Visitar o México foi uma das
experiências mais incríveis que já tive. Claro que seria ainda melhor se
mabeibe tivesse ido comigo. Mas eu
estava bem acompanhada de minha amiga Elyzabeth – mexicana e professora
de Espanhol na UNCC - e de uma amiga dela, Susy, de Querétaro. Juntas,
las tres amigas percorreram Ciudad de Mexico, Veracruz, Puebla e arredores. Saímos de Charlotte na sexta-feira, 28 de fevereiro. Em apenas quatro horas de voo,
desembarcamos no Distrito Federal do México. Para nossa surpresa, no aeroporto fomos recepcionadas
pela torcida organizada do América, um dos maiores times do futebol
mexicano. O craque Jimenez passou assim bem do meu ladinho! Aposto que muitas meninas futeboleiras adorariam estar no meu lugar!
Ciudad de Mexico
Em Ciudad de Mexico ficamos hospedadas no Hotel Geneve, na Zona Rosa. A localização e o hotel eram excelentes. O hotel, em funcionamento desde 1907, é praticamente um museu, mas muito bem conservado. Tirando o wifi que não funciona direito, os quartos, a comida e os demais serviços são excelentes. E não sei se por razão ou consequência, mas desconfio que "la sona róça" tenha esse nome por ser o bairro gay da cidade. É comum ver casaisinhos exibindo com orgulho sua homossexualidade por ali. Se você é muito puritano, conservador e/ou preconceituoso, evite a região para não se escandalizar.
O hotel fica a duas ou três quadras do Angel de la Independencia (vide foto), um dos monumentos mais importantes na avenida Reforma. Na sexta exploramos os arredores do hotel, jantamos um carneiro na brasa delicioso, e fomos a um show de danças e música folclórica. No sábado compramos um ingresso para o Turibus e fizemos um recorrido dos principais pontos turísticos da cidade. Paramos no Zócalo (o centro histórico da cidade) e visitamos a Praça da Constituição à frente de uma enorme catedral e as ruínas do Templo Mayor.
Depois seguimos para o Museo de Arqueología, atração imperdível e impressionante não apenas pela coleção de artefatos e obras de arte pré-hispâncas, mas também pela própria arquitetura do lugar. Depois, atravessando a avenida Reforma, visitamos uma espécie de "central park" ou "ibirapuera" mexicano. O nome do parque é Bosque de Chapultepec, e ali está El Castillo, uma fortaleza construída para, ou a mando de, o Imperador Maximiliano, hoje aberta ao público mediante a bagatela de 50 pesos, ou seja, pouco menos de 10 reais ou 4 dólares.
| Ruínas do Templo Mayor, destruído para a construção da gigantesca catedral no Zócalo de Ciudad de Mexico. |
Depois seguimos para o Museo de Arqueología, atração imperdível e impressionante não apenas pela coleção de artefatos e obras de arte pré-hispâncas, mas também pela própria arquitetura do lugar. Depois, atravessando a avenida Reforma, visitamos uma espécie de "central park" ou "ibirapuera" mexicano. O nome do parque é Bosque de Chapultepec, e ali está El Castillo, uma fortaleza construída para, ou a mando de, o Imperador Maximiliano, hoje aberta ao público mediante a bagatela de 50 pesos, ou seja, pouco menos de 10 reais ou 4 dólares.
La Condessa e Coyoacán
| Na entrada da pracinha de Coyoacán tem uma espécie de portal. A praça é pelo jeito a balada mais forte da cidade! |
Cansadas, seguimos de táxi para outro bairro agitado e histórico, La Condessa, e ali jantamos mariscos e tacos deliciosos num restaurante chamado La Morena. De lá pegamos outro táxi e fomos a Coyoacán, onde se pode visitar a casa/ museu de Frida Kahlo. Pena que chegamos e o museu já estava fechado. Mesmo assim, valeu o passeio: ali experimentamos sorvetes de sabores inusitados – que eles chamam de nieve – produzidos localmente, e vimos que mesmo estando tão perto da cidade grande, os mexicanos ainda conservam o modo de vida pacata de interior. De noitinha todo mundo estava na praça, famílias inteiras, casais de namorados, crianças brincando nos jardins da pracinha, artistas expondo artesanatos na calçada, vendedores carregando nuvens de algodão doce e de balões coloridos, e os restaurantes e bares ao redor com as mesas pra fora, lotados de gente... e conforme você vai andando, vai inalando aquele cheiro de comida, de tortillas, e vendo a diversidade do povo, e ouvindo o sotaque e os trejeitos da língua! É assim uma coisa fascinante!
