quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Just... The Who!

Ninguém gritou We are mods! We are mods!
Aposto que os velhinhos iam enfartar se fossem tocar em Curitiba.


Sexta-feira, 9 de novembro de 2012. Último dia para submeter a versão final e definitiva da tese. Processo complicado. Você passa três anos lendo, pesquisando, escrevendo, revisando. Pirando, não dormindo, comendo mal, passando mal. Até o dia da defesa em si (que foi no dia das bruxas!), em que você defende a dita, e depois de cinco minutos de deliberação (que duram uma eternidade) -- você sozinha na sala, esperando sua nota -- recebe um A, e um monte de sugestões pra melhorar mais seu "already outstanding job." São tantas emoções!

Sexta-feira, 9 de novembro de 2012. Além de toda paranoia referente à graduação, tinha que apresentar, ao meio dia, um workshop sobre transições culturais que o Center for Graduate Life me encomendou no início do semestre, para alunos e professores da Graduate School. Então enquanto eu aprontava aulas, a tese e a defesa, eu também preparava esta palestra. Uma hora e meia de duração. Dias de muita pesquisa, estudo e planejamento, e por isso mesmo, um sucesso.

Sexta-feira, 9 de novembro de 2012. Depois da palestra e de corrigir provas e de colocar no sistema um monte de notas de alunos, cheguei em casa esbaforida pra encontrar nosso ilustre hóspede, Zé Ivan, o Invisível, e meu adorado marido, Bruno, pra mais uma aventura rock'n'roll. Show do The Who em Greensboro! Nossa vizinha, Belinda, acabou comprando o ingresso que teria sido do Fábio Elias, ou do Caetano, ou do Du, ou da Taísa, ou da Lu, ou do Crivano...

Entramos no carro e, pé na estrada! Mal podíamos esperar pra ver e ouvir ao vivo uma das maiores óperas-rock da história do rock: Quadrophenia, executada pela banda que pra sempre fará parte do hall dos maiores ídolos de rock de todos os tempos: The Who!


Roger Daltrey e seu mamilo sexy. Rá, rá!


- Who??!

Puta merda! O rock é mesmo um dinossauro, espécie em extinção. Incrível a quantidade de gente que não conhece, não faz ideia, nunca ouviu falar de The Who. Roger DaltreyPete TouwshenJohn EntwistleKeith Moon? Ignorância? Insapiência? Mudança radical de geração e comportamento? Incipiente gosto de derrota musical pela indústria? Não importa! Os últimos dois não morreram, se eternizaram. E os dois primeiros continuam vivos, muito vivos, e bem vovôs, mas vovôs roqueiros, galãs, vigorosos superstars! Revivendo e fazendo história. Só quem conhece sabe o que está perdendo!

Acompanhados pelo baterista-quase-cinquentão Zach Starkey (filho de Ringo, baterista é...) do baixista Pino Palladino; do vocalista, guitarrista e irmão de Pete, Simon Towshend; dos tecladistas Chris Stainton, Loren Gold e Frank Simes -- este assina a direção musical do espetáculo -- o show é uma verdadeira maratona musical! E conta com dois multi-instrumentistas nos metais, além de efeitos visuais e sonoros, que dão um show à parte. Quando Quadrophenia and More chegou perto de Charlotte a gente nem titubeou. Vamos? Vamos! E fomos. Eu, Bruno, Zé e Belinda. 

- Let's Go to Greensboro!

Greensboro está para Charlotte assim como Ponta Grossa está pra Curitiba. Não é longe, mas é uma viagem. E pegamos um congestionamento no caminho. Chegamos na cidade com a maior cara de fome, meio mal-humorados, e concordamos que, famintos, ninguém iria curtir o show. Paramos num restaurante e pedimos um banquete: cerveja, 20 asinhas, uma pizza grande, e quatro palitos de mozzarella à milaneza para aperetivar. Quando a comida chegou, Bruno deu chilique porque viu que era um exagero, mas enfim a fome era tanta que nos empanturramos sem nenhum esforço -- exceto a Belinda que beliscou uma asinha e passou mal (como sempre... ela fez aquela cirurgia do estômago e tudo que ela come que é frito faz mal. Condição estomacal delicada). 

