segunda-feira, 26 de julho de 2010

Breve Retrato

Cultura inútil também é cultura. Inútil. Mas é.

Gostaria de me retratar aqui, politicamente. Bom, pra começo de conversa, politicamente é uma palavra que, pra mim, já diz muito: política mente. Infelizmente, esta é uma grande verdade. Eu confesso que detesto, e não entendo nada de política. Mas mesmo assim me interesso, porque afinal de contas se a gente não se esperta os que podem tomam conta.

Acredito ser uma prática saudável debater e discutir política, porque as ideias são diferentes e ora se confrontam, ora se complementam, ora se compartilham. Debater e discutir política é, então, debater e discutir ideias.

Procuro estar atenta a tudo que gere ou que modifique idéias. Afinal, elas são quase tudo o que pensamos, todas as certezas que temos, as verdades que construímos pra nós e que "passamos" para os outros. Elas também são frutos de discursos, eventos e comportamentos adquiridos e internalizados ao longo de toda uma vida. São portanto fruto de uma história que é particularmente individual e que, ao mesmo tempo, também é coletiva.

Essa inevitável interação maluca e tão magnificamente óbvia do indivíduo com o mundo (e com tudo que nele há, incluindo política) ocorre incessantemente, a cada instante, quer a gente queira, quer não. Por isso é sempre bom estar em dia com nossas ideias, e debatê-las para sabermos se elas são boas ou ruins, úteis ou prejudiciais à sociedade. Sim, uma má ideia pode causar muitos danos. Não sei se já pesquisaram e se dados comprovam, mas acho que praticamente todas as calamidades do mundo são precedidas por ideias idiotas. Por ideias perigosas. Por ideias estúpidas ou enganosas. E, claro, por ideias que simplesmente não deram certo. Podemos ir ainda mais longe e afirmar que pelo menos metade das calamidades poderiam ser resolvidas se as pessoas tivessem mais o hábito de debater, discutir e principalmente, botar em prática algumas boas ideias.

Enfim. Há uma porção de ideias que enfiam na nossa cabeça diariamente e a gente nem faz ideia. Estamos tão emburrecidos, embrutecidos, desenxabidos, que não constatamos que muitas vezes, só o fato de querer mudar de ideia já teria sido uma ideia genial. Eu gosto da ideia de mudança. De novos ares. Daquela sensação de expectativa - e eu geralmente crio mais expectativas do que as outras pessoas, por isso sempre me frustro mais do que o normal. Mas deixa eu parar de dar voltas...

Peço-lhes aqui permissão para citar a Dilma e dizer que eu, "no chinelo da minha humildade", admito, após ponderar as minhas frustrações eleitorais, que deveria estar mais atenta ao meu próprio discurso, e não contradizê-lo, nem tampouco sofrer para sustentá-lo.

Quando eu disse anteriormente que "mudanças mais significantes na política são geradas somente através de mudanças radicais na estrutura, na base de nossa sociedade", eu estava com toda a razão. E digo mais, que o inverso também é verdadeiro: mudanças mais significantes na estrutura, na base de nossa sociedade são geradas somente através de mudanças radicais na política.

Daí, entretanto, a dizer que "nenhuma mudança muito substancial vai ocorrer em nossa sociedade, independente do candidato que estiver no poder" é uma grande mentira. Bulshit. Balela. Este pensamento é abominável e repugnante, e graças ao Ivan, que me abriu os olhos, agora me retrato. Por favor, desconsiderem aquela ideia, e perdoem porque Pandas também erram.

Mas lembrem-se da primeira parte e escolham o candidato ou candidata que mais reflete a verdade daquelas frases. Acredito que assim, meus caros tripulantes deste barco furado, vocês estarão votando na pessoa certa!

11 comentários:

Alessandra Pilar disse...

Poleeee... êÊÊ!

Alessandra Pilar disse...

