quarta-feira, 30 de maio de 2012

Efeito Calado: Uma Visão Antropicalista da Música Popular Brasileira



Tropicália: A História de Uma Revolução Musical Brasileira é narrada com maestria no livro de Carlos Calado. Costurando biografias, análises de obras de arte, depoimentos, e muita muita música, o livro é uma fonte inesgotável de informação histórica em torno dos eventos que marcaram o crescimento das indústrias fonográfica e de entretenimento no Brasil ditatorial. Por tudo isso o livro de Carlos Calado é, antes de tudo, uma máquina do tempo capaz de nos transportar para o incrível anacronismo da nossa história político-musical. Uma descoberta incômoda para nós, consumidores mais críticos de qualquer arte, pré ou pós-tropicalista. Explico.

O livro narra como os jovens "tropicalientes" (não resisti, Calado nunca usou essa expressão, isso foi o meu lado latino aflorando na análise) eram ávidos por inovações ideológicas e estéticas que proporcionassem uma reflexão mais crítica a respeito da evolução da música brasileira. Conseguiram, mas não sem enfrentar a hostilidade tanto dos linha-dura da MPB, como dos truculentos militares. Ok, vocês dirão, mas todo mundo sabe disso. E esse é o problema! A gente tá careca de saber que a ditadura militar não entendia nada de música, e que a música popular brasileira não entende nada de inovação estética radical. Mas de uma forma ou de outra, o livro mostra que aos poucos, a MPB relaxa, goza, e até evolui. Afinal, os revolucionários de ontem não são a nata da MPB de hoje? Será que a MPB que evoluiu, ou os revolucionários que caretanearam? Um pouco dos dois, eu diria.

Hoje vendo -- ou melhor, lendo, via twitter -- Renato Russo sendo homenageado por uma leva desafinada de artistas, e testemunhando o renascimento musical dos anos 80 (inclusive, minha pesquisa é fruto dessa renascença!), cheguei à conclusão de que a MPB é uma ameba -- monocelular e sem forma definida. A MPB não é um gênero, é um conceito envolto em uma membrana formada por preconceitos. É um mito. É também um indicador de classe social. A MPB é exclusiva! Não só porque única, mas porque exclui tudo que não é digno de ser rotulado como MPB.

Mas enfim, a MPB, como uma ameba, sofre mutações, e abraça aos poucos, alguns corpos musicais estranhos, incorporando em sua monocelularidade primitiva novos gêneros, ritmos, sonoridades e instrumentos. A MPB é uma força repressora, que primeiro bate, depois resiste, depois se adapta e finalmente se transforma, mas sempre, sempre, se repete.

Eu que me proponho a olhar criticamente para as revoluções musicais brasileiras, noto que o grande erro da MPB sempre foi cativar seu ego autoritário e político. Mas isso é erro de todo brasileiro, goste você de MPB ou de rockinho inglês, eu, você, a gente é tudo frutinho madurinho do absolutismo monárquico do império. Ok, tô exagerando.

Agora, tudo bem que a partir dos 90 houve uma certa liberação tardia dessas amarras, aceitando-se certas inovações, mesmo que para favorecer tradições (ó, espírito autofágico tropicalista!). Nada de errado com isso. Nada de errado com as tradições. Mas o que me incomoda, é a repetição dos mesmos discursos. A gente, parece, não aprende. Analisa a música somente em termos de modernidade e tradição. Eu não gostaria que minha tese se resumisse à isso. Mas ó. É difícil não sair da mesmice. Continuarei tentando.

No mais, desvirtuei. Não me levem a mal. O livro do Carlos Calado é leitura obrigatória. Músicos e artistas jovens, principalmente. Se querem fazer a diferença, façam com que sua arte seja uma reflexão crítica do seu tempo, e não menosprezem o novo, nem condenem o velho, porque a arte, para ser completa, precisa se livrar de preconceitos, briguinhas bobas, regionalismos bestas.

Isso não significa perder o senso estético e crítico da arte, não se trata de ser eclético a ponto de indefinir seu (bom o mau) gosto artístico musical. Significa, antes de mais nada, nutrir um respeito (nem que seja distante) com outras formas de arte. Interesse para conhecer e incorporar elementos tradicionais da sua história com os da sua contemporaneidade. Em suma, tropicalizar. Assumir conscientemente que somos sujeitos históricos, e como tal, temos o dever de interferir nessa linha do tempo de forma crítica, mas positiva e, quiçá, revolucionária e inovadora.

5 comentários:

Anônimo disse...

Na verdade dicas tropicalientes denunciam seu lado curitibano, mais especificamente lá do centro, na Andre de Barros. Hehehehe.

Panda Lemon disse...

Sim! Pertinho do nosso apê lá na Francisco Torres. Passava em frente do Dicas quase todo dia. E se não me engano, foi pra lá que levamos os guris da Cosmonave uma noite. Hahahah, eu e o Bruno adorávamos terminar a noite nos inferninhos.

Pablo Donne disse...

Ok... @xanda_lemos, compreendi sua "posicione" em relação à MPB... (e embora MPB signifique tudo aquilo que é produzido, em se falando de música, é claro, em território brasileiro, sei exatamente ao que você se refere quando cita a MPB.) Muito bem, vamos lá... como disse mais lá em cima, compreendi sua visão no que diz respeito à MPB e concordo plenamnete: a MPB é chata e travada, no pior sentido possível; mas afirmar que a Tropicália é muito diferente é algo que não entendo muito bem. Considero a Tropicália algo mentiroso e pretensioso... e acho que quando ela, amaldita Tropicália foi buscar na Antropagia a sua principal inspiração... meu deus! ela estragou tudo... o conceito de "devorar aquilo que vem de fora e vomitar, ou cuspir, algo novo" é, na minha opinião algo banal. Simplório e insignifcante. O Brasil, acho, não precisa de algo como a Tropicália; inclusive formuleia árvore genealógica da coisa e deu nisto aqui: Semana de 22 --» Antropofagia --» Tropicália --» Sandy & Júnior --» Luan Santana e Michel Teló. rs Adorei o texto. Obrigado. http://t.co/8FuV4kpf Algo que talvez goste de ler. é isso. "Gog is Gay!"

