segunda-feira, 17 de março de 2014

¡Arriba Mexico!



Visitar o México foi uma das experiências mais incríveis que já tive. Claro que seria ainda melhor se mabeibe tivesse ido comigo. Mas eu estava bem acompanhada de minha amiga Elyzabeth – mexicana e professora de Espanhol na UNCC - e de uma amiga dela, Susy, de Querétaro. Juntas, las tres amigas percorreram Ciudad de Mexico, Veracruz, Puebla e arredores. Saímos de Charlotte na sexta-feira, 28 de fevereiro. Em apenas quatro horas de voo, desembarcamos no Distrito Federal do México. Para nossa surpresa, no aeroporto fomos recepcionadas pela torcida organizada do América, um dos maiores times do futebol mexicano. O craque Jimenez passou assim bem do meu ladinho! Aposto que muitas meninas futeboleiras adorariam estar no meu lugar! 

Ciudad de Mexico

Em Ciudad de Mexico ficamos hospedadas no Hotel Geneve, na Zona Rosa. A localização e o hotel eram excelentes. O hotel, em funcionamento desde 1907, é praticamente um museu, mas muito bem conservado. Tirando o wifi que não funciona direito, os quartos, a comida e os demais serviços são excelentes. E não sei se por razão ou consequência, mas desconfio que  "la sona róça" tenha esse nome por ser o bairro gay da cidade. É comum ver casaisinhos exibindo com orgulho sua homossexualidade por ali. Se você é muito puritano, conservador e/ou preconceituoso, evite a região para não se escandalizar. 


O hotel fica a duas ou três quadras do Angel de la Independencia (vide foto), um dos monumentos mais importantes na avenida Reforma. Na sexta exploramos os arredores do hotel, jantamos um carneiro na brasa delicioso, e fomos a um show de danças e música folclórica. No sábado compramos um ingresso para o Turibus e fizemos um recorrido dos principais pontos turísticos da cidade. Paramos no Zócalo (o centro histórico da cidade) e visitamos a Praça da Constituição à frente de uma enorme catedral e as ruínas do Templo Mayor. 


Ruínas do Templo Mayor, destruído para a construção da
gigantesca catedral no Zócalo de Ciudad de Mexico.


Depois seguimos para o Museo de Arqueología, atração imperdível e impressionante não apenas pela coleção de artefatos e obras de arte pré-hispâncas, mas também pela própria arquitetura do lugar. Depois, atravessando a avenida Reforma, visitamos uma espécie de "central park" ou "ibirapuera" mexicano. O nome do parque é Bosque de Chapultepec, e ali está El Castillo, uma fortaleza construída para, ou a mando de, o Imperador Maximiliano, hoje aberta ao público mediante a bagatela de 50 pesos, ou seja, pouco menos de 10 reais ou 4 dólares.

La Condessa e Coyoacán


Na entrada da pracinha de Coyoacán tem uma espécie de portal.
A praça é pelo jeito a balada mais forte da cidade!

Cansadas, seguimos de táxi para outro bairro agitado e histórico, La Condessa, e ali jantamos mariscos e tacos deliciosos num restaurante chamado La Morena. De lá pegamos outro táxi e fomos a Coyoacán, onde se pode visitar a casa/ museu de Frida Kahlo. Pena que chegamos e o museu já estava fechado. Mesmo assim, valeu o passeio: ali experimentamos sorvetes de sabores inusitados – que eles chamam de nieve – produzidos localmente, e vimos que mesmo estando tão perto da cidade grande, os mexicanos ainda conservam o modo de vida pacata de interior. De noitinha todo mundo estava na praça, famílias inteiras, casais de namorados, crianças brincando nos jardins da pracinha, artistas expondo artesanatos na calçada, vendedores carregando nuvens de algodão doce e de balões coloridos, e os restaurantes e bares ao redor com as mesas pra fora, lotados de gente... e conforme você vai andando, vai inalando aquele cheiro de comida, de tortillas, e vendo a diversidade do povo, e ouvindo o sotaque e os trejeitos da língua! É assim uma coisa fascinante!

Desastre em Veracruz

O famoso carnaval de Veracruz...

No domingo acordamos, desayunamos nossos huevos divorciados e fomos para o aeroporto, tínhamos um voo para Veracruz. Porém, mal chegamos, decidimos abandonar a cidade antes do programado por uma série de fatores. O primeiro deles foi o motivo pelo qual fomos pra lá: o tal carnaval veracruzano. Bom, eu particularmente não gosto muito de carnaval nem no Brasil, quem dirá em outros lugares "menos credenciados". Mas como estava à mercê da vontade das minhas amigas mexicanas, não tive outra escolha senão ir onde elas iam. Enfim, foi uma ideia infeliz. A cidade estava impraticável, as praias sujas, as ruas interditadas, quando não por policiais, por carros alegóricos, e por bêbados estirados no chão, a coisa era assim um pouco assustadora para três madames indefesas como nós. Fora o hotel que minha amiga reservou, que acho que foi o pior hotel que eu já dormi, o mais infestado de formigas e o mais fedorento e xexelento de todos. E mesmo conseguindo nos mudar para um hotel melhor no dia seguinte, na terça a Susy teve uma intoxicação alimentar e começou a passar muito mal. Por tudo isso saímos dali o quanto antes, e ainda assim achei que fomos tarde...