É, Pandinha linda, quando a questão é política tem um monte de verdades e meia-verdades. Verdade que "mudanças significativas" podem ocorrer, mas tbém é verdade que elas dependem muito de quem estará no poder. Temos uma parcela de culpa nessas questões, pois damos pouco valor ao que deveria ser essencial: saber votar. Mas também é verdade que nesse momento estamos bem enrascados pois por mais que tentemos votar inteligentemente pensando no bem do nosso país, o que temos como opções é, no mínimo, sofrível. Eu vou votar pois acredito que antes de um dever, é um direito meu como cidadã. Mas ainda não sei o que escolher diante das opções que temos no momento. Mudanças significativas podem ocorrer sim, para o bem ou para o mal. Vamos confiar que o brasileiro vai saber escolher a melhor opção. (E espero que essa não seja a Dilma!).
bjinhos, saudades!

Panda disse...

É Pilar, é verdade que as opções não ajudam! Mas há de se escolher alguém. Tudo bem, ninguém é perfeito... mas o problema é que, geralmente, políticos têm mais defeitos que qualidades :-/

Ao anônimo que aqui mui mal-educadamente postou: este é um blog familiar! E pelo bem do bom português, seu recado foi removido.

Ivan disse...

Xanda:

sopesando seus textos (estou "só pesando", hehe... - desculpem...), acho que você não estava tão decididamente equivocada (ou, pelo menos, estava próxima de uma verdade) quando comparou a "política" com "base" e "estrutura".

Creio que a maior e mais importante política que a gente faz está em nosso comportamento diário. Nesse sentido, política todo mundo faz - em boa parte das vezes, de forma harmônica, com bons resultados, "no trabalho, no mercado, no passeio, em sua casa, onde estiver...".

Quando é necessário harmonizar essa "política de base" com a "política" no sentido "macro", aí a coisa tende a se complicar...

Enfim, perdoe-me por também ficar ensaiando - ou melhor: eu não devia nem pedir perdão nem tampouco ficar divagando aqui.

O bom é o diálogo, que é principalmente a arte de conceder a palavra (a quem faz por merecê-la, não é?) -

Enfim (novamente e por último), sei que o diálogo não vai acabar por aqui, então saio pela tangente, avisando que postei uma tradução de um poema que pode ampliar o debate e as polêmicas, e gerar mais deblaterações...

Ivo e Fátima disse...

Pandinha linda

A classe política não é um problema único de nosso iletrado país. Iletrado, pois dos mais de 135 milhões aptos a votar, 5,9% são analfabetos, 14,6% dizem saber ler e escrever sem jamais ter frequentado uma escola e 33% foram à escola mas não terminaram o primeiro grau. Transformando isso em números, dá 72,6 milhões de pessoas sem uma base educacional/cultural suficiente para permitir que avaliem adequadamente os candidatos (não que os outros milhões o façam, mas isso já é outra história ...). Como queremos nós passarmos a ser uma nação desenvolvida com situação tão arrasadora?

Esse números nos mostram perfeitamente porque nunca se faz a tão necessária (entre outras) reforma eleitoral. Que político vai concordar com deixar o voto facultativo? Infelizmente baixa educação é muitas vezes sinônimo de baixa participação. Que político vai querer a implantação do voto distrital? Afinal, o voto distrital permite um controle muito maior do eleitor sobre o "seu" deputado ou vereador. Que político vai querer uma câmera federal que represente fielmente a proporção dos votantes? Afinal, é com essa desproporcionalidade que um voto de um, por exemplo, acreano, vale muito mais do que o meu ou o teu. Àqueles que me vem com isso defendendo a supremacia do sul mais rico sobre o norte/nordeste mais pobre, peço que não esqueçam que uma das funções do senado é justamente a representação igualitária dos estados, independente da sua população.

Para não me alongar muito, e como já disse o Ivan, não se desculpe por fomentar o debate - essa é uma ação política fundamental.

Beijos do Sogrão

Ana Balbinot disse...

Xanda,
Adorei seus textos, como sempre, e mais ainda o debate que acabou promovendo. Ivinho, como sempre, embasadíssimo em números e estatísticas e conhecimento, diz uma verdade terrível, porém verdadeiríssima: dificilmente os políticos que aí estão se perpetuando farão a necessária reforma eleitoral, pelas razões que ele tão bem elencou.
Resta-nos não nos conformarmos e sermos incansáveis em nossas crenças e atitudes.
Beijão!

Ana Balbinot disse...

