sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Aventuras de Inverno


Primos e amigos trouxeram o espírito de Natal pra nossa casa!

Depois de um fim de ano um pouco tribulado por uma série de razões, eis que o Daniel (primo do Bruno) chegou para animar nossa casa, que estava triste e vazia depois que a Lu voltou para o Brasil... Logo o Natal chegou e com ele Marina, a irmã do Daniel, que além de sua companhia, nos presenteou com os mimos dos nossos queridos Selemes Zagonéis! Como é bom receber o carinho de vocês, que mesmo estando longe, sempre encontram um jeitinho de encher nossos corações de alegria! Obrigada =)

Milagre de Natal
Essas bandejas deliciosas foram obras do Daniel e da Marina.

Apesar de não contar com o mesmo gostinho de Natal com a família no Brasil, nossa ceia foi um sucesso internacional. Até o inverno amansou, a chuva do dia inteiro deixou de cair, e a noite foi muito agradável. Vieram animar a festa os nossos amigos catalães -- Oscar e Irene -- e seus filhos; também os nossos amigos Stephanie e Ali, o Ali é do Líbano. E no fim ainda tivemos a visita ilustre dos vizinhos que adoram uma festa.

Dia 25 aquela preguiça! Só de lembrar dos restos de Natal que me aguardavam na cozinha, custou pra eu sair da cama. Uma hora tomei coragem e levantei, mas qual não foi a minha surpresa ao me deparar com os talheres do faqueiro dispostos simetricamente sobre a mesa, prontos para serem postos de volta na caixa de onde não saíam havia-se lá quantos anos! A cozinha, milagrosamente limpa, reluzia iluminada! Esfreguei os olhos considerando a possibilidade de tudo não passar de um sonho, mas do sofá sorria pra mim Marina ZagoNoel que, cansada da viagem do dia anterior, foi a primeira a se render aos braços de Morfeu na festa, e acabou acordando cedinho, vítima do fuso horário brasileiro, e para minha sorte, bem disposta a organizar a casa! Meus leitores, eis um verdadeiro milagre de natal! Alguém que chega na véspera, ajuda a organizar a ceia, e depois limpa tudo antes de você acordar. Baita presente, obrigada Marina linda!

Explorando as montanhas da Virginia


Natural Bridge, VA

Dia 26 saímos cedo para nossa road trip rumo às montanhas, e seguimos em direção ao norte por aproximadamente três horas e meia até a Natural Bridge, uma imensa formação rochosa na Virgínia. Esculpida na rocha, a estrutura é um antigo santuário Apalache que muito se assemelha com um portal para uma nova dimensão onde se escondem fontes secretas de rios perdidos e gargantas guturais que devido ao frio, estavam fechadas ao público. O parque hoje é uma típica atração americana, conta com lojinha, mina fake para as crianças garimparem, museu de cera e parece que também até um zoológico. Apesar do frio, o sol e a caminhada de ida e volta até a cachoeira nos aqueceu.

Creekwood Cabin

Perto do fogo o frio não incomodava tanto

Do parque estadual onde visitamos a Natural Bridge, fomos direito para nossa cabana nas montanhas da Blue Ridge Parkway, onde nos instalamos e ficamos por três dias. Na primeira noite fizemos uma fogueira e tostamos marshmallows. Depois também exploramos as cidadezinhas ao redor, como Waynesboro e Lyndhurst.

To ski or not to ski


No sábado fomos nos aventurar nos picos nevados do Wintergreen Resort. Eu, Bruno e Marina preferimos esquiar, e o Daniel optou pelo snowboard. Bruno mandou muito bem, abominável homem das neves, peito estufado, descia a montanha como se nem fosse a primeira vez! Eu desci, mas desci rolando. Nem naquela esteira que levava a gente de volta pro topo do bunny slope eu conseguia subir e sair sem me desequilibrar. O teleférico então, apavorante. Você tem que sair daquela joça já esquiando e fazendo uma curva radical para a direita, uma adrenalina daquelas. Daniel no snowboard achou que já tava tudo dominado e se empacotou bonito, machucou o braço, esfolou o osso da bacia na neve, e ficou com um baita galo na cabeça. Ele não se lembra bem como, mas sobreviveu! E não sei se entendi direito, mas parece que Marina antes de subir no teleférico teve que se jogar no chão pra não ser atropelada por uma cadeira voadora. Enfim, foram fortes emoções!

To Be or Not To Be
Como em São Paulo, Staunton também tem uma Rua Augusta


No sábado à noite fomos para Staunton, uma cidadezinha típica de pé de montanha, com um centro histórico tão impecável que até parece cênico. Lá, eu e o Bruno assistimos Hamlet no American Shakespeare Theatre. Este teatro é uma reprodução americanizada -- ou seja, mais quadrada, moderna, coberta e com cadeiras estofadas em todas as sessões -- do famoso Globe Theatre em Londres, cujo original pegou fogo nos idos de mil seiscentos e bolinhas, mas que hoje conta com uma réplica fiel à beira do Tâmisa (e eu muito chique e exibida, posso me gabar e dizer que em 2014 visitei os dois). A peça foi muito legal, os atores eram ótimos, mas o figurino foi meio esquisito. A Ofélia tinha um vestidinho azul-Alice-no-País-das-Maravilhas e calçava um sapato híbrido, meio sandália, meio Allstar. Hamlet tinha um visual pós-moderno, mas indeciso entre o punk, o dark, o new-wave e o sadomasoquista cuecão de couro. Os figurinos destes protagonistas contrastavam com as clássicas e pomposas vestimentas de Claudio, o novo rei da Dinamarca, e Gertrudes, sua ex-cunhada-agora-esposa. A roupa do fantasma do rei assassinado pelo irmão era um misto de rústico, glam, e retrô, com tules, panos de estopa, e tecidos sintéticos prateados. Super ousado, na verdade. E no intervalo toda a trupe entreteve o público cantando clássicos deste horroroso pop americano moderno. Um pouco estranho, mas bem divertido!