Puebla 

Los Sapos: um distrito artístico no centro histórico de Puebla

Em compensação, Puebla foi maravilhoso! Uma cidade pitoresca, de onde se avistam os vulcões Popocatépetl e Iztaccihualtl (quem quiser pode ler a lenda que conta a história desses dois vulcões aqui). Sua arquitetura conserva séculos de história nas igrejas, escolas, museus e monumentos. Fundada em 1534, Puebla foi uma das cinco principais colônias da Espanha, e hoje, além de um centro cultural, é um dos pólos industriais e a quarta maior cidade do país, depois de D.F., Guadalajara e Monterrey. Como D.F. e as grandes cidades brasileiras, Puebla também tem zonas pobres e feias, e muitos problemas estruturais devido ao rápido crescimento urbano: esgoto a céu aberto, trânsito infernal, poluição. Mas é uma cidade que está investindo muito em educação e no turismo: além do zócalo bem conservado, há uma série de museus, monumentos, bibliotecas, e espaços modernos como a imensa roda gigante com vista panorâmica 360 graus da cidade, um zoológico no estilo Bush Gardens, e parques completamente renovados. Na parte mais alta da cidade há os fortes de Loreto e de Guadalupe, símbolos de resistência, da força e da raça mexicanas. Foi ali que, sob o comando de General Zaragoza, os bravos soldados venceram o exército francês, então conhecido como o exército mais poderoso do mundo, na Batalha de Cinco de Mayo. E além de tudo isso, Puebla é a menina dos olhos da cozinha mexicana. Ali foram criados os pratos mais saborosos e tradicionais do país, como o mole e o chile en nogada. Mmmmm...


Comidas Típicas (pero no mucho)

O autêntico "mole poblano": franco ao molho de... chocolate!

O México é certamente um lugar que se conhece melhor pelo estômago. As cores, os aromas, e as texturas são de encher os olhos, as narinas, e a pança de qualquer um disposto a sair de sua zona de conforto culinário. Eu perdi a conta das bizarrices que experimentei: chapulines (grilos verdes fritos e condimentados com chile), guzanos (vermes encontrados debaixo do nepal), ova de formiga, salada de cactus, quesadillas com um tipo de fungo que dá no milho... sem falar nas doses de tequilas, mezcal, pulque, micheladas (cervejas servidas com limão e condimentos), margaritas e Buchanas... Certamente a cozinha mexicana foi um dos fatores que mais influenciaram a paixão que tenho por este país! E foi em Puebla que comi as coisas mais saborosas. Ali ficamos hospedados na casa de um casal amigo da Ely, o Adolfo e a Conchi. Conchi é uma cozinheira de mão cheia, e Adolfo um mexicano nato, daqueles com bigodão, botas de bico fino, jeans e cinto com fivela em forma de sombrero. Nunca comi, bebi, nem me senti tão bem recebida fora do Brasil como na casa deles. Inclusive, numa noite, fomos acordadas com uma banda de Mariachis nos fazendo serenata à beira da piscina! A serenata na verdade era para a filha da Conchi, Denise, que estava de aniversário. Tirando o susto de acordar à meia-noite com o cornetazo reverberando no pátio interno da casa, foi uma experiência maravilhosa ver tão de perto a emoção e o talento desses músicos!


Ah, a música! 

Ely e o organillero. Tem que saber girar a manivela,
senão a música fica um negócio descompassado e triste!


Por mais que o estilo não seja lá muito do meu agrado, não há como não admirar o sentimento e a musicalidade desse povo. Você anda pelas ruas e há música em todo lugar: seja na manivela dos organilleros tocando seus velhos realejos nas esquinas movimentadas do centro, ou no braços e nos dedos ágeis dos sanfoneiros e  no rasqueado das “guitarras”, na voz forte e determinada dos cantores, nos radinhos das carroças de vendedores ambulantes, nos velhos amplificadores de estabelecimentos comerciais, e até mesmo dentro dos ônibus, a música e a dança mexicanas estão por toda parte. Pra vocês terem uma ideia, em Coyoacán entramos numa igreja antiga e, para nossa surpresa, realizava-se um casamento. Mas ao invés do tradicional órgão tocando a marcha nupcial, tinha uma banda de Mariachis tocando músicas as típicas canções de amor mexicanas. Até o padre dançava! E no último sábado, em Ciudad de Mexico, assistimos à Orquestra Filarmônica de San Petersburgo tocando as sinfonias 1 e 2 de Tchaicovsky na praça. Como não conseguimos encontrar ingressos (esgotaram-se uma semana antes), assistimos tudo de graça pelo telão em frente ao local onde eles estavam tocando, o majestoso Palácio de Bellas Artes. Incrível ver a praça lotada de pessoas sentadas nas cadeiras e no chão, e um silêncio digno de auditório de teatro!


