quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Floresta de Gigantes



De Davenport seguimos para Felton, uma cidadezinha que fica mais longe da costa e meio escondida nas montanhas.

Além da van do Scooby, Felton tem um passeio de Maria Fumaça!

Por ser uma viagem rápida (meia hora, nem isso, partindo tanto de Davenport quanto de Santa Cruz), vale a pena sair da rota só pra conferir o Henry Cowel State Park -- uma reserva florestal com trilhas planas e fáceis de percorrer.



Lá vimos pela primeira vez -- e inclusive entramos em uma delas -- as magníficas Redwood trees: árvores centenárias (algumas milenares), que também chamamos de sequoias (e seu nome científico é Sequoia sempevirens).

Bruno apontando para o ano do nascimento de Cristo.

Quando atinge a maturadide -- uma árvore dessas é considerada adulta a partir de 150 anos de idade -- elas podem alcançar mais de 100 metros de altura! E sua madeira é super resistente, a única capaz de suportar as queimadas que, infelizmente, são bem frequentes na California. Seu tronco é feito de um casco rugoso e forte, mas parece leve e poroso ao toque.



Durante e depois de uma queimada, a árvore produz uma seiva que protege e literalmente "cicatriza" as queimaduras. Assim, a maioria das sequoias sobrevive aos incêndios florestais. E o mais curioso é que mesmo quando morrem, de seus troncos podem nascer duas ou três ou mais árvores, que crescerão e eventualmente "ressuscitarão" a árvore que estava morta, incluindo-a em seu ecossistema para circulação de seivas e nutrientes.



Não é fantástico? E nós em nossa imensurável prepotência ainda achamos que somos seres superiores às plantas! Rá Rá!

Abaixo um vídeo da árvore mais famosa do parque, a Freemont Tree.


Ps1: O norte da California tem vários parques como esse, que são verdadeiros santuários naturais. Porém, por serem maiores e mais perto da cidade grande, são bem mais disputados e cheios de turistas. A gente tentou ir em um antes de visitar Napa Valley, mas tinha uma fila enorme de carros, e quando enfim chegamos lá, foi impossível achar lugar pra estacionar! Talvez se tivéssemos chegado mais cedo (o parque abre às 8 da manhã) teríamos conseguido. Mas no fim tudo deu certo, e o Henry Cowel caiu como uma luva em nossa viagem!


Ps2: Eu provavelmente estarei colocando a vida de uma socialite foragida em risco se disser seu nome, mas encontramos a mulher de um dos condenados do mensalão com seu cachorro, bela e formosa admirando as sequoias no parque... e o pior de tudo é que foi ela quem puxou papo com a gente, notando que éramos brasileiros.

Vocês também são brasileiros? E a gente disse arrã. E após trocarmos nossas impressões sobre a floresta, perguntamos se ela morava na California ou se só estava passeando. Ela suspirou e respondeu: Eu estou foragida. Fui ameaçada de morte no Brasil e tive que deixar o país.

Que horror!, exclamamos. E o Bruno comentou: lugarzinho bom esse que você escolheu pra se esconder, hein? É, ela concordou e completou sem cerimônia, eu sou mulher do _____________ (nome que não nos soou estranho, mas que a gente não fazia a menor ideia de quem era).

Notando a interrogação na nossa cara ela continuou: O _____________, que foi condenado agora pelo mensalão! Ahhhh! E para escancarar a nossa ignorância eu perguntei, mas e ele, está aqui com você? Claro que não, meu marido está condenado!

Então eu emendei: mas até onde eu saiba ninguém dos condenados do mensalão foi preso. Ao que ela respondeu com um certo desdém e uma dose de sarcasmo: e por acaso algum político vai preso no Brasil?

Pois é, dissemos um tanto embaraçados, bom, boa sorte. E saímos de perto! WEIRD!!!

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Contos Fantásticos Californianos




ROTEIRO

Estávamos empolgados para finalmente pôr o pé na estrada rumo ao Big Sur. Íamos passar uma noite em Davenport, outra em uma cabana no meio das montanhas, e depois ainda faríamos uma incursão para o interior, passar uns dias no rancho de um amigo em Atascadero, e por último chegaríamos em Santa Bárbara, a cidade que marcaria o fim da nossa jornada, logo ao norte de Los Angeles. Ou seja, ainda tínhamos muito caminho pela frente e eu quase sem mais paciência para explorar as ladeiras derradeiras de San Francisco, tamanha ansiedade.

