sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Aventuras de Inverno


Primos e amigos trouxeram o espírito de Natal pra nossa casa!

Depois de um fim de ano um pouco tribulado por uma série de razões, eis que o Daniel (primo do Bruno) chegou para animar nossa casa, que estava triste e vazia depois que a Lu voltou para o Brasil... Logo o Natal chegou e com ele Marina, a irmã do Daniel, que além de sua companhia, nos presenteou com os mimos dos nossos queridos Selemes Zagonéis! Como é bom receber o carinho de vocês, que mesmo estando longe, sempre encontram um jeitinho de encher nossos corações de alegria! Obrigada =)

Milagre de Natal
Essas bandejas deliciosas foram obras do Daniel e da Marina.

Apesar de não contar com o mesmo gostinho de Natal com a família no Brasil, nossa ceia foi um sucesso internacional. Até o inverno amansou, a chuva do dia inteiro deixou de cair, e a noite foi muito agradável. Vieram animar a festa os nossos amigos catalães -- Oscar e Irene -- e seus filhos; também os nossos amigos Stephanie e Ali, o Ali é do Líbano. E no fim ainda tivemos a visita ilustre dos vizinhos que adoram uma festa.

Dia 25 aquela preguiça! Só de lembrar dos restos de Natal que me aguardavam na cozinha, custou pra eu sair da cama. Uma hora tomei coragem e levantei, mas qual não foi a minha surpresa ao me deparar com os talheres do faqueiro dispostos simetricamente sobre a mesa, prontos para serem postos de volta na caixa de onde não saíam havia-se lá quantos anos! A cozinha, milagrosamente limpa, reluzia iluminada! Esfreguei os olhos considerando a possibilidade de tudo não passar de um sonho, mas do sofá sorria pra mim Marina ZagoNoel que, cansada da viagem do dia anterior, foi a primeira a se render aos braços de Morfeu na festa, e acabou acordando cedinho, vítima do fuso horário brasileiro, e para minha sorte, bem disposta a organizar a casa! Meus leitores, eis um verdadeiro milagre de natal! Alguém que chega na véspera, ajuda a organizar a ceia, e depois limpa tudo antes de você acordar. Baita presente, obrigada Marina linda!

Explorando as montanhas da Virginia


Natural Bridge, VA

Dia 26 saímos cedo para nossa road trip rumo às montanhas, e seguimos em direção ao norte por aproximadamente três horas e meia até a Natural Bridge, uma imensa formação rochosa na Virgínia. Esculpida na rocha, a estrutura é um antigo santuário Apalache que muito se assemelha com um portal para uma nova dimensão onde se escondem fontes secretas de rios perdidos e gargantas guturais que devido ao frio, estavam fechadas ao público. O parque hoje é uma típica atração americana, conta com lojinha, mina fake para as crianças garimparem, museu de cera e parece que também até um zoológico. Apesar do frio, o sol e a caminhada de ida e volta até a cachoeira nos aqueceu.

Creekwood Cabin

Perto do fogo o frio não incomodava tanto

Do parque estadual onde visitamos a Natural Bridge, fomos direito para nossa cabana nas montanhas da Blue Ridge Parkway, onde nos instalamos e ficamos por três dias. Na primeira noite fizemos uma fogueira e tostamos marshmallows. Depois também exploramos as cidadezinhas ao redor, como Waynesboro e Lyndhurst.

To ski or not to ski


No sábado fomos nos aventurar nos picos nevados do Wintergreen Resort. Eu, Bruno e Marina preferimos esquiar, e o Daniel optou pelo snowboard. Bruno mandou muito bem, abominável homem das neves, peito estufado, descia a montanha como se nem fosse a primeira vez! Eu desci, mas desci rolando. Nem naquela esteira que levava a gente de volta pro topo do bunny slope eu conseguia subir e sair sem me desequilibrar. O teleférico então, apavorante. Você tem que sair daquela joça já esquiando e fazendo uma curva radical para a direita, uma adrenalina daquelas. Daniel no snowboard achou que já tava tudo dominado e se empacotou bonito, machucou o braço, esfolou o osso da bacia na neve, e ficou com um baita galo na cabeça. Ele não se lembra bem como, mas sobreviveu! E não sei se entendi direito, mas parece que Marina antes de subir no teleférico teve que se jogar no chão pra não ser atropelada por uma cadeira voadora. Enfim, foram fortes emoções!

