Hoje oficialmente comecei as minhas entrevistas pra tese de mestrado. O primeiro entrevistado foi o jornalista, crítico musical e escritor Arthur Dapieve. Que ser humano incrível! Simpático, articulado, objetivo, foram 40 minutos de papo, com direito a um livro autografado no final, o que me deixou assim estonteante, pois o livro está esgotado nas lojas.
Como hoje de manhã devolvi o carro que tinha alugado, pela primeira vez me aventurei no transporte público do Rio. Entrei no ônibus e pedi pro motorista me dar um toque quando chegasse na rua das Laranjeiras, e o cara: claro, tudo bem.
O tempo foi passando e o ônibus desbravando ruelas cada vez mais suspeitas, e passando o túnel de Santa Bárbara era um favelão atrás do outro. Comecei a achar que o Dapieve não devia morar por lá... até que perguntei pro motorista: moço, ainda falta muito pra chegar nas Laranjeiras? E o cara botou as duas mãos na cabeça. Tinha me esquecido! Desci no próximo ponto, onde muitos milicos da PM estavam com suas metralhadoras em riste. Puta da vida com o incompetente motorista, me joguei na frente de um táxi. O cara voou de volta pras Laranjeiras e ainda consegui chegar na casa do jornalista com 5 minutos de antecedência.
No fim tudo deu certo, e na volta vim conversando com um carioca malandro do morro, que ficou de me indicar o ponto em que eu deveria descer na Barata Ribeiro. Respondendo à sua pergunta se eu já tinha estado em uma favela, disse que não, e ele de quebra me convidou para ver o Cristo e a Lagoa de sua laje! De resto não entendi muito o que o cara dizia porque ele lhe faltavam alguns dentes. E Jesus não tem dentes no país do banguela... viemos comentando os novos armamentos da polícia civil, até que deu a hora de eu descer. Mas essa da laje foi oátima, com certeza a cantada de pedreiro mais original recebi. Malandro é malandro, mané é mané, e eu com o santo forte, sobrevivi às primeiras aventuras no Rio, e amanhã tem mais entrevista, e domingo tem show do Paul, e segunda Biblioteca Nacional.
sábado, 21 de maio de 2011
quarta-feira, 18 de maio de 2011
O Rio de Janeiro continua lindo.

Parada em Copacabana para refrescar a cuca: uma água de coco e exercício de respiração até tentar compreender o GPS do carro que aluguei e que quase não soube como dirigir. Mal acostumada com carro automático, direção hidráulica, ar condicionado, freio ABS, cruise control, e outros confortos da modernidade estadounidense.

Vista do pé do morro: Favela da Rocinha. Indo visitar minha ex-aluna em São Conrado. Eis que a Rocinha surge, imponente, mulata e sensual no seio cidade.

Lagoa Rodrigo de Freitas. E quem foi Rodrigo de Freitas? Um português playboyzinho que herdou terras de papai nos idos de 1600? Na parte mais alta da montanha, o Cristo Redentor de braços abertos sobre a Guanabara.

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quarta-feira, 11 de maio de 2011
Onírico e Sulfúrico
Entre lendas e constatações
E o óbvio obsidiânico
E o amor telúrico
Entre o rio e a realidade
O inframundo e a cidade
Mora um livro.
Señales que precederán al fin del mundo
"irrepetível, precioso y frágil"
¡Fenomenal!
Review poética y plagio
por Xanda Lemos
para Señales que Precederán al Fin del Mundo:
una novela de Yuri Herrera.
domingo, 8 de maio de 2011
Another Mother's Day
Dia nublado em Cananeia. Mar revolto. Eu, sempre muito valente e metida a sabichona, não quis saber de mais nada, corri em direção ao mar dando barrigada nas ondas e me atirei no oceano - acho que tínhamos acabado de chegar na praia e a minha ansiedade pelo mar sempre me causou problemas.
[Como por exemplo a vez em que vi algo boiando nas marolas; o que julguei ser um boné inflável (????!!!) era uma água viva. Fiquei o verão inteiro com a mão direita inutilizada]
Mal entrei no mar, notei que não dava pé e que não importava o quanto eu nadasse, só via o carro cada vez mais longe. Sofri um afogamento mal sucedido. Meu pai me salvou, me arrancou do fundo das ondas e, tão logo descobriu que eu estava bem, me arrastou pra praia pela orelha, me dando uma bronca daquelas de eu me mijar toda!
