quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Reflexões do Exílio


Após quase um ano de exílio voluntário, creio que já seja possível relacionar os prós e contras de ter deixado a terrinha. Não considerando os motivos óbios que são as saudades dos amigos e da família, há certas coisas que só a pátria-mãe nos pode proporcionar.

O primeiro e mais óbvio fator é aquele que te pega pelo estômago. A comida! Ah! Como comer é bem melhor e mais barato em Curitiba! Aqui na terra do hambúrguer e da coca-cola, das comidas prontas e pasteurizadas, não é possível desfrutar de um bom menu sem gastar, no mínimo, 15 dólares por pessoa. Convertendo a moeda, dá pra ter uma noção de que comer bem custa bem caro por aqui! Frutas e verduras não têm o mesmo sabor, e ainda assim são bem mais caras. Assim sendo, fica tão mais cômodo passar num fast-food e pedir por um "dólar mêniu",que antes mesmo de considerar a duvidosa conveniência do fato, você já está uns quilos mais pesado.

O peixe morre pela boca, diz o ditado. A ambiguidade da expressão - que tanto pode ser relacionada ao fator "alimentação", quanto às palavras que se deixam escapar de nossa boca, ora atribuindo-nos uma culpa que não gostaríamos de assumir, ora evidenciando uma faceta de personalidade que prezamos por ocultar - vem bem a calhar como elemento de transição
para o próximo item de meu compêndio. A língua!

Tudo na língua-mãe é mais fácil. Expressar sentimentos, sensações, fatos, acontecimentos. A língua é um fator importantíssimo na construção do indivíduo. É, portanto, mais do que um instrumento de comunicação, é uma questão de identidade. De forma que, em inglês, jamais atingi a totalidade de ser eu mesma. Eu não me sinto Xanda Lemos em inglês. Antes, sou Alex (Éliks), um ser esquisito, estranho, incompleto, com os mesmos 31 anos de idade, mas a competência linguística de uma criança americana de 3. E um sotaque idiota.

Na universidade,tal barreira é deveras desanimadora. Como estudante, os montes de livros e textos para ler - em inglês - tomam muito mais tempo do que eu pensava. Ler, reler, buscar significados no dicionário, e muitas vezes não entender tudo. Porque significar em uma língua não se resume em traduções de palavras isoladas; dependendo do contexto, das cosntruções idiomáticas, uma mesma palavra pode ter sentidos diversos. Uma luta árdua travada com uma língua estranha, que mesmo depois que você a domina, nunca, nunca será sua língua.

Escrever e apresentar trabalhos também são tarefas ingratas. Seria tão mais fácil se tudo fosse em português! Ser, seria, mas não é. Então todos os meus escritos, antes de serem entregues aos professores, precisam passar por uma revisão feita por alguém nativo da língua, para melhorar as construções sintáticas do meu inglês aportuguesado.

Como professora, procuro falar em Português o máximo que posso. Mas quando vejo os olhinhos assustados de meus alunos, sinto que algumas explicações - principalmente de pontos gramaticais - são melhores em inglês. E aí tenho que me virar. Isso quando eles não vêm com perguntas as quais - por serem feitas em inglês - eu não entendo! Tenho que me desculpar, pedir para repetir a questão, quando não preciso da ajuda de outros alunos, para que eles, parafraseando o colega, me ajudem a compreender o que diabos estão perguntando!

Ainda às sombras da questão linguística, tem aquela fase interlinguística, em que você ao mesmo tempo em que tenta se aperfeiçoar na língua-alvo, passa a se esquecer da própria língua. Fogem as palavras. Apagam-se as expressões. Você sabe que tem o conhecimento do que quer dizer na ponta da língua, mas ele não sai. Assim, você começa a inventar uns termos, como por exemplo: você quer dizer algo como sair passear com o cachorro, e acaba dizendo andar o cachorro (walk the dog); economizar ou guardar dinheiro se transforma em salvar dinheiro (to save money). Pronto! Sua identidade está fortemente abalada, à medida em que se sente incapaz de uma boa performance em qualquer que seja a língua!

Outro fator que pesa mais aqui do que no Brasil é a condição de trabalho. Aqui não existe décimo terceiro, aqui não tem abono de férias, e nem as férias podem ser tiradas por 30 dias corridos, como no Brasil é comum ocorrer. Não. Nada disso. Assim, se tirar férias, tem que ser por no máximo dos máximos 15 dias, e usar o dinheiro com que você conta todo mês, nada mais. Para as compras de Natal, o bom é ir economizando desde o começo do ano. Porque senão o Natal é magro, como será o nosso, sem presentes pra mim ou para o Bruno. Assim sendo, meus queridos, não esperem este ano lembrancinhas natalinas. Por ser nosso Natal de primeira viagem, não salvamos dinheiro! E assim começamos a perceber as desvantagens do primeiro mundo.

