segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Pequena Saga de um Grilo Manco



Era noite, eu falava com um amigo coisa qualquer por telefone, quando presenciei do outro lado da janela a cena mais chocante do dia. A luz da cozinha atraía naturalmente os insetos, que tontos, davam cabeçadas no vidro, como murros em ponta de faca.

A voz do meu amigo desapareceu bem quando o grilo surgiu. Veio de um salto na escuridão, em direção à luz. Tuc. Bateu na janela e foi logo amortecido pela teia, que chacoalhou ativando os instintos assassinos da obscura operária.

Com agilidade hostil, a aranha avançou. Embrulhou o animal, girando-o entre as oito patas peludas. Foram duas ou três voltas em menos de uma fração de segundo.

Mas o grilo, bem diante dos meus olhos – sua cabeça grande, olhos compostos, longas antenas e pequenas pinças bucais mastigadoras – não estava disposto a morrer. Escapou da teia, deixando para trás uma de suas pernas traseiras, que a aranha agarrou como um troféu, e depois devorou, com gosto, em sua ceia.

Do lado de cá da janela, ouço a voz do meu amigo. Súbito fade in nos meus ouvidos. I'm sorry, what did you say, eu perguntei, sem lhe contar do trágico espetáculo que tinha visto.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Hanging out at the Hanging Rock



Ontem foi a vez de conhecer mais um parque estadual da Carolina do Norte. O Hanging Rock State Park fica em Danbury, perto de Winston-Salem e Greensboro, quase fronteira com a Virgínia. Duas horinhas de viagem. Passeio perfeito para um day-trip.


Foi minha amiga e professora de espanhol, Maria, que me convidou. Fomos eu, ela, seu marido Robert e sua amiga Susana, que veio do México para visitá-los. Passei o dia inteiro hablando español e suando em bicas até chegar no topo daquela montanha (da foto aí de cima).

A vista é de repor o fôlego, perdido nos dois quilômetros de trilha, que apesar de curta, é cansativa. Demoramos 30 minutos pra subir, e dessa vez eu não morri, só quase morri. A Hangin Rock é uma pedra que fica no topo de uma das famosas Appalachian Mountains. Trata-se de uma cadeia montanhosa no leste do continente norte americano, que abrange estados de Alabama, Georgia, Virgínia, Carolina do Sul, Carolina do Norte, estendendo-se até o sul do Canadá.



Estou adorando essas aventuras! Sentindo-me a própria Pandahontas. Não há melhor maneira de eliminar as toxinas do corpo e da mente... basta pegar a estrada rumo a um lugar que você nunca esteve, caminhar, desbravando trilhas de uma montanha, e depois é claro, nadar num lago, ou tomar banho de cachoeira pra renovar as forças, voltar pra casa e despencar nos braços de Morfeu!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Fourth of July

Pé na estrada

Este foi o nosso quarto 4 de julho aqui nos States. O primeiro, em 2009, foi o mais patriótico de todos. Dispusemo-nos a uma programação especial, que incluía várias atrações típicas americanas: bandas de country rock ao vivo e barraquinhas de cachorro quente e refrescos, com direito a pronunciamento do então vice-prefeito de Charlotte e uma criança prodígio cantando o hino, naquele feeling que só o soul americano suporta. Tudo isso, é claro, seguido de um espetáculo pirotécnico totalmente sincronizado com música orquestral gradiloquente. Foi uma experiência e tanto ver aqueles americanos vestindo as cores de seu país, carregando bandeiras, e demonstrando em cada gesto tão civilizado, todo amor e respeito à pátria!

A paisagem campestre da Carolina do Norte às vezes nos
lembra o interior de Santa Catarina

Confesso que me admirei e até senti, bem lá no fundo, uma pontinha inveja desse entusiasmo pela nação. Mas com o passar dos anos, notei que tanto patriotismo, na verdade, não era necessariamente uma qualidade, mas sim quase um defeito. Afinal que tudo bem se orgulhar do próprio país, principalmente quando ele oferece uma vida mais ou menos digna para grande parcela da população. Mas se orgulhar muito, se gabar demais, se achar o máximo dos máximos dos máximos, e não enxergar as própiras limitações, erros, fracassos e atrocidades, aí já é exagero!

