![]() |
| A ativista Halla, terrorista para uns e salvadora do planeta para outros, representada magistralmente pela atriz islandesa Halldóra Geirharðsdóttir |
Esses dias assisti a um filme islandês-ucraniano chamado Woman at War (Kona fer í stríð, de Benedikt Erlingsso, 2018). A história se resume no seguinte: uma jovem senhora eco-ativista resolve combater sozinha a indústria poluente de seu país e, para tal, arranja formas um tanto ousadas de interromper o fornecimento de energia para o funcionamento dessas empresas. Apesar de ser uma mulher comum, exercendo uma profissão modesta como professora de canto, seus atos “terroristas” acabam a transformando em uma espécie de Artemis, cujos fôlego, coragem, força e resistência fariam inveja a um McGiver, ao próprio Rambo, e a todos os super-heróis de quadrinhos.
A trama fica interessante quando a mulher recebe um telefonema que vai mudar a sua vida—mas não os seus valores. Há anos na fila de espera para adoção, finalmente surge a oportunidade de ela ser mãe de uma garotinha ucraniana que perdeu a família na guerra. Feliz e naturalmente confusa com a novidade, ela vai imediatamente visitar sua irmã gêmea, que seria a segunda guardiã legal da criança. Zen e toda mística, a irmã concorda em assinar os papéis como segunda responsável, advertindo porém que em breve sairia numa jornada espiritual na Índia. Isso complica imensamente a vida de nossa protagonista, uma vez que ela não desiste de se tornar mãe e muito menos de continuar seus atentados-manifestos. Eventualmente ela será descoberta, mesmo usando uma máscara do Mandela. O trágico fim de seus sonhos, tanto de maternidade quanto o de derrotar a indústria poluente será na cadeia. Mas felizmente o filme não acaba aí. Só não conto mais para não me tornar uma “spoiler” do seu divertimento.
O filme retrata a importância de reatarmos nossa conexão—qual refutamos diariamente—com a natureza. Em algumas cenas a mulher se joga no chão, como se estivesse querendo voltar para o “útero” da terra, ou escutando a voz, o coração do planeta. Também gostei da crítica que o director faz à discriminação e ao racismo para com os imigrantes. Adorei a trilha sonora, executada “ao vivo” nas cenas ora por uma bandinha de músicos/atores muito competentes, ora por um trio de jovens ucranianas. O fato de a “terrorista” ser uma mulher, uma senhora, professora de coral, dona de casa e futura mãe cutuca nosso ceticismo com esperançosos “e se…” ou “por que não?” Ironicamente (embora a ironia seja proposital) a cada fuga e perseguição a mulher tem que encarar os desafios e os problemas que ela quer combater, seja refugiando-se na fissura de uma geleira em derretimento, mergulhando em um rio contaminado ou atravessando as águas turvas de uma enchente. Enfim, abundam os simbolismos e os momentos em que podemos refletir sobre onde foi parar a mulher guerreira e ativista dentro de nós, e que surpresas desastrosas o futuro nos guarda.

Nenhum comentário:
Postar um comentário