Mal saímos da cidade e meu coração batia a mil. O vento na cara parecia congelar as bochechas e imprimia no meu rosto um sorriso eterno, nervoso, impossível de conter... a boca secava e dava até cãibra nas bochechas. Eu baixava o espelhinho e me olhava, e me achava linda sorrindo e sorrindo! Só me lembro de ter me sentido assim antes quando andei de jet-ski pela primeira (e única) vez, e quando terminei a tese. Era um sorriso alucinado, an overtly excited smile. O vento e o sol batendo na cara, a brisa salgada embaraçando os cabelos, meu marido lindo maravilhoso gostoso gatão guiando um puta carro conversível, e uma trilha sonora esquizofrênica que incluía clássicos do jazz e do rock e de bandas independentes curitibanas, e eu sortuda, sorrindo ao lado, transbordando de contentamento e de uma estranha urgência de gratidão! Ia pelo caminho dizendo obrigada ao mar, ao céu, ao sol, às montanhas, aos transeuntes, aos carros, ao Bruno!  

DAVENPORT

De San Francisco a Davenport – que é uma cidadezinha antes de Santa Cruz – não deve dar duas horas. Mas fizemos o percurso em umas 4, pois íamos parando em cada ponto possível para respirar a brisa do Pacífico e admirar a paisagem, namorar um pouquinho, tirar umas fotos. A vista já era aterrorizantemente maravilhosa, embora não chegasse nem perto da grandeza do Big Sur. Estacionamos em nosso hotel no fim da tarde, e ainda deu pra pegar o pôr do sol numa praia paradisíaca e parcialmente deserta que ficava láááá em baixo, depois de um trilho de trem e de uma trilha de pedras que descia pelas encostas.


Tirando a costa, Davenport em si não tinha atrativo nenhum. Somente uma velha fábrica, um aglomerado pequeno de casas à beira da estrada,  um mercadinho e o hotel / restaurante onde passamos a noite. De um lado a vila começava numa capela quase fantasmagórica, ao fim da única rua perpendicular à estrada. Do outro lado, a cidade acabava num doido barbudo distribuindo high-fives e oferecendo high times. Pois veja. Seja nos parques dos grandes centros urbanos ou nas pequenas cidades de beira de estrada, no coração beatnik da California sempre caberá mais um hippie doidão que vai surgir do nada, como um gnomo gigante, pronto pra arrancar a grana de turistas trouxas em troca de uma ervinha medicinal superfaturada.

Apesar de eu não ter gostado nadinha do aspecto meio abandonado de nosso hotel e nem de Davenport, e embora o quarto não fosse lá aquelas coisas, a praia era bonita, o preço era bom, e a vista da varanda e a comida eram excelentes e do lado do meu amor não tem lugar ruim. Dormi muito bem e no outro dia eu acordei cedo, and again over excited e sem paciência pra ficar na cama. Parecia que a estrada urgia, me chamava, eu estava mesmo ansiosa para continuar descobrindo aquelas rotas. Porém eu sabia que o Bruno ainda deveria dormir por pelo menos mais uma hora e descansar bem pra pegar de volta no volante. Então resolvi sair caminhar pela cidade, mas como a cidade inexistia, fui caminhar pela estrada. 

ON THE ROAD 



Quase não passavam carros. No entanto bastou passar o primeiro – uma caminhonete velha, caindo aos pedaços, mas voando baixo – para eu me dar conta de que eu estava sozinha às sete da manhã no meio de uma estrada sem acostamento. O carro sumiu na primeira curva, levantando poeira e deixando um rastro de diesel e maus pressentimentos no ar.

Que ideia idiota essa de andar na beira de estrada, mas eu lá tenho culpa que essa cidade começa e acaba no mesmo quarteirão?, eu esbravejava. Em dez minutos lá ia eu, no meio do nada, com meu traje fitness cinza da cor do céu e da estrada, e só o cadarço amarelo limão do meu tênis poderia servir como um contraste mais ou menos visível e olhe lá. Isso para um motorista bem atento, que viesse do outro lado da estrada. Tive medo, mas a vontade de chegar na próxima curva, que ficava numa subida, era maior.

Do lado esquerdo montanhas enormes e escuras me ignoravam solenemente aguardando sol. E do meu lado direito outro paredão, este um pouco menor (pelo menos em relação à estrada, porque para o lado do mar aquilo certamente virava um penhasco, eu não vi, mas podia imaginar). Ouvia vindo do lado de lá o Pacífico roncar, rrrroooooooww, chuaá, PLOF! E o mar batia nas pedras e recuava e depois voltava e assim desde sempre. O mar quando quebra na praia é feroz, eu cantarolava.