Entrando no South Mountain State Park

Então como curiosidade cultural antropológica, foi bom ter ido ao menos uma vez conferir como um bom e orgulhoso cidadão americano comemora seu Dia da Independência. Nos dois quatro de julho seguintes deixamos passar. Eu realmente não me lembro se fizemos algo e se fizemos, não lembro onde nem com quem. Ontem, no entanto, foi o primeiro quatro de julho realmente inesquecível. Acordamos sem hora, lá pelas onze da manhã, e decidimos fugir pro meio do mato. Pegamos a estrada rumo a Morganton, uma cidadezinha no meio das montanhas, a uma hora e meia de Charlotte. É lá que fica o South Mountain State Park, uma reserva florestal imensa, com todo tipo de atração natural: mata nativa, cachoeira, rio com truta e trilhas de tirar o fôlego -- tanto pela dificuldade quanto pela beleza.

Pausa para pose!
(mera desculpa para um descanso, pois a trilha não é mole não!)

O ponto alto deste passeio foi tomar banho de cachoeira num paraíso quase shakespeareano, com pétalas de flores na água e uma banheira de hidromassagem natural, onde pudemos recostar nas rochas e sentir como os musgos faziam a expressão "pedra macia" -- que não fui capaz de compreender quando li, se não me engano, num livro da Clarice Lispector -- fazer todo sentido do universo!

Hidromassagem natural

Pedra macia, verão quente, cachoeira fria, que fórmula perfeita para um feriado de quatro de julho! Confesso que meu "patriotismo americano" aflorou bastante quando eu vi como eles mantêm e investem nesses parques estaduais, sempre repletos de programas educacionais e com a melhor infraestrutura pra camping, passeio a cavalo, mountain bike, piquenique, hiking, são mais de 40 milhas de trilhas! Todas bem sinalizadas, com placas e murais educativos explicando tudo sobre fauna e flora, em inglês e em espanhol. E que fauna e que flora! E tudo de graça!


High Shoals Falls
Interessante foi notar a minoria americana, se comparada com a maioria estrangeira que aproveitou o feriado pra fugir da cidade com seus desfiles de civismo. Ao que parece, brasileiros, mexicanos, coreanos, chineses, indígenas, e todas as minorias da Carolina do Norte, se encontraram no parque para praticar um outro tipo de civismo, que é o civismo universal primeiro: respeitar e ter contato com o outro, com a natureza, e sentir o quanto isso é igualmente aconchegante, não importa o país que for!




Na volta, para honrar verdadeiramente nossa gratidão por este país e tudo de bom que ele tem nos proporcionado, paramos no Sonic e dividimos um hamburguer, uma porção de onion rings e um milk shake, tudo trazido de bandeja por uma gatinha de patins!

Um brinde à América! Cheers. Salud!

sábado, 23 de junho de 2012

Na América Latina quase sempre é 1936

Ex-padre, Fernando Lugo perdeu popularidade desde a descoberta da
paternidade de duas crianças, enquanto ainda fazia parte da ordem eclesiástica. 


Duas horas. Este foi o tempo necessário para remover Fernando Lugo, presidente democraticamente eleito no Paraguay em 2008. Ontem eu expressei, via Twitter, minhas preocupações com a omissão da notícia aqui nos Estados Unidos.

"Aqui vivemos em uma bolha" -- respondeu Elias Kamal Jabbe, um jornalista americano (de descendência etíope) que conheci em LA. Uma outra amiga, Ashleigh Blue, ironizou: "Estamos muito ocupados punindo treinadores de futebol americano para nos incomodarmos com problemas presidenciais estrangeiros."