La Raza Cósmica

A teoria aparentemente inclusiva de José Vasconcelos
que celebra a mestiçagem, pode também ser interpretada
como proposta científica para eliminação da raça indígena

Roubo honestamente o título do ensaio de José Vasconcelos para iniciar esta breve observação sobre o povo mexicano. O México, como o Brasil, é um país mestiço. Além da mestiçagem original, que se deu com a brutal chegada dos conquistadores no hemisfério, há uma porção de outras misturas em andamento. A mais evidente, claro, resulta de uma inevitável influência da cultura western, principalmente americana, seja pela proximidade entre os dois países, ou pelo domínio econômico de um país sobre o outro. Incrível o número de Seven Elevens, Star Bucks, Mc Donalds e Burger Kings por metro quadrado em Puebla e em Mexico City. Mas talvez pela mesma proximidade que permite a invasão dos monopólios, pode-se notar também uma forte resistência, uma atitude de valorização e senso de orgulho histórico e estético, geralmente dirigido às raízes pré-hispânicas de suas culturas, na identidade mexicana. Ainda assim, foi possível entrar numa tradicional cantina mexicana em D.F. e ouvir uma inusitada dupla de roqueiros, um deles com fortes traços indígenas, tocando Creedence, AC/DC, Led Zeppelin, Beatles, Stones, Who, Animals e Kinks na guitarra. E sem dúvida eles tinham um aguçado senso musical pois quando alguém lhes pediu Roberto Carlos eles responderam, quase ofendidos: ¡No! ¡Roberto Carlos no! 


As Pirâmides Teotihuacán

Peguei essa foto da Internet pois ela dá uma noção mais panorâmica do lugar


Minha última aventura, já de volta à Ciudad de Mexico, foi uma excursão à basílica de Guadalupe, -- um centro de peregrinação, tipo a Aparecida do México -- à Praça dos Três Poderes, e às pirâmides de Teotihuacán. Teotihuacán é um município que fica a mais ou menos 40 minutos do Distrito Federal, e guarda verdadeiros tesouros arqueológicos: uma cidade inteira pré-hispânica, que sobreviveu à fúria católica dos conquistadores graças ao rápido declínio da civilização que ali habitara. Não se sabe bem o que levou Teotihuacán ser abandonada séculos antes dos espanhóis chegarem. Mas isso permitiu à natureza cobrir as pirâmides com vegetação, de forma que quando os espanhóis por ali passaram, não viram que as montanhas eram, de fato, pirâmides. Assim eles não destruíram as gigantescas estruturas para construir igrejas ainda maiores. Muitas igrejas que datam dos séculos XV, XVI, e XVII em D.F, Puebla e Cholula (uma zona arqueológica perto de Puebla), foram erguidas nos mesmos locais onde haviam pirâmides, e com as mesmas pedras. Teotihuacán – que em nahualt signigica “cidade dos deuses” – é uma feliz exceção.

¡Adiós, Mexico, y hasta prontito!

Música e baile folclórico na rua.

No fim foram onze dias de viagem e muitos lugares percorridos, mas não sei porquê... ficou a impressão de que tudo que fizemos foi pouco! Voltar é preciso. E da próxima vez vou com meu amor, é claro! Termino esta postagem com um breve apontamento que encontrei no meu caderninho de viagens (o verdadeiro diário de bordo é um caderno, viu gente): 

"Viver é uma oportunidade transitória que tenho de me relacionar com o mundo ao meu redor. Deve ser por isso que eu amo viajar. Quando eu viajo e vejo pessoas, paisagens, noites e dias passarem rapidamente por meus olhos, estou na verdade apreciando a transitoriedade de tudo, e principalmente, a efemeridade da minha relação com o mundo." 

É. Não é à toa que dizem ser a vida uma viagem! Bem, por mim, a vida pode continuar sendo não somente uma, mas muitas outras mil divertidas viagens! E até a próxima! 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Frio e a Fifa



Este é praticamente o quinto dia de reclusão após uma nevasca histórica na cidade de Charlotte. Em algumas regiões a neve trouxe mais destruição do que beleza mas felizmente para nós não foi bem o caso.

Entretanto quase tudo entrou em recesso. Não havia sons de trem nem de avião e nem de carro. Apenas algumas vozes brincavam na rua. Eram crianças, snow angels alguns homens de neve. A paisagem se disfarçou de noiva e a tempestade passou devagar, pesada e branca como um fantasma. Dentro de casa acendemos a lareira e os corações, foi uma semana de muito fogo essa da neve em nosso Valentine. 

E o contraste da neve derretendo aqui e vocês derretendo de calor aí não se resume à inversão climática inerente aos dois hemisférios... aqui fevereiro é um mês frio e sóbrio. No Brasil fevereiro é de festa e blocos e marchas e fantasias carnavalescas. 

Eu nunca pensei que fosse sentir falta dessas folias porque a bem da verdade nunca fiz parte delas, o carnaval sempre foi um território proibido para mim, primeiro pela igreja depois pela minha preferência estética, e bem lá no fundo acho que o que eu sinto é uma monotonia triste e uma certa saudade do apito do sorveteiro, ascendente e descendente, passando na rua da minha casa, e eu com duas moedas de 10 centavos podia comprar 5 geladinhos e chupá-los na calçada. Essa nostalgia primeiro me deprime, depois esboça um sorriso no meu rosto já mais velho. 

