quarta-feira, 23 de maio de 2012

Sexta-Feira Farta



Experimento 1 - Gastronomia

Sexta de manhã acordamos e fomos tomar um delicioso café da manhã no Alcove Cafe and Bakery. O Alcove, nas palavras de José Emílio Rondeau,

...fica num casarão duplex de 1919 e é favorito entre os chamados “industry types” – gente jovem que trabalha em cinema, TV e música, na frente e detrás das câmaras. A grande atração – apesar do ótimo almoço – é o café-da-manhã, servido até 14h30 nos fins de semana. Mas chegue cedo, porque a partir das 9 já existem filas e senhas para uma das mesinhas al fresco e à sombra de um guarda-sol num jardim impecável. Vale a espera por omeletes que você customiza e panquecas de batata cobertas de salmão defumado. Anexo, você encontra a Village Gourmet, uma deli estocada com uma variedade de saladas prontas, enlatados, azeites e vinagres do mundo inteiro, vinhos e uma das melhores seleções de queijos e azeitonas de toda Los Angeles. 
Como não era fim de semana, não precisamos de senha nem enfrentamos fila de espera. Pudemos escolher uma mesa no terraço, à sombra de um guarda-sol, com vista para o jardim. Aguardamos por nossas omeletes enquanto observávamos os jovens "industry types," cada qual com seu próprio "file"(pastas de papel cartão com sei lá o quê dentro: uma fala? Um currículo? Um questionário? Eu me perguntava) e seu estilo único, apesar de que portavam mais ou menos as mesmas coisas: a pasta, um i-phone ou um i-pad, e um amigo, ou amiga, gay. Interessantíssimos esses industry types. Simpáticos, sorridentes, falantes, articulados, bem vestidos, maquiados, penteados, L.A.gantes, nos trinques! Mas em questões de L.A.gância e gL.A.mour, the Oscar goes to... The bathroom!



Que banheiro mais lindo, aliás, a decoração em geral, tal qual o jardim, é impecável. E o Oscar de melhor ator vai para... O sol! Que brilhava no céu azul sem abafar a brisa que soprava leve, proporcionando um clima de agradável perfeição. Aplausos! Aplausos! 

Experimento 2 - História, Língua, Cultura

Depois deste saboroso e sofisticado brunch Bruno me deixou na UCLA para outro dia de conferência, e foi passear. Esse dia tive o prazer de conhecer Armin Schwegler, um "natural born linguist." Schwegler compartilhou conosco um exemplo fascinante de poder, resistencia e transformação em San Basilio de Palenque, na Colômbia. Hoje patrimônio tombado pela Uniesco, Palenque nasceu de um quilombo: lugar para onde os escravos fugitivos se escondiam e se organizavam para resistir o domínio branco e europeu.



Até hoje, Palenque existe e preserva seus costumes e seus ideais de liberdade. Resistem à tendência miscigenadora da latino-américa, casando-se apenas entre eles. Resistem ao sistema capitalista de industrialização e urbanização, mantendo seus modos de subsistência rural e recusando-se a ser empregado ou empregador de alguém. Resistiram ao domínio da língua espanhola, criando mesmo uma outra língua. Recentemente, Palenque foi ameaçada pela guerra do narcotráfico. As FARC e as forças do exército estavam invadindo as cercanias do povoado, provocando a morte de alguns palenqueros. E mais uma vez -- através de negociações e muitas manobras políticas -- defenderam seu território, fazendo com que a guerrilha se mudasse para outros campos de batalha. Até Obama entrou na história. Em tempos de globalização, a modernidade transformou Palenque em atração turística internacional. Mas ainda assim, há um esforço para manutenção dos costumes e, inclusive, preservação da língua e da raça.

Outra palestra maravilhosa foi a do Fernando Arenas: um olhar sobre a influência da cultura africana nas produções culturais Portuguesas do século 20: música, literatura, cinema. Fernando Arenas é um historiador de renome aqui nos States, especializado em culturas africana, afro-brasileira e afro-portuguesa. Triangulando suas pesquisas entre Brasil, Portugal, e África, Arenas foi para mim a grande descoberta desta Conferência. Além de uma pessoa cativante e inteligente, seu trabalho e seus conselhos expandiram minhas ideias de explorar novas metodologias e ampliar minha área de pesquisa.

Experiência 3 - Faça arte, não faça guerra.

De noite, fomos ao famoso Kodak Theatre para assistir ao espetáculo Iris, do Cirque du Soleil. Uma super-produção maravilhosa, envolvendo cinema, música, dança, malabarismo, acrobacia, mágica, tecnologia, intrigas e história de amor! Não tem o que falar, palavras não conseguem traduzir tudo que a gente vê nesse espetáculo. Mesmo porque nossa íris nem consegue captar tudo que se pode ver nesse espetáculo. É um espetáculo! Um espetáculo!



Tampouco tem foto pra mostrar, tirar foto é completamente proibido. Só vendo, mesmo, pra acreditar. Arrepia, dá nos nervos, cai o queixo, dá medo, dá vontade de rir, de chorar, e principalmente, vontade de ver tudo outra vez, por outro ângulo.

Este é o segundo espetáculo que vejo do Cirque du Soleil, e pela segunda vez tive a mesma sensação, de que os corpos daqueles artistas são máquinas que desafiam quaisquer limites. E também novamente pude constatar que sim, a raça humana ainda pode produzir coisas incrivelmente boas, capazes de despertar em nós um profundo amor pelo próximo, pelo belo, pela vida, pela arte, pelo artista.

É um misto de agonia e admiração que me invade quando vejo se retorcerem e formarem ângulos inacreditáveis aqueles corpos perfeitos, e tão contraditórios: fortes e frágeis. Maleáveis e rijos. Musicais, musculosos. Bailarinos, malabares, atores e atrizes, trapezistas, todos eles são verdadeiras esculturas vivas, paradoxais. Seus rostos brilhantes de sorrisos e suor. Juntos, cada um deles forma um imenso organismo dinâmico, colorido e pulsante. A esse organismo, dá-se o nome Cirque du Soleil.

Ver o Iris (assim como ter visto o Love em 2009) é experimentar a arte em sua forma mais lapidada, talvez até superior, e certamente mais sublime. Uma pena que são poucos os que podem conhecer essa emoção. Com o preço absurdo dos ingressos -- mas vejam, vale cada centavo! -- somente as classes mais privilegiadas podem se dar ao luxo de assisti-lo. Isso sim me dá uma tristeza. E eu ainda acho que espetáculos do Cirque du Soleil poderiam dominar o mundo.

3 comentários:

Ivo disse...

Pandinha linda!

Puxa vida - que coisa incrível - parece que foi o mês passado que fomos a Vegas assistir Love, mas na realidade já se passaram quase 3 anos! Chuif chuif.

Beijos do Sogrão

rose borges disse...

Ai que delícia ler você nessa quinta-feira murcha ...

Panda Lemon disse...

Pois é, sogrão... o tempo passa depressa, e ainda assim as lembranças mais emocionantes jamais se tornam remotas.

Rose Blue, my friend! Que delícia receber sua visita, venha mais vezes, volte sempre!