A Pé na Appalachian Trail



Domingo apesar do dia bunda saímos pela Blue Ridge e fizemos algumas milhas na Appalachian Trail, o caminho original que os povos nativos abriram nas montanhas há sabe-se lá quantos séculos atrás. O tempo estava nublado e a serração às vezes engrossava virando uma garoa fria. Mas a paisagem silenciosa e adormecida do inverno deixou nossa caminhada mais contemplativa! Depois voltamos para Staunton pois tínhamos achado a cidade muito simpática na noite anterior. Mas por ser três horas da tarde de um domingo entre Natal e Ano Novo, quase tudo estava fechado.

Richmond e Williamsburg


As casinhas vitorianas da Monument Ave. Richmond, VA.
Na segunda cedo seguimos para Virginia Beach, onde passaríamos a noite. No caminho conhecemos Richmond, a capital da Virginia, uma cidade crucial para a história da independência americana, e que soube se modernizar conservando seu passado e os prédios históricos. E esta viagem acabou sendo mesmo um mergulho na história norteamericana. Saindo de Richmond, conhecemos a Colonial Williamsburg, que na verdade é uma réplica do que teria sido a primeira colônia na América do norte.

Praça da Execução em Colonial Williamsburg
Além das casinhas, praças, igrejas, vendas, havia pessoas vestidas de passado que provavelmente eram pagas -- ou vai ver se voluntariavam -- para interagir com os visitantes. Pena que o frio e a garoa não deixaram a gente aproveitar melhor o passeio. Em todo caso, foi muito legal ver a forma com que os americanos reverenciam, recriam, e revivem sua história.

Surf no Inverno: Fail

Estátua de Netuno em Virginia Beach
Finalmente chegamos em Virginia Beach, onde passaríamos a noite. Nosso hotel ficava entre o mar e um parque de diversões que, no inverno, obviamente, não funcionava. A roda gigante só que parecia estar rodando, mesmo sem ninguém dentro, embalada provavelmente pelo vento, o que só aumentava a nossa impressão de que estávamos em uma cidade fantasma. Mas imagino que no verão aquilo deva ser o agito da costa leste. O frio lá tava pior que o das montanhas. As lojinhas do píer e o boardwalk estavam fechados para o circuito das luzes natalinas, a única atração da cidade, muito brega por sinal.


Acordamos, tomamos café e fomos visitar o grande navio de batalha Wisconsin, que lutou na Segunda Guerra, na Guerra da Coreia, no Kuwait, Vietnã, Iraque, e Afeganistão. O Museu Naval também valeu a pena visitar. Tanto o navio quanto o museu foram atrações bem interativas, com veteranos de guerra dispostos a responder todas as nossas perguntas! Os caras aqui são tão orgulhosos de sua força naval, e acreditam piamente na dignidade da guerra para defender seus ideais de liberdade e impôr seus regimes econômicos e políticos em terras estrangeiras.

Apesar do meu repúdio à toda forma de violência, confesso que a lavagem cerebral que esses lugares proporcionam é uma das únicas táticas de guerra estadounidenses que não falham. Estou piamente convencida de que uma marinha bem desenvolvida é fundamental para o engrandecimento de qualquer nação. Praticamente inexistente em 1900, a força naval americana foi criada na década de trinta, e sua eficiência para a construção de bases e navios de guerra garantiu aos Estados Unidos sua supremacia bélica e econômica desde a segunda guerra mundial. A filosofia deles é mais ou menos essa: Nada melhor para garantir a paz (ao menos em solo americano) do que se preparar incessantemente para vencer na guerra (que eles vivem travando, sempre em solo estrangeiro).

Rumo aos Outer Banks




De Virginia Beach fomos para Kill Devil Hills, mais outro lugar histórico da América, onde os irmãos Wright testaram suas engenhocas até realizarem seu grandioso sonho de dar asas ao homem! O memorial é um lugar muito bonito e vale a visita, mesmo que nos dê uma pontinha de revolta já que na versão deles foram os americanos os primeiros a conquistar o céu. Obviamente, não há nenhuma menção ao 14-Bis de Santos Dummond, que já tinha dado a volta na torre Eiffel dois anos antes. Fico pensando se os irmãos Wright sabiam disso.

Feliz Ano Novo no Farol de Cape Hatteras

Nosso jantar de Ano Novo foi num restaurante bem batuta, mas passamos a virada na praia, tomando champanhe nos Outer Banks e vendo os três fogos de artifício que algum morador teve a bondade de soltar. O primeiro dia do ano amanheceu ensolarado e quase quente em comparação com o frio dos dias anteriores. Foi perfeito para conhecermos o famoso farol de Cape Hatteras e pegar o ferry rumo a...

Ocracoke, North Carolina


Primeiro pôr do sol do ano, visto do Ferry para Ocracoke

Essa ilha é um paraíso nos Outer Banks, e a pousada onde ficamos era muito aconchegante! Pena que passamos somente uma noite, pois no dia seguinte às sete da manhã pegamos o ferry para Cedar Island. Seguindo a recomendação de nossa host, jantamos uma comida tailandesa deliciosa, e fizemos amizade com o dono do restaurante que nos aconselhou a voltar na primavera, quando a ilha ainda não está abarrotada de turistas.

Reta final: Wilmington




Depois de pular de ilha em ilha, e conhecer lindas praias e dunas e faróis do Outer Banks, nosso último ponto de parada era a cidade de Wilmington. Ficamos num hotel no centro histórico da cidade, à beira do Cape Fear. Exploramos a região a pé, e de noite fomos jantar num pub jamaicano, com comida caribenha e banda de reggae ao vivo. Acordamos no dia 3 de janeiro e tomamos um brunch (uma refeição americana que mistura breakfast com lunch) antes de pegar a estrada de volta pra casa.