Confesso que hoje acordei irritada, com raiva gratuita de tudo. Acho que foi por causa da Copa. Eu ando tendo pesadelos terríveis com a Copa. Vocês aí podem rir da minha cara, e até pensar ela nem mora aqui, pra que se incomodar. Mas é uma responsabilidade tremenda, a minha, de dar aulas de português para gringos que querem ir ao Brasil para ver, vocês sabem, o carnaval, o chocalho, a mulata, o corcovado, o samba, o funk, o futebol. 

Tudo bem. Às vezes eu me dou crédito demais. Pensando o quê, que eu sou a personificação do Brasil na sala de aula? Não é bem por aí. Eu não rebolo, não jogo bola, não roubo um pouco nem milhões, não chego atrasada, não deixo para preparar minhas aulas no último minuto, ou às vezes sim, às vezes deixo. Quem nunca? Mas ó, melhorei muito a minha brasilidade desde que mudei cá para o império capitalista. 

E agora mané? Minha vida mudou. A Dilma sorriu. Real desabou. O dólar subiu. O pão foi pro céu. O pau comeu, a cara partiu. Otimismo acabou, acabou o Brasil. Meu país me desertou. Meu governo me traiu. Meu PT que te pariu e cuspiu no prato que me comeu. E agora mané? E agora você? Você que é sem dente, sem alma, sem teto, você indigente e semi-analfabeto e que provavelmente nunca vai ler esta merda! E eu e você, da mais alta cultura! E agora Carlos? E agora Lula?

Entram sete bonecos saltitantes, sete tatu-bolas gigantes, cantando: Quem tem medo do mundial, do mundial, do mundial? Um estádio todo desaba. E aqui acaba o sonho.

Bem, os franceses têm medo do mundial. Saiu na revista francesa que a Fifa sim, a Fifa tá tremendo. Tá dando murro na mesa. 

Fifa amava Lula que amava Marisa que amava Lula que amava Rose que amava Lula que amava os companheiros que amavam Lula que amava Dilma que amava Lula com a maior cara de ocaso tomando vinho francês e dizendo companheiro que vinho fresco, melhor que uma branquinha. 

Pois que papelão hein! A Fifa e todo seu know-how deixou-se levar pelas seduções econômicas e achou que ia ser fácil, mas o jeitinho brasileiro é de foder, não é mesmo! É um jeitinho fuleco de ser. 

Ps.: Vou parar por aqui porque onde já se viu, alguém aí quer me dizer aonde isso vai dar? 

Termino com aquela máxima positivista velha conhecida nossa que diz: ordem e progresso.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O Estrondoso Final de Dois Mil e Treze no Brasil

Meu amado irmão Gu, com sua esposa Amanda e o pequeno Nick no colo! 

Enfim, resta-me uma fresta de tempo pra registrar as últimas aventuras em território nacional e já vou dizendo: não foram poucas, nem amenas. Fortes emoções, agonizantes imprevistos, todo tipo de espetáculo -- do barraco ao show de rock -- mas todos com final feliz!

De Charlotte a Miami, e de lá pra Curitiba, chegamos no Aeroporto Internacional Afonso Pena às seis da manhã. Passamos pela imigração e fomos interceptados pela receita federal. É de vocês essa mala? Sim. Temos que abri-la. Vocês estão trazendo algum produto orgânico? Acho que não ou Não que eu lembre. Depois de vasculhar nossa mala, a moça foi ficando nervosa por não encontrar a coisa que o raio-x tinha acusado. O Bruno então lembrou-se de uma pêra que trazia na mochila; ele disse Moça, tem essa pêra que eu trouxe de casa e esqueci de comer. A moça parou a fuçação aliviada, claro, só podia ser a pêra. Mesmo que estivesse na mochila, e não na mala interceptada, só podia ser a pêra. Tirou da gaveta uma faca ordinária, dessas de serra e cabo azul, partiu o fruto em dois, e esborrifou uma tinta rosa em cada metade. Respondendo ao nosso olhar intrigado, disse que fazia isso para evitar afrontas; outros passageiros já sugeriram que ela aprendia os produtos para comer depois, Vê se pode?, e nos fez assinar um papel da execução sumária da pêra e fomos liberados.



É sempre um triunfo atravessar aquelas vitrines automáticas que dividem o público dos viajantes, e ter como pano de fundo um fabuloso mural de azulejos do Poty. À medida que assomamos vamos discernindo as caras e os sorrisos ansiosos dos que esperam alguém chegar. A hora mais feliz é quando localizamos os nossos adoráveis, ah, os corações palpitam! E depois de abraços e beijos cheios de saudade no saguão, vamos pagar o tchíquetchi de estacionamento conversando amenidades da viagem.

Pôr do sol depois da chuva em Curitiba
(vista da sacada do apartamento da tia Cati e da vó Rosa)


Percorremos tranquilamente a Avenida das Torres vazia, e mais ou menos reformada. As obras foram abandonadas pela metade por falta de pagamento do governo à empreiteira responsável, o Oráculo das Araucárias (vulgo Ivo) nos informa. Sem dúvidas, chegamos ao Brasil. O Brasil dos trambiqueiros, das obras inacabadas, das favelas maquiadas, dos vendedores de Gazeta nos sinais... enfim! É bom chegar em casa!

