quarta-feira, 2 de março de 2011

O que acontece em Curitiba?

Mesmo estando longe, tenho mergulhado fundo nas mudanças pelas quais Curitiba tem passado. É tanta notícia maluca!!! Tudo começou com o Fábio largando a Reles pra seguir carreira solo, de Sertanejo Universitário. Um baque! Uma ironia quase perversa. Tudo bem que ser brejeiro, alegre, cantador e contador de histórias - e até meio brega - o Fábio Elias sempre foi:

"E quando o tempo se distrair/ Deixando a cicatriz no meu sentinmento" - rimando com  -"Verei um mundo novo em mim . . . deixando um lamento", é um romantismo ingênuo e humilde, e sim, brega.*

Mas era o máximo, porque era rock, e principalmente, porque era a Reles. Nada a ver com Sertanejo Universitário,  um estilo que  pela própria inconsistência do nome (porque sertanejo, que devia ser, não é, e universitário, que não podia ser, é), condena e denuncia uma decadência não somente estética e musical, mas moral e ideológica. Não do Fábio, mas do Brasil. E não só no Brasil. Aqui nos States não é diferente. Decadence avec elegance é coisa do passado.

Falar em passado, não contarei aqui a velha história dos grandes festivais (que não vivi), em que os universitários não somente consumiam, mas produziam o fino da bossa, o chumbo grosso da música de protesto, a inovação estética de uma fusão da MPB consagrada com a rebeldia alienígena do rock na tropicália. Ou dos conceitos inrotuláveis de um Neima (Ney Matogrosso), ou da contracultura polêmica de um Lobão. Definitivamente, hoje carecemos de discurso, de inovação criativa, de massa cinzenta mesmo, na música. Imbecilizamo-nos todos, quando na verdade temos muito mais ferramentas e informação para evoluir do que aqueles velhos nomes tiveram quando jovens. Mas nós nos acomodamos. E nesse contexto, se apegar à erudição pra dizer que tem bom gosto é um ato um tanto quanto óbvio, e não menos medíocre.

Mas agora vamos focar no que há de bom... outra grande mudança aí na terrinha, desde que me mudei pra aqui, foi a eclosão do Garibaldis e Sacis na cidade.

Voice over narration: Em biologia, eclosão refere-se à abertura natural de um ovo incubado fora do corpo da mãe, uma vez completo seu desenvolvimento embrionário.

Resumindo, eclosão nada mais é que a ruptura de uma casca - a casca do ovo em que Curitiba por muitos anos se confinou, e a qual malucos, Garibaldis e Sacis quebraram com a maior descontração carnavalesca. Simples assim? Uma ova! Demorou anos. Desde 98 se não me engano. O que era contra-cultura virou mainstream, mas passou  primeiro por um processo, e foi crescendo aos poucos.

O mesmo não se pode dizer da Rádio Paraná Educativa em 2011. Quando recebi aqui via skype, blog e e-mail,  a notícia de que a Educativa revolucionou a música paranaense, fui na fonte conferir. Passei dias ouvindo a rádio pela internet, e apesar de ter escutado Criaturas (ainda que só as antigas) e muitas outras bandas das quais eu gosto por simples obrigação suspeita, eu achei a programação uma grande merda. Ultimamente estava melhorando. Mas careceu de planejamento, cuidado e estratégia.

Confesso!!!

Eu sempre tive um gosto musical meio elitista - em casa era só alta e nacionalista cultura, caetano e chico buarque - e bem por isso fui ouvinte e telespectadora da Educativa por muitos anos, e fiquei feliz quando consegui inflitrar algumas de minhas músicas na programação de uma rádio pela qual cultivava laços afetivos, tanto de amor como de ódio (no que se refere ao ódio, mais à TV por exemplo, quando o Ciclojam saiu do ar e o Enfoque passou a ser uma só vez por semana, na gestão do Requião). 

Subitamente, na gestão Richa, os paranaenses que passaram a tocar, aos montes, na rádio Educativa, lembraram aos ouvintes de como somos "xaropes," amadores, e de como a imensa esmagadora maioria ainda está longe de atingir um patamar radiofônico! Eis aí a  primeira grande lição que essa história nos passou. Músicos, aprendamos a encarar a arte como um trabalho - dediquemos no mínimo 4 horas por dia para isso, e procuremos sempre a ajuda de profissionais. Não de amigos. 

Abro um parêntesis: (É claro que tem coisa boa, interessante, bem gravada, e que merece ser tocada. Mais do que simplesmente merecer serem tocadas, no entanto, essas músicas que são excessão à regra de amadorismo não merecem ser colocadas no mesmo "balaio de gatos," num random sem nexo, sem nenhum critério de estilo!)