Que a América Latina já não é mais o centro das atenções da política internacional americana, isso todo mundo sabe. Que os Estados Unidos sempre apoiaram militar e financeiramente golpes de estado na região, também não é novidade. Que Obama está muito ocupado correndo atrás do prejuízo pra tentar se reeleger, isso é já do conhecimento de todos. Mas, como observa esta excelente matéria de Mark Weisbrot, se Obama aprendeu alguma coisa com o golpe que ele apoiou em Honduras há três anos atrás, ele não vai reconhecer o governo de Franco.

Weisbrot nos lembra que o caso de Honduras foi um divisor de águas nas relações entre estados Unidos e América Latina. Se a gente já nutria sentimentos anti-americanos desde meados do século passado, agora, com o mapa ideológico do continente mudado, mais do que nunca Obama se encontra isolado pelos seus vizinhos de baixo. Talvez por isso ele tenha reagido com excessiva moderação e cautela ao golpe no Paraguai. Uma porta-voz do governo americano ontem pediu "calma" e declarou que os Estados Unidos vão apoiar os valores democráticos e os procedimentos legais. Ora, o impeachment é um procedimento legal, amparado pela lei, então não devemos ficar surpresos se o mister Obama seguir a tendenciazinha tradicional americana e reconhecer prontamente o novo governo golpista que se instala logo ao lado.

Ok. Não ficar surpreso é fácil, afinal, que semaninha lazarenta essa para nós. Rio+20 considerado um sucesso pela presidenta Dilma Rousseff, mas tanto no cenário nacional como internacional, há controvérsias. Pior que isso, só o Lula passeando de mãos dadas com Paulo Maluf! Com Paulo Maluf? Sim, o mesmo Paulo Maluf que serviu de braço direito civil aos militares até o fim da ditadura. E agora mais essa.

Não ficar surpreso, no entanto, não significa não estar alerta. Afinal... quem é que nos garante que o efeito dominó não vai começar de novo? Hugo Chavez na Venezuela, Rafael Correa no Equador, Evo Morales na Bolívia, Cristina Kirshner na Argentina... todos eles estão estufando o peito e dizendo: La garantia soy yo! Mas amigos... convenhamos!

Se a gente adora botar a culpa de todos os nossos fracassos políticos, sociais e econômicos, nos Estados Unidos, apontando para o fato de que Obama não aprendeu nada com história, devemos reconhecer: a Latino América muito menos!

A gente está careca, mas careca mesmo de saber que nossas sociedades -- frutos quase podres do colonialismo europeu -- são comandadas por um grupo restrito de conservadores, ao qual damos o nome de "elite," e cujos interesses sempre prevalecem disfarçados de "valores democráticos."

A onda esquerdista da América do Sul é uma resposta aos anos de ditadura ferrenha que o continente enfrentou e que, muito mais por desgaste político e por desastres econômicos do que por senso de justiça e respeito aos direitos humanos, não conseguiram se sustentar. Só que a nossa história tem sido marcada, desde sempre, por sucessivos movimentos de democracia populista e autoritarianismo, demonstrando uma extrema incapacidade dos governos latinos de criar instituições fortes capazes de estruturar uma sociedade justa e democrática.

O caso de Fernando Lugo é curioso, porque segundo as leis eleitorais do país, nenhum presidente pode ser reeleito. Então é mais difícil de acreditar que as medidas que ele tomou -- sem no entanto obter sucesso devido à oposição que enfrentava -- para favorecer as camadas mais pobres eram somente medidas paternalistas ou populistas. Os conservadores têm mania de tachar toda política de cunho socialista como estratégia para reeleição, como é o caso do Hugo Chavez que aí está, há bem mais de uma década, destruindo a Venezuela, enquanto a esquerda aplaude e acha lindo.

Notando a irônica coincidência, no Twitter alguém relacionou o caso do Paraguai ao golpe militar do ditador espanhol Franco em 1936:

"Franco leads coup with wealthy landowners against government." Umm... is it 1936? 