Responsáveis pela Rota

Primos lindos, e tão amigos! Dá gosto de ver!

O percurso da viagem foi todo planejado com antecedência pelo chefe da expedição, Bruno, e seus primos Marina e Daniel que se revelaram excelentes navegadores. A mim coube apenas aprovar e aproveitar o trajeto e achar tudo lindo, e claro, contar a história no fim. Tirando o Daniel ter levado uma multa por excesso de velocidade pouco antes da gente entrar em Charlotte, foi uma viagem perfeita! Já estamos prontos para explorar outros estados americanos ou quiçá outros países no próximo inverno... quem sabe o que este ano nos espera?

Feliz Quinze, queridos leitores!

~ F I M ~ 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

London London

Eu na saída do underground em Westminster 

Cinco Dias Majestosos

Vibrante: esta talvez seja uma das palavras mais adequadas para descrever Londres. Situada no sudeste da Inglaterra, a terceira maior cidade europeia (atrás de Istambul e de Moscou) pulsa constantemente. Imenso coração do Reino Unido, Londres abriga cerca de onze milhões de habitantes, dos quais estima-se que quase cinco milhões sejam imigrantes. Um verdadeiro caldeirão de línguas e culturas. Por que será que gente do mundo todo quer viver em Londres? Simples. A cidade é um centro cultural mundial por excelência, líder em moda, arte, comércio, saúde, educação, pesquisa, transporte, turismo. Um lugar onde o passado que data do império romano ainda está vivo, podendo ser constantemente revisitado. E onde o futuro se ergue imponente, sem nenhuma cerimônia, na transparência metálica das estruturas dos arranha-céus. Londres é um presente que o mundo nos oferece, berço de preciosidades arquitetônicas, artísticas, históricas e literárias. Ao todo, foram cinco dias majestosos, que aproveitei intensamente, como vocês irão constatar.

I’m Wandering Round and Round...

O sistema de transporte de Londres também contribui
para que a cidade seja o maior centro turístico do mundo 

Cheguei no aeroporto de Heathrow na quarta feira, 20 de agosto, às seis da matina. Passei pela imigração que – quite surprisingly – não me pediu nenhum dos mil documentos listados no site. O cara me deixou entrar depois de duas perguntinhas apenas: quantos dias vai ficar? Cinco. Qual o motivo da viagem? Vacation. Ele me corrigiu: Holidays! E pam! Passaporte carimbado. Saltitante, fui direto para o guichê do Heathrow Express e comprei um ticket de ida e volta Heathrow-Paddington Station, a forma mais rápida e barata de se chegar e sair da cidade. Custou 31 libras.

Na Paddington Station, por 36 libras, comprei outro passe para usar trem, ônibus e metrô nas zonas principais Londres por uma semana. Depois de pegar metrô para o meu destino, que era a Farringdon Station, saí do underground para uma ensolarada, barulhenta, fria e movimentada Londres! 

Narrando assim parece que foi fácil né? Rárrá! Dei muitas voltas, gente. Me perdi primeiro no aeroporto, depois na Paddington Station, e finalmente, me perdi outra vez para achar o endereço do flat onde ia ficar. Tive que estabelecer assim os meus primeiros contatos com os lovely londoners. Alguns não tão lovely, claro. Mas a maioria sim: um deles inclusive desviou do seu caminho pra me levar até a St. John Street, onde eventualmente eu cruzaria com a rua que eu estava procurando. Muita gentileza!

Now, where to go?

A torre mais famosa do Westminster Pallace

Às dez da matina, já devidamente instalada no apê que aluguei via Airbnb (muito mais barato que hotel) saí de guia e mapa na mão pronta para começar a explorar as redondezas. Voltei pra Farringdon Station -- e dessa vez não errei o caminho! -- e peguei o trem para a estação de Westminster. Qual não foi minha emoção ao emergir do subterrâneo e dar de cara com o Thames River! Às margens do qual girava a famosa London Eye! À minha direta a linda Westminster Bridge! E olhando pra cima o mais famoso ainda Big Ben! Fotos! Muitas fotos. Os sinos badalavam e eu ria à toa! Não acreditava que eu não estava sonhando. Ou melhor do que isso, que estava realizando mais um sonho!

The Mall

Londres é assim: arquitetura romana, gótica medieval, vitoriana,
dá pra contar a história da humanidade só olhando pros prédios. 

Pela manhã explorei a pé praticamente toda aquela região que eles chamam The Mall, com seus monumentos, praças, igrejas, parques e prédios antigos. Ali também está a imponente Westminster Abbey, onde as coroações e casamentos reais ocorrem desde mil seiscentos e bolinha, e onde reis, rainhas, e grandes heróis nacionais estão enterrados. Os restos mortais de Darwin e Newton também repousam lá. O lugar também recebeu, em 1674, a ossada das duas crianças encontradas debaixo de uma das escadarias da White Tower. Tudo indica serem os esqueletos dos pequenos príncipes Richard e Edward, misteriosamente desaparecidos em 1483. Eles provavelmente foram assassinados pelo próprio tio Richard III, que após a morte de seu irmão, o rei Edward IV, declarou-os herdeiros ilegítimos do trono, se auto conclamou rei.

Nelson's Column na praça de Trafalgar

Em aproximadamente três horas e meia de caminhada passeei pela Parliament Square, pelo St. James Park, Buckingham Pallace e Whitehall – primeira sede da Scotland Yard, onde horse guards fazem desfiles pomposos de hora em hora. Almocei uma barrinha de cereal nas escadarias da Trafalgar Square, no centro da qual há a famosa Nelson’s Column, uma coluna romana de mármore. Com 46 metros de altura, ela é cercada por quatro leões de bronze. O monumento é uma homenagem ao Almirante que morreu em 1805 na batalha de Trafalgar. Lá de cima ele observa a cidade numa clássica pose de bravura. 