Que critério usaram? Tocar o Paraná? Um bairrismo anêmico, nocivo, forçado, inútil, que nunca fez parte da nossa cultura - mas que agora, com Garibaldis e Sacis, já começa a se modificar NATURALMENTE. Cultura não se enfia "goela a baixo." Cultura se negocia constante e lentamente.

O que aconteceu na Rádio Educativa foi um laspo convulsivo - vamos vomitar a música do Paraná! - uma falta completa de tato e inclusive de estratégia política. Foi também uma falta de respeito não somente com o ouvinte de anos, mas inclusive com o prórpio artista paranaense, cuja música se utilizou em vinhetas, sem no entanto ter autorizado sua utilização para tal fim. O que seria crime, vira favor ao artista.  E assim, não podemos reclamar, porque afinal, estamos tocando na rádio. Isso é meio insultante! Favorece-se, enfim, a perpetuação de um sistema nepótico e clientelista que  vem impedindo - desde a era colonial - o nosso país de sair da mediocridade!!!

Mas voltemos ao que há de bom... Quem imaginaria que depois da feirinha estariam os curitibanos de todas as espécies - os hippies, os punks, os Mods, os conservadores, os intelectuais, os artistas, os anônimos, e todos juntos, cantando e dançando e fazendo ciranda no Largo da Ordem? Curitiba está quebrando sua casca!

Eu acredito na força da música do Paraná. Mas acredito que ela caberia em programas especiais, de acordo com estilos que se justificam, dentro de uma programação direcionada tanto a ouvintes antigos, como novos. Já apitei desde o início e repito agora: gosto do Tupan, mas ele não previu as consequências antes de mudar bruscamente uma rádio que é - sempre foi - patrimônio da elite paranaense. Não precisa ser expert nem em arte, nem muito menos em política, pra saber que contra elites nada se impõe, tudo se negocia. Toda mudança exige um período de transição, pela qual a Educativa nunca passou. Simplesmente mudou. E a saída de Tupan na rádio agora refletiu a mesma mudança brusca. Para toda ação, uma reação.

Eu lamento o que aconteceu, e acho que agora que o elástico esticou e arrebentou, perdeu muito da flexibilidade. Espero que a música paranaense que tocava antes da gestão Tupan continue, e que mais espaços se abram, mas favorecendo uma aproximação QUALITATIVA, ao invés de QUANTITATIVA.  Clamo pela volta do CICLOJAM, e por que não do CALEIDOSCÓPIO (de mesmo produtor, mas o último na extinta Estação Primeira).
 
 
*RELESPÚBLICA, "Por Você," em As Histórias são Iguais, 2005. Nada contra o Fabelinha. Sim, não Parei! de ser fã e adimiro a coragem, a alegria e o talento dele, e principalmente, respeito seu direito de cantar o que quiser, onde quiser, pra quem quiser.

8 comentários:

Alessandra Pilar disse...

Pandinha,
Faz um tempo que eu não escuto a Educativa. E deixei de ouvi-la justamente por achar que a programação estava sem critério e sem nexo. A qualidade das músicas selecionadas deixavam a desejar, e muito. Então não posso dar uma opinião sobre a programação atual. Mas posso opinar sobre a ideia de enfiar "goela abaixo" dos ouvintes música sem qualidade, seja técnica ou sonora. Quanto ao uso de músicas em vinheta sem autorização, deixando claro que o artista "deveria" se sentir lisonjeado, acho um absurdo e um desrespeito.
Acredito que deve-se sim abrir espaço para o artista local, desde que com qualidade.
Quanto ao Garibaldis e Sacis, eu fui uns dois anos atrás, Chico pequeno ainda, e era meia dúzia de gatos pingados. Dá gosto ver que o movimento está crescendo e se consolidando como uma opção saudável para o carnaval curitibano, que vamos combinar que é de envergonhar. Ontem vi a vinheta das escolas de samba na televisão e fiquei com vergonha! Sério mesmo. Mas o "Garibaldis e Sacis" é o que salva tudo isso.
Escrevi muito né? hehehe
Bjinhos e saudades...

Panda disse...

Sim Pilar, mas mesmo o carnaval de Curitiba, acho que a iniciativa vale a pena... vi umas fotos do ano passado de um bloco de velhinhas desfilando na chuva, achei lindo! Mas nunca fui, não posso falar.

Bjos!

Amandha disse...