E cada vez que eu ouvia um carro se aproximando eu diminuía o passo e ia o mais longe possível da faixa lateral da rodovia, cuidando bem para não virar o pé no declive do asfalto, nem pra pisar no matagal que beirava o penhasco e assim não acordar nenhum bicho, alguma cobra, porque ali sim no barranco da beira da estrada parecia ser um lugar perfeito para um ninho de cobras e elas deveriam estar prontas para acordar, bem ali onde eu teria que pisar se tivesse que escapar de algum acidente. Estremeci. Era como se toda a natureza se aliasse a motoristas malucos em suas máquinas mortíferas e todos conspirassem para a qualquer momento alguém me dar um bote.

E logo veio outro carro seguido de um ônibus e agora além do medo eu sentia um nó na espinha; se algum motorista me atropela, eu morrerei esmagada entre as ferragens e um paredão de pedras, ou serei arremessada e cairei tragicamente no penhasco, ou se tiver um pouco de mais sorte apenas serei atacada pelas cobras. Minhas mãos estavam frias e suavam. Eu agora mal caminhava, o medo do medo me paralisava e beirava o pânico e eu pensei preciso sair já dessa estrada.

CALIFORNIA (BAD)DREAMING 


Como uma provisão divina, após aquela curva havia uma trilha bem definida e sinalizada, indicando uma praia. Mas apesar de toda a demarcação na entrada da trilha, passando o trilho de trem ela praticamente sumia, porque a descida era agora pelas pedras que se sedimentavam facilmente e se desprendiam da rocha e iam quicando até cair lá em baixo. Mesmo assim me parecia ser bem mais seguro chegar numa praia paradisíaca do que continuar na estrada, e eu resolvi ir em frente, digo, embaixo, até a paranoia passar.

No entanto a descida me deixava cada vez mais sem ter pra onde ir, e a paranoia só piorava. Um passo em falso e você cai nesse despenhadeiro, eu dizia, e parte de mim me advertindo, outra parte rindo da minha própria cara. Parei e olhei pra cima, depois pra baixo, e pensei, num rasgo luminoso de racionalidade, em dar um check-in no feice só pra sei lá, deixar um rastro caso algo acontecesse. Just in case. Mas é óbvio que ali não tinha sinal nenhum. Não deu nem pra enviar a foto ou as coordenadas do local para o Bruno saber onde me encontrar quando acordasse, caso fosse necessário.

Mas ok, eu ainda tinha controle da situação, eu respirava fundo e tentava me convencer de que agora o melhor que eu tinha a fazer era me concentrar na descida, depois SEI LÁ, poderia sentar e meditar numa pedra, deitar na areia, olhar o mar, e assim esperar o medo passar para depois voltar normalmente para a cidade. Então eu desci lentamente, tateando bem as rochas antes com os pés, certificando-me de que elas estariam bem presas à parede, e me apoiando com as mãos, e tentando me convencer de que esse lance de paranoias era uma bobagem, e fazendo um esforço tremendo para não lembrar da crença que diz que os medos e paranoias são pensamentos negativos e atraem coisas ruins incluindo motoristas loucos, atropelamentos e cobras.

THE IMAGINARY CALIFORNIAN BEAR



Comecei a cantar BECAUSE dos Beatles mas naturalmente fiz a voz mais lúgubre da harmonia (aquela mais grave e quase monotonal), e finalmente o último salto da pedra para a areia foi um alívio. Mas assim que continuei a cantarolar notei que aquela música era tão triste e sombria quanto aquela praia, no meio da qual uma pedra redonda, solitária e gigantesca se erguia, enterrada na areia. 

E se tiver um urso atrás daquela pedra? Depois de ver aquele urso da bandeira californiana em todos os mastros, seria bem possível que eu pudesse encontrar um urso de verdade nessa cova fria de águas geladas. Ou talvez pior que um urso, e se tiver um hippie tarado doidão dormindo na praia? Ele certamente teria acordado com meus aaaaaahhhhhhhh, because the world is round it turns me o-ohohoho-ooon... eu sei, ridículo, tudo aquilo era ridículo e eu sabia que eu estava completamente sozinha, mas mesmo a sã consciência do fato não me ajudava em absolutamente NADA a controlar o medo e botar um um fim naquela projeção patética de alucinações imaginárias.