Ao que outro respondeu:

"In Latin America, it is always 1936." 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Boas Lembranças! Breve Homenagem a Nelson Jacobina

Nelson Jacobina e Jorge Mautner

Na minha curta carreria de "cantora MPB" tive a oportunidade de tocar e cantar ao lado de Jorge Mautner e Nelson Jacobina. Na época eu tinha uma dupla com Naína, e lindas e talentosas como éramos (e ainda somos, claro), encantamos grandes nomes da música brasileira, como Sérgio Dias dos Mutantes (que inclusive, produziu um single nosso, Outono), Chico César (com quem gravamos Pirulito, no CD/ Song Book do Braguinha), Jards Macalé. Tudo isso graças ao nosso mecenas, Odilon Merlin, que com ouvido e gosto musical afinadíssimos, sempre apostou na gente, nos promovendo em sua casa de shows, o Era Só o Que Faltava. Hoje veio de Odilon, via twitter, a notícia de que Nelson Jacobina, o tímido parceiro de Mautner, e genial compositor de Maracatu Atômico, tinha morrido no Rio de Janeiro.

Meu contato com Jacobina foi breve e passageiro. Resumiu-se a um final de semana prolongado, talvez de uns quatro dias, na Ilha do Mel. Eu e Naína fazíamos o show de abertura para esses dois mestres da música brasileira -- graças ao nosso outro mecenas, Helinho Pimentel, então dono da única rádio rock de Curitiba.

Eu nunca vou me esquecer do quanto me admirava ver os dois amigos (só parceiros musicais, ou também namorados?, eu me perguntava) na praia, fazendo uma espécie de meditação e alongamento. Não bebiam, não fumavam baseado, e sempre riam um do outro, e se alimentavam muito bem, eram assim uma espécie de últimos dos moicanos macrobióticos naturebas.

Na manhã antes de voltar pra cidade, observando o horizonte na praia, sentados na areia, conversávamos eu e Jorge Mautner sobre música. Enquanto isso, Nelson Jacobina fazia seu ritual meio ioga-tai-shi-shuan, a alguns metros afastado de nós. Eu, ignorante, pra saber mais sobre seu início de carreira, perguntei como foi, se foi muito difícil, se foi fácil. Ele disse que foi natural, que conhecia grande parte dos baianos e que essa relação inevitou sua entrada no mundo da música.

Pois olha, eu lhe disse. Meus tios também andavam com os baianos, um deles inclusive namorou a Gal. Eles chegaram a gravar vocais com Caetano, Gil e o pessoal da tropicália todo. Hoje só um vive, ou melhor, sobrevive, de música. E Mautner, curioso, me perguntou: quem são seus tios? E eu disse, Saulo, Saul, Batista e Bacana. Ele arregalou os olhos e perguntou na mesma hora: Bacana? Você é sobrinha do Bacana? Nelsô, chega aqui!

Jacobina interrompeu o ritual e veio correndinho em nossa direção. As ondas quebrando ao fundo e sua postura impecável davam uma cadência cinematográfica à cena. Ele então se agachou em nossa frente, de costas pro mar, franzindo a testa aumentada pela calva. Você sabe de quem essa menina é sobrinha? Perguntou Mautner. Ele ergueu as sobrancelhas esperando a resposta. Do Bacana! Lembra do Bacana? Nelson sorriu. E eles falaram do meu tio com muita admiração, e perguntaram por onde ele andava, o que fazia, etc. E eu me senti feliz, mas também frustrada, pensando que merda minha família é um desperdício de talentos natos.

Então uma hora da tarde, depois de pegar a balsa e atravessar para Pontal, um sol de rachar e a gente aguardando o carro que ia nos levar de volta, fui numa lojinha dessas de artesanato pra fazer hora. Nisso veio Nelson, pra fugir do sol também, e disse, com aquela serenidade que lhe era característica: que colar bonito! Eu concordei, ainda me olhando no espelho e admirando a peça feita de fio encerado, madeira e sementes. Ele então, sem falar nada, foi comprando o colar e uma presilha de cabelo no formato de peixe, tudo combinando, e me deu de presente.

