas, muito brava, por ele não me deixar viajar com as amigas, ou ir em festas, e batia a porta do meu quarto para não ter de ouvi-lo “resmungando”... sinto vergonha e fico muito triste comigo mesma por só ter compreendido o seu amor por mim depois que ele se foi.

Mas voltando aos fatos políticos, eu tive os meus motivos pessoais para com o movimento do impeachment, e por mais que hoje eu saiba que somente graças a esse plano que o Fernando Henrique conseguiu de uma vez estabilizar a nossa moeda, igualando-a com o dólar, na época, tudo o que eu queria – e mais da metade do Brasil (inclusive e muito por causa da TV Globo!) – era tirar aquele cara do governo. O Lula era a grande sensação. O working class hero de que o Brasil precisava.

Eu entrei na luta. Mas luta? Que luta? Aquelas passeatas eram a maior festa! A gente matava aula, bebia muito litrão (coca-cola com pinga), pintava a cara e ficava que nem uns loucos seguindo os caminhões de som, importunando a vida dos estudantes na Reitoria, para que eles também se juntassem a nós. E a multidão só aumentava. Até policiais aproveitavam para gritar: PC PC, vai pra cadeia e leva o Collor com você! Não foi exatamente uma luta. Mas houve um movimento, pelo menos.

Depois disso o Itamar assumiu, não fedeu nem cheirou. E desde então o Lula taí. Nunca antes na história desse país tivemos um governante tão... como posso dizer... pecurliar. Como alguém sabiamente já observou, o Lula foi único presidente semi-analfabeto do mundo que assinou um acordo ortográfico! E ainda se atreveu a aconselhar “inteligência” a Obama, que é formado em Harward. Também deve ter sido o único alcoólatra a instituir uma Lei Seca. Ê, lerê! Lulalá! Definitivamente, muito peculiar.

Estamos assistindo, sim, o espetáculo do crescimento. O espetáculo do crescimento da população pobre, o espetáculo do crescimento de casos da dengue, o espetáculo do crescimento de taxas e juros, da violência, do desemprego, da corrupção. Todos estamos assistindo, de camarote, este desastroso espetáculo. Mas ainda assim, com tantos outros atrativos muito mais interessantes, como internet, vídeo-game, carnaval e big brother, não estamos muito afim de nos engajar em nada que nos faça sair de nossa imbecilizadora rotina eletrônica.

Assim, enquanto a gente não mudar, o Brasil não vai mudar. Vamos continuar a emburrecer e a aceitar tudo sem mover uma palha. Afinal, sobreviver dá um trabalho danado e não sobra tempo para refletir sobre mudanças.

"É preciso que a nossa geração reconquiste as coisas... É preciso que entre as coisas pensadas e as coisas em si não haja mais diferença. Então seremos felizes." (Italo Calvino)

10 comentários:

Ivo e Fátima disse...

Xandinha a política saudosa!

Como já disse anteriormente, você É uma boa analista política. Deveria começar a escrever crônicas do tipo "Uma brasileira na América" e mandar para a Gazeta para publicação - a Bernadete (que por sinal vai ficar toda prosa pela citação de Calvino) conhece o caminho das pedras, afinal ela já publicou com regularidade na Gazeta. Se não der uma graninha, pelo menos vai te dar uma ocupação (além de imenso orgulho para todos nós).

Emocionante também a parte em que você fala dos problemas vividos por teu pai no fim da vida dele. Pena que enquanto somos adolecentes, somos apenas uns "burros revoltados" e não conseguimos enxergar tudo de bom que temos à nossa volta. Infelizmente alguns não aprendem nem depois de velhos.

Beijos emocionados do Sogrão que te ama de montão.

Panda disse...

Sogrão queridão! Meu fã número 1, primeirão, como sempre. Vou seguir os teus conselhos e enviar essas postagens que já fiz. Hehehehe.
Estou amando esse livro que a Berna deu. Traz os primeiros contos de um Italo Calvino ainda jovem, cheio de revolta e de vontade de mudar o mundo. Beijos.

Bernadete disse...