Deza e a namorada da vez, Vina, Yan, Babi, Diego, Debi, Cris, Bruno e Bozo

Chegamos chegando, aniversário, boas vindas, dia de festa! O almoço com a família foi excelente, Porco no Rolete, e de sobremesa o bolo famoso de mamis, e depois foram chegando os amigos e a festa foi ficando cada vez mais animada!

Arte de Fabiano Vianna para o show dos Criaturas.
Show com Gianninis, Cosmonave, Criaturas e o Escambau.

Até que o primeiro ensaio dos Criaturas depois de 11 anos sem tocar juntos foi melhor do que todos imaginavam, e mesmo com o impacto emocional do imprevisto que interrompeu a festa e rendeu olho roxo, boca inchada, unhadas e arranhões e hematomas no braço, tudo simplesmente transcorreu da forma como deveria ter sido. A festa sim, na hora perdeu a graça, mas nem tudo estava perdido!


Zé, eu e Deza. Babi não apareceu na foto!
Ensaio único e geral dos Gianninis: let's rock!


Os dias passaram cheios de compromissos, como é de costume no Brasil. Os ensaios diários dos Criaturas foram ficando cada vez melhores, e nos dando mais confiança. E em somente um ensaio, os Gianninis também acertaram as 6 músicas que abririam a noite. E nenhum show seria um fiasco. Na verdade a gente já tinha desencanado: o que importava era a festa. E que festa. Bar lotado. Público animado. Todos sabiam nossas músicas de cor, melhor até do que nós mesmos. Todos dançando e cantando e sim, chorando, rendendo homenagens ao Rafa. Foi lindo! Tantos amigos que revimos...  uma noite memorável!

Meu sobrinho Yan no show da Cosmonave


O Natal entretanto foi um pouco estranho, a gente no afã de estar em todas, acabou não curtindo bem nenhuma festa, apesar é claro de termos enchido a pança (e a cara) com as mais deliciosas especiarias natalinas, como reza a tradição.

Caetano, Fátima, Ivo, eu e Bruno posando para a tradicional foto natalina!

E com a notícia indigesta da cirurgia do meu irmão, eu não estava muito em clima de festa... no hospital eu não parava de chorar, e realmente o caso era complicado como meu coração sentia, mas depois o visitei na UTI, lúcido, um pouco abatido, mas fazendo piada de si mesmo, eu pensei Deus, será que era preciso tanto drama, mas só pensei, não questionei porque sim Deus escreve torto por linhas certas, ou escreve certo por linhas tortas, não importa, o que importa é que estamos vivos, e vivos, nos amamos!

Mamis feliz com sua prole toda reunida!
Cris, eu, Tati, ela, Vini, Amanda, Gabi, Luiza e Gu.

O calor escaldante foi amenizado com cerveja, ventiladores, banhos de piscina no clube, e até um passeio no Rio dos Papagaios. Na volta pegamos aquele trânsito infernal de férias de verão paranaense: o oeste do estado em peso rumo às praias, e nós ali, afunilados. O Rio dos Papagaios pra quem não sabe fica entre Curitiba e Ponta Grossa: foi ali que eu e o Bruno nos conhecemos de verdade. Foi ali que tudo começou. E por tudo isso foi um pouco decepcionante chegar no nosso "santuário" e ver ele coberto de cocô de cabra e de bosta de vaca.



A hora dos bois beberem água.

Além do mais o rio estava seco, a água parada, quente, meio morta... e para completar, a gente tomando banho avista aquela cena surreal, bois e vacas surgindo no horizonte, avançando no pasto em nossa direção. Mugiam bravamente seus longos e monótonos emes e nos encaravam. Mmmmmm! Mmmmmmm! Ficamos imóveis, a Cris quase entrou em pânico, até que eu e Cecília amansamos os bovinos que por sua vez não quiseram papo, mas nos deixaram passar, em paz, rumo à beira da estrada. Que aventura.

Eu e a Cris no Largo da Ordem, visitando a Feirinha Hippie e depois a mesquita.

Ano Novo foi uma grande festa, os fogos só que deixaram a desejar -- acho que a queima de fogos desse ano refletiu a crise econômica que nosso país atravessa e que o governo em vão tenta maquiar -- mas a gente festou até seis e meia da matina e só não vimos o sol nascer porque pra variar, em Curitiba, quase todo dia amanhece nublado.

Vini, Nick e tia Panda e um ex-bolo de cenoura.


Nossa volta dia dois de janeiro foi tranquila, paramos em Miami para uma noite romântica de despedida de férias, ficamos num hotel em South Beach, à beira mar, e nos sentimos roubados num restaurante na Ocean Drive (noventa dólares por uma margarita!, mas pelo menos ela nos rendeu 150 milhas no cartão). A margarita me deixou zureta e eu perdi minha ID, aí de manhã a primeira coisa foi ir no departamento de polícia registrar o documento perdido, mas o policial disse que não, que bobagem, não precisava, então alugamos uma bicicleta e fomos passear até a hora de voltar pro hotel e fazer as malas.