O sol a pino deixou o tempo mais agradável, e enquanto comia admirava tudo: o sol, céu azul,  nuvens, pombos, pessoas, pedintes e turistas. Ao meu lado direito, os arcos e colunas de um portal. À minha frente, o monumento, os quatro leões, e as duas fontes suntuosas com seus sereios e golfinhos vomitando água com simétrica perfeição. Contrastando com tanta seriedade clássica, no topo da escadaria à minha direita tinha um esdrúxulo galo azul, gigantesco, destoando de tudo em volta!

À esquerda a cúpula da National Gallery, e do lado direito,
a torre da Igreja Saint Martin.

Curioso... o que diabos faz esta escultura ali? O que ela representa? Não sei. Certamente ela reflete um tipo de humor inglês que eu nunca serei capaz de entender. Enfim!  Atrás de mim, pior que o galo, tinha um Mickey gigante, gingando desajeitadamente ao som daquela música do Michael Jackson que toca na abertura do Video Show. Era a trilha sonora para a coreografia de três dançarinos de break -- ou hip-hop -- que se apresentavam em frente da galeria nacional. Ao longo da praça uma gama de artistas, mágicos, estátuas vivas, jedais levitantes, músicos excelentes tocando e cantando a troco de centavos e o desdém dos transeúntes.

National Gallery e National Portrait Gallery


Vista da London Eye

Pra fugir do calor e do caótico, porém fantástico, cenário da Trafalgar square, entrei na Galeria Nacional. Como a maioria dos museus de Londres, esta e a galeria de retratos são atrações gratuitas e uma fica colada na outra. Nelas você tem acesso às obras de artistas renomados como Monet, Degas, Van Ghog, incluindo artistas dos séculos treze, catorze, quinze e dezesseis, até o século XX. Leonardo Da Vinci, Botticelli, Rafael, Michelangelo, Cézanne, Velázques... para citar os que eu lembro. Dá pra gastar um dia inteiro em cada uma delas. É uma sucessão de obras magníficas! Fiquei a tarde toda ali, enchendo os olhos de beleza, e me sentindo muito sortuda por ter tido a oportunidade de ver tantos quadros que nunca tinha contemplado fora dos livros de arte.

Saint Martin Church 

Seis badaladas soaram da torre da Saint Martin Church, que fica bem ao lado das galerias, me lembrando de que o tempo passa depressa demais, e que Londres era uma cidade cheia de outras atrações. Mas meus pés estavam cansados, e apesar da minha alma estar bem alimentada, meu estômago já roncava. Então, em jejum, resolvi entrar na igreja e descansar um pouco. Lá, a missa acabava de começar. Um coral de quatro vozes cantavam, à capela, aqueles hinos sacros em latim. Completamente alienada aos ritos da eucaristia católica, fiquei bem quietinha meditando, e me emocionei muito com os cantos. Chorei de alegria e de saudade, e principalmente, de emoção pelo poder que a música tem de me arrebatar.

London Eye


Esta roda gigante é a roda da fortuna. Fila o dia todo, e o ticket não é barato.
Pelas minhas contas, os caras devem fazer meio milhão de libras por dia...

Depois fui enfrentar uma hora de fila pra pegar o ticket da London Eye, e outra meia hora pra entrar na roda gigante e, realmente, vi a cidade com outros olhos. O sol se pondo, o Tames cintilando lá em baixo. No horizonte passado e futuro se derramavam numa profusão arquitetônica silenciosa! E este foi o meu primeiro dia em Londres. Foi como deveria de ser: esplendoroso e cansativo. Tirando as 36 horas sem dormir e o dia inteiro de bateção de perna, a fome monstra e uma bolha no pé, na manhã seguinte, cedinho, tinha que estar na Conferência da BRASA (Brazilian Studies Association) no Kings College – real motivo de minha visita. Assim, não fui pra nenhum pub me embebedar. Comportada, peguei o metrô de volta pra casa, tomei um banho, dei umas últimas editadas no meu paper e apaguei! Dormi muito bem disposta a pedalar até a universidade... mas vamos deixar os demais dias para as demais futuras postagens.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

As Brumas de Grandfather Mountain

A gente na entrada da trilha e a placa avisando, be prepared! 

Este fim de semana resolvemos encarar uma aventura radical por dois motivos: primeiro, para comemorar nosso aniversário de casamento. Sim! Parece que foi ontem, mas já tem seis anos! Segundo, para aproveitar o final do verão e curtir um fim de semana inteiro nas montanhas, fazendo algo desafiador ao lado da Luiza que, sendo filha do meu irmão ~ um aventureiro nato ~ já devia estar achando a vida nos States muito pacata.

 Bruno e Luiza ao povo brasileiro: aquele abraço! 

A Grandfather Mountain fica a mais ou menos duas horas de Charlotte, entre Linville e as cidades de Boone e Blowing Rock. Além da ponte pênsil, suspensa num abismo de uma milha de altura, o parque tem zoológico, museu, e onze trilhas de dificuldades variadas, das quais algumas eu e o Bruno já havíamos desbravado separadamente; eu com o nosso amigo Rato, e o Bruno com o Caetano, quando ele esteve aqui. Naquela primeira ocasião eu e o Rato pegamos chuva na serra e não aproveitamos bem as trilhas. Fizemos uma só, até a ponte, provavelmente a mais fácil delas. Depois o Bruno e o Caetano foram pra lá num dia ensolarado, e puderam fazer esta trilha mais desafiadora que eu jamais pensei que seria capaz de fazer, tanto o Bruno falou que quase morreu de medo, que precisava de preparo físico, que se um bobeasse morria. Mas me encorajei, depois alguns meses de corrida e caminhada, julguei estar mais em forma para encarar a aventura. Rá!

Vilinha comercial no centro de  Blowing Rock
Chegamos em Blowing Rock na sexta-feira à tarde, debaixo de muita chuva, e ficamos num hotel bem batuta. Blowing Rock é uma cidade pequena e pitoresca, típica das montanhas norte-americanas. No sábado pela manhã acordamos e fomos tomar um café bem reforçado antes de encarar a escalada.