To Be or Not To Be
Como em São Paulo, Staunton também tem uma Rua Augusta


No sábado à noite fomos para Staunton, uma cidadezinha típica de pé de montanha, com um centro histórico tão impecável que até parece cênico. Lá, eu e o Bruno assistimos Hamlet no American Shakespeare Theatre. Este teatro é uma reprodução americanizada -- ou seja, mais quadrada, moderna, coberta e com cadeiras estofadas em todas as sessões -- do famoso Globe Theatre em Londres, cujo original pegou fogo nos idos de mil seiscentos e bolinhas, mas que hoje conta com uma réplica fiel à beira do Tâmisa (e eu muito chique e exibida, posso me gabar e dizer que em 2014 visitei os dois). A peça foi muito legal, os atores eram ótimos, mas o figurino foi meio esquisito. A Ofélia tinha um vestidinho azul-Alice-no-País-das-Maravilhas e calçava um sapato híbrido, meio sandália, meio Allstar. Hamlet tinha um visual pós-moderno, mas indeciso entre o punk, o dark, o new-wave e o sadomasoquista cuecão de couro. Os figurinos destes protagonistas contrastavam com as clássicas e pomposas vestimentas de Claudio, o novo rei da Dinamarca, e Gertrudes, sua ex-cunhada-agora-esposa. A roupa do fantasma do rei assassinado pelo irmão era um misto de rústico, glam, e retrô, com tules, panos de estopa, e tecidos sintéticos prateados. Super ousado, na verdade. E no intervalo toda a trupe entreteve o público cantando clássicos deste horroroso pop americano moderno. Um pouco estranho, mas bem divertido!

A Pé na Appalachian Trail



Domingo apesar do dia bunda saímos pela Blue Ridge e fizemos algumas milhas na Appalachian Trail, o caminho original que os povos nativos abriram nas montanhas há sabe-se lá quantos séculos atrás. O tempo estava nublado e a serração às vezes engrossava virando uma garoa fria. Mas a paisagem silenciosa e adormecida do inverno deixou nossa caminhada mais contemplativa! Depois voltamos para Staunton pois tínhamos achado a cidade muito simpática na noite anterior. Mas por ser três horas da tarde de um domingo entre Natal e Ano Novo, quase tudo estava fechado.

Richmond e Williamsburg


As casinhas vitorianas da Monument Ave. Richmond, VA.
Na segunda cedo seguimos para Virginia Beach, onde passaríamos a noite. No caminho conhecemos Richmond, a capital da Virginia, uma cidade crucial para a história da independência americana, e que soube se modernizar conservando seu passado e os prédios históricos. E esta viagem acabou sendo mesmo um mergulho na história norteamericana. Saindo de Richmond, conhecemos a Colonial Williamsburg, que na verdade é uma réplica do que teria sido a primeira colônia na América do norte.

Praça da Execução em Colonial Williamsburg
Além das casinhas, praças, igrejas, vendas, havia pessoas vestidas de passado que provavelmente eram pagas -- ou vai ver se voluntariavam -- para interagir com os visitantes. Pena que o frio e a garoa não deixaram a gente aproveitar melhor o passeio. Em todo caso, foi muito legal ver a forma com que os americanos reverenciam, recriam, e revivem sua história.

Surf no Inverno: Fail

Estátua de Netuno em Virginia Beach
Finalmente chegamos em Virginia Beach, onde passaríamos a noite. Nosso hotel ficava entre o mar e um parque de diversões que, no inverno, obviamente, não funcionava. A roda gigante só que parecia estar rodando, mesmo sem ninguém dentro, embalada provavelmente pelo vento, o que só aumentava a nossa impressão de que estávamos em uma cidade fantasma. Mas imagino que no verão aquilo deva ser o agito da costa leste. O frio lá tava pior que o das montanhas. As lojinhas do píer e o boardwalk estavam fechados para o circuito das luzes natalinas, a única atração da cidade, muito brega por sinal.


