sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Fantasmas do Largo


Num dos casarões mal-assombrados do Largo da Ordem, num boteco sujo, mas muito bem frequentado pela freguesia de bêbados, artistas e burocratas das classes média e burguesa-decadente curitibanas, encontrei Ruan e Taiana. Era o fim de uma tarde sem vento, de céu carregado e um calor  intenso, incomum à paisagem.

Ruan era a mesma pessoa: baixo, jambo, invocado, mal-humorado. Taiana fisicamente não mudara também, baixinha, magrinha, bocuda, sorridente, dentes bem grandes mas alinhados, cabelos escorridos pretos, com franja. Casados recentemente, namoraram desde criança. Na época do colégio, viviam brigando e fazendo as pazes. E pelo que pude notar nesta ocasião, as coisas continuavam as mesmas. Ruan estúpido, Taiana sorridente. Em cada dentão de Taiana reluziam boas doses de paciência para com seu par. Ruan não fazia questão mesmo de ser simpático. Sua sinceridade às vezes irritava.

Agora já beirando os 30, as convenções da sociedade o tornaram um Ruan mal-humorado e meio mudo. Pra não ter que ser sincero, preferiu se calar, mas demonstrava no corpo uma certa indiferença forçada. Um desprezo pelas pessoas e pela mulher. Sentado assim, meio largado na cadeira, com um braço esticado alcançando o copo, e o outro apoiando a cabeça, dava pra ver que ele ainda era a mesma criança triste e enfadonha. Só que agora ele não dizia tudo que pensava e isso o deixara mais velho e um pouco calvo.

Taiana ninguém podia imaginar que passava dos 30. Seu sorriso pueril e rostinho anjelical enganavam bem. Eu nunca confiei muito nela, confesso, e além de paciência, via nos seus dentões sempre à mostra um quê de falsidade. Porque para mim não era possível alguém sempre estar feliz às sete horas da manhã fazendo fila pra cantar o hino nacional. Talvez eu tivesse inveja de sua disposição matinal. Talvez eu tivesse uma pontinha de ciúmes porque ela era bonita e tinha namorado, e eu era feia e todos caçoavam de mim e me chamavam de juruna, e porque eu, e não ela, era alvo das bulliers, amigas da minha irmã.

Talvez eu invejasse sua capacidade para comer e não engordar; ela sempre comia bom-bons, pipoca, salgadinho, e no almoço, daquele prato feito - salada, bife acebolado e uma montanha de arroz e feijão - não sobrava nada. Ela ainda trazia uma banana na lancheira e comia junto. Eu também devia ter inveja de ela gostar de salada e ter coragem de comer uma banana assim, na cantina, na frente de todo mundo. Eu tinha vergonha de comer banana porque sempre achei que juruna era um tipo de macaco e as pessoas iriam caçoar ainda mais de mim; assim, minhas bananas apodreciam na mala, embolorando meus cadernos e cartilhas, fazendo a professora, minha mãe e meu pai brigarem comigo.

Mas agora eu não lembrava dessas coisas, eu estava feliz por reencontrá-los assim, do nada, naquela tarde pesada e escura, naquele bar decadente frequentado por fantasmas do Largo da Ordem. Tomei uma cerveja com eles e trocamos frases feitas, fizemos perguntas retóricas como o que tem feito, tem visto o fulano?, você não mudou nada, quem te viu quem te vê, e conversa vai, conversa vem, copos de cerveja vazios, cheios, vazios, cheios, a noite foi caindo e as luzes se acendendo, aquela garoinha sem-vergonha deixando a tarde ainda mais surreal, indecisa agora entre o chumbo e o vermelho de um sol de outono prestes a nos deixar.

Vinte e poucos anos depois, e ainda assim sem assunto, nos pusemos a observar aquele véu de cerração que não molhava nada além dos paralelepípedos, fazendo brotar no chão um limo que ora ou outra quase derrubava o sujeito desavisado. Ruan olhava as pessoas distraído da mulher e de mim, e disse, com seu falar tsatsibissatsi, que asssim que alguém esscorregassse ele ia se levantar para ir ao banheiro. Foi uma das poucas coisas que ele disse sorrindo. E como não fosse mais possível, Ruan desistiu de esperar e foi ao banheiro, mas antes de alcançar os degraus do boteco, escorregou e levou um tombo fenomenal, daqueles patéticos, em câmera lenta.

De pronto eu e Taiana levamos um susto, tentamos segurar o riso mas não conseguimos, e ele ficou puto, não aceitou a ajuda dela para se levantar e foi pisando pesado pro banheiro. Na volta ele pegou a mulher pelo braço e disse que se visse ela se engraçar de novo pra outra mesa lhe dava uma surra, deixou uma nota de 50 e os dois se foram, ele andando rápido, ela correndinho atrás, olhando pra mim e dando tchauzinho, sempre sorrindo.