Para finalizar, todo o conforto desta terra é merecedor de grandes elogios sim, mas pensando bem, pesando bem, as vantagens de morar nos States custam muito. Custam a distância, a saudade, a solidão, a monotonia, a falta de opção, e a sua própria identidade. Daí a pergunta: vale a pena?

Tal resposta depende tão somente de nós. Somos "nozes" que vamos decidir se esta estadia aqui nos valerá a pena ou não. Vai depender de nossa habilidade de reconstrução. Porque no atual momento, estamos ainda nos desconstruindo. Estamos fragamentados, divididos entre aqui e aí. Ora achamos que tudo aqui é lindo. Ora reconhecemos o quão maravilhoso é o nosso país. Ora nos orgulhamos de aqui estarmos, ora nos questionamos: o que é que eu tô fazendo aqui? E assim vamos.

Mas uma coisa é certa: sem desafios, a vida não tem graça. Se tudo é muito fácil, a gente nunca cresce, não sai da sombra da mediocridade. As adversidades podem ser um pé no saco, mas serão sempre a força propulsora da humanidade. É isso que devemos ter em mente quando nada parece ter sentido. Porque tudo na vida faz sentido, basta a gente querer enxergar. E nunca ter medo de agir, de mudar, de abandonar um barco pra construir outro. A mediocridade, a apatia e o comodismo são as únicas coisas que devemos temer.

Porque a vida é curta demais pra esperar que bênçãos caiam dos céus. Pra ficar chorando sobre o leite derramado. Pra passar a vida inteira se arrependendo de algo que fez ou deixou de fazer. Pra ficar pensando como teria sido se, quando na verdade, o tempo não pára pra pensar. É tempo de agir. De encarar os fatos, e de buscar o melhor deles para dar sentido às nossas vidas.

Nós somos atores, autores de nossa própria história. O que queremos que ela conte depois, no futuro, só depende do que escrevemos agora, no presente.

Viver é uma oportunidade que temos para fazer a diferença, para escrever uma história memorável. O que não é fácil. Exige muito. Por isso que 99% das pessoas preferem se acomodar, se recolher nas suas vidinhas, nos seus mundinhos. Eu muitas vezes tendo à inércia. Tenho preguiça, e frequentemente me nego a colocar todo meu esforço nas coisas que me proponho a fazer, ou nas coisas que a vida me impõem.

Outras vezes, acho que sou muito convencida, que é petulância da minha parte pensar de que vim ao mundo para escrever uma história. Este senso de inferioridade e de anonimato que marca a era pós moderna é o grande mal da humanidade. Precisamos botar mais fé no nosso taco. Fazer acontecer não somente para desfrutarmos de uma vida mais abastada, sem dificuldades sejam elas financeiras, sociais, emocionais. Mas para vivermos uma vida feliz, vitoriosa, da qual você possa se orgulhar, e dizer: Amigos, eu vivi!

4 comentários:

Ivo e Fátima disse...

Primeirão.

De novo.

Sogrão

Ivo e Fátima disse...

Pandinha linda

Crônica maravilhosa. Como sempre você consegue expor à perfeição os teus sentimentos.

Beijos saudosos.

Sogrão

fatima disse...

Xanda querida, tudo vale a pena quando a alma não é pequena.
Eu também me divido entre estar orgulhosa das conquistas e da independencia de vocês e o indefectivel: o que estes dois tão fazendo tão longe que não podiam tá fazendo aqui!? E assim vamos indo. Nestes dias de festas familiares fico mais para: droga, eu queria mesmo era ter vocês por perto, seria tão mais divertido, mais gostoso, mais mais...
Estou esperando a Cris e a sua mãe que devem estar a caminho, aí vou ter companhia para me lamentar...snuif snuif
Mas acho o máximo vocês estarem aí vencendo as barreiras da lingua, da cultura e da saudade.
Um grande beijo

BZAGONEL disse...

Sogrão Primeirão, a pole é toda sua! Principalmente quando a Pilar tá de férias em Floripa...

Fatiminha, fiquei com mó invejinha que vc ia ver mamis e Cris... mas ano que vem tamo aí pra conhecer os novos babys da família!

Amamos vcs. Bjos