Chegando viva no nosso spot, onde minha mãe e minha irmã nos aguardavam, vi meu pai se calar indignado, olhando pro horizonte com o cenho franzido, as mãos na cintura e o peito arfante. Tudo estava difuso, torto e embaçado, meus olhos queimando de sal do mar e das lágrimas. Perdida e humilhada no mormaço quente da areia, o sorriso calmo da minha mãe me veio soprar no rosto como brisa. Ela descascava uma laranja e me perguntou, docemente, se eu queria a "tampa."
Mãe é mãe.
Te amo, mãezinha. Tua simplicidade é a minha maior lição de vida.
sábado, 7 de maio de 2011
Desordem e Regresso
Queridos e abandonados leitores...
Ontem foi o meu último dia do semestre (enquanto mestranda) e posso dizer que, apesar dos pesares, ele terminou com relativo sucesso. Digo relativo porque relaxei, e porque sim, sempre acho que poderia ter feito melhor, que mandei meio mal.
De fato mandei meio mal, mas onde interessava acho que mandei bem, fiz meu trabalho, me superei, deixei de fumar, parei de negar fogo e de negligenciar as coisas boas da vida, e tudo isso se refletiu numa quantidade jamais antes atingida de Bs, com alguns raros As, mas whatever.
Nhé.
Cheguei à conclusão de que não se pode comprometer assim a sanidade mental em nome da perfeição acadêmica. Sogrão e sogrinha vieram pra Charlotte na fase mais critica deste processo e testemunharam minha precária condição física e psicológica. Mas sobrevivi.
Agora preciso organizar a minha vida, meus pensamentos, meus papéis, minha casa, minha mala pra North Myrtle Beach no final de semana que vem, e minha mala pro Brasil, faltam apenas 9 dias para o meu embarque. Mal vejo a hora.
Ontem foi o primeiro dia mais importante da minha vida acadêmica, e defendi minha proposta de tese com humildade, unhas e dentes. No fim tudo deu certo, foi tranquilo, não me senti insegura para responder nenhum dos questionamentos. Meu comitê está ansioso com a minha proposta, que eles todos definiram como "a fascinating project" Eles botam muita fé no meu taco.
Ou seja. Não vou decepcioná-los. Não posso, nem quero. Vou pro Brasil não para me divertir nem pra visitar vocês, amigos e família. Vou para mergulhar fundo na minha pesquisa, conseguir dados e entrevistas, ler, estudar, e escrever muito, pra fazer uma tese de mestrado virar livro e conseguir uma vaga de doutorado em Berkeley, Emory, Duke, Yale? Who knows.
Beijos a todos e especialmente ao meu amor, à minha mãezinha, ao sogrão e à sogrinha e às minhas amigas Latinamericanistas, e professores do meu comitê, e amigos de departamento que sempre confiaram na minha capacidade e me incentivaram DIARIAMENTE em TODAS as minhas conquistas.
domingo, 17 de abril de 2011
Desanuviar...
Pausa para uma respiração semi-breve. Para atualizar os leitores e acalmar as afobações acadêmicas.
Bom, se eu disser que por aqui tá tudo tranquillo, não será eufemismo, mas sim hipocrisia.
À medida em que o fim do semestre se aproxima, me dou conta de que precisava no mínimo de mais uma semana pra conseguir fazer tudo bem feitinho. Mas bem feito pra mim! Quem mandou deixar tudo pra última hora? Eu e essa mania de achar que funciono melhor sob pressão.
Tanta coisa pra fazer que não sei por onde começar. Correndo contra os prazos, ontem terminei um trabalho e um livro pra amanhã. Ainda não comecei o trabalho nem as leituras de terça, pois sexta tem a conferência em que eu vou apresentar e também tenho que mandar bem ali, se quiser ser selecionada para futuras apresentações em Conferências de Estudos Latino Americanos. Barra.
E terça, para animar esse desânimo, chegam sogrão e sogrinha!!!!
Por outro lado, já tô com a consciência pesada por antecedência, pois sei que serei uma host ausente, com aquele humor que vcs devem imaginar - principalmente agora que parei de fumar. E pra piorar, eles vão ficar só uma semana! Ou seja, não vai dar nem tempo de eu curtir os meus in-laws.