VIA DAS DÚVIDAS finquei os pés rente às pedras, e observei com os olhos e ouvidos bem atentos aquela pequena boca de mar por alguns momentos. Notei que as areias estavam lisas e virgens, e que as minhas seriam as únicas pegadas humanas naquela praia. De resto, somente os pássaros, muitos deles na beira do mar, bicando as algas e mexilhões que a água lhes trazia. 

A paz distraída de observar os pássaros não durou muito, contudo. Logo eu notei que aqueles pássaros  eram todos enormes e pretos, e grasnavam como corvos, mas eles grasnavam ever more! Ever more! E aqueles emaranhados de algas eles destroçavam em busca de matéria orgânica já em avançado grau de decomposição e gritavam I want more! Ever more! Ever more! À espera de mais restos vomitados pelo pacífico, ou quiçá de um cadáver que o mar a qualquer momento poderia lhes trazer, ou quem sabe se eu mesma não teria chegado ali para me tornar o banquete dessas terríveis criaturas de rapina, e assim as paranoias continuaram cada vez mais absurdas e tão ridículas que até mesmo as aves se riram e depois se calaram e saíram de perto e partiram voando para o outro canto da praia.

E vendo as aves levantarem voo e utilizarem inteligentemente os violentos golpes de vento para flutuarem rente ao paredão, tive a impressão de que a muralha era na verdade uma fila de enormes sentinelas petrificadas lado a lado em seus sonos milenares e que se elas resolvessem acordar, com um breve mover de um dedo mindinho que fosse, deslocariam milímetros da placa tectônica do Pacífico, o suficiente para então estarmos todos na costa oeste da California realmente fodidos. 

Estremeci e dei as costas para as sentinelas e contemplei o mar. Na minha frente, as águas calmas e azuladas do Pacífico quase silenciaram e eu pensei, o mar está calado, ele também está conspirando. Fechei os olhos e respirei fundo. Senti o cheiro e a brisa gelada do mar no sentido contrário. E de olhos fechados, vi o mar recuar formando uma onda gigante imaginária lá no Hawai e swosh, plaff, smash, rrrrrooooooowwwww, voltar carregando tudo, ganhando volume e força e areia, e água e alga, e pedra e coral, cacos de conchas e barcos e peixe, e poxa, meu fim seria morrer esmagada contra as rochas anyway, fosse por um carro na estrada ou por um terremoto seguido de maremoto na praia.

Então eu fiquei tonta e confusa por um momento, mas ainda assim tentando dar uma vazão racional para minha loucura e compreender como e por quê isso foi acontecer, da paranoia afetar assim não somente minha mente como também os meus sentidos e minha coordenação motora. Vai ver a costa da California enlouquece as pessoas. Enlouqueceu o Jack Kerouac em 6 semanas, por que não aconteceria comigo em 6 dias?

Sentei e iniciei um delicado processo de autopsicoanálise e notei que todas as minhas paranoias relacionadas à morte eram um desejo obscuro de ter nascido Jack Kerouac. E depois ponderei que mesmo sem querer ser Jack já que ele está morto, deve ser normal temer a morte depois que a gente passa de uma certa idade e se dá conta de que o tempo é cruel e que nossa vida é uma só e que devemos valorizá-la e bla bla bla.

Tudo bem eu ter medo. IT IS OK eu ter medo de morrer e de terminar essa tão sonhada viagem de uma hora pra outra, e mais ainda, partir sem parir um filho, sem ter plantado uma árvore ou sem ter escrito um livro. E assim eu pensei eu preciso sair daqui ou senão eu morro, literalmente, de medo. Então eu pensei foda-se a paranoia, não vou morrer de medo nem de esmagamento porra nenhuma, e se eu morrer, morri, ótimo, vou deixar saudades por um lado e por outro não vou ter mais nada a ver com esse mundo, e assim subi a montanha rápida e agilmente, porque no fundo ainda fugia do tsunami imaginário que, QUEM SABE se já se aproximava ou não?

Corri até o hotel e lá cheguei sã e salva e esbaforida e beijei o meu amor e lhe disse que a caminhada tinha me dado medo, e ele me deu razão, mas não entrei em mais detalhes porque afinal a paranoia havia passado e eu não queria mais brincar de enlouquecer.