"Neblina baixa, sol que racha" não funciona nas montanhas. 

Na estrada a visibilidade era zero, não chovia muito, mas a neblina era densa. A gente já sabia que não ia ver aquele mar azul de montes, mas isso não nos desanimou. Estávamos indo mais pela aventura do que pela vista. Em vinte minutos chegamos no parque, pagamos vinte dólares por cabeça e recebemos um CDzinho explicativo, que vai dando várias informações interessantes conforme você vai passando pelo caminho até o topo. 

A ponte que atravessa a garganta da montanha a 1.62Km de altura

No topo tem a ponte. No lado oposto da ponte, a ponta de um abismo. No lado oposto do abismo, quase invisível, o pico mais alto da Grandfather Mountain, nosso destino. Vamos encarar? Fomos.



A vida é fichinha gente. A caminhada é que é dura.
Sabe a metáfora da vida ser uma dura caminhada? Esquece a vida, pensa só numa dura caminhada! A trilha era íngreme, e cheia de obstáculos: pedras, lama, mato, bicho. Bicho! Aquela montanha você tem que aproximar com respeito. Além de subir e descer os vales agarrando-nos em rochas e às vezes até em cordas, tivemos inclusive que encarar uma cobra no caminho!

Seria Lúcifer na floresta? Não, tadinha. Essa era do bem.

Para nossa sorte, era uma cobrinha sossegada, ela nem se importunou com a nossa presença. Continuou bem feia e horrorosa no meio da trilha, provavelmente aproveitando a tímida réstia de sol que o meio-dia traria para nós naquele sábado.

Lu e eu, a eremita das montanhas.
Depois, no topo, entramos literalmente nas nuvens! E na descida, chuva! Escorrega mas não cai. Ainda bem. Olha! Foi realmente uma aventura daquelas! Cansa só de lembrar. A Luíza, no auge de seus dezesseis, com as juntas novinhas em folha, ia serelepe e saltitante nos guiando na frente. A danada às vezes nem usava as escadinhas que tinha pra subir ou descer de uma pedra pra outra. Saltava e escalava com a destreza de uma montanhista nata. E eu atrás ia me superando, o Bruno me dando apoio moral.

Grandfather Gap tem escadinha. Imagina se não?

No final da caminhada minhas pernas estavam que nem mais existiam, meus joelhos rangendo, meus pés doíam, meus músculos tremiam, e a minha respiração arfando no peito molhado de chuva e suor e tudo isso junto era o que me lembrava de que eu não estava morta! Juro. Houve momentos em que eu pensei que eu não ia chegar no carro nunca... podem ir sem mim! Vou virar a Panda eremita das montanhas.

Eu pensando puta merda paguei vintão pra sofrer!

No dia seguinte não havia uma parte do meu corpo que não doesse. Agora, por exemplo, enquanto eu escrevo e rio, dói os dedos e o abdome. Mas o importante é que atingimos os nossos objetivos que eram 1) fazer a trilha e escalar até topo e 2) seguir até a Indian Cave, que nem era uma caverna, era uma gruta bem aberta e meio sem graça.

Felizes celebrando os seis anos de casório!

Ao todo foram três horas e meia de caminhada, alguns mil metros de elevação, nem sei quantas milhas de distância, mas milhas suficientes para dar uma fome daquelas. Mesmo assim, antes da janta, passamos fazer uma visitinha pro meu primo urso, que mora lá no parque. 

Ursinho fofinho perdido nas brumas da Grandfather Mountain

Depois de tanto esforço, nada melhor do que repor as energias com um bifão no ponto... e domingueira acordamos tarde, tomamos um tradicional café da manhã americano com direito a pancakes ovos batatas e bacon e voltamos pra Charlotte exaustos, mas inteiros, e acima de tudo, vitoriosos!

(Toca o tema Carruagem de Fogo)

~ f i m ~

Após um Longo e Maravilhoso Verão...

Eis que finalmente decidi atualizar o meu Diário de Bordo, que ficou relegado ao esquecimento desde o México e de nossa viagem primaveral para New Orleans. Mas de março e abril para cá, muitas águas rolaram. 

Eu e sogrão fumando e bebendo SOCIALMENTE no Flying Saucer
Primeiro, sogrão e sogrinha vieram nos visitar em maio! Como de praxe, eles chegaram com uma mala só de presentinhos e mimos. Discos, livros, roupas, balas de banana, sonho de valsa, farinha branca de Morretes! Era um verdadeiro baú da felicidade. Embora eles tenham ficado conosco apenas duas semanas e os dias passassem voando, ainda assim deu tempo de terminar o maior projeto de verão já realizado por Xandy & Brunior Empreendimentos: a construção da horta, sob a supervisão de Fátima e euzinha.

Projeto e Execução da obra: Engenheiros Ivo e Bruno Zagonel
(Update: a horta está frondosa rendendo abobrinha de montão, tomates cereja e ervas finas, tais como salsinha, cebolinha, manjericão. Também temos morangos. Mas são tão azedos, que acho que plantamos uma cruza de morango com limão. Ou eles azedaram de saudades do dedinho verde da sogrinha!)

Mesmo tendo chegado aqui em meados de maio, Ivo e a Fátima tiveram a sorte de pegar os primeiros dias de piscina no condomínio. Ou seja, eles não somente fugiram do friúme, como chegaram em casa bem bronzeados em pleno inverno curitibano.

Ivo e Fátima numa relax, numa tranquila, numa boa

Depois que eles se foram e deixaram um vazio na casa e em nosso coração, eu e Bruno fomos dando sequência a uma série de projetos de verão, que incluiu 1) a restauração da porta de entrada; 2) a limpeza e reorganização da garagem, 3) limpeza e organização do baú escolar, 4) pintura e montagem do armário do quarto de hóspedes. Todos iniciados e finalizados com sucesso, antes da chegada das próximas visitas!