Rolezinho de bike em Miami.
Chegamos em Charlotte e nosso carro não funcionava: tínhamos esquecido o farol aceso. O frio que fazia drenou toda a bateria. Conseguimos com que o pessoal do estacionamento fizesse uma chupeta e chegamos em casa sãos, cansados e salvos! Agora era só desfazer as malas, lavar um mundaréu de roupas e se preparar porque segunda já começava a lida. Assim é a vida! Que 2014 seja um ano mais aprazível e que as tretas de dois mil e treze fiquem por lá mesmo, no passado, amém!

E que meu irmão se recupere e que, junto com o seu, nossos corações se renovem! E que nossa família maravilhosa continue exercitando diariamente o perdão e o amor que por muito tempos nos recusamos a praticar.

E finalmente que os meus adoráveis Sogrão e Fatiminha continuem cada dia mais porretas, sempre nos recebendo com tanto primor, e cuidando de nós, e me aninhando no seio desta família linda que eu tive a sorte de fazer parte! Obrigada por tudo.

Famíias! Eu amo vocês!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

As Cinco Fases da Encomenda



Um fenômeno curioso vem ocorrendo desde que nos mudamos para os EUA. Um fenômeno, aliás, digno de ser observado sistematicamente! Dele poderiam derivar estudos acadêmicos de toda espécie: sociais, culturais, econômicos, antropológicos, e até mesmo linguísticos (examinando níveis de discurso e estratégias de enunciação), a respeito da alma e do comportamento dos brasileiros! Este fenômeno chamaremos de... encomenda.

Após 5 anos de observação, identifiquei cinco fases distintas na encomenda: a primeira, é um período de aproximação; a segunda, o período de averiguação seguida de uma sub-fase, que chamo afetação comemorativa. A terceira fase é o ápice do processo, aqui denominada determinação de conteúdo. A quarta consiste do período de elaboração e, finalmente, a quinta e última fase, conhecida como fechamento

Para clarificar os termos, segue abaixo uma breve descrição de cada estágio da encomenda.

1. Aproximação

À medida em que o fim do ano vai chegando, inicia-se o período que chamei de, aproximação. Nessa primeira fase -- que pode durar de seis meses a uma semana antes de nossa partida para o Brasil -- parentes, velhos e novos amigos e conhecidos, e até mesmo pessoas com as quais não tenho a mínima intimidade fora das redes virtuais, começam a demonstrar interesse por nosso cotidiano. Oi e aí! Tudo tranquilo? Saudades! Como vão as coisas? Bruno vai bem? Uma vez que o período de aproximação se estabelece, ele atinge um pico, geralmente caracterizado pelo esgotamento de assuntos pertinentes. Inicia-se então o período de averiguação.

2. Averiguação 

Durante esta fase, o encomendador busca confirmar a data de nossa próxima visita ao Brasil. Enunciações nesta fase variam. Tô sabendo que vocês vêm pra Curitiba! Ou: Quando vocês vêm para o Brasil? Ou ainda: Vão vir pra cá no final do ano? E nos casos mais obtusos: vocês já chegam semana que vem, né! 

O período de averiguação é fatalmente seguido por uma pseudo fase, que denomino sub-período de afetação comemorativa. Gifs animados e enunciados do tipo :) Que legal! Uhuuu! Joia! \o/ podem ocorrer nesta fase.

Apesar de ser considerada uma pseudo fase devido à duração efêmera e ao conteúdo muitas vezes esvaziado de sentido, a afetação comemorativa não deve ser subestimada. Pois ela estabelece uma ponte importante para a mensagem verdadeira, período que chamo determinação de conteúdo. 

3. Determinação de conteúdo

Enunciações nesta fase começam não raro com um então. Então, queria perguntar se por um acaso vocês não trariam um i-phone... ou um i-mac, um i-pad, um i-pod, um i-pod-touch, uma máquina, uma câmera... É nesta fase, portanto, que o encomendador identifica o produto desejado, definindo a intenção da encomenda. Alguns encomendadores inclusive demandam pesquisa de preços e modelos disponíveis!

4. Elaboração

Depois da encomenda vem o período de elaboração, onde o interlocutor busca justificar o conteúdo, apontando as qualidades (é pequeno, é levinho, é barato, é raridade, é a última moda, só tem aí) e os motivos  (às vezes trágicos) pelos quais seria importante, para o interlocutor, obter tal encomenda.

5. Fechamento

Finalmente atingimos a fase final,  que denomino período de fechamento. Há dois tipos de fechamento. Comecemos pelo fechamento positivo que, obviamente, determina o sucesso da encomenda. Ela tende a ocorrer a) com os sujeitos que iniciaram o período de aproximação  com antecedência e b) quando o interlocutor já tem laços afetivos preestabelecidos, sendo classificado como merecedor da encomenda. 