E quando saímos de Davenport o sol brilhava, e conforme a cidade ia se afastando pelo retrovisor ela já nem era mais fantasmagórica, e eu prometi que não iria mais levar tão a sério esses gênios do pessimismo existencialista como Albert Camus, Edgar Alan Poe e Jack Kerouac, porque a genialidade deles corrompeu, de certa forma, a minha normalidade original.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

California Dreaming

Nós num mustangão conversível
5 anos de casório celebrados em alto estilo

Hoje voltamos pra casa. Cruzamos o céu da América. De uma costa a outra, vimos o Pacífico virar deserto, e a terra cobre esverdear à medida em que nos aproximávamos do Atlântico. Uma saudade engrandecia tudo. A California cada vez mais longe. Belos dias inesquecíveis e noites estreladas pulsando ainda forte no peito. Que vontade de ficar por lá!

Mas agora já estamos em casa, e há sempre um sentimento bom ao entrar no lar. Embora me aborreça toda essa função de desfazer as malas, conferir correio acumulado, fora o preparo físico e psicológico para o semestre que amanhã começa a mais de mil por hora (na minha opinião, com muita pressa de chegar). Abro uma cerveja e vou pro sofá da sala para escrever no blog essas lembranças maravilhosas. Mas são retrospectivas vãs; porque nenhuma narrativa será capaz de proporcionar o prazer das experiências que vivemos lá... 

Aventuras Etílicas ao Norte de Frisco


Sausalito: a vila de pescadores do outro lado da Golden Gate Bridge

No quarto dia em São Francisco fomos a pé até a Hertz, locadora de veículos onde havíamos reservado um carro para começar a parte On the Road da viagem, just like Jack Kerouac. Mas Jack mesmo sendo um escritor fudidão de sua época não fez este caminho com o mesmo glamour... ele primeiro foi de carona e sem um puto e depois da fama voltou pra lá em alto estilo num vagão de trem intercontinental. Jack com certeza foi pra Sausalito se embebedar... nós só fomos para Sausalito passear, tomamos um belo café da manhã e depois seguimos para Napa Valley e lá sim nos embebedamos, primeiro com a vista maravilhosa, depois com os vinhos exclusivos que experimentamos em duas das vinícolas super sofisticadas que povoam o vale, nas regiões de Napa e Sonoma. 

Wine Tasting: turismo etílico em Napa Valley

Voltamos ao entardecer para San Francisco e depois de encontrarmos, com muita sorte, uma vaga pra estacionar nosso carrão bem em frente ao apartamento que alugamos na Mission, fomos jantar uma porção de tapas num restaurante espanhol a algumas quadra de casa, uma delícia. 

Last Day in Frisco

Cemitério de mil oitocentos e bolinhas da Dolores Mission

No dia seguinte arrumamos as malas pra devolver o apê e finalmente pegar a California 1, também conhecida como Cabrillo Highway. Mas antes de pôr o pé na estrada ainda tínhamos alguns lugares imperdíveis para ir em San Francisco. O primeiro era bem em frente ao apartamento onde ficamos: os jardins do cemitério da Mission Dolores -- o prédio histórico mais antigo e inteiramente conservado de San Francisco, onde estão enterrados os mais notáveis católicos, pioneiros da California, e onde Hitchcock gravou em 1958 cenas do filme Vertigo (no Brasil, Um Corpo que Cai). 


Um dos cartões postais da cidade: Alamo Square

Depois, seguindo as sempre maravilhosas dicas do blog de Candice Bittencourt passamos pela Alamo Square só para encher os olhos com uma última vista panorâmica da cidade, e visitamos a Grace Cathedral, que estava em reforma mas ainda aberta aos visitantes. Aproveitando que a catedral era quase ao lado do Top of the Mark -- um restaurante que fica na cobertura de um prédio no centro -- subimos lá para tirar mais algumas fotos. 

Vista do Top of The Mark

Ainda dirigimos pelas curvas da Lombard Street -- a rua mais sinuosa, florida e charmosa de San Francisco -- que fica em uma das ladeiras do bairro mais conhecido como Russian Hill. Depois voltamos para o Golden Gate Park pra ver as atrações que não tínhamos conseguido cobrir de bike nos dias anteriores. E para fechar nossa trip em San Francisco fomos ver a exposição Impressionists on the Water, com obras de Renoir, Monet, Camille Pissarro, e outros mestres das belas artes. Depois de ver todos aqueles quadros, era impossível não olhar pra San Francisco Bay com um olhar que não fosse impressionista! O mar, os barcos à vela, a Golden Gate Bridge, o sol atrás da neblina, as montanhas ao fundo, a luz cintilando no mar... até meu Instragram ficou subitamente impressionista. E assim, após 5 dias perfeitos em San Fran, mal sabíamos nós que o melhor da viagem ainda estava por vir. Aguardem as fotos, fatos e relatos da próxima postagem!