Oi Xanda,
1. eu tinha certeza que o Calvino te agradaria, mas nao que causaria tanto impacto e inspiração. Que bom! E vc vai que que, depois do primeiro, vc vai querer ler os outros livros dele tb. Sao todos de primeira.
2. pra passar o tempo, vc poddia acabar meu projeto... (hehehe)Que tal essa brilhande ideia?
Bjs e boa leitura.
Bernadete.

Panda disse...

Oi Berna! O Calvino realmente é inspirador. E quando ao projeto, do not worry, my dear, só temos que esperar o Edital abrir!

Talita disse...

"In my mind I'm going to North Carolina"Yes,I'm gone to carolina in my mind"
Essas são frases musicais de uma linda música do James Taylor meu

ídolo desde sempre... North Carolina, foi por minha conta, rsrs...sou eu querendo estar ai com vcs...
Ô Xandinha vc me fez chorar com essas memórias, mas elas somos nós, nossa identidade, nossa referencia...Sei que agora onde ele estiver estará feliz sabendo que suas filhas queridas(Vc principalmente, a caçulinha que com treze anos começou a trabalhar na "PINK and Blue" Pra poder estudar inglês sem precisar pagar, mesmo indo contra os protestos dele que não queria que trabalhassem fora) estão felizes bem resolvidas e gratas pelo esforço que ele fez pra bem encaminhá-las...nenhum dos filhos o decepcionou, exceto talves pelo Gu, que ele queria formado em Engenharia mecânica...mas sei que de LA ele o abençoa por ter se tornado tb um bom um pai e por que não dizer um pouco pai pra vc e Tati, na falta dele.Xiii, Xanda, a sessão, (ou seção)? nostalgia rendeu, rsrs...Grande homem seu pai...
Ontem pedi minha certidão de nascimento em Jacui, ainda encucada por ter que mostrar esse documento!Não basta certidão de casamento pois lá está meu nome de solteira tb!Mas vá lá!
E a casa que estão namorando, é mesmo tudo que vcs queriam?tem jardim, quintal?E seus violões chegaram, ja está ensaiando pra tocar na night?Falar nisso ai vai o link do meu ídolo, folk music é um must aí, então vá treinando, rsrs, mas sem esquecer a bossanova que é sempre benvinda tb.
VC tem o song book do Caetano?Do Chico?Se não tiver eu compro e mando, quer?
bjs duplos nos dois!

www.myspace.com/jamestaylormyspace

Panda disse...

Mãezinha, querida! Também chorei quando escrevi essa postagem, tanto que fazia uns dias que eu a tinha escrito, mas não consegui terminar porque engasguei naquela parte. Só depois, com todos os "demonios" exorcisados, consegui terminá-la.
Ainda estamos naquele apartamento, não nos mudamos ainda, mas estamos buscando casas com quintal e jardim, sim. Quando vc vier, já estaremos instalados. Ainda não comecei a treinar o repertório, tô tão enferrujada que não consigo tocar nada direito. Estou fazendo exercícios básicos pra voltar a pegar as manhas nos dedos e então começar a tirar umas bossas e uns folks. Adoraria ter song book do Chico ou do Caetano, não tenho nenhum. Se quiser me dar um de presente, eu aceito, hehehe...ah, e obrigada pelas palavras cruzadas! exercitar o cérebro é sempre bom. E sobre a documentaiada é assim mesmo, se prepara que eles pedem tudo, mas fora isso o processo é muito simples.
Beijos te amo muito.

Talita disse...

POstei uma música do Caetano com cifras na comuna do Bacana, rsrs vái la ver...
Pra refletir:

"Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso". Charles Chaplin

Panda disse...

Mami, vc é linda!

Anônimo disse...

Estou bem atrasada, mas tenho que contar que me emocionei tb! Eu não conheci o seu pai, uma pena! Mas só pelo que sei, tenho grande admiração por ele.

Bjs
Evi

Panda disse...

Evi, não sabia que vc não tinha conhecido meu pai. Lembro-me de que logo depois que ele faleceu sua mãe ter nos dado uns livros daquela filosofia oriental seicho-noiê para lermos... achei que vc já fazia parte da família naquela época! Um beijo e obrigada sempre por seu carinho. Te amo muuuito minhirmãzinha escolhida.