Mas pelo menos vai ser bom pro Bruno... terá a exclusividade do colinho dos pais sem a interferência incomoda de minha amada pessoa.
Dizem as más línguas que o Bruno acha que seus pais gostam mais de mim do que dele! Claro que não é verdade. Principalmente agora, em que não sou mais aquela garotinha linda e adorável, mas sim ocupada, mal-humorada, cheia de despudores e pedanditsmos acadêmicos!
Nem eu tô me aguentando, gente, talvez até por isso tenha evitado de escrever aqui. Mas a boa notícia é que daqui um ano estarei à beira da loucura, pronta pra pular no pescoço do meu diploma. Daí será a vez do Bruno enlouquecer com mestrado.
Enfim, quero ir pro México e pro Peru e pra Portugal e Pra Espanha e pra Inglaterra e pra Alemanha e pra Itália e pra França. Viajar e aprender vivendo, não estudando.
Mas essas já são outras histórias. Voltarei para o calabouço acadêmico! Uma ótima semana a todos!
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Ferramentas Modernas para o Ensino de Segunda Língua.
Este semestre meus alunos estão fazendo uma pesquisa sobre aspectos culturais do Brasil. Além da pesquisa, eles precisam preparar um power point e uma breve apresentação oral. Claro que em Português. Os assuntos que eles escolheram são os mais variados. Capoeira, Escravidão no Brasil, Cinema Novo, Tropicália, Chico Buarque, Carnaval, Festa Junina, e por aí vai...
Na conferência que fui no mês passado, uma das professoras mostrou os trabalhos que ela tem desenvolvido com seus alunos usando essa maravilhosa ferramenta: o Voice Thread. Fiquei encantada. Ao invés de fazer apresentações orais (que, na hora H bate aquele nervoso, dá branco, pigarro, tosse, coceira, paralisia, dor de barriga), eles podem gravar as falas no conforto de casa, quantas vezes quiserem, até ficar bom. Daí é só chegar na classe e mostrar o trabalho. Graças à tecnologia das universidades americanas, todas as salas de aula têm computador, telão, acesso à internet... uma beleza!
Fiz esse exemplo pra mostrar como funciona. Depois posto aqui o resultado do trabalho dos meus pupilos.
terça-feira, 29 de março de 2011
Atualizações!
Minha linda sobrinha-neta: seu sorriso me completa!
Sim, eu sei. Ultimamente não tenho tido tempo para postar aqui. As tarefas são muitas, incessantes.
Como de costume, dois livros pra ler por semana, trabalhos para escrever, pesquisa de mestrado, planos de aula, dar aula, cuidar do meu amor e da nossa casa, da saúde, do tratamento vip das visitas, do visual. Simplesmente muita coisa. Muita coisa boa, não posso reclamar de nada! Mas também não posso postar mais com tanta frequência, o que me deixa jururu e com muitas saudades de vocês, dos seus comentários!
Como se não bastassem todos os meus afazeres, sabe, eu sempre arrumo mais sarna pra me coçar. Inventei de apresentar em conferências, a minha primeira foi sábado passado. A convite de minha supervisora, dei uma palestrinha de 20 minutos na AATF-AATSP Conference sobre como incorporar cultura na sala de aula. Mostrei o trabalho de alguns alunos e algumas atividades para uma plateia de professores de língua estrangeira. Sendo minha primeira vez, não foi perfeito, mas foi oááátimo! Pois além de compartilhar, aprendi muito com as outras apresentações. E de quebra fui convidada pelo presidente da associação (americana de teachers de spanish e português) para apresentar num encontro maior, que será em outubro, em Winston-Salem. Ainda preciso escrever meu abstract. Amanhã, provavlemente!
O lance é que tudo é meio em cima da hora, e na sexta passada ainda fui com o Bruno, o Mike e a Belinda no show do Yes. Confesso que esse show seria mais para eu conhecer a banda, porque eu nunca ouvi Yes em toda a minha vida. Além do mais, eu tava precisando de um show de rock, e acreditei que uma banda clássica dos anos 70 poderia acalmar meus nervos acadêmicos. Tirando "Owner of a Lonely Heart" (que sinceramente nunca achei que fosse deles), não dancei e não curti. Mas também não me arrependi. Foi bom sair de casa, ir num lugar diferente com amigos queridos, e depois flanar pela cidade em busca de uma padaria-armazém-livraria bacana 24 horas.