O colar ainda vive. A presilha quebrou. E hoje a música brasileira perdeu mais um de seus grandes talentos. Mas essa lembrança ficou. A gente não manteve contato. Agora, sorrio aqui, com saudades, e penso: que sorte a minha ter tido a oportunidade de compartilhar a brevidade do tempo e o mesmo espaço ao lado dessa estrela que brilha mais agora em algum lugar do infinito.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Efeito Calado: Uma Visão Antropicalista da Música Popular Brasileira



Tropicália: A História de Uma Revolução Musical Brasileira é narrada com maestria no livro de Carlos Calado. Costurando biografias, análises de obras de arte, depoimentos, e muita muita música, o livro é uma fonte inesgotável de informação histórica em torno dos eventos que marcaram o crescimento das indústrias fonográfica e de entretenimento no Brasil ditatorial. Por tudo isso o livro de Carlos Calado é, antes de tudo, uma máquina do tempo capaz de nos transportar para o incrível anacronismo da nossa história político-musical. Uma descoberta incômoda para nós, consumidores mais críticos de qualquer arte, pré ou pós-tropicalista. Explico.

O livro narra como os jovens "tropicalientes" (não resisti, Calado nunca usou essa expressão, isso foi o meu lado latino aflorando na análise) eram ávidos por inovações ideológicas e estéticas que proporcionassem uma reflexão mais crítica a respeito da evolução da música brasileira. Conseguiram, mas não sem enfrentar a hostilidade tanto dos linha-dura da MPB, como dos truculentos militares. Ok, vocês dirão, mas todo mundo sabe disso. E esse é o problema! A gente tá careca de saber que a ditadura militar não entendia nada de música, e que a música popular brasileira não entende nada de inovação estética radical. Mas de uma forma ou de outra, o livro mostra que aos poucos, a MPB relaxa, goza, e até evolui. Afinal, os revolucionários de ontem não são a nata da MPB de hoje? Será que a MPB que evoluiu, ou os revolucionários que caretanearam? Um pouco dos dois, eu diria.

Hoje vendo -- ou melhor, lendo, via twitter -- Renato Russo sendo homenageado por uma leva desafinada de artistas, e testemunhando o renascimento musical dos anos 80 (inclusive, minha pesquisa é fruto dessa renascença!), cheguei à conclusão de que a MPB é uma ameba -- monocelular e sem forma definida. A MPB não é um gênero, é um conceito envolto em uma membrana formada por preconceitos. É um mito. É também um indicador de classe social. A MPB é exclusiva! Não só porque única, mas porque exclui tudo que não é digno de ser rotulado como MPB.

Mas enfim, a MPB, como uma ameba, sofre mutações, e abraça aos poucos, alguns corpos musicais estranhos, incorporando em sua monocelularidade primitiva novos gêneros, ritmos, sonoridades e instrumentos. A MPB é uma força repressora, que primeiro bate, depois resiste, depois se adapta e finalmente se transforma, mas sempre, sempre, se repete.

Eu que me proponho a olhar criticamente para as revoluções musicais brasileiras, noto que o grande erro da MPB sempre foi cativar seu ego autoritário e político. Mas isso é erro de todo brasileiro, goste você de MPB ou de rockinho inglês, eu, você, a gente é tudo frutinho madurinho do absolutismo monárquico do império. Ok, tô exagerando.

Agora, tudo bem que a partir dos 90 houve uma certa liberação tardia dessas amarras, aceitando-se certas inovações, mesmo que para favorecer tradições (ó, espírito autofágico tropicalista!). Nada de errado com isso. Nada de errado com as tradições. Mas o que me incomoda, é a repetição dos mesmos discursos. A gente, parece, não aprende. Analisa a música somente em termos de modernidade e tradição. Eu não gostaria que minha tese se resumisse à isso. Mas ó. É difícil não sair da mesmice. Continuarei tentando.