As luzes amareladas acentuavam ainda mais a neblina-quase-garoa curitibana, e o calor abafado fazia uma fumaça rala emanar dos paralelepípedos. Eu continuei ali, olhando os dois sumirem no Largo. Achei tão bonita minha cidade surreal, embaçada num sorriso sarcástico que no canto dos meus lábios se desenhava, como um alívio... alívio saudoso... de não mais fazer parte daquela cena, de não mais pertencer à paisagem que insistia em me apagar daquela mesa úmida. Alívio de naquele momento ter compreendido, numa epifania meio embriagada, que eu acabara de exorcisar os meus fantasmas do Martinus.

15 comentários:

Ivo e Fátima disse...

PRIMEIRÃO

Sogrão

Ivo e Fátima disse...

Pandinha linda

Virando uma contista e tanto, hem?

Sogrão

P.S.: Viva o Rio, sede das Olimpíadas de 2016

Aline Desiré Marie Lemos disse...

Panda, lindo texto!
É estranho acharmos que vamos pertencer aquele grupo pra sempre e num determinado momento percebemos o quanto caminhamos num sentido bem diferente...
Por esta razão, sempre quando sentimos um pouco de inveja da grama do vizinho,melhor é olhar bem de perto. Muitas vezes é de plástico.
Beijokas enormes no seu coração

Panda disse...

Obrigada sogrão! Uhuuu, que legal hein!!! Copa em 2014, Olimpíadas em 2016... e Charlotte vai sediar a Copa em 2018. Certamente vamos nos encontrar em alguma dessas ocasiões!!!!

Minha prima linda! Eu não sei se por causa do distanciamento do tempo e do espaço, mas agora tudo começa a fazer mais sentido e ficar mais inspirador...

Agora, o caso das bananas ainda é um trauma; e mamis nunca ia aprender e sempre insistiria em mandar uma banana com carinha desenhada, ou com um recadinho inscrito na casca: ME COMA! Nem assim... as bananas acabavam esmagadas na minha mochila porque tb não tinha coragem de jogar fora! hahahaha eu era uma criança muito esquisita.

Aline Desiré Marie Lemos disse...

Panda,
sei como se sente em relação as bananas não as como até hj, detesto banana, única fruta que me causa uma sensação estranha, até o cheiro...
E minha mãe bem tentou...
beijokas no coração

Ana Balbinot disse...

Xanda! Eu também morria de vergonha de comer banana na cantina!! hahahaha! adorei o conto!
Beijos

Panda disse...

Veja só, Ana! mais uma para o hall de ter vergonha de comer banana na escola! Por que será?

Aline, será que Freud explica nossa aversão às bananas?

fatima disse...

Xantia Leminum, você é o máximo! Cristovan Tesa que se cuide....
Muitos beijos cheinhos de saudade
Fatima, a que tarda, mas não falha!

Talita disse...

Estranho essa aversão da Aline por bananas!!!Eu adoro essa fruta rica em potássio.
Mas bananas a parte Xandica, sua crônica é uáaaaaaaaaaaatima, só pra variar né? rsrs
Manda mais!
bjs

Flávio Jacobsen disse...

Cena típica, quase cotidiana de a gente ver. Já narrá-la assim, é coisa de quem conhece os detalhes e os caminhos de uma boa história. É isso, você bateu uma boa foto. Gostei. Vai daí que nóis rema daqui e que la nave va! bjo!

Panda disse...

Obrigada Fatiminha, nunca é tarde para fazer uma Panda feliz! Mas o Teza pode ficar bem sussi que aqui não tem concorrência não... hehehe...

Mamis, que saudade... tudo bem aí no Vale do Paraíba? E nossa bananeira, dando muita banana? Obrigada pelo elogio, mami amada!

E Flavião, do rol dos que gostaram, você é o menos suspeito. Agradeço o agrado e vamos remando!

André Ramiro disse...

Poxa, fazia tempo que não me aventurava pelos blogs e enfrento de cara este belo texto! Demais Xanda! Exorcisando os fantasmas do Martinão, faço isso direto por aqui.....rs. bjokass

Panda disse...

Ramiro, quanto tempo! Acho que todo mundo que estudou no Martinus tem seus traumas, seus fantasmas pra exorcisar, neh?

Como vao as coisas? Sempre penso em vc e o imagino se aventurando num monte distante do Himalaia. hehehe...

bjos

Talita disse...

hehehe...fui eu quem postou e depois arrependi, rsrs
Achei besteira continuar falando de bananas, rsrs...
Mas desde que cheguei de Ctba, não faço outra coisa a não ser colher e distriuir bananas, rsrs... dá uma trabalheira serrar o tronco, que é em molinho cheio de a água e fibras, mas tem que cuidar pro cacho de bananas não cair na sua cabeça,né
Ontem colhi o segundo cacho de bananas prata, hoje colhi banana figo...vai uma babaninha aí?
Beijos sabor banana prata, que é minha preferida!

Panda disse...

Mamis amadis minhis, fico feliz que as bananeiras estejam bananeando... e vc como está? Que deram os exames? E os tios? Manda email!!! Bjos