quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

New Orleans

Band of Brothers

Apesar do céu chumbo e do dia chuvoso, o vôo foi bem tranquilo. Eu vinha acumulando ressacas de álcool e de avião desde o meu aniversário, no meio de dezembro. E minha única certeza antes de aterrissar no Louis Armstrong International Airport era que, tanto meu fígado quanto meu medo de avião já tinham, há algum tempo, desistido de mim.


There is a House in New Orleans...

Nova Orleans habitava seu mapa mental já fazia bem mais que um par de anos. Você cresceu perto de um bairro com esse nome. E várias vezes quando entrava num Interbairros, mergulhada num livro, era justmente em Nova Orleans que você se tocava que não tinha descido no ponto... porque o antipó esburacado lhe atrapalhava a leitura. Então você encostava a cabeça no vidro pra batucar o coco e chacoalhar as ideias, e seguia até o terminal do Campo Comprido onde pegava outro ônibus, no sentido oposto, pagando uma só passagem. 

Muitos livros depois, quem diria! Você iria parar na verdadeira New Orleans. Foi a Audrey, sua amiga da UNC, que propiciou esta oportunidade de trabalhar, pelo segundo ano consecutivo, nas conferências do CLAH (Conference of Latin American History) e AHA (American History Association). 

Finalmente -- e o melhor de tudo, tudo na faixa -- você conheceria a famosa cidade que Eric Burdon eternizara na sua memória com "The House of the Rising Sun." Contemplaria as margens do Mississippi River, sentindo-se assim um Mark Twain, imaginando as Aventuras de Tom Sawyer. Provaria o sabor e o tempero da verdadeira cajun food. Desbravaria as ruas históricas do French Quarter e ouviria o que, sem nenhum receio, denominaria jazz de raíz. Sentiria, enfim, o astral sincopado daquela cidade pulsar nas suas veias, e em cada esquina. 


Às margens do Rio Mississippi 

Bourbon over Bourbon Street

A vista do nosso quarto, no vigésimo quarto andar do Sheraton Hotel, era uma coisa estonteante. A janela, do teto ao chão, era um quadro vivo, com as águas do Mississipi cintilando ao fundo, deixando-se cortar por ferrys, barcos e navios. Do lado direito uma ponte moderna se elevava atrás de prédios e cassinos, ligando as duas margens do rio. Fora a vista, estávamos a poucas quadras da Bourbon Street, o principal point da cidade! Ficamos satisfeitíssimas pois nosso quarto era muito chique e a gente achou que a cena pedia um bourbon, mesmo às nove e meia da manhã. Afinal estávamos na Big Easy, e só trabalharíamos no dia seguinte.

Vista do quarto

Wikipanda Informa

New Orleans -- também conhecida como Nola ou The Big Easy -- é uma cidade portuária no sul dos Estados Unidos. Foi capital do estado da Louisiana até 1831. Fundada em 1718, permaneceu sob o controle espanhol até 1801, quando as guerras Napoleônicas devastaram a Europa, decapitando reis e rainhas, e engolindo seus reinos e territórios além mar. 

Napoleão devia estar bem doidão quando decidiu vender sua recém-adquirida e vasta Lousiana por uma merreca pros gringos. Na  verdade ele queria mesmo era foder com a Inglaterra, e por isso contribuiu não somente para o sucesso da independência dos Estados Unidos, como também mais tarde colaborou para dobrar, praticamente, o território norteamericano. Os franceses não vão com a lata dos americanos? Deve ser porque eles se arrependeram de não ter uma New Orleans.

Turbulências históricas à parte, no fim tudo isso gerou um legado multicultural maravilhoso. Pense na riqueza das culturas hispana, francesa, africana e americana juntas num só lugar? Este legado se mostra não somente na atmosfera, mas também na arquitetura, na música, nas cores, nas festas, e óbvio, na culinária da cidade.


Haja rum! E houve rum.

Apesar da breve estadia, cada minuto foi muito bem aproveitado. Na quarta dia 2 de janeiro, depois do bourbon no hotel e das malas desfeitas, fomos almoçar no Pat O'Brien. Situado no coração do French Quarter, este é um restaurante tradicional que ficou famoso em 1940, após o hurricane. Trocadilhos à parte, o hurricane do Pat O'Brian é um drink! Feito com rum, maracujá, suco de limão, de laranja e de romã, o proprietário o criou pra se livrar de um horroroso rum que ele foi obrigado a comprar no final da década de 30. Pois é. Há runs que vêm para o bem.