Minha irmã Cris e minha sobrinha Lu (não somos parecidas?)

Dia 23 de junho foi a vez da minhirmã Cris Lemos chegar. Ela veio com a missão de trazer nossa sobrinha Luíza para uma temporada de seis meses aqui nos States. Fora os stresses normais que de vez em quando quase sempre ocorrem quando duas ou mais Lemos se encontram, a diversão foi garantida! Fomos assistir os fogos de 4 de Julho em Uptown Charlotte, passeamos em Waxhaw, Davidson, Hendersonville... Em função da Copa, não viajamos pra fora do estado, pois a maioria dos jogos assistimos aqui em casa, na companhia de amigos brasileiros e americanos. 


Pé na estrada rumo às montanhas

Após depressão do 7x1, sabíamos bem que o Brasil não passaria da Holanda e, mesmo se passasse, né. Que graça teria. Assim, sem titubear, saímos para uma agradabilíssima day trip com o intuito de renovar nossas energias recém esfaceladas pelo futebol. 

Primeiro andar das Triple Falls

O destino, DuPont State Forest, um parque nas montanhas com cinco cachoeiras, das quais visitamos três. Que delícia! Assim pudemos desfrutar de mais uma das mil maravilhas naturais que existem aqui na Carolina do Norte. Foi muito gostoso!

Eu e Lu: as ogras mais lindas das Montanhas

Um mês passou rápido e logo a Cris teve que voltar pra Curitiba, deixando aqui muita saudade e levando com ela mil presentinhos para a Alice, que certamente recebeu sua vovó de braços abertos e se deliciou com seu próprio baú da felicidade, cheinho de roupas e livros e maquiagens e brinquedos e princesas e mimos sem fim. 

Após uma tarde no museu, nada melhor que saborear um delicioso southern barbecue.

Assim passamos a maior parte do nosso verão 2014 e demos início a esta nova experiência familiar, que é ter a Luiza morando aqui com a gente. Para um casal balzacquiano sem filhos, de repente ter uma adolescente de dezesseis anos em casa pareceu um pouco aterrador. Mas a Luíza é uma menina de ouro, e tanto eu como o Bruno estamos adorando nossa nova companheirona! Já a matriculamos na High School aqui pertinho de casa. As aulas começam no fim de agosto, quando então nossas vidas vão se transformar radicalmente. Eu vou ter que reaprender matemática química física biologia pra poder ajudá-la com os deveres... e fora isso levantaremos às seis da matinha, porque as aulas começam às sete. Mas enquanto as aulas não começam, a gente aproveita as últimas semanas de férias e aguarda ansiosamente a chegada de Dondalieta!!! Que venha mamis!!!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Dias Felizes em New Orleans




Acordamos antes do sol nascer, pegamos as malas e partimos pro aeroporto. New Orleans era o nosso destino. Apresentar um trabalho sobre narcocorridos -- um tipo de Mexican-American Music -- a minha missão. Ou melhor. A minha desculpa. Quem me conhece sabe. Minha verdadeira arte é unir o útil ao agradável. Assim, uma apresentação no Southeastern Council of Latin American Studies (SECOLAS) seria a oportunidade perfeita para dar um upgrade no meu currículo acadêmico. Útil! 

E agradável -- uma ótima ocasião para aproveitar NOLA, The Big Easy, The Crescent City; New Orleans. A cidade mais fascinante que conheço aqui no sul dos Estados Unidos. Esta foi a minha segunda vez em NOLA. A primeira, já narrada aqui, foi no início do ano passado. E foi maravilhosa. 

O voo foi. Eu tinha uma pilha de provas para corrigir, mas uma americana engraçadona sentada na janela resolveu tirar um sarro: what's the point of spring break if you have to grade papers? E eu pra ser simpática disse não, spring break foi há um mês, agora ia numa conferência. Pra quê? Ela não me deixou trabalhar nem dormir, e me contou tintim por tintim sua vida íntima, os problemas de sua família e o motivo da viagem que unia nossos destinos em meio a turbulências. 

Uma tempestade impedia nosso avião de pousar no Louis Armstrong International Airport, de forma que depois de duas horas de histórias mirabolantes ficamos sobrevoando os céus da cidade com três outras aeronaves: urubus de metal que viámos da janela, também esperando a chuva passar, (ou o combustível acabar), para uma aterrissagem segura (ou -- que bom que não -- de emergência).

Finalmente em solo louisiano entramos num táxi e fomos pro hotel. Chuva torrencial. Os celulares todos buzzing. Flood warning. Toró de fazer o dia virar noite e até taxista dirigir bem devagarinho. 

Location

Nosso hotel: ao lado do French Quarter
Ficamos num hotel na entrada do centro histórico, e onde se deve ficar se quiser desfrutar do melhor da cidade. Um Best Western -- quite decent price, nice place -- ótimo custo benefício. Bem entre a Canal e o Ruby Slipper, o point da cidade para breakfest, lunch ou brunch nas manhãs ressaqueadas. 

Caminhando três quadras à esquerda, chegávamos na Bourbon Street, a rua mais insana e famosa da região, palco do carnaval de New Orleans. Alameda das missangas nas sacadas de ferro, onde mulheres, homens e dinheiro dão mais que chuchu na cerca e onde há maior incidência de bêbados e colares de mardi gras esparramados pelo chão -- apesar de que você pode encontrá-los até mesmo nos distritos mais afastados da cidade, dependurados nas árvores, nos portões, nas pontes, postes, fontes, fios de luz, cercas e monumentos. No caso dependurados os colares de missanga, e não os bêbados. Ou pelo menos não que eu tenha visto.