Zack Starkey: Ringo loiro!


- Let's see The Who!

Chegamos no pavilhão do Greensboro Coliseum e rapidamente nos dirigimos aos nossos assentos, que ficavam na pista, fila 14. A vista do palco era excelente, tirando é claro o fato de estarmos numa terra de gigantes, onde todos são mais altos que nós. Não teve problema, a gente pulou alto e ultrapassou todas aquelas carecas brancas, leques e laquês. Assim, exultantes e eufóricos, assistimos a um dos maiores e maiores shows de nossas vidas! A sensação de felicidade era tanta que só tinha uma coisa capaz de não aumentá-la ainda mais: o fato de outras pessoas que amamos não estarem com a gente lá. Fora isso, o mundo era perfeitamente quadrophênico. 

Oito e meia em ponto. As luzes se apagam. Nos telões principais, três esferas -- uma maior no meio, e duas menores ao lado -- lembravam os alvos, símbolo da aeronáutica britânica. Ou os faróis de uma vespa. Projetavam o nome da banda, como se ele boiasse na água. Nos telões inferior e laterais, retangulares e enormes, imagens de um mar revolto lambendo as rochas. Som de oceano e chiados de  ondas sonoras, uma radiola velha tocando The Who, é claro. Pouco a pouco, sintetizadores foram enchendo o ambiente de expectativa. E no palco, a meia luz desvendava os nossos astros! De repente, Pete canta...

- Is it me for a moment?  

E a banda entra. Era pra ter sido um estrondo! Mas por algum motivo ou falha no som, veio uma guitarra magrinha que não condizia com a empolgação de nosso herói. O baixo quase não se ouvia. A bateria ainda soava meio metálica. Porém, conforme o show foi seguindo, o som foi ficando mais redondo. Ou deveria dizer, mais quadrophênico?

Pete, o autor da obra... o mentor da banda? 


A obra...

Quadrophenia é um musical idealizado e escrito por Pete Towshend, o disco foi lançado em Outubro de 73. Baseados nesta obra a banda lançou, em 1979, um filme homônimo. Trata-se da história de Jimmy, um mod meio loser e depressivo, que não tinha nenhum talento e nenhuma perspectiva de vida. Só tomava boletas e arranjava tretas, junto com os demais mods, que odiavam os rockers, e vice versa.

Ps.: Qualquer semelhança com o underground do terceiro mundo não será mera coincidência. O filme, por pior que seja, inspirou gerações, inclusive a minha. Muitos dos meus amigos se auto-denominam "mods". Eu mesma fui "modificada" pela "cena" da cidade, enfim. Para muitos, só o fato de gostar de The Who já faz de você um mod. E te obriga a vestir uma parca verde, e costurar um alvo na parca, e tatuar um alvo no peito, ou no mínimo, comprar um bóton de alvo, etc. etc. etc. Enfim, copiar velhas modas europeias porque as modas novas é que são demodés.

O filme...

Muito do que passa nos telões do show são imagens retiradas do próprio filme, que eu, particularmente -- e como os leitores mais espertos já devem ter constatado -- acho bem ruinzinho. Um ator inexpressivo que tenta incorporar forçosamente a esquizofrenia quádrupla, ou quadrophenia, da personagem que, na verdade, representava a banda, composta pelos egos de cada músico do Who - Pete, Roger, John e Keith.

O plot é previsível, apesar do "open end." O cara é incapaz de se relacionar, leva um pé na bunda da gatinha, é botado pra fora de casa pela própria mãe (ao descobrir que o filho andava tomando remedinhos). Desolado, ele fode sua scooter, e logo em seguida descobre que seu maior herói, o líder da gangue mod, trabalhava como bellboy de um hotel. Jimmy então, num ato ímpar de valentia, rouba a scooter do ex-herói que tava lá, batalhando no seu sub-emprego, e foge em direção a um penhasco. Ninguém sabe se ele vai conseguir se matar ou não. Provavelmente não.

O show...


Puta show. 


