Confesso que tenho estado desmotivada no trabalho. Toda manhã é uma luta
pra estudar, ler e escrever sobre os mais de 300 livros que preciso saber para
passar nos meus exames. Então, para animar a lida, comecei o dia fazendo uma
quantidade, talvez exagerada, de café. Aqui nos Estados Unidos temos “pequenos canecos”
térmicos que refletem a mania de grandeza do país. O tamanho do artefato é
justificável por ser inversamente proporcional à intensidade do “cháfé” americano.
Mas o café que eu compro não é fraco, é bem forte, colombiano, tipo o
tradicional cafezinho brasileiro. Hoje com mais sono por estar tomando remédios
para gripe (faz 12 dias que estou doente), resolvi encher o caneco. Parte de
mim achava que isso era uma ótima ideia. Você precisa estar atenta e esse café
vai te manter acordada e te deixar alerta. Outra parte me autocondenava: minha
filha, pra que tudo isso, você tem certeza de que todo esse café vai te fazer
bem? Ignorei. Trabalho em primeiro lugar. Enfim.
Trouxe o café para o meu “home office” que consiste de uma pequena
escrivaninha abarrotada de livros canetas e computadores no fundo do meu grande
quarto. Mas recém passado, o café ainda estava muito quente, assim pelando, então
resolvi tirar a tampa da caneca térmica para que esfriasse um pouco. Repousei o
caneco na mesa, atrás do laptop. Estava bom. Aroma perfeito! Comecei meu
trabalho, e entre um livro e outro, e algumas linhas escritas, eu dava uns
golinhos, que prazer, que prazer enorme é tomar um café gostoso e quentinho
logo cedo. Mas não sei o que aconteceu, acho que esbarrei num livro, ou puxei o
fio do computador prum lado, só sei que quando vi o meu copão de café virou na
mesa, e ele estava sem tampa, e cheio até praticamente a boca. Foi aquele splésh.
Que merda! Que MEEERDAAAA! Eu gritava ao mesmo tempo que saí correndo pegar uns
panos na lavanderia para limpar o estrago. Mas no meio do caminho, ao invés de começar
a chorar, eu ri. Ri e me senti idiotamente bem. Acho que era aquela parte de
mim que julgava ser ruim tomar muito café.
Limpando primeiro a mesa, fiquei aliviada pois os livros que molharam
eram meus e ufa! Não os da biblioteca. O meu computador estava intacto. Nem um
pingo de café aqui. No pé do monitor auxiliar, sim, tinha café pra todo lado,
mas tinha também muita poeira, daquelas que estavam precisando há tempos de um
pano e, agora, bem, agora já não precisam mais. O chão debaixo da mesa também
estava uma vergonha, precisava ser limpo. Dos meus seis porta-lápis e canetas
(eu não estou exagerando) apenas três molharam e só por fora. O café que estava
pelando não me queimou. Ou seja. Minha reação de rir pode ter sido irracional,
mas foi a mais correta, pois considerando o potencial do acidente, realmente, tive
muito mais motivos para rir do que para chorar. E ainda por cima sobrou um
pouquinho de café. A quantidade certa? Talvez isso já seja polianar demais. Mas
sim! Tenho mais sorte que juízo e não só isso, tenho muito mais sorte que azar!
Acendi uma vela e um incenso para os meus anjinhos musicais e agradeci
por esse dia cinza e chuvoso e por tudo que eu tenho, inclusive, por meu
trabalho. Nessa breve meditação, lembrei que amo o que eu faço, que eu escolhi
isso para minha vida, e que mesmo se eu me revoltar e não querer mais seguir
carreira acadêmica, um Ph.D. não vai me fazer nenhum mal. Não sei o que foi, se
o santo para quem o café caiu me iluminou, mas me sinto ótima e estou mais
motivada. Até a sinusite melhorou. Amém! Que assim seja. Obrigada universo. E cosmos,
desculpe por mandarem um carro para nosso espaço ontem. Eu também achei o
lançamento muito legal, mas por outro lado, esse lance do Starman no Tesla foi uma
bruta desnecessidade. O que passa na cabeça desses homens muito poderosos? Por
que eles gastam dinheiro com essas excentricidades espaciais quando a terra
onde vivemos tem tanta coisa para mudar? Por que eles fazem essas coisas para
agradar o próprio ego em nome da promoção do bem e do avanço da humanidade?
Devemos perdoá-los? Oh well. Melhor voltar ao trabalho. Pelo menos as perguntas
dos meus exames, todas elas terão uma resposta!
Um comentário:
Pandinha linda!
Que sorte, afinal de contas! A lei de Murphy não se confirmou!
Beijos do Ivovô!
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