quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Obamanos em frente!


E avante por mais quatro anos! 

Quatro anos, quase, faz que eu moro aqui. E pela segunda vez voltarei ao Brasil incumbida de justificar a minha ausência nas urnas eleitorais de meu país. Não digo isso com orgulho. Exerci meu direito-dever de voto desde os 16 anos, e confesso que me dá uma agonia imensa não votar, mesmo sabendo que o meu voto não será decisivo, mesmo sabendo que os candidatos não são lá aquelas coisas. Votar é um monte de clichês. Votar é exercer a cidadania. Votar é encontrar amigos de infância -- e de ressaca -- na  sua zona eleitoral,  devido ao churrasco regado a muita cerveja no dia anterior, só por causa da lei seca. É sentir cheiro de papel na cidade. Sentir o chão grudar nos pés, de tantos santinhos. Entrar na fila e cutucar a maquininha, depois voltar pra casa pensando na sina dos mesários... Mas enfim, faz quatro anos que eu não sei o que é isso, e não me orgulho. Acredito no poder transformador das eleições!

Mas vim lhes falar desta experiência, que foi presenciar a disputa eleitoral entre Obama e Romney aqui na Carolina do Norte, um estado extremamente conservador -- quer dizer, não tão extremamente conservador quanto os estados da Carolina do Sul ou Alabama. Mas sim, conservador. O cinturão bíblico dos States. Aqui tem o maior número de igrejas por metro quadrado que já vi na minha vida, em uma quadra chega a ter duas, três... haja fiel! Mas religião não parece ser assim um empecilho para o processo eleitoral. Exceto quanto engloba tabus. A maioria dos fieis que é contra aborto vota no Romney, cuja plataforma política sustenta que, se uma mulher é estuprada, a culpa é dela. Ou vontade de Deus.  

Judeus preferem Obama. Também, depois de tanta lambeção de saco! Obama governa duas nações, uma aqui outra no Oriente Médio. Claro que tem judeu querendo voar no pescoço do Obama, dada sua falta de disposição bélica. Antes de tudo, porém, trata-se de uma indisposição econômica. Só isso que pode afetar a grandiosa belicosidade americana. Aí você pensa, tantos soldados servindo no outro lado do oceano mal vêem a hora de voltar pra casa. Mas em casa não tem empregos. Por isso tão mandando tantos latinos embora, e por isso uma certa morosidade em trazer as tropas de volta. Por isso mais e mais os latinos estão lutando guerras que são americanas, em troca de um green card que na verdade tem grandes chances de nunca ser emitido... 

É interessante olhar de dentro um país que sempre vi de fora. Admirar suas virtudes, que são muitas, e suas atrocidades, que são tantas. É interessante ver um país com cidadãos que não precisam votar, mobilizando-se voluntariamente por seus candidatos, batendo de porta em porta, telefonando pra arrecadar fundos. Praticando suas cidadanias porque querem, e não porque são obrigados. É lindo ver um debate presidencial em que os dois candidatos investem um contra o outro com a força das palavras, com posturas firmes, em tom incisivo, e com muita eloquência, um pouco de humor e sorrisos cínicos, bem verdade, mas acima de tudo, com preparo e competência. 

O melhor de tudo, porém, é ver Obama ser reeleito! Para nós, que não somos tão conservadores (porque aqui nos States todo mundo é conservador, inclusive os democratas), foi um alívio imenso o Romney não ter ganhado a disputa. Bem verdade que Romney botou medo em todo mundo, mas  como observou meu amigo Idelber Avelar, Romney perdeu em Michigan, estado onde nasceu; em Massachusetts, estado onde ele mora; e em New Hampshire, estado onde ele tira férias. Penso se até os mórmons da igreja que ele frequenta não teriam deixado de votar nele.

Afinal, dois dos meus vizinhos que são Republicanos votaram no Obama, simplesmente porque "no Romney não, no Romney não dá."

E ontem vi meus alunos com adesivinhos na lapela dizendo: I Voted! Votar eu não posso, são ossos do exílio. Mas há um certo prazer neste voyeurismo eleitoral. Apenas observar uma nação crescer, mesmo em meio à queda livre da derradeira decadência econômica. Exultante. Obamaivos uns aos outros, irmãos! Amém.