Xanda, Garibaldis tá uma delícia, fui em quase todos os dias esse ano, cheio de disversidade, gente bonita e alegre, tudo numa boa. Alice vai só quando maiorzinha, é muuuuita gente, tenho medo.
Beijosss

Ivo e Fátima disse...

Pandinha linda

Nossa mãe - quando você resolve botar a boca no trombone, sai de baixo...

Na realidade, nem sei o que comentar - alienado como sou (ainda mais sendo um carnavalesco que, salvo prova em contrário, só saiu no nosso carnaval de rua UMA vez com a Fátima, Raquel e Alexandre - mas aquela vez foi "difudê" - eu e o Alexandre. vestidos de mulher, Fátima e Raquel de homem) nunca tinha ouvido falar de Garibaldis e Sacis; tive que consultar a internet agora para descobrir que é um bloco carnavalesco curitibano que sai ANTES do carnaval...

Quanto à Educativa, sou réu confesso. Nada sei sobre ela, nada ouço nela. O meu rádio há muitos anos "quebrou" na frequencia 90.1 - era Estação, passou a CBN, e nunca mais saiu de lá. Acontece.

Você deveria começar a mandar as tuas crônicas para publicação na Gazeta - te agarantio que sai. Numa dessas começam inclusive a te remunerar.

Beijos do Sogrão

Fatima disse...

Xandinha, ando meio fora de prumo...que bom que o Ivo entrou aqui agora e me falou sobre a outra postagem, aí quando entrei ele já apitou, tem nova!
É claro que não faço idéia do quem são os Sacis...mas tenho tentado ouvir a Educativa, principalmente para ver se ouço Criaturas. Fora uma vez que ouvi o Lidio, no restante sempre foram umas m....e estranhei que de vez em quando tinha a impressão que ouvia Criaturas...mas já acabava. Sabe como sou desligada, as vezes não sei como chego em casa, quando vejo to aqui...então era numa vinheta????Sou mesmo uma anta.
Sabe que acontece muito isto de quererem usar minhas imagens e não pagar achando que estão prestando um favor em por uma imagem minha...
a titulo de divulgação entendeu???Zebedeu???
Isto é sacanagem!

Panda disse...

Amandhinha, tá certa vc de não levar, afinal, ter que ficar cuidando a cada segundo da pequena não vai deixar vc se divertir, e sim, os riscos de acidentes são altíssimos em multidões!

Para os próximos carnavais, no entanto, quando for levar a Alice, leia a postagem que a Pilar fez no blog dela:

http://conversapramae.blogspot.com/2011/03/dicas-para-curtir-o-carnaval-sem-riscos.html

Beijos e uma fungadinha do cangote da minha Lilice!

Sim, sogrão! Acho que parte dessa minha atitude adquiri depois de minha vida com o Bruno. Conviver com pessoas críticas e às vezes chiliquentas me fez encarar o mundo com um olhar mais afiado, e aí é claro que a língua afia também.

Hehehehehe...

Fatiminha, os direitos autorais existem porque eram surrupiados. O problema é que mesmo depois que a lei foi instaurada, ainda continua sendo um problema. O artista sempre foi roubado.

=(

Bjos

Ana Balbinot disse...

Nossa Xanda! Como disse o sogrão, quando vc bota a boca no trombone, sai de baixo! Sou uma alienada total de carnaval e também fiquei sabendo dos garibaldis e sacis exatamente agora, lendo seu post. Quanto à Educativa, nunca ouço. Aliás, sou adepta do silêncio quando possível e a maioria das pessoas ouve rádio no carro, e eu optp por não ouvir nada. Mas acredito que vc tenha total razão, afinal você é super bem informada e parte interessada. Mas não perca as esperanças totalmente. Quem sabe um dia as coisas mudem.
Beijos

Anônimo disse...

Com todo respeito ao que voçe escreveu acima, acho que em Curitiba, tanto nos meios de comunicação quanto nos ouvintes, sempre teve muita frescura.

Eu prefiro ouvir boa música mal gravado (exemplo: LP Cemitério de Elefantes), à muita musica ruim bem gravada, o que tem muito em Curitiba.

Eu sou Curitibano, tenho banda, assim como você, sei das dificuldades da Cena, sei dos apadrinhamentos, sei que a pequena Luz que tem em Curitiba são para poucos e no final todo mundo sempre fica no escuro.

Tirar o Tupan da Educativa foi Sacanagem, bem ou mal ele teve coragem.

Viva Tupan, Viva os finados programas Garagem 96 e Curitiba In Concert, que tocavem músicas bem e mal gravadas, mas abriam espaço para todos, para banda com grana, sem grana e apadrinhadas.

Um Abraço,

Sr. Banda.