Desastre em Veracruz
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| O famoso carnaval de Veracruz... |
No domingo acordamos, desayunamos nossos huevos divorciados e fomos para o aeroporto, tínhamos um voo para Veracruz. Porém, mal chegamos, decidimos abandonar a cidade antes
do programado por uma série de fatores. O primeiro deles foi o motivo pelo qual
fomos pra lá: o tal carnaval veracruzano. Bom, eu particularmente não gosto muito de carnaval nem no Brasil, quem dirá em outros lugares "menos credenciados". Mas como estava à mercê da vontade das minhas amigas
mexicanas, não tive outra escolha senão ir onde elas iam. Enfim,
foi uma ideia infeliz. A cidade estava impraticável, as praias sujas, as
ruas interditadas, quando não por policiais, por carros alegóricos, e por
bêbados estirados no chão, a coisa era assim um pouco assustadora para três
madames indefesas como nós. Fora o hotel que minha amiga reservou, que acho que foi o pior hotel que eu já dormi, o mais infestado de formigas e o
mais fedorento e xexelento de todos. E mesmo conseguindo nos mudar para um
hotel melhor no dia seguinte, na terça a Susy teve uma intoxicação alimentar e
começou a passar muito mal. Por tudo isso saímos dali o quanto antes, e ainda assim achei que fomos tarde...
Puebla
| Los Sapos: um distrito artístico no centro histórico de Puebla |
Em compensação, Puebla foi maravilhoso!
Uma cidade pitoresca, de onde se avistam os vulcões Popocatépetl e
Iztaccihualtl (quem quiser pode ler a lenda que conta a história desses dois vulcões aqui). Sua arquitetura conserva séculos de história nas igrejas,
escolas, museus e monumentos. Fundada em 1534, Puebla foi uma das cinco
principais colônias da Espanha, e hoje, além de um centro cultural, é um dos
pólos industriais e a quarta maior cidade do país, depois de D.F., Guadalajara
e Monterrey. Como D.F. e as grandes cidades brasileiras, Puebla também tem zonas pobres e feias, e muitos problemas estruturais devido ao rápido crescimento urbano: esgoto a céu aberto, trânsito infernal, poluição. Mas é uma cidade que está investindo muito em educação e no turismo: além do zócalo bem conservado, há uma série de museus, monumentos, bibliotecas, e espaços modernos como a imensa roda gigante com vista panorâmica 360 graus da cidade, um zoológico no estilo Bush Gardens, e parques completamente renovados. Na parte mais alta da cidade há os fortes de Loreto e de
Guadalupe, símbolos de resistência, da força e da raça mexicanas. Foi ali que, sob o
comando de General Zaragoza, os bravos soldados venceram o exército francês,
então conhecido como o exército mais poderoso do mundo, na Batalha de
Cinco de Mayo. E além de tudo isso, Puebla é a menina dos olhos da cozinha mexicana. Ali foram criados os pratos mais saborosos e tradicionais do país, como o mole
e o chile en nogada. Mmmmm...
| O autêntico "mole poblano": franco ao molho de... chocolate! |
O México é certamente um lugar que se conhece melhor
pelo estômago. As cores, os aromas, e as texturas são de encher
os olhos, as narinas, e a pança de qualquer um disposto a sair de
sua zona de conforto culinário. Eu perdi a conta das bizarrices que experimentei: chapulines (grilos verdes fritos e condimentados com chile), guzanos (vermes encontrados debaixo do nepal), ova de formiga, salada de cactus, quesadillas com um tipo de fungo que dá no milho... sem falar nas doses de tequilas, mezcal, pulque, micheladas (cervejas servidas com limão e condimentos), margaritas e Buchanas... Certamente a cozinha mexicana foi um dos
fatores que mais influenciaram a paixão que tenho por este país! E foi em Puebla
que comi as coisas mais saborosas. Ali ficamos hospedados na casa de um casal
amigo da Ely, o Adolfo e a Conchi. Conchi é uma cozinheira de mão cheia, e
Adolfo um mexicano nato, daqueles com bigodão, botas de bico fino, jeans e
cinto com fivela em forma de sombrero. Nunca comi, bebi, nem me senti tão bem
recebida fora do Brasil como na casa deles. Inclusive, numa noite, fomos
acordadas com uma banda de Mariachis nos fazendo serenata à beira da piscina! A
serenata na verdade era para a filha da Conchi, Denise, que estava de
aniversário. Tirando o susto de acordar à meia-noite com o cornetazo
reverberando no pátio interno da casa, foi uma experiência maravilhosa ver tão
de perto a emoção e o talento desses músicos!
Ah, a música!