No mais, desvirtuei. Não me levem a mal. O livro do Carlos Calado é leitura obrigatória. Músicos e artistas jovens, principalmente. Se querem fazer a diferença, façam com que sua arte seja uma reflexão crítica do seu tempo, e não menosprezem o novo, nem condenem o velho, porque a arte, para ser completa, precisa se livrar de preconceitos, briguinhas bobas, regionalismos bestas.

Isso não significa perder o senso estético e crítico da arte, não se trata de ser eclético a ponto de indefinir seu (bom o mau) gosto artístico musical. Significa, antes de mais nada, nutrir um respeito (nem que seja distante) com outras formas de arte. Interesse para conhecer e incorporar elementos tradicionais da sua história com os da sua contemporaneidade. Em suma, tropicalizar. Assumir conscientemente que somos sujeitos históricos, e como tal, temos o dever de interferir nessa linha do tempo de forma crítica, mas positiva e, quiçá, revolucionária e inovadora.

terça-feira, 29 de maio de 2012

A queda



Hoje acordei cedinho, e de bom humor, que milagre! Desci as escadas para preparar um café especial pro meu marido antes de ele ir para o trabalho. Mas antes de chegar na curva meu pé virado revirou e bum bum bum, lá fui eu de novo pro chão. Dor filha da puta, dessa vez machuquei o braço esquerdo tentando me segurar no corrimão da escada, e a mão direita, tentando parar a queda no degrau. Meleca. Mas sobrevivi. Do chão não passei. E no fim, fora as dores, tá tudo no lugar. Só escrevi mesmo pra registrar que essa foi a milionésima queda na escada, e a trilionésima torcida no pé... fora isso, tô bem!


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Memorial Day



Hoje aqui nos EUA é feriado de Memorial Day: um dia para honrar a memória dos soldados que foram (e ainda estão sendo) mortos em tantas guerras. God bless America! Também uma nação de contrastes: o mesmo jovem que não pode beber até os 21, pode morrer na guerra com 18. Compartilhei essa foto no mural do meu Facebook para denunciar a estreita relação entre o falso moralismo dos incentivos à natalidade e os interesses ideológicos, políticos e militares, que no fundo, não passam de interesses econômicos. É proibido não fazer filhos, não produzir mais necessidades, mais cidadãos - civis ou militares - para servir nossas maquiavélicas máquinas ideológicas, econômicas e políticas! 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Last Day in L.A.

The Getty Museum: só pela arquitetura, já vale a visita

Infelizmente, nossos dias estavam contados em L.A. Sábado era dia de partir. Juntar as tralhas, sair do hotel até meio dia, e tentar percorrer mais alguns lugares imperdíveis: o J. Paul Getty Museum e The Grove -- um conglomerado de bares, restaurantes, lojas chiques, e inclusive, uma feirinha que aqui eles chamam de Farmers Market.

Chegamos no Getty Museum pouco antes do meio dia. Meu mau "humouro" já estava à flor da pele, mais especificamente, à flor da pele do meu pé direito, por causa da dor. E quando eu vi o tamanho do museu eu disse pro Bruno ah não, eu não vou caminhar pelo museu a pé, porque depois de noite a dor fica insuportável, e ter que enfrentar aeroporto com dor, e não conseguir dormir no avião por causa da dor, ah não, eu não! E assim que desembarcamos do trenzinho elétrico que sobe a ladeira até chegar no topo da montanha onde fica o museu, solicitei uma cadeira de rodas e eles deram! Não precisamos pagar nada.