Mais Chuva

Late morning. Gotta get ready pra conferência. Vesti as pérolas, uma calça social cinza, sapato de couro preto, blusa preta e casaco listrado branco e cinza cujo botão mamis vai se orgulhar, preguei na noite anterior com um primor inédito. Pois é. A necessidade é a mãe da eficiência. 

Quem disse que eu não levo jeito pra costura?
Maquiei-me perfumei-me fiquei chique como de praxe mas no meio do caminho choveu no meu glamour, ficamos encharcados e chegamos no Deanie's com a maior pinta de pinto molhado. Oh well. Devorei meio poboy de camarão -- um sanduíche clássico da southern food: pão francês recheado de camarão à milanesa, alface, picles e maionese e tomei uma Blue Moon. Agora assim estava recomposta. A uma da tarde era a minha apresentação.

Olha os PhD's indignados com o meu paper. Não basta ser nerd.
Tem que causar polêmica.

Apresentei ao lado de três doutores em literatura e cultura mexicanas e não sei por quê, se fui a última a apresentar, ou se era a única a não ter um PhD, ou por não ser uma autêntica mexicanista, ou ainda se eu adotei uma perspectiva muito polêmica ao defender os narcocorridos como a continuidade de uma rica tradição oral nortenha, os doutores da mesa viram mil poréns no meu trabalho. Apenas refutei um dos comentários, os outros acatei e/ou tentei explicar (em espanhol e em inglês) que o que eu li ali era um terço do trabalho original, onde eu tratava com mais profundidade da questão mercadológica e do caráter transnacional do gênero.

The Rain Won't Stop Us

Mabeibe e o Mississipi
Depois da minha, fomos a uma outra panel em que um professor e amigo nosso se apresentou. Depois do dever cumprido fomos fazer o que todos que vão em New Orleans pra fazer: comer, beber, dançar, ouvir música boa e se divertir.

As especialidades do Café du Monde
Com aquele tempo horrorozinho, nada melhor que tomar um chocolate quente e comer os famosos beignets (leia-se benhêtz), que na verdade não passam de bolinhos de chuva -- ou melhor, cuecas viradas -- banhadas em quilos de açúcar de confeiteiro. Nada saudável, e como tudo que não é saudável e é frito, delicioso.

Bar Hopping

Bourbon Street: de dia inofensiva, de noite, não recomendada para menores.

Depois de o estômago forrado, iniciamos peregrinação pelos bares e ela só terminou sei lá, às três da manhã. Eu perdi as contas de quantos lugares visitamos. Vi meninas trepando numa barra de ferro, suas botas de salto tocando o teto, depois escorregavam espiralando o corpo como cobras, empinando as nádegas quase inexistentes a troco de notas de um dólar. E nós, os bêbados, outcast of American society, tapando os desvãos da autoestima com o carinho fake das gogo dancers. Na hora é legal, depois é patético.

E em cada bar entornávamos um ou dois drinks, e no fim da noite já conversávamos sem nexo com outros bebuns, e pedíamos água e coca-cola. Voltamos pro hotel singing in the rain e afundamos na cama. A cama, aliás, muito boa, parecia que nos abraçava, e os travesseiros então, que conforto!

The Day After

Sábado amanheceu indeciso entre o cinza e o azul. Acordei com uma sede cã, mas na garrafa de água vazia só havia o vapor de uma gota ilusória. Com medo de tomar água da torneira -- mississipi mud, nunca se sabe -- engoli dois Advils a seco e depois fomos curar a ressaca no Red Gravy, um restaurante italiano que serve um café da manhã tão ou mais delicioso que o Ruby Slipper, só que com bem menos fila. Também tinha um músico tocando banjo e cantando aquelas antigas canções da era de ouro da rádio americana. O ambiente, a música, o sabor e a qualidade dos pratos fez a espera valer a pena. Sim, pois a comida demorou quase uma hora pra chegar. Mas Big Easy. Não adianta se desesperar. New Orleans é a Bahia americana. 

Garden District

Esta casinha está à venda por um milhão e meio de dólares.

Depois do café alugamos duas bikes e saímos desbravar um bairro populado por mansões pitorescas  estilo família Adams. Lá também encontramos o Lafayette No.1, o cemitério municipal mais antigo de New Orleans, onde as almas descansam ou perambulam, quem sabe, desde mil oitocentos e bolinhas.



Explorar de bike aquelas ruazinhas repletas de azaleas floridas de primavera, ladeadas por casas antigas construídas entre 1832 e 1900, foi um dos pontos altos do passeio. Considerado "National Historic Landmark", o Garden District é a uma excelente amostra da arquitetura southern americana, e um exemplo de esmero, respeito e conservação do patrimônio histórico e arquitetônico da cidade.


Claro que há casas e até mesmo ruas inteiras esquecidas e negligenciadas, o que colabora para o clima "mal assombrado" do distrito. Mas acima de tudo, o lugar revela uma época de extrema prosperidade quando ricos do sul -- poderosos proprietários de plantations de algodão e tabaco -- exploravam mão de obra escrava e faziam questão de exibir seu status e opulência num lugar mais afastado dos crioulos que vivam no coração pulsante do French Quarter. 

Ps.: uso o termo crioulos no sentido louisiano, histórico da palavra, ou seja, para designar os descendentes dos primeiros colonizadores da região que eram espanhóis, franceses e/ou africanos. 

French Market



Não sei que fantasma sabotou a bike do Bruno no caminho, mas o guidom da bicicleta ficou completamente frouxo e já não obedecia os comandos do ciclista. Paramos no Museu da Civil War -- o mais velho da Louisiana, mas meio caro e bem sem graça -- e depois fomos devolver as magrelas. Por causa do problema a moça nem cobrou o aluguel, e seguimos para o French Quarter, onde estava tendo um festival gastronômico. De novo enchemos a pança e a cara e fizemos a via sacra percorrendo as quadras do centro histórico. Entramos em algumas Voodoo Stores, bares e restaurantes, mas eu estava exausta e com bolha no pé, voltamos pro hotel para planejar a aventura de domingo.