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

San Francisco nas Alturas




Nossa missão dominical era manter o padrão das férias numa sucessão de dias perfeitos. Confesso que estando na Califórnia, não é preciso fazer nenhum esforço. San Francisco é uma cidade verdadeiramente maravilhosa, não há como perder a viagem. Qualquer ônibus errado vai te levar para algum lugar certo.

Depois de um café reforçado, seguimos de ônibus até o pé dos Tween Peaks. Dos morros gêmeos se pode ter uma vista de 360º da cidade. Digo se pode ter porque não é nada garantido. Há que se contar com um pouco de sorte. San Francisco vive nas nuvens, em questões de minutos o nevoeiro chega e você só vê o seu nariz no meio de um branco denso, frio e úmido.


Mas mesmo com as pernas podres da mountain bike adventure do dia anterior, a gente conseguiu subir nos dois morros e vislumbrar a cidade numa manhã estarrecedora. A contemplação foi prazerosa e durou mais ou menos 20 minutos. Logo a neblina veio apagar a vista. A gente então desceu a pé até o Golden Gate Park, uma pernada e tanto, deu o maior suador, o que de certa forma foi muito bem vindo para queimar calorias e assim espantar o frio do verão São Franciscano.

A caminhada valeu a pena, não custou nada, durou menos de uma hora, e passamos por encostas cinematográficas, com casas que pareciam vitrines, ornadas com flores e jardins milionários. Quanto será que custaria pra comprar uma daquelas? Uma fortuna. Mas a vista não tem preço...

Chegando ao nosso destino, vimos que o parque era gigantesco, e que ficava exatamente numa das extremidades da Haight -- a rua mais hippie da California, por onde todas as revoluções dos anos 60, se não começaram, pelo menos passaram por lá. Só que os bicho-grilo paz e amor de ontem, são os sem-teto com Mac Book Pro de hoje e amanhã.



No meio da Haight tinha uma Amoeba.
Tinha uma Amoeba no meio da Haight.
A Amoeba é um oásis, um verdadeiro paraíso musical.
Parada obrigatória. Metros e mais metros quadrados de som e fúria!
Dá pra ficar horas... dá vontade de comprar tudo.

Saindo da loja de discos, decidimos alugar umas bikes de novo, pra tentar cobrir a maior parte parque, que era grande demais pra se conhecer a pé. Pedalando seria mais rápido, e também mais seguro. Gente doida. Gente deitada dormindo. Gente fuçando nos lixos buscando comida. Punks, skinheads e metaleiros tatuados bebendo, conversando com negros que tocavam tambores com loiros cabeludos hippies. Todos vendiam maconha.

Alugamos bicicletas mas quase nem pedalamos nada, porque logo nas primeiras milhas nos deparamos com um concerto de orquestra na concha acústica do parque. Paramos pra ouvi-los e quando vimos já passava da hora para ir para a City Lights: o santuário beatnik, e muito provavelmente uma das livrarias mais legais do planeta. Dá pra ficar horas lá... e dá vontade de comprar tudo.


Após o evento de comemoração de 60 anos da City Lights, tomamos umas no não menos famoso Vesúvio, o boteco em frente à livraria. Depois andamos por Chinatown e seguindo as dicas de meu sábio amigo Samuel Monder, comemos no The House of Nanking: uma das melhores experiências culinárias que se pode ter na cidade. Sammy me advertiu de que, primeiro, não era para deixar me enganar pelo aspecto simples do restaurante. E segundo, para nem olhar o menu. A grande jogada é dizer ao garçom (que não raro é o dono do bar) para trazer o que melhor lhe convir. Dito e feito. Foi uma refeição impecável e uma revelação gastronômica inesquecível.

No pico de uma ladeira quase em frente ao Nanking se encontra a Coit Tower. Fomos direto pra lá. Mais subidas íngremes, escadarias, um elevador, 37 degraus e  tchanaaam, vista lá das alturas, e o sol se pondo em San Francisco! Espetáculo.