Foi muito engraçado a gente percorrendo o museu com o Bruno me empurrando na cadeira de rodas. As pessoas nos sorriam piedosas e abriam alas e saíam da frente pra eu olhar as obras: Monet, Manet, Van Gogh, Renoir, Toulouse Lautrec, Goya, entre muitos outros artistas europeus renomados. Foda foi aguentar o Bruno me chamando de Aleijadinha, e me ameaçando jogar das escadas, que eram muitas!

A coleção de arte do Getty é variada, tem alas só de móveis e objetos de decoração desde a idade média até a renascença. Tem uma exposição maravilhosa de fotografia. Outra de desenhos. Tem um instituto de pesquisa e de conservação de obras de arte. E claro, tem a paisagem, e a própria arquitetura do lugar, tão moderna, clara, imponente. Gastamos quase a tarde inteira lá e já eram mais de cinco horas quando saímos para o Grove.

Uma das vielas charmosinhas do The Grove


The Grove é um centrinho meio histórico e moderno, super hipster, com música e performances artísticas, lojas chiques, restaurantes descolados, chafarizes, jardinzinhos, até um bonde passa por lá! Jantamos numa barraquinha de comida italiana no Farmers Market, escutando uma banda estilo bluegrass (mas sem banjo, se é que isso é possível). Depois tocou uma outra banda, de blues. Lá pelas nove da noite fomos pra downtown. Eu tinha sido gentilmente convidada no dia anterior a comparecer a uma festa de aniversário de duas estudantes da UCLA que conheci na conferência.

Under the bridge downtown...

O barzinho onde estava rolando a festa, Las Perlas, era especializado em tequilas e mescais. O pub era muito legal, não muito grande, e todo decorado com Chican@ Art. Cactus, caveirinhas, Nossas Senhoras de Guadalupe, flores, garrafas, chapéus. As paredes eram verde-água, o banheiro era cor-de-rosa, todas as coisas tinham umas cores meio esdrúxulas, mas de certa forma davam um senso estético que fazia todo sentido naquela hora.

A vista do balcão do Las Perlas.


Tomei duas margueritas e o Bruno uma coca-cola, curtimos a festa até às onze e pouco, nos despedimos e saímos rumo ao aeroporto. Que pena, bem quando a festa estava ficando tão boa!

Algumas informações (in)úteis:

  • Músicas que não saíram da minha cabeça: California Dreaming... Garoto eu vou pra California viver a vida sobre as ondas... Eu já tenho um Cadilac, moro aqui em Hollywood, sou o rei cantando mambo. Mambo! Mam! Bo!
  • O que mais tocava nas rádios e dentro dos estabelecimentos comerciais: Red Hot Chili Peppers
  • Músicas incompatíveis que a banda de bluegrass sem banjo tocou: Viva la Vida, ou algo assim, daquela banda chata bragarai, Cold Play, e Can't Buy me Love, dos Beatles.
Algumas observação (in)cômodas:
  • Pela primeira vez que eu vi o mundo sob a perspectiva de um cadeirante. As obras de arte obviamente ficam numa altura inadequada se quiser ver a obra de perto, e a luz incide de maneira que a contemplação de algumas telas fica comprometida. 
  • Manobrar uma cadeira de rodas exige muita força e destreza. Parece tão fácil, vendo aqueles jogadores de basquetes nas Para Olimpíadas! Mas não é. E, acima de tudo, impossível não se sentir uma estranha, dependente, e um estorvo, diante de tanta piedade das pessoas, e do esforço de quem te empurra pra lá e pra cá, abre a porta, segura o elevador, tira foto, e faz tudo pra você. 
  • De noite passamos por um monte de moradores de rua em barracas (iglus) armadas ao longo da calçada, no centro da cidade. Cheiro de fumaça e urina. Muito chocante ver aquela pobreza escancarada, depois de ter visto tanta neighborhood maquiada, perfumada e perfeitinha. 
Assim, nosso California Dreaming was over. Aaahhh... que triste, né? Ná. Nem tanto. Afinal, não há melhor lugar que o nosso lar. E outras aventuras logo virão. Quem viver, lerá.