Neste lugar trabalha a Hope, aquela vizinha com quem voei, no último verão, de parasailing. Falando nisso, mês passado passou voando. E eu e o Bruno fomos passar um fim de semana na casa deles lá em North Myrtle Beach pra comemorar nosso aniversário. Mesmo lá, tive que ler e escrever um trabalho, óbvio. Mas ainda assim molhar os pés no atlântico norte e congelar os ossos ao som das ondas, pisar na areia... deu pra dar uma recarregada nas energias!
Nesse ínterim, algumas ofertas e oportunidades de emprego já apareceram, pra dar aula em outra instituição, pra traduzir capítulos de livros pro português. Trabalhos que tenho negado mui polidamente, na lucidez de precisar focar, e de dizer um não de quando em vez.
Nem só de sins viverá o homem. Mas também nem só de nãos, né. Então pensei, por que não apresentar em uma conferência de estudos latino americanos? Por que não sobre música, algo que mais se relacione à área da minha tese? Então o Lydio, dia desses no skype, me deu um toque das palestras-show dele, que estão fazendo o maior sucesso por aí.
E aí tem essa conferência anual da UNC, William Brown Jr, que este ano será sobre "displacement." O palestrante convidado é um diretor de cinema cubano de quem sou fã, Sergio Giral (serrrio riral)! Na hora que recebi o email divulgando me deu uma vontaaaade de mandar uma proposta. Depois de muito matutar e ruminar a ideia, cheguei à conclusão de que eu estava mesmo era com uma saudade louca de tocar e cantar. Plim! Não exitei.
Essa história de não dar tempo é um saco, mas é muito verdade. Em tempos em que o tempo falta, temos que unir o útil ao agradável. Por isso minha tese ser sobre o rock brasileiro. E por isso mandei uma proposta - que já foi aprovada!!! - de tocar e falar do disco do exílio do Caetano Veloso (1971). O disco a que eu e a Tati nos referíamos, nos velhos tempos, como "o disco da ovelha", por causa do casaco de pele que ele está usando na capa.
Por que este disco?
1. Por ser aaaaall about displacement. O título da minha palestra vai ser "Songs of Exile."
2. Por trazer canções em inglês.
2,5. Por razões óbvias.
3. Por significar tanto para mim, neste exílio voluntário, ter um banquinho, um violão, e uma plateia ávida por escutar coisas velhas-novas.
4. E para subverter, tropicalizar um pouquinho esse meio acadêmico, meio autoritário e formal demais.
E é claro, para o meu currículo, essas apresentações fazem a diferença. Meu próximo passo é publicar em jornais acadêmicos. Em inglês vai ser meio difícil, mas tá, tamanduá, devagarinho eu chego lá.
E agora vou voltar a corrigir as pilhas de provas, composições, e ler os livros, e treinar canções, e fazer os resumos, as reflexões, e poxa vida... dormir que é bom? Escrever no blog que é bom? A vida passa tão rápido!
Vai me dando um desespero, e vou dando muito pitaque porque sério, minha cabeça está borbulhando, meu cérebro fervendo, e vai me dando uns ataques sentimentais e filosóficos e as patadas da Panda rolando soltas no Twitter, aqui no blog, no facebook, por email... desculpem àqueles a quem minha prepotência impulsiva tenha magoado. Afinal quem sou eu... só estou procurando ser alguém melhor e muitas vezes não tenho ajudado. Não importa quantos livros a gente leia, quantas teorias aprenda, ou desenvolva, ou ou ou, caralho, a gente sempre erra.
E errar é a forma mais humana de aprender.
Porque a universidade é MUITO desumana. Hahaha.
E Parabéns, Curitiba veia! 318 anos. Rio Belém Rio Belém, nunca mais to de bem. Não sei se perceberam mas o novo visu do blog agora tem um novo feed, em que vocês podem ler minhas últimas patadas em tempo real. É o primeiro ícone grandão no canto superior direito. Mesmo quando não tiver notícias no blog, terão 4 frases minhas pendendo ali. E sigam-se os bons!