Estávamos exaustos. Descemos a pé da torre até a orla. Um caminho charmoso, cheio de becos e quintais de casas nas encostas dos morros. Ainda conferimos as instalações do America’s Cup de regatas. E finalmente, após mais um dia perfeito, pegamos o bonde de volta pra casa. Missão dominical cumprida com sucesso! 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Second Day in San Francisco




O segundo dia em São Francisco foi de tirar o fôlego em ABSOLUTAMENTE TODOS os sentidos possíveis. Devido à diferença no fuso, acordei às 6:40 da manhã e saí caminhar pela vizinhança. A mais ou menos três quadras do apartamento onde estamos tem um tal de Dolores Park. Aí pensei bom, já que vou caminhar, vou caminhar no parque.

MANHà

Um frio de lascar. Viro a esquina da igreja (Mission Dolores) e vejo alguns moradores de rua acordando. Um velho cabeludo da barba grisalha embrulhava suas tralhas. Uma mulher loira e descabelada dobrava os cobertores. Dois jovens continuavam deitados em seus sacos de dormir encardidos e fedorentos. Mais à frente outro já vinha bem acordado, com tudo embaladinho e guardado no carrinho de supermercado que ele empurrava, pronto para mais um dia. 

Eis que chegando no parque, vi uma legião de sem-tetos, uns que carregavam suas casas -- sacolas imensas -- nas costas, andando devagar, pareciam caracóis. Outros loucos amanheciam fumando e bebendo e me viam passar, serelepe, com meu traje fitness, limpinho, e meu novo tênis de caminhada com cadarço amarelo-limão. Quanto contraste!

Um levantou num pulo e fez uma pose estranha: socou a mão esquerda na palma da mão direita como quem diz eu sou canhoto e vou te dar uma porrada, mas depois levantou o pé direito no joelho esquerdo num balé maluco, e logo abriu os braços e projetou o quadril pra frente, girou o corpo e com a mão esquerda lançou uma bola inexistente no ar. Entendi que aquilo era uma espécie de jogo de baseball imaginário. Ele mesmo lançava a bola e ele mesmo se preparava com seu taco invisível pra rebater, e depois de rebater ele mesmo saía correndo pra pegar a bola e se jogava e escorregava no chão pra alcançar a base. Uma loucura. 

Subi a ladeira. Na volta, o mesmo lunático me aguardava. Fui passando e numa fração de segundos o cara abaixou as calças e sacudiu as genitálias para mim, sorrindo feliz, ou talvez rindo da minha cara. Minha sorte foi que pra baixo, todo santo ajuda. Eu corri. Corri bem rápido e cheguei em casa sã e salva e sim, um pouco assustada.

TARDE

Após o episódio bizarro do Dolores Park, saímos tomar café da manhã e seguimos de metrô para o centro da cidade. Lá pegamos o Cable Car, um velho bonde que sobe e desce ladeira até o Fisherman's Wharf, a principal atração turística na orla da San Francisco Bay. 


Primeiro fomos num museu muito divertido de antigos jogos mecânicos e eletrônicos. Depois percorremos as lojinhas e atrações do Pier 39, de onde se avista a mitológica ilha de Alcatraz. Também dá pra ver uma porção de leões marinhos, pelicanos, e pessoas e artistas de toda espécie. E um burburinho incessante de gente de toda parte do mundo. 


Almoçamos com uma vista panorâmica maravilhosa, céu azul, mar verde e prata, e a Golden Gate Bridge unindo tudo. Seguindo as recomendações do meu querido amigo (o escritor Mexicano) Yuri Herrera, alugamos bicicletas e camelamos 15 quilômetros até chegar na ponte, dos quais uns 4 foram só de subida (sem falar que erramos o caminho e subimos uma montanha completamente íngreme e desnecessária).

FIM DE TARDE


Pedalando nas alturas. Ventania. Do lado esquerdo o Pacífico se estendia no infinito e desenhava um horizonte incerto, perdido entre as brumas do céu e do mar. Atrás e em frente, montanhas; rochas milenares, escuras e silenciosas. Acima de nós as altíssimas estruturas e os cabos que sustentam a maior ponte suspensa do mundo (desde 1937) desapareciam nas nuvens. Do lado direito a cidade reluzente, refletindo uma réstia de sol que a neblina deixava passar. Um espetáculo.


Mais 15 quilômetros pedalando no sentido contrário da ponte e depois pela orla da baía, devolvemos as bikes e voltamos pra casa de ônibus, exaustos. Como disse no início desta postagem, o segundo dia em São Francisco foi de tirar o fôlego em todos os sentidos... 