O fechamento negativo, por outro lado, determina a frustração do processo. Ele tende a ocorrer a) com indivíduos com quem raramente ou nunca falo, não havendo, portanto, parâmetros para classificá-los como merecedores da encomenda; e b) com indivíduos com quem já tenho laços afetivos preestabelecidos, mas que iniciaram o período de aproximação de forma tardia, inviabilizando assim, o sucesso da empreitada. 

Primeiras Conclusões:

Embora muito distintos, ambos os tipos de fechamento estabelecem o fim de todas as mensagens trocadas até então. Determinam, ao menos para o encomendante, o fim do fenômeno da encomenda, lhe cabendo apenas o incômodo da ansiedade pela espera do produto. 

No que concerne a mim, entretanto, o fechamento é geralmente a fase mais complexa do processo. Ela se arrastará por muitos dias. Vai primeiro obstruir a minha porta, e quando muito exigir minha assinatura no correio. E depois vai vagar pela sala, e pelo quarto, até que as malas fiquem prontas e bem distribuídas para, com sorte, não pagarmos excesso de bagagem. 

Uma vez despachadas, as malas serão inspecionadas, e não deverão despertar suspeitas da receita federal pois isso adicionaria mais algumas horas a uma viagem já bem demorada e cansativa. Que péssima maneira seria essa de começar o meu aniversário, não? 

Por fim, a última fase do fenômeno só termina no momento em que a encomenda chega ao seu destino, e de preferência, intacta. O que, pela característica mesma do processo, está completamente fora de meu controle.

Por tudo isso, a última fase da encomenda é fortemente marcada por stress, paranoia, chateação e arrependimento constantes. Além de me sentir diretamente responsável pelo futuro bem estar das relações pessoais com o encomendante, essa refração de efeitos indesejáveis faz das minhas férias, que deveriam ser fonte de alegria e descanso, um verdadeiro inferno.

I-vocês querendo driblar os impostos exorbitantes! Lembrem-se de que eles são a base da economia brasileira! I-phoda-se. I-não vou levar! I-não vai dar mesmo. I-phim.

sábado, 30 de novembro de 2013

Mutantes em Raleigh

Cartaz - souvenir do show
Tudo é por acaso! Postei uma canção no feice de um amigo, cujo apelido por acaso é Macumba. A canção? "Bat Macumba" dos Mutantes, banda que até então ele desconhecia. Dominicano de alma brasileira e apaixonado por música e capoeira, Macumba começou a ouvir Mutantes e, por  acaso, (ou por essas misteriosas  ferramentas de anúncio personalizado das redes sociais), apareceu no seu feed de notícias um show deles em Raleigh. E duas semanas depois estávamos nós a caminho da capital  para outro show que viria a ser um dos mais emocionantes das nossas vidas.

ROADTRIP

Compramos os ingressos pela internet, 20 doletas. Alugamos um hotel no centro da cidade, que ficava a poucas quadras do Pourhouse Music Hall, onde seria o show. Bruno saiu mais cedo do trabalho na sexta 20 de novembro, e às 4 da tarde botamos o pé na estrada rumo ao nordeste do estado.   

Nós em Raleigh. Fotografia de Jorge Macumba Torres

Chegamos em Raleigh de noite, e o clima estava agradável se comparado à friaca de Charlotte. Fizemos nosso check-in no hotel, conferimos o quarto, tomamos um banho, nos aprontamos e fomos jantar no Big Easy, um restaurante "cajun" -- cozinha da Lousiana. Que jantar maravilhoso! A comida, nota dez! Já a bebida e a mocinha que nos atendeu, mmm, nem tanto. 

A garçonete: what would you like to drink? Eu, no clima propício, pedi um Hurricane. Excuse me? Ela disse. Hur-ri-cane, repeti. E a guria, pelo jeito, não entendia nem o meu inglês, nem as bebidas do restaurante onde ela trabalhava, pois Hurricane deveria ser assinatura de qualquer lugar chamado Big Easy. Já narrei a história deste famoso drink de New Orleans, quem quiser pode clicar aqui e ler o parágrafo "Haja rum, e houve rum". Impaciente, apontei o Hurricane no cardápio para a moça, e só então ela entendeu: Oh, you DO have an accent!

É óbvio que eu tenho um accent. Todo mundo tem sotaque. O dela inclusive era desses bem southern, oh God, bless her heart. Deu vontade de perguntar pra ela quantas línguas vc fala mesmo? Fiquei uma arara! E o tal Hurricane estava uma BOSTA! Não tomei nem um quarto da bagaça. Horrível. Mas a comida, mmmm, a comida estava deliciosa. Enchemos a pança e fomos pro bar. 

POURHOUSE MUSIC HALL 



A casa de show era um bar de rock tosco como qualquer outro, com a diferença de ter um técnico e equipamentos de luz e som de primeira. A entrada era por um beco de tijolo e muro grafitado. Dentro tudo era escuro. A pista de dança era um espaço bom, mas não chegava a ser grande. Isso nos deixou com o coração cheio de expectativas, pois sabíamos que íamos ficar cara a cara com nosso ídolo! Um dos maiores, senão o maior, guitarrista brasileiro -- Sergio Dias! E eu estava apreensiva, imaginando se ele iria ou não nos reconhecer. Afinal, mais de 11 anos anos se passaram desde que produzimos esta linda canção, Outono.