Gente me internem. Estou mesmo dando choques. Bzzz. Bbzzz.
Daqui a pouquinho estarei aí.
quarta-feira, 23 de março de 2011
É Primavera!

E as camélias do meu quintal desabrocharam para dar as boas vindas às visitantes do mês, vó Diva e Terezinha. Que se foram ontem, e que devido à loucura escravagista universitária mal tive tempo de paparicá-las... Mas enfim pude me divertir um pouco em meio aos trabalhos e leituras.
Fase turbulenta individual e coletiva, semana de desastres e como se não bastasse mais as frustrações com Obama e outra guerra...
Mas isso nao é tudo. As camélias desabrocham no nosso quintal e enchem meus olhos de otimismo! Dias melhores virão!
E a rapidez com que as pétalas se desmancham soa mais como um aviso: aproveite as belezas e as delícias da vida porque são/somos breves!!!
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quarta-feira, 2 de março de 2011
O que acontece em Curitiba?
Mesmo estando longe, tenho mergulhado fundo nas mudanças pelas quais Curitiba tem passado. É tanta notícia maluca!!! Tudo começou com o Fábio largando a Reles pra seguir carreira solo, de Sertanejo Universitário. Um baque! Uma ironia quase perversa. Tudo bem que ser brejeiro, alegre, cantador e contador de histórias - e até meio brega - o Fábio Elias sempre foi:
"E quando o tempo se distrair/ Deixando a cicatriz no meu sentinmento" - rimando com -"Verei um mundo novo em mim . . . deixando um lamento", é um romantismo ingênuo e humilde, e sim, brega.*
Mas era o máximo, porque era rock, e principalmente, porque era a Reles. Nada a ver com Sertanejo Universitário, um estilo que pela própria inconsistência do nome (porque sertanejo, que devia ser, não é, e universitário, que não podia ser, é), condena e denuncia uma decadência não somente estética e musical, mas moral e ideológica. Não do Fábio, mas do Brasil. E não só no Brasil. Aqui nos States não é diferente. Decadence avec elegance é coisa do passado.
Mas era o máximo, porque era rock, e principalmente, porque era a Reles. Nada a ver com Sertanejo Universitário, um estilo que pela própria inconsistência do nome (porque sertanejo, que devia ser, não é, e universitário, que não podia ser, é), condena e denuncia uma decadência não somente estética e musical, mas moral e ideológica. Não do Fábio, mas do Brasil. E não só no Brasil. Aqui nos States não é diferente. Decadence avec elegance é coisa do passado.
Falar em passado, não contarei aqui a velha história dos grandes festivais (que não vivi), em que os universitários não somente consumiam, mas produziam o fino da bossa, o chumbo grosso da música de protesto, a inovação estética de uma fusão da MPB consagrada com a rebeldia alienígena do rock na tropicália. Ou dos conceitos inrotuláveis de um Neima (Ney Matogrosso), ou da contracultura polêmica de um Lobão. Definitivamente, hoje carecemos de discurso, de inovação criativa, de massa cinzenta mesmo, na música. Imbecilizamo-nos todos, quando na verdade temos muito mais ferramentas e informação para evoluir do que aqueles velhos nomes tiveram quando jovens. Mas nós nos acomodamos. E nesse contexto, se apegar à erudição pra dizer que tem bom gosto é um ato um tanto quanto óbvio, e não menos medíocre.
Mas agora vamos focar no que há de bom... outra grande mudança aí na terrinha, desde que me mudei pra aqui, foi a eclosão do Garibaldis e Sacis na cidade.
Voice over narration: Em biologia, eclosão refere-se à abertura natural de um ovo incubado fora do corpo da mãe, uma vez completo seu desenvolvimento embrionário.
Resumindo, eclosão nada mais é que a ruptura de uma casca - a casca do ovo em que Curitiba por muitos anos se confinou, e a qual malucos, Garibaldis e Sacis quebraram com a maior descontração carnavalesca. Simples assim? Uma ova! Demorou anos. Desde 98 se não me engano. O que era contra-cultura virou mainstream, mas passou primeiro por um processo, e foi crescendo aos poucos.