Acordamos, tomamos café e fomos visitar o grande navio de batalha Wisconsin, que lutou na Segunda Guerra, na Guerra da Coreia, no Kuwait, Vietnã, Iraque, e Afeganistão. O Museu Naval também valeu a pena visitar. Tanto o navio quanto o museu foram atrações bem interativas, com veteranos de guerra dispostos a responder todas as nossas perguntas! Os caras aqui são tão orgulhosos de sua força naval, e acreditam piamente na dignidade da guerra para defender seus ideais de liberdade e impôr seus regimes econômicos e políticos em terras estrangeiras.

Apesar do meu repúdio à toda forma de violência, confesso que a lavagem cerebral que esses lugares proporcionam é uma das únicas táticas de guerra estadounidenses que não falham. Estou piamente convencida de que uma marinha bem desenvolvida é fundamental para o engrandecimento de qualquer nação. Praticamente inexistente em 1900, a força naval americana foi criada na década de trinta, e sua eficiência para a construção de bases e navios de guerra garantiu aos Estados Unidos sua supremacia bélica e econômica desde a segunda guerra mundial. A filosofia deles é mais ou menos essa: Nada melhor para garantir a paz (ao menos em solo americano) do que se preparar incessantemente para vencer na guerra (que eles vivem travando, sempre em solo estrangeiro).

Rumo aos Outer Banks




De Virginia Beach fomos para Kill Devil Hills, mais outro lugar histórico da América, onde os irmãos Wright testaram suas engenhocas até realizarem seu grandioso sonho de dar asas ao homem! O memorial é um lugar muito bonito e vale a visita, mesmo que nos dê uma pontinha de revolta já que na versão deles foram os americanos os primeiros a conquistar o céu. Obviamente, não há nenhuma menção ao 14-Bis de Santos Dummond, que já tinha dado a volta na torre Eiffel dois anos antes. Fico pensando se os irmãos Wright sabiam disso.

Feliz Ano Novo no Farol de Cape Hatteras

Nosso jantar de Ano Novo foi num restaurante bem batuta, mas passamos a virada na praia, tomando champanhe nos Outer Banks e vendo os três fogos de artifício que algum morador teve a bondade de soltar. O primeiro dia do ano amanheceu ensolarado e quase quente em comparação com o frio dos dias anteriores. Foi perfeito para conhecermos o famoso farol de Cape Hatteras e pegar o ferry rumo a...

Ocracoke, North Carolina


Primeiro pôr do sol do ano, visto do Ferry para Ocracoke

Essa ilha é um paraíso nos Outer Banks, e a pousada onde ficamos era muito aconchegante! Pena que passamos somente uma noite, pois no dia seguinte às sete da manhã pegamos o ferry para Cedar Island. Seguindo a recomendação de nossa host, jantamos uma comida tailandesa deliciosa, e fizemos amizade com o dono do restaurante que nos aconselhou a voltar na primavera, quando a ilha ainda não está abarrotada de turistas.

Reta final: Wilmington




Depois de pular de ilha em ilha, e conhecer lindas praias e dunas e faróis do Outer Banks, nosso último ponto de parada era a cidade de Wilmington. Ficamos num hotel no centro histórico da cidade, à beira do Cape Fear. Exploramos a região a pé, e de noite fomos jantar num pub jamaicano, com comida caribenha e banda de reggae ao vivo. Acordamos no dia 3 de janeiro e tomamos um brunch (uma refeição americana que mistura breakfast com lunch) antes de pegar a estrada de volta pra casa.

Responsáveis pela Rota

Primos lindos, e tão amigos! Dá gosto de ver!

O percurso da viagem foi todo planejado com antecedência pelo chefe da expedição, Bruno, e seus primos Marina e Daniel que se revelaram excelentes navegadores. A mim coube apenas aprovar e aproveitar o trajeto e achar tudo lindo, e claro, contar a história no fim. Tirando o Daniel ter levado uma multa por excesso de velocidade pouco antes da gente entrar em Charlotte, foi uma viagem perfeita! Já estamos prontos para explorar outros estados americanos ou quiçá outros países no próximo inverno... quem sabe o que este ano nos espera?

Feliz Quinze, queridos leitores!

~ F I M ~ 

Um comentário:

Ivo disse...

Pandinha linda

Mesmo já tendo acompanhado toda a viagem pelo Facebook, é sempre uma delícia ler os teus textos!

Beijões do Sogrão