Às nove da noite começou a primeira atração: um cara, voz e violão. O bar ainda estava vazio, meia dúzia de público diversificado, senhoras e senhores, jovens e gente de meia idade. Todos muito elegantes, em seus estilos chic largado alternativo. Aliás, as pessoas de Raleigh todas parecem personagens de filme de histórias em quadrinhos, a cidade inclusive, suas praças, seus prédios, seus becos, seus moradores de rua, suas mansões e casas abandonadas, tudo tão lindo, lúgubre e elegante! 


CAPSULA


Quando a segunda atração da noite -- Capsula -- subiu no palco, o bar já estava mais cheio. Era um trio peculiar. O cantor e guitarrista era a personificação do rockstar andrógino: alto, magro, comprido, cabelos semi-longos negros, escorridos na cara. A menina que tocava baixo parecia uma índia, morena e com as maçãs do rosto sobressalentes e o cabelo castanho claro, comprido, com franja. O baterista era calvo, quase careca, e era o mais contido -- mas nem por isso menos competente e carismático que os demais. 


As músicas eram uma porrada no ouvido: transitavam entre um power pop, rock mantra psicodélico, glam punk. E eles tocaram a melhor versão de David Bowie que  já ouvi. Depois disso o show virou um campo de batalha, e o frontman empunhava a sua guitarra metralhando o público com notas e acordes distorcidos que simulavam o estrondo de aviões e bombardeios, e a menina também apontava o baixo para frente, para o lado e para o alto, marchando, depois se ajoelhava, e tocava sem errar uma nota, fazendo uma cara de concentrada, de menina má, chupando as bochechas assim para salientar ainda mais sua ossada. Do caralho! Depois conversando com eles descobri que os dois são argentinos, e o baterista é espanhol do País Basco.


OS MUTANTES



Às onze veio a atração principal. De "mutante original" só mesmo Sérgio Dias Batista. Mas como brincou Macumba, se Os Mutantes fossem sempre os mesmos o nome da banda não podia ser Mutantes. Foi bom encontrar um conterrâneo nosso, o curitibano Henrique Peters nos teclados, programação e vocais, e rever Vinícius Junqueira, baixista do Sérgio há mais de uma década. Ambos músicos talentosíssimos! Aliás, a banda inteira, Bia Mendes no vocal, esse baterista novo que não lembro nome, mais o guitarrista Victor Trida que eu também não conhecia (compõe, canta e toca pra caralho!), todos musicalmente impecáveis. 

Sérgio foi o último a entrar no palco com uma bata de pajé, ou de monge tibetano. Ele subiu tossindo, se desculpou explicando que acabava de tomar um flu-shot, e plugou a réplica da guitarra de ouro (sim, pois a original, muito velhinha, não sai pra passear). 

Sergio sorria, mas estava gripado e abatido. E ainda assim cantando e tocando muito! Aquele era o décimo quinto show SEGUIDO (o penúltimo desta turnê, que terminaria no sábado, 23 de novembro, em Washington DC). Mas Dias ainda não estava à vontade, e depois uma corda estourou ele ficou meio puto, parou de cantar pra trocar de guitarra. Henrique com profissionalismo e sangue frio segurou os vocais, mesmo sem guitarra, enquanto o Sérgio se embananava com os cabos. Fiquei confusa. O Deus da guitarra não tem rodie? Deu uma vontade de pular no palco e ajudá-lo a plugar o instrumento, e depois trocar a corda que tinha arrebentado. Mas tive medo de ser muito intrusiva e levar um xingão! 



E a guitarra finalmente soou nos amplificadores, e dali pra frente o som foi melhorando exponencialmente ao infinito! Os que estavam sentados se levantaram, os que estavam lá fora entram, e todos dançavam e cantavam aos acordes e às harmonias celestiais em Tecnicolor, Virginia, Ando Meio Desligado (com direito a uma intervenção psicodélica instrumental que sugeria O Meu Refrigerador Não Funciona), Jardim Elétrico, Minha Menina ou She's my choo-choo, TOP-TOP,  Panis et Circensis, Bat Macumba, A Hora e a Vez do Cabelo Nascer, Balada do Louco, Cantor de Mambo, entre outras. E também algumas do repertório do último disco.

Como eu devia ser a única na plateia que cantava a letra de praticamente todas as músicas, e estava na frente, colada ao palco, hora ou outra a Bia botava o microfone na minha boca e lá estava eu, uhuuu! Cantando com Os Mutantes! Muita emoção! E assim o show terminou e todos pediram ONE MORE! ONE MORE! Com direito a bis, todo mundo foi pra casa feliz!

Christmas Parade

Raleigh está nos aguardando para uma visita mais prolongada pois no sábado acordamos a tempo só de ver uma parada de Natal, tomar café e botar o pé na estrada rumo a Biscoe, onde teríamos uma experiência cultural maravilhosa: una fiesta tradicional mexicana de Quinceañera (festa de 15 anos) da prima de um aluno meu. 


Depois de tantas emoções, voltamos pra casa com a alma transbordando de música, alegria, margaritas e memórias inesquecíveis!