Airboat Ride at the Louisiana swamps

Baby gator
Domingo ensolarado e quente, resolvemos encarar a fila do Ruby Slippers, que nem estava tão grande se comparada com a do dia anterior. Tomamos um café da manhã reforçado e fomos a pé para o Museu da Segunda Guerra -- um dos principais pontos turísticos da cidade. Fascinante. Dá pra passar um dia inteiro lá. Mas como tínhamos que voltar pro hotel pra aguardar a van que nos levaria para os swamps, não pudemos conferir todas as atrações. O Swamp Tour é outra excelente opção. Um passeio radical por canais hídricos cavados nas proximidades do Mississipi, onde as cobras e os jacarés se escondem e reproduzem.

Existem idiotas para tudo nesse mundo.

O preço do passeio é um pouco salgado, mas vale a pena. Pra quem gosta de emoção e velocidade é um prato cheio. E tem muito jacaré, alguns imensos. Eles chegam bem pertinho do barco, e o piloto provoca e brinca com os bichos, até beija o focinho deles. E adivinha o que eles usam para chamar a atenção dos gators? Comida, sim, claro. Mas a comida não é carne, nem peixe, nem bichos menores, como eu imaginava. É marshmellow, aquelas bolas brancas engordantes que a gente  daqui espeta num graveto e assa na beira da fogueira durante o inverno! Pois é, até jacaré curte  um marshmellow.



Depois do passeio, que dura praticamente quatro horas, voltamos de van pro hotel e saímos jantar no Palace Café -- um clássico da cidade. Ambiente, comida, bebida e atendimento excelentes. Só os quadros que eram de péssimo gosto, e a conta que talvez não nos tenha agradado muito. Para quem está acostumado a tomar huge ass margaritas por 7 dólares na Bourbon Street, tomar uma mini skinny margarita e pagar o dobro dói no bolso. Mas enfim! No Palace Café come-se, bebe-se e gasta-se muito bem. 

Dias Felizes em New Orleans!




Voltamos pro hotel arrumar as malas pois nosso voo saía na segunda às 7:15 da matina. E cá entre nós, já não tínhamos muito fígado e nem dinheiro para abusar na Bourbon Street. Decidimos então deixar tudo pronto para a volta, que foi bem tranquila, sem turbulência, e sem mulher-matraca narrando episódios familiares bizarros... 

Tem uma música infeliz do Caetano em que a certa altura ele canta bem pelo nariz, "dias ruins em New Orleans"... tst, tst, tst... não podemos dar bola pra tudo que Caetano diz. Principalmente pra quem vai a passeio, não há dias ruins em New Orleans. Nem mesmo quando chove.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Dolorosas Reflexões Após Chutão na Cara


Ontem na capoeira levei um chutão na cara, meus óculos por pouco não viraram lentes de contato. Pem. Do nada. Também, onde estava a minha guarda? Protegendo o lado de onde o chute não vinha, e do outro lado o chute veio. Doeu. Chorei e o berimbau parou. Todo mundo na roda se comoveu, tentou ajudar, ajudou, olhou e disse: não foi nada, põe gelo, toma um comprimido pra dor que passa. Oi sim sim sim. Oi não não não. Será que depois da primeira porrada a gente passa a levar mais porrada e esquece como era a vida antes sem levar porrada? Foi a vida que me chutou a cara ontem. De novo. Ta achando que eu gosto. Que sou masoquista. Será que sim, que sou masoquista? Será que gosto de ser subjugada, de só ouvir sem dizer nada, de dar o olho pro soco, sem fugir agachada, pra fora da possibilidade do soco? Talvez eu seja sórdida e queira só sofrer, porque pra ser masoquista não precisa ser perverso nem pervertido demais não. No fundo de toda alma cristã a gente sabe que só o sofrimento traz prazer. Por isso é que a tal estrada que leva para o céu, por ser demasiado estreita, está interditada, obstruída de homens, de gente sofrida, gente humilde, cada qual com sua cruz, no seu calvário, seu brejo da cruz, à toa na vida e imagina então na morte. Foi a vida que me chutou a cara ontem. Ontem que vadiei, que lavei roupa, que cozinhei, que afinei a viola, que estudei por uma hora, que calejei os dedos e deixei o indicador cheio de cortes de tanto fazer pestanas nas guarânias. Ontem que respondi e-mails e esqueci de mandar e-mails, que roí o esmalte das unhas, que não limpei a casa, nem tirei o pó, nem preparei as aulas, ontem porque não sofri nem fui muito útil, a vida resolveu me machucar. Pra sentir pulsando desesperadamente no meu peito essa culpa ociosa, presa, ferida e frágil, quase sufocada, quase arte, lastimavelmente implorando piedade, por favor uma chance. Esquecer não, esquecer nunca será o bastante. Sempre haverá vingança. Afinal o que é o juízo final senão a grande estrondosa vingança divina? E depois Deus e a natureza estão sempre se vingando da ignorância e da maldade humanas. E por isso, nem por ser bom ou ruim demais não, nenhum verso que eu escrever nunca vai retumbar ao longe, na cabeça dos transeuntes, nem vai soar distante, ou sobreviver ao tempo, pois como sempre o julgarei ridículo, o condenarei medíocre, o matarei antes que outro o mate. Jamais vou terminá-lo e como sempre, deixarei os fabulosos planos habitarem os sótãos de minha mente, e permitirei que outros, mais medíocres e motivados que eu, tomem meu lugar. Não os executarei nem ao menos pela metade. Tenho gelo no olho e tenho frio. Meus dedos estão roxos macilentos ressecados e sem vida. É primaverno ainda. Mas em abril sim, tudo pode melhorar. E ainda há esperanças.

Ps.: Este texto foi inspirado na poesia de Pessoa (que também tinha preguiça e questionava a religião), e cita o trecho mais "covarde" de seu "Poema em Linha Reta."