Casa de shows habitada pelos antigos espíritos do jazz
A bebida era servida aos marinheiros em "Hurricane Lamps," grandes lanternas de emergência então usadas como copos improvisados, que eles podiam levar para o convés dos navios sem despertar suspeita de seus superiores. Assim nascia o Hurricane. Oh well, confesso que muito provavelmente esse meu conto aumentou algum ponto, ou quem sabe omitiu algum ingrediente... mas depois de tomar dois hurricanes quem é que se lembra tudo exatamente? Se quiser conferir a história está lá, bem explicadinha no cardápio.


Depois do almoço saímos explorar as redondezas. Pelo caminho fomos experimentando estranhas  especialidades como o Hand Granade (blergh!), e um ou dois Daiquiris (déqueuris), que os bares oferecem em cada esquina. Foi já meio bebuns que entramos numa Voodoo Shop. A loja tinha de tudo: carranca, vela, erva, caveira, vodu, máscaras, sais, cruzes, tarôs, zumbis. Era um sincretismo de dar inveja a qualquer Bahia de Todos os Santos.

Mas de noite tínhamos um jantar de negócios. E como era de se imaginar, a gente já tava pra lá de Mahakesh. I mean, profissionalmente borrachas. E no jantar, Poboy de camarão e mais uma rodada de drinks pra fechar a noite com tudo rodando.

Hot chocolate and beignetes

No dia seguinte, obviamente, acordamos de ressaca. Eu ainda estava melhorzinha, já bem treinada pela maratona de fim de ano entre Charlotte e Brasil. Mas a Audrey, tadinha dela, quase nem conseguiu desfrutar dos beignetes (leia-se benhêtz) do Cafe Du Monde. Lá, tomei o melhor chocolate quente de toda a minha vida. Ó, eu não estou exagerando.


Jefferson Square, quase em frente ao Cafe Du Monde

Depois nos outros dias a gente teve que acordar cedo e trabalhar bem lindas na mesa de informação, fingindo que dormiu bem e o bastante, e que bebeu moderamente na balada anterior (algo que, eu receio, seja impossível em New Orleans).


Últimas Noites em Nola

Durante o dia, trabalhavas. Durante à noite, saías. Foste a um show de jazz e também num standup commedy meio duvidoso, em que se misturava música boa e piada ruim. Dançaste o "pré carnaval jazz" da Bourbon Street, cujos carros alegóricos eram ônibus com bandas instrumentais, e os naipes de metais eram fortíssimos. Ganhaste máscaras e colares de Mardi Gras, sem que para isso tenhas tido que mostrar os peitos. Que bom! Estava muito frio pra mostrar os peitos.




F I M

8 comentários:

Pablo Donne disse...

Gostei do texto, Lemos... e belas fotografias...

Anônimo disse...

Oi, Xanda,

Legal demais. Nessa cidade que a minha filha se formou. Passei 40 dias visitando os parques, museus e arredores. Andei na famosa barca do Mississipi... Gostei demais, especialmente de sentar à noite na calçada do French Quarter para ouvir Granpa Elliot cantando e tocando uma gaitinha fenomenal.

Beijo carinhoso,

Hardy

Panda Lemon disse...

Obrigada, Pablito!

Panda Lemon disse...

Pois Hardy, vc deve se orgulhar muito de sua filha mesmo!!! Porque se formar, com honras, numa cidade onde a festa sempre compete com estudos, é mesmo um grande feito!!! Beijos carinhoso pra vcs aí tb =)

Ivo disse...

Pandinha linda

Que texto delicioso! A alternância entre a narração convencional e com o panda oculto falando para você ficou muito bom!

Deu uma vontade de reeditarmos aquela cena do Café du Monde, com todos 20 anos mais velhos e com você junto! Um dia ainda o faremos.

Beijos do Sogrão

Panda Lemon disse...

Faremos sim senhor, sograo!!! Oxala seja em breve. Sorry to sem acentos no computer da escola.

Adorei sua sensibilidade textual reconhecendo a alternancia de vozes narrativas do meu texto. Na verdade, sao varios pandas polifonicos falando, um eu - panda de sempre, narrando em primeira pessoa; um vc, panda na segunda pessoa, um panda-historiador falido na voice-over narration (wikipanda), e outro panda bem conservador e formal no final, usando a segunda pessoa do singular. Hihihihi.

Beijos

Tininha disse...

Que maravilha essa cidade, com todo glamour, histórias e peculiaridades. Quando tive essa oportunidade, fora ante, bem antes do Catrina. Mas, pelas fotos vejo que a cidade continua encantadora. Estou muito feliz por você amiga, com todas essas conquistas. Panda linda, sinto muitas saudades. Beijos enorme de sua sempre amiga Tininha.

Panda Lemon disse...

Tina! Saudades, minha amiga! Bjos