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sábado, 23 de junho de 2012

Na América Latina quase sempre é 1936

Ex-padre, Fernando Lugo perdeu popularidade desde a descoberta da
paternidade de duas crianças, enquanto ainda fazia parte da ordem eclesiástica. 


Duas horas. Este foi o tempo necessário para remover Fernando Lugo, presidente democraticamente eleito no Paraguay em 2008. Ontem eu expressei, via Twitter, minhas preocupações com a omissão da notícia aqui nos Estados Unidos.

"Aqui vivemos em uma bolha" -- respondeu Elias Kamal Jabbe, um jornalista americano (de descendência etíope) que conheci em LA. Uma outra amiga, Ashleigh Blue, ironizou: "Estamos muito ocupados punindo treinadores de futebol americano para nos incomodarmos com problemas presidenciais estrangeiros."

Que a América Latina já não é mais o centro das atenções da política internacional americana, isso todo mundo sabe. Que os Estados Unidos sempre apoiaram militar e financeiramente golpes de estado na região, também não é novidade. Que Obama está muito ocupado correndo atrás do prejuízo pra tentar se reeleger, isso é já do conhecimento de todos. Mas, como observa esta excelente matéria de Mark Weisbrot, se Obama aprendeu alguma coisa com o golpe que ele apoiou em Honduras há três anos atrás, ele não vai reconhecer o governo de Franco.

Weisbrot nos lembra que o caso de Honduras foi um divisor de águas nas relações entre estados Unidos e América Latina. Se a gente já nutria sentimentos anti-americanos desde meados do século passado, agora, com o mapa ideológico do continente mudado, mais do que nunca Obama se encontra isolado pelos seus vizinhos de baixo. Talvez por isso ele tenha reagido com excessiva moderação e cautela ao golpe no Paraguai. Uma porta-voz do governo americano ontem pediu "calma" e declarou que os Estados Unidos vão apoiar os valores democráticos e os procedimentos legais. Ora, o impeachment é um procedimento legal, amparado pela lei, então não devemos ficar surpresos se o mister Obama seguir a tendenciazinha tradicional americana e reconhecer prontamente o novo governo golpista que se instala logo ao lado.

Ok. Não ficar surpreso é fácil, afinal, que semaninha lazarenta essa para nós. Rio+20 considerado um sucesso pela presidenta Dilma Rousseff, mas tanto no cenário nacional como internacional, há controvérsias. Pior que isso, só o Lula passeando de mãos dadas com Paulo Maluf! Com Paulo Maluf? Sim, o mesmo Paulo Maluf que serviu de braço direito civil aos militares até o fim da ditadura. E agora mais essa.

Não ficar surpreso, no entanto, não significa não estar alerta. Afinal... quem é que nos garante que o efeito dominó não vai começar de novo? Hugo Chavez na Venezuela, Rafael Correa no Equador, Evo Morales na Bolívia, Cristina Kirshner na Argentina... todos eles estão estufando o peito e dizendo: La garantia soy yo! Mas amigos... convenhamos!

Se a gente adora botar a culpa de todos os nossos fracassos políticos, sociais e econômicos, nos Estados Unidos, apontando para o fato de que Obama não aprendeu nada com história, devemos reconhecer: a Latino América muito menos!

A gente está careca, mas careca mesmo de saber que nossas sociedades -- frutos quase podres do colonialismo europeu -- são comandadas por um grupo restrito de conservadores, ao qual damos o nome de "elite," e cujos interesses sempre prevalecem disfarçados de "valores democráticos."

A onda esquerdista da América do Sul é uma resposta aos anos de ditadura ferrenha que o continente enfrentou e que, muito mais por desgaste político e por desastres econômicos do que por senso de justiça e respeito aos direitos humanos, não conseguiram se sustentar. Só que a nossa história tem sido marcada, desde sempre, por sucessivos movimentos de democracia populista e autoritarianismo, demonstrando uma extrema incapacidade dos governos latinos de criar instituições fortes capazes de estruturar uma sociedade justa e democrática.

O caso de Fernando Lugo é curioso, porque segundo as leis eleitorais do país, nenhum presidente pode ser reeleito. Então é mais difícil de acreditar que as medidas que ele tomou -- sem no entanto obter sucesso devido à oposição que enfrentava -- para favorecer as camadas mais pobres eram somente medidas paternalistas ou populistas. Os conservadores têm mania de tachar toda política de cunho socialista como estratégia para reeleição, como é o caso do Hugo Chavez que aí está, há bem mais de uma década, destruindo a Venezuela, enquanto a esquerda aplaude e acha lindo.

Notando a irônica coincidência, no Twitter alguém relacionou o caso do Paraguai ao golpe militar do ditador espanhol Franco em 1936:

"Franco leads coup with wealthy landowners against government." Umm... is it 1936? 

Ao que outro respondeu:

"In Latin America, it is always 1936."