segunda-feira, 27 de abril de 2009

Recordar é Viver II

Para dar continuidade à série Recordar é Viver, publicarei hoje um texto que faz parte de um projeto que estou desenvolvendo por aqui, de escrever sobre algumas pessoas que marcaram, de alguma forma, a minha vida. Esta postagem é dedicada ao meu querido paizinho, que completaria 71 anos neste fim de semana, mais precisamente no dia 24 de abril.


Um Mergulho sem Volta


─ Pai, onde você nasceu?

─ Em Vitória, Espírito Santo.

─ Amém!

Eu soltava dessas. Meu pai ria, sua filha era uma piada pronta. Ele sempre se orgulhou de mim, dos meus talentos para tocar, cantar, escrever, praticar esportes. E eu dele, o melhor pai do mundo! Isso até eu entrar na fase mais esquisita e ingrata do ser humano – a adolescência.

Foi nesta fase que, um dia, senti vergonha de meu pai. Estávamos num trapiche, vendo um pessoal mergulhar. Meu pai então tirou a camisa e disse: olha filha, é assim que se mergulha. E num salto, precedido por um ritual de solene respiração, inflando o peito magro, pulou na água e.. paff! Deu uma baita barrigada. Todo mundo em volta riu e debochou do mergulho de meu pai. Eu baixei a cabeça, inconformada. Queria ser um avestruz e enfiar meu pescoço num buraco – mesmo sem nunca ter visto, até hoje, um avestruz de verdade fazer isso.

De herói, meu pai passou a ser quadradão. Chato, impertinente, incompreensivo, ditador. Foi a adolescência que me separou de meu pai. Não havia nada – além de uma relação hereditária – que nos unisse como antigamente. Os psicólogos explicam que isso é perfeitamente normal. Que assim deve ser, que nessa idade o indivíduo nega os pais para conquistar seu espaço na sociedade e fazer parte de outros grupos. E que depois, mais próximo da fase adulta, ele volta a ter uma boa relação com os pais. Tá, mas, e daí?

Meu pai se foi quando eu tinha 15 anos. Assim, não tive tempo pra dizer ou mostrar o quanto eu o amava, antes de ele partir. Tempo não tivemos para reconstruir uma boa relação pai e filha. E foi a morte – a inevitável maldita das gentes – que me fez compreender o quanto realmente eu o amava.

Sua morte foi a forma de aprendizagem mais dolorida pela qual passei. Você sabe – dentro de mim você sabe – que desta lição jamais esquecerei. O amor é incondicional e sempre existiu, mesmo calado, em nós. E o perdão que nunca pedi, por tudo que fiz, que falei, me será dado.

9 comentários:

Tete disse...

Soltem foguetes....consegui ser a primeira.

Ivo e Fátima disse...

Pandinha linda!

Primeiro, parabéns à Teté.

Segundo, são cada dia mais lindas as histórias que você conta sobre o teu pai. Pode ter a mais absoluta certeza que ele sempre soube do teu amor por ele, mesmo nos teus tempos de aborrescente estúpido que achou o pai quadradão só porque ele deu uma barrigada. Pelo menos ele tentou!

Beijos do Sogrão! Fique feliz.

Alessandra Pilar disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alessandra Pilar disse...

Panda linda!
Amei a postagem, estou com os olhos cheios d´água. E não se preocupe que ele sabe do teu amor, onde quer que esteja. Eu não tive tempo nem de conviver com o meu pai, ele se foi 5 dias depois que eu nasci. E é essa a grande interrogação da minha história. Como teria sido. Você sabe como foi. Ter o que lembrar, sentir saudades. Enfim, eu tenho saudades do que não sei, do que poderia ter sido. Estranho né?
bjooooooo

Fatima disse...

Oi Xandinha,

Que linda homenagem, tenho certeza que o seu pai está muito orgulhoso de você.
Eu sempre disse que ficamos velhos quando os filhos chegam na adolecência. Não há como não ficar de cabelos brancos, pelo menos aqueles que sobram!
Um grande beijo

Panda disse...

Teté, não falei? Olha só, primeirona!!!

Ifinha! Obrigada por reafirmar esta mais absoluta certeza!

Que triste, Pilar... deve ser uma interrogação e tanto essa na sua vida... eu realmente curti muito meu paizão e sinto muitas saudades dele, e não imagino como seja sentir uma falta como a sua.

Obrigada, Fatiminha! Também acho que meu pai está bem orgulhoso de mim! Bjos

Panda disse...

E acho que se ele estivesse aqui, a gente daria umas boas risadas dessa história do trapiche... hehehe

Re disse...

Que falta faz um pai.

Panda disse...

Renatinha! É vc! Seja bem vinda e volte sempre... comente mais! Tenho saudades dos nossos comentários sempre tão pertinentes nas aulas de Cultura no ensino da LEM... bjos