NOITE

Zzzzzzz....




The fog over Golden Gate Bridge gives it a halo of mystery and glory. We bike-crossed it yesterday afternoon and that was the most exciting and adventurous moments of our trip. The hight is just incredible. The view, breath taking. The wind, as sharp as a knife, keeps blowing strong from the Pacific Ocean, sometimes howling, while the sea under us is constantly groaning, insensible to the stillness and the silenceness of the mountains. (Now I do not only invent words, as I'm probably inventing worlds with no cars or trucks zooming in and out across the bridge; which was actually the only sound I could really hear, besides, of course, sometimes, the wind).

By Beat-Panda Lemon

sábado, 3 de agosto de 2013

First San Francisco's Day

Vista aérea da cidade (Foto de Richard Seaman)
Enfim, férias! Após seis horas de voo atravessamos os States de uma costa à outra e desembarcamos no paraíso hipster da California, o famoso refúgio beatnik nos idos dos anos 50! Ou como diria o próprio Jack Kerouak: far-from-home Frisco, o fabuloso final da América.





Seguindo as instruções de nossa "host" saímos do aeroporto e pegamos um shuttle para a estação de metrô. O trem já estava na plataforma, estranhamente vazio para um fim de tarde de sexta-feira. Entramos no velho vagão decadente; era sujo e cheirava mofo. E entre túneis e trilhos cercados por muros altos, às vezes dava pra ver a cidade: ou pelo menos a parte pobre da cidade, quase uma espécie de Caminito, com casinhas quadradas amontoadas ao lado e em cima umas das outras, todas coloridas e de madeira. 

Descemos na estação da 16th Street e emergimos no coração do Mission District, um bairro histórico que leva este nome por causa das antigas missões franciscanas que aqui se instalaram na era da colonização. Caminhamos algumas quadras até o apartamento que alugamos via Airbnb, que por sorte fica bem em frente à igreja que dá nome à região: um ponto central, cheio de bares, restaurantes, prédios históricos e parques -- que ainda não desbravamos, pois chegamos exaustos e famintos.




Jantamos codornas e umas massas estranhas num restaurante muito batuta. A comida em si não estava lá aquelas coisas, mas deu pra matar a fome. E também deu um sono! Normal. Jet-leg de 4 horas a menos, mas para nós já são duas e meia da matina. No Brasil, 3:30. Aqui na California, ainda não é nem meia noite. Viajamos para o passado. E no coração do Mission District, isso fica mais do que evidente.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Noturno da Alcova



A morte toma sempre a forma da alcova 
que nos contém. 

É côncava, e escura, e morna, e silenciosa, 
se dobra nas cortinas onde se aninha a sombra,
é dura no espelho, e tensa, e congelada,
profunda nas almofadas, e nos lençóis da cama, branca. 

Nós dois sabemos que a morte toma 
a forma da alcova e que, na alcova, 
é o espaço frio que levanta 
entre nós dois um muro, um cristal, um silêncio. 

Então só eu sei que a morte 
é o eco deixado no leito
quando de súbito e sem razão alguma
te incorporas e te pões de pé. 

E é o ruído das folhas calcinadas 
que fazem teus pés desnudos ao fundirem-se na grama. 

E é o suor que molha nossas coxas 
que se abraçam e lutam e que, logo, se rendem.

E é a frase que deixas cair, interrompida. 
E a pergunta minha que não ouves, 
que não compreendes ou que não respondes. 

E é o silêncio que cai e te sepulta 
quando velo teu sono, e o interrogo. 

E sozinho, somente eu sei que a morte 
é tua palavra trunca, teus gemidos estranhos 
e teus involuntários movimentos obscuros 
quando no sonho lutas com o anjo do sonho. 

A morte é tudo isso e mais que nos circunda,
e nos une e separa alternadamente, 
que nos deixa confusos, atônitos, suspensos, 
como uma ferida que não verte sangue. 

Então, e só então, nós dois sozinhos sabemos 
que não o amor, mas a escura morte 
nos precipita a ver-nos cara aos olhos,
e a nos unirmos e nos estreitarmos, mais do que sós e 
náufragos, 
Ainda mais, e cada vez mais, ainda.


Créditos: "Nocturno de la Alcoba" do poeta e dramaturgo mexicano Xavier Villaurrutia (1903-1950), traduzido por Xanda Lemos. A foto que ilustra o texto é do blog do Ricardo Manieri.