O show é do caralho. E tem no mínimo dois pontos altos, que dão nó na garganta de emoção! São os tributos a Moon e Entwistle. Eles participam do show, projetados no telão. John Entwistle aparece fazendo um solo mostruoso de baixo em que Zack Starkey o acompanha com a precisão de Ringo Star, e a desenvoltura estabanada de Keith Moon. Impressionante.

E depois a banda toda toca pro Moon intercalar os versos com Roger Daltrey em Bellboy. Ele aparece sorridente no telão, e a gravação é acompanhada ao vivo pela banda. Nessa hora o olho enche de lágrima e damos três vivas à tecnologia. Portanto, barões vermelhos, podem sim, trazer o Cazuza de volta em forma de holograma. Os heróis não morrem nunca. Principalmente quando os ressuscitam.

Por não querer me preocupar com nada além daquele momento único -- afinal, estava curtindo minhas primeiras horas de "mestra" e minha atual (e relativa) liberdade acadêmica -- não gravei o show, não marquei o nome das músicas, não fui me matar pra pegar o set list no palco. Apenas aproveitei, sem me incomodar com o que eu ia escrever pra vcs depois... porque nada, absolutamente nada do que eu escreva aqui, vai traduzir o que eu presenciei lá. Quem quiser saber como foi o show, tem um vídeo aqui (escolhi o momento em que Keith Moon canta com a banda, porque nessa hora eu chorei). E o setlist você acessa aqui. Woo who! Deixo-vos com o conselho de Roger, que ao final da apresentação, com uma xícara de chá na mão, se despediu assim: sejam saudáveis, mas principalmente: tenham sorte! Até o próximo show!

10 comentários:

Pablo Donne disse...

"Rock and Roll is a fine Art." David Bowie Grande aventura!

Jorge Alfredo disse...

Aventura entre as obrigações da realização profissional e a busca do fantástico mundo da música, como alimento da alma. Só mesmo você, menina, para nos trazer a lembrança dos tempos da "brilhantina" que vivemos num passado tão presente. Feliz por você: entre o sucesso profissional e a ventura dos sons eternos. Viva!
Tio Jorge

Ivo disse...

Pandinha linda

Você sabe, já falei várias vezes: computadores tem vida própria. Não sei por que cargas d'água, há mais de 3 horas tento acessar o local dos comentários, e só agora fui liberado!

Que narração emocionante - você se superou desta vez, ainda mais para quem há mais de 40 anos comprou My Generation, Tommy, Quadrophenia, entre outros (creio que o Caetano está com esses discos...). O maior problema foi efetivamente não termos podido estar aí com vocês.

E veja como são as coisas: há muito afastado da cena do rock, apenas com eventuais "audições" do Classic Rock da Accuradio, não conhecia Zack Starkey. Quando você me falou que o baterista do show foi o filho do Ringo, eu imaginei um piazão de menos de 30 anos, e não já um "senhor" quase cinquentão. A mim parece que os antigos ídolos não sofrem as agruras do tempo! Na minha talvez miope ótica, Ringo, Roger, Pete e todos os outros, serão sempre os jovens que mudaram a música na segunda metade do século passado.

Mudando de assunto, e aproveitando a deixa que você colocou sobre a tua tese, saúdo "oficialmente" a nova mestra!!!

Beijos do Sogrão orgulhosão

rose borges disse...

Aaaaaaiiiiii... que delícia de texto, Master Pandaaaaa !!!!

Panda Lemon disse...

Obrigada, tio querido e amado!

Panda Lemon disse...

Bowie sabe das cousas.

Panda Lemon disse...

Pois eu também, sogrão, fiquei surpresa com a idade do Zack... ele não somente aparenta ser mais novo, dada a vitalidade e o vigor de suas baquetadas. E mesmo os vovôzinhos no palco, eles ficam encapetados, rejuvenescem, é uma coisa linda de ver.

Panda Lemon disse...

Oun, Rose, vc é suspeita... beijos amora!

BZAGONEL disse...

Melhor show dos últimos 50 anos!

Panda Lemon disse...

Mmmm, será? Para mim o show do Ray Davies foi o melhor show dos últimos 2 anos...