Panda Lemon disse...

Pablito, não quis dizer, com meu texto, que a MPB é chata e travada. Sou uma ávida consumidora de Chico Buarque e Elis Regina. Mas também amo rock brasileiro, música caipira de raiz, rock inglês, música indiana, nova trova latino-americana, country americano.

Eu gosto de música boa, sendo boa para mim a música que me cai bem numa hora boa, e acaricia meu ânimo e meu estado de espírito.

Tem dias que não posso com Stones. E olha, tenho a língua dos Stones tatuada nas costas. E apesar de achar Milton Nascimento e Geraldo Vandré um pé no saco, tb acho que eles têm obras maravilhosas.

No fim, o que quis dizer mesmo, e talvez nao tenha deixado muito claro, é que a nata da MPB na sua ânsia de representar uma voz que se opusesse ao contexto político da ditadura, acabou refletindo o absolutismo ditatorial da época.

Usava da mesma violência e facismo para com artistas que não se conformavam com uma bandeira ideológica que se resumisse à oposição entre direita e esquerda.

O rock brasileiro, porque queria se diferenciar dessa turma, acabou, também, adotando o facismo separatista, só que voltado contra ao ranço nacionalista, e mais aberto ao que vinha de fora. E depois, até o rock mesmo, teve que adotar o nacionalismo como espada pra conquistar sua legitimizaçao cultural no país. Tá vendo? Essa é a repetição. Por que gêneros têm que se opor? Por que não podem complementar? Era isso que a Tropicália sugeria.

Tudo bem não gostar. Mas, dizer que o Brasil não precisava da Tropicália é, na minha opinião, uma afirmativa tão mentirosa e pretenciosa quanto vc sugere que a Tropicália tenha sido.

Dizer, ainda, que da Tropicália vem Sandy e Junior e Michel Teló, mmmm, aí vc tá dando à Tropicália uma importância e abrangência que ela (infelizmente) não teve em questão de indústria e mercado cultural.

Você, meu caro Pablito, dando esse simplório, ou melhor, simplista, exemplo de linha evolutiva da música brasileira, apontou para o problema que persiste nas discussões de música brasileira: ninguém está disposto a reconhecer a força que o mercado cultura exerce sobre elal! Dizendo que Michel Teló e Sandy y Junior são lixos musicais e não fazem parte da MPB. São populares, por isso, não fazem parte da MPB, que é elitista.

Outra coisa que ninguém quer admitir que sem esses "lixos" culturais produzidos industrialmente para as massas, o fino da bossa não se sustenta!

Os tropicalientes estavam a frente do seu tempo. Foram o dispositivo que acionou a bomba de Maracatu Atômico que viria explodir anos, muitos anos depois. Portanto, a Tropicalia foi necessária sim.

Se os caminhos da música brasileira desembocaram num mar de poluições sonoras onde boiam Sandy e Junior e Michel Teló, isso não foi culpa da Tropicalia, foi culpa da evolução de um mercado cultural capitalista, e de um contexto de empobrecimento de informação musical que acarretou a falta de ensino de música nas escolas, com o fim da ditadura.

Tudo bem, gosto é gosto, respeito o fato de vc não curtir a Tropicália nem a MPB, mas daí dizer que é banal? Desnecessário? Mmmm, tenho que discordar.

Mas aprecio o fato de vc estar questionando isso, e propondo uma visão analítica a velha tradição autofágica, o anti-tropicalismo é também uma forma de tropicalizar.

Beijones!!!

Pablo Donne disse...

Ok... @xanda_lemos... do belo... rs gostei dessa troca... a minha postura é radical e, claro, é simplista, mas é reactiva... reactiva e beira o sarcasmo... mas é com o intuito de avacalhar mesmo com toda aquela turma... (há quem diga quadrilha...) porque em relação a eles, às vezes sinto até um pouquinho de raiva mesmo... poderíamos ter no Brasil um cenário cultural, um Mainstream muito mais saudável; e acredito realmente que não temos, em grande parte, por culpa deles. Porque sempre senti algo de estranho em relação à Tropicália e em relação a aos baluartes da MBP... mas até anos atrás não conseguia explicar... mas era algodo tipo: "falta aqui, nestes artistas, nestes discos, nessas posturas artísticas... falta algo, talvez um quê de energia e ousadia..." era mais ou menos isto o que sentia quando consumia MPB... Lobão começou a rasgar o verbo contra essa turma toda... mas ninguém dá muita atenção porque na verdade não compreendem o conteúdo do que Lobão diz. Mas foi através dele que consegui olhar para "além das superfícies aparentes". Eles,da MPB, não vão até o fundo, não exploram as possibilidades, não correm riscos... é tudo muito frio e brega. Em parte, estava a provocá-la também... porque achei interessantíssimo o seu texto.E realmente acredito na provocação, na Dialéctica, na troca. Fora da Dialéctica não há salvação. rs Obrigado. Ah... e gosto sim de Mutantes... inclusive há quem diga que, da Tropicália, eles foram o melhor. Gosto muito deles, muito... Valeu, Xanda!...