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| Ely e o organillero. Tem que saber girar a manivela, senão a música fica um negócio descompassado e triste! |
Por mais que o estilo
não seja lá muito do meu agrado, não há como não admirar o sentimento e a
musicalidade desse povo. Você anda pelas ruas e há música em todo lugar: seja
na manivela dos organilleros tocando seus velhos realejos nas esquinas
movimentadas do centro, ou no braços e nos dedos ágeis dos sanfoneiros e no rasqueado das “guitarras”, na voz forte e
determinada dos cantores, nos radinhos das carroças de vendedores ambulantes, nos
velhos amplificadores de estabelecimentos comerciais, e até mesmo dentro dos
ônibus, a música e a dança mexicanas estão por toda parte. Pra vocês terem uma
ideia, em Coyoacán entramos numa
igreja antiga e, para nossa surpresa, realizava-se um casamento. Mas ao invés do
tradicional órgão tocando a marcha nupcial, tinha uma banda de Mariachis
tocando músicas as típicas canções de amor mexicanas. Até
o padre dançava! E no último sábado, em Ciudad de Mexico, assistimos à Orquestra Filarmônica de San Petersburgo tocando as sinfonias 1 e 2 de Tchaicovsky na praça. Como não conseguimos encontrar ingressos (esgotaram-se uma semana antes), assistimos tudo de graça pelo telão em frente ao local onde eles estavam tocando, o majestoso Palácio de Bellas Artes. Incrível ver a praça lotada de pessoas sentadas nas cadeiras e no chão, e um silêncio digno de auditório de teatro!
| A teoria aparentemente inclusiva de José Vasconcelos que celebra a mestiçagem, pode também ser interpretada como proposta científica para eliminação da raça indígena |
Roubo honestamente o título do ensaio de José Vasconcelos para iniciar esta breve observação sobre o povo mexicano. O México, como o Brasil, é um país
mestiço. Além da mestiçagem original, que se deu com a brutal chegada dos conquistadores
no hemisfério, há uma porção de outras misturas em andamento. A mais evidente, claro,
resulta de uma inevitável influência da cultura western, principalmente
americana, seja pela proximidade entre os dois países, ou pelo domínio
econômico de um país sobre o outro. Incrível o número de Seven Elevens, Star
Bucks, Mc Donalds e Burger Kings por metro quadrado em Puebla e em Mexico City. Mas talvez pela mesma proximidade que permite a invasão dos monopólios, pode-se notar também uma forte resistência, uma atitude de valorização e senso de orgulho histórico e estético, geralmente dirigido às raízes pré-hispânicas de suas culturas, na identidade mexicana. Ainda assim, foi possível entrar numa tradicional cantina mexicana em D.F. e ouvir uma inusitada dupla de roqueiros, um deles com
fortes traços indígenas, tocando Creedence, AC/DC, Led Zeppelin, Beatles,
Stones, Who, Animals e Kinks na guitarra. E sem dúvida eles tinham um aguçado senso musical pois quando alguém lhes pediu Roberto
Carlos eles responderam, quase ofendidos: ¡No! ¡Roberto Carlos no!
As Pirâmides Teotihuacán
| Peguei essa foto da Internet pois ela dá uma noção mais panorâmica do lugar |
Minha última aventura, já de volta à
Ciudad de Mexico, foi uma excursão à basílica de Guadalupe, -- um centro de peregrinação, tipo a Aparecida do México -- à Praça dos Três Poderes, e às pirâmides de Teotihuacán. Teotihuacán é um município que fica a mais ou menos 40 minutos do Distrito Federal, e guarda verdadeiros tesouros arqueológicos: uma cidade inteira pré-hispânica,
que sobreviveu à fúria católica dos conquistadores graças ao rápido declínio da
civilização que ali habitara. Não se sabe bem o que levou Teotihuacán ser
abandonada séculos antes dos espanhóis chegarem. Mas isso permitiu à natureza cobrir
as pirâmides com vegetação, de forma que quando os espanhóis por ali passaram,
não viram que as montanhas eram, de fato, pirâmides. Assim eles não destruíram
as gigantescas estruturas para construir igrejas ainda maiores. Muitas igrejas
que datam dos séculos XV, XVI, e XVII em D.F, Puebla e Cholula (uma zona
arqueológica perto de Puebla), foram erguidas nos mesmos locais onde haviam
pirâmides, e com as mesmas pedras. Teotihuacán – que em nahualt signigica
“cidade dos deuses” – é uma feliz exceção.
¡Adiós, Mexico, y hasta prontito!
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| Música e baile folclórico na rua. |
No fim foram onze dias de viagem e muitos lugares percorridos, mas não sei porquê... ficou a impressão de que tudo que fizemos foi pouco! Voltar é preciso. E da próxima vez vou com meu amor, é claro! Termino esta postagem com um breve apontamento que encontrei no meu caderninho de viagens (o verdadeiro diário de bordo é um caderno, viu gente):
"Viver é uma oportunidade transitória
que tenho de me relacionar com o mundo ao meu redor. Deve ser por isso que eu amo viajar. Quando eu
viajo e vejo pessoas, paisagens, noites e dias passarem rapidamente por meus
olhos, estou na verdade apreciando a transitoriedade de tudo, e principalmente,
a efemeridade da minha relação com o mundo."
É. Não é à toa que dizem ser a
vida uma viagem! Bem, por mim, a vida pode continuar sendo não somente uma, mas
muitas outras mil divertidas viagens! E até a próxima!





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