O mesmo não se pode dizer da Rádio Paraná Educativa em 2011. Quando recebi aqui via skype, blog e e-mail, a notícia de que a Educativa revolucionou a música paranaense, fui na fonte conferir. Passei dias ouvindo a rádio pela internet, e apesar de ter escutado Criaturas (ainda que só as antigas) e muitas outras bandas das quais eu gosto por simples obrigação suspeita, eu achei a programação uma grande merda. Ultimamente estava melhorando. Mas careceu de planejamento, cuidado e estratégia.
Confesso!!!
Eu sempre tive um gosto musical meio elitista - em casa era só alta e nacionalista cultura, caetano e chico buarque - e bem por isso fui ouvinte e telespectadora da Educativa por muitos anos, e fiquei feliz quando consegui inflitrar algumas de minhas músicas na programação de uma rádio pela qual cultivava laços afetivos, tanto de amor como de ódio (no que se refere ao ódio, mais à TV por exemplo, quando o Ciclojam saiu do ar e o Enfoque passou a ser uma só vez por semana, na gestão do Requião).
Subitamente, na gestão Richa, os paranaenses que passaram a tocar, aos montes, na rádio Educativa, lembraram aos ouvintes de como somos "xaropes," amadores, e de como a imensa esmagadora maioria ainda está longe de atingir um patamar radiofônico! Eis aí a primeira grande lição que essa história nos passou. Músicos, aprendamos a encarar a arte como um trabalho - dediquemos no mínimo 4 horas por dia para isso, e procuremos sempre a ajuda de profissionais. Não de amigos.
Que critério usaram? Tocar o Paraná? Um bairrismo anêmico, nocivo, forçado, inútil, que nunca fez parte da nossa cultura - mas que agora, com Garibaldis e Sacis, já começa a se modificar NATURALMENTE. Cultura não se enfia "goela a baixo." Cultura se negocia constante e lentamente.
O que aconteceu na Rádio Educativa foi um laspo convulsivo - vamos vomitar a música do Paraná! - uma falta completa de tato e inclusive de estratégia política. Foi também uma falta de respeito não somente com o ouvinte de anos, mas inclusive com o prórpio artista paranaense, cuja música se utilizou em vinhetas, sem no entanto ter autorizado sua utilização para tal fim. O que seria crime, vira favor ao artista. E assim, não podemos reclamar, porque afinal, estamos tocando na rádio. Isso é meio insultante! Favorece-se, enfim, a perpetuação de um sistema nepótico e clientelista que vem impedindo - desde a era colonial - o nosso país de sair da mediocridade!!!
Mas voltemos ao que há de bom... Quem imaginaria que depois da feirinha estariam os curitibanos de todas as espécies - os hippies, os punks, os Mods, os conservadores, os intelectuais, os artistas, os anônimos, e todos juntos, cantando e dançando e fazendo ciranda no Largo da Ordem? Curitiba está quebrando sua casca!
Eu acredito na força da música do Paraná. Mas acredito que ela caberia em programas especiais, de acordo com estilos que se justificam, dentro de uma programação direcionada tanto a ouvintes antigos, como novos. Já apitei desde o início e repito agora: gosto do Tupan, mas ele não previu as consequências antes de mudar bruscamente uma rádio que é - sempre foi - patrimônio da elite paranaense. Não precisa ser expert nem em arte, nem muito menos em política, pra saber que contra elites nada se impõe, tudo se negocia. Toda mudança exige um período de transição, pela qual a Educativa nunca passou. Simplesmente mudou. E a saída de Tupan na rádio agora refletiu a mesma mudança brusca. Para toda ação, uma reação.
Eu lamento o que aconteceu, e acho que agora que o elástico esticou e arrebentou, perdeu muito da flexibilidade. Espero que a música paranaense que tocava antes da gestão Tupan continue, e que mais espaços se abram, mas favorecendo uma aproximação QUALITATIVA, ao invés de QUANTITATIVA. Clamo pela volta do CICLOJAM, e por que não do CALEIDOSCÓPIO (de mesmo produtor, mas o último na extinta Estação Primeira).
*RELESPÚBLICA, "Por Você," em As Histórias são Iguais, 2005. Nada contra o Fabelinha. Sim, não Parei! de ser fã e adimiro a coragem, a alegria e o talento dele, e principalmente, respeito seu direito de cantar o que quiser, onde quiser, pra quem quiser.
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