Xanda,
Já que estamos em um acalorado e necessário debate, sugiro a leitura do manifesto que o Humair Haque escreveu aos líderes do G8. E olha que o cara não é um hippie, mas está criando uma nova contracultura, bem no meio do sistema. Um dos seus blogs está hospedado no site do Harvard Business Review, e ele trabalha pelo capitalismo ético. Quem me apresentou a ele foi a Luciana Stein, jornalista e pesquisadora de tendências de consumo. O blog dela é http://trendroom.com.br e o manifesto do Umair Haque está em http://blogs.hbr.org/haque/2009/07/today_in_capitalism_20_1.html
Vale a pena ler!
Beijos!

Panda disse...

Aninha, adorei o manifesto do Umair. Mais uma vez relacionei esta leitura com aquele livro que te indiquei do Canclini, Culturas Híbridas. O que acontece é que, ao contrário dos velhos senhores que mandam no mundo, Haque está atento às mudanças de relações de poder, que já não são "verticais" mas sim mais oblícuas e entrecruzadas do que nos séculos anteriores...

Este livro é uma coisa! Mal o terminei e sinto que preciso ler ele de novo. Não que seja uma leitura gostosa, como a desse manifesto. É uma leitura pesada, arrrastada, cheia de neologismos e análises de teorias econômicas, políticas, de história da arte, de antropologia e outras ciências sociais. E muitas coisas que ele diz eu não entendo. Doutras eu discordo. Mas a maioria faz sentido e por isso este é um livro que, mais que outros, requer uma segunda leitura...

Ifinha e Ivan, agradeço a vcs as valiosas contribuições neste debate! Concedo aos dois o título de Colaboradores Honoráveis deste diário!

Talita disse...

Sei que é errado, mas depois de minha, nossa, última decepção política, resolvi não me interessar mais.Quase nem votei nesses últimos dez anos em que me exilei em SP.

Mas vou deixar aqui uma contribuiçãozinha em respeito a você e seus amáveis leitores; rsrs


Tô fora

Meu lado esquerdo não vê a direita,
Meu lado direito não vê a esquerda,
Meu centro não olha pra qualquer lado,
Meu ideal não sente nenhuma perda.

A esquerda de agora é uma seita,
Quer discípulo e não eleitor,
A direita só pensa em juntar
Capital, do mundo todo o valor.

Nessa luta pelo vil metal
A esquerda também quer grana,
Tal qualquer seita, por dinheiro,
Ela entra nessa postura sacana.

Enriquece, torna-se elite,
No discurso bem enrola,
Dizendo-se socialista
Dá ao pobre “bolsa-esmola”.

Afagando o super-potente,
Rico mercado financeiro,
A esquerda dá a bolsa-juros
Extorquida do brasileiro.

Assim, não sou de esquerda,
Nem tão pouco de direita,
Nenhum me leva no papo,
Nem o dinheiro, nem a seita.

Sou um supra-idealista,
Um homem da "nova hora",
Da direita ou da esquerda
Decididamente tô fora.

José Virgolino de Alencar

Panda disse...

Mamis amadis!

Isso é pra ser um répenti, é?

Virgulino me lembra Lampião, que me lembra nordeste, que me lembra répenti e literatura de cordel!

Mas tá certa vc mamis, vc pela idade não precisa mais votar mesmo, portanto tem o direito de escolher se quer votar ou não.

Mas Arnold Toynbee avisou: "O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que
serão governados pelos que se interessam."

E falar em decepção política é falar de que época, exatamente?

Existe uma atemporalidade no que se refere a decepções políticas, de maneira que é impossível saber qual delas foi a "grande" ou será a "última"...

bjos

Talita disse...

Verdade insofismável, querida Xandinha...Toynbee "falou e disse", rsrs

Mas não é exatamente isso o que acontece também quando elegemos a pessoa errada? Nossa última decepção foi na eleição do Lula, ver se repetir toda corrupção dos governos anteriores, que ele tanto combatia...pra mim isso foi a gota que faltava...
Perdi a fé nos políticos, votaria com alegria mesmo que tivesse cem anos se ainda tivesse saúde e gente séria e imbuidas do verdadeiro dom de governar para o bem de todos.

Mas como isso é utopia, PAREI, rsrs

bjs