domingo, 24 de março de 2013

Broadway can be boring


O sol de segunda nasceu brilhando. Na janela raiava uma manhã ruidosa e fria, um céu de inverno de puríssimo azul. Depois do café caminhamos até o Rockefeller Center, um complexo de dezenove edifícios comerciais que fica na altura das Sexta e Quinta Avenidas, entre a 48 e a 51. Durante o inverno, no centro da Rockefeller Plaza, cercado por bandeiras das United Nations, tem um rink de patinação no gelo. E numa de suas extremidades, há uma estátua dourada, enorme e um tanto tacky (brega)de Prometeu. 

Rink de patinação no gelo na Rockefeller Plaza: Prometeu dourado ao sol,.

Segundo a mitologia grega, Prometeu roubou o fogo dos deuses e deu-o aos homens. Graças a ele, o homem ganhou luz e sabedoria, o que fez com que nossa civilização florescesse. Tudo isso às custas do seu fígado, desde então bicado diariamente por uma águia temente a Zeus, como castigo pelo furto.


Do lado oposto do rink tem um monumento mais discreto, de granito negro, onde está cravado um discurso de John D. Rockefeller -- o homem que sonhou, idealizou, e financiou a construção do local, em 1930. Seu discurso é uma lista de beliefs expressados pela primeira vez em 1941, dois anos depois da inauguração do seu complexo. É um texto bem bonito. Uma espécie de mantra norte americano. Os Dez Mandamentos do Capitalismo. Ei-los, por mim traduzidos:

Eu creio no valor supremo do indivíduo e no seu direito à vida, à liberdade, e à busca da felicidade. 
Eu creio que cada direito implica uma responsabilidade; cada oportunidade, uma obrigação; cada posse, um dever. 
Eu creio que a lei foi feita para o homem, e não o homem para a lei; que o governo deve servir o povo, e não subjugá-lo. 
Eu creio na dignidade do trabalho, seja ele intelectual ou manual; creio que o mundo deve dar ao homem não uma vida ganha, mas sim, uma oportunidade para cada homem ganhar a vida. 
Eu acredito que o comedimento é essencial para viver bem, e que a economia é a base para uma estrutura financeira sólida, seja em âmbito governamental, comercial, ou pessoal.  
Eu acredito que a verdade e a justiça são fundamentais para uma ordem social duradoura.
Eu acredito que toda promessa deve ser cumprida, e que a palavra de um homem deve ser tão valiosa quanto o seu nome; que seu caráter -- e não sua riqueza, seu poder, ou encargo -- tem valor supremo. 
Eu acredito que a prestação de serviço útil é dever comum da humanidade, e que somente o fogo purificador do sacrifício consome o ranço do egoísmo e liberta as grandezas da alma humana. 
Eu creio no todo-sábio e todo-amoroso Deus, chamado por qualquer nome; as mais altas conquistas, as maiores felicidades, e a mais ampla utilidade se encontra vivendo em harmonia com Sua Vontade.
Eu acredito que o amor é a maior coisa do mundo; que somente o amor pode superar o ódio; que o certo pode, e vai, triunfar sobre o incerto.
Atlas do Rockefeller Center

Além de teatros, consulados, agências de correio e de inteligência internationais, lojas e jardins, as atrações do Rockefeller são muitas. O Top of the Rock observation deck é uma delas. Pena que a gente não foi... deixamos pra depois e depois choveu e nevou e não deu mais. Fica pra próxima! Na Quinta Avenida tem uma escultura de aço imponente d'O Atlas, e dali a gente já via as torres da catedral de Saint Patrick.

O altar principal sem andaimes

Mosaico de mármore no piso da da igreja.

Refletindo bem o momento caótico da Igreja Católica, a catedral mais antiga de New York estava em reforma. Com andaimes por fora e por dentro, aquilo era um entra e sai de turista, operário, padres, carolas, maquinarias, engenheiros, restauradores, pintores, marceneiros. Acendi uma vela para a Virgem de Guadalupe, outra pra São Francisco, outra pra Santa Teresa, uma pra cada dólar que demos.

Fiquei de cara com O Grito, de Munch


Mais duas quadras e estávamos no Museu of Modern Art, também conhecido como Moma. Lá, passamos a tarde inteira olhando Munch, Matisse, Monet, Van Gogh, Picasso, Diego Rivera, Frida Kahlo, Toulouse Lautrec, Dali, Duchamp, Warhol, Cèzanne... e um monte de artistas que nunca tinha ouvido falar. Da próxima vez vou gastar menos tempo com arte contemporânea e ir direto aos clássicos, que foram de arrepiar.

De cara com A Noite, de Van Gogh

E de cara com a Frida.

De noite fomos num musical da Broadway. O fim da picada! Esteve muito ruim. Também! Péssima escolha, fomos ver Spider Man! (?) Os protagonistas Peter Park e Mary Jane eram muito meia boca, deviam ser os substitutos dos substitutos dos originais. Só o vilão, a aranha, as acrobacias do aranha, e algumas evoluções de cenário foram o ponto alto show. Mas a música em si foi chata demais. E aquilo não acabava nunca! O espetáculo durou duas longas horas, um terço das quais Bruno passou dormindo. E eu me irritando. Como odiava aquelas dancinhas! Queria o meu dinheiro de volta.

Depois d'A Dança de Matisse, a dancinha da Broadway foi detestável.

Fora meu mau-humor da gripe e da dor na panturrilha, não sei que aranha nos picou. Logo o mau-humor do frio e o veneno da fome nos dominaram por completo. Em questões de minutos fomos ficando irracionais, rosnando e nos dando patadas e perambulando pelas esquinas em busca de um restaurante aberto, mas nenhum me agradava, ou agradava ao Bruno. Acabamos jantando à uma da manhã, ao som de um pianista cego e de duas fãs desafinadas e bêbadas, num porão italiano ao lado do Hotel: Da Marino. Se por um lado a decoração do ambiente era duvidosa, o atendimento e comida foram excelentes. No entanto com aquela fome e depois do boring sabor da Broadway, qualquer música seria boa, e qualquer comida, deliciosa. 

4 comentários:

Ivo disse...

Pandinha linda

Você nos deu mais uma razão para um dia irmos juntos a NYC: nós também nunca subimos no Top of the Rock!

Além do mais, nós já temos a experiência de nos museus primeiro visitarmos os clássicos (ou os "hot spots"). Depois disso, caso o tempo e as condições físicas assim o permitam, vamos para o "resto" (que "resto" na realidade nunca são...).

Beijos do Sogrão

Panda Lemon disse...

Sogrão! Seria lindo ir pra NY com vcs!!! E pois é assim. O problema de passar pelos artistas contemporâneos antes não é a falta de qualidade. É uma questão de tempo e disposição física e mental, coisas que gostaria de ter investido mais nos hotspots! Bjo e obrigada pelo comentário!

Talita disse...

Linda a foto em que vc aprece refletida no vidro da janela!Aliás todas as fotos estão ótimas.Engraçado que eu tb achei a estatua do Prometeus muito brega qdo ai estive, rsrs...agora tudo ali nos encanta e assusta ao mesmo tempo...Nao vi o monumentos com o poema Beliefs que vc tao bem traduziu.Quero voltar um dia com vcs...aí poderei dizer que conheci um pouco dessa maravilhosa cidade.
I 'll be back, one day!

Panda Lemon disse...

Obrigada, Mãezinha linda! Mal vejo a hora de vc voltar pra cá! Vamos passear por essa e outras cidades! Beijos mil, te amo muito.