terça-feira, 13 de agosto de 2013

Contos Fantásticos Californianos




ROTEIRO

Estávamos empolgados para finalmente pôr o pé na estrada rumo ao Big Sur. Íamos passar uma noite em Davenport, outra em uma cabana no meio das montanhas, e depois ainda faríamos uma incursão para o interior, passar uns dias no rancho de um amigo em Atascadero, e por último chegaríamos em Santa Bárbara, a cidade que marcaria o fim da nossa jornada, logo ao norte de Los Angeles. Ou seja, ainda tínhamos muito caminho pela frente e eu quase sem mais paciência para explorar as ladeiras derradeiras de San Francisco, tamanha ansiedade.

Mal saímos da cidade e meu coração batia a mil. O vento na cara parecia congelar as bochechas e imprimia no meu rosto um sorriso eterno, nervoso, impossível de conter... a boca secava e dava até cãibra nas bochechas. Eu baixava o espelhinho e me olhava, e me achava linda sorrindo e sorrindo! Só me lembro de ter me sentido assim antes quando andei de jet-ski pela primeira (e única) vez, e quando terminei a tese. Era um sorriso alucinado, an overtly excited smile. O vento e o sol batendo na cara, a brisa salgada embaraçando os cabelos, meu marido lindo maravilhoso gostoso gatão guiando um puta carro conversível, e uma trilha sonora esquizofrênica que incluía clássicos do jazz e do rock e de bandas independentes curitibanas, e eu sortuda, sorrindo ao lado, transbordando de contentamento e de uma estranha urgência de gratidão! Ia pelo caminho dizendo obrigada ao mar, ao céu, ao sol, às montanhas, aos transeuntes, aos carros, ao Bruno!  

DAVENPORT

De San Francisco a Davenport – que é uma cidadezinha antes de Santa Cruz – não deve dar duas horas. Mas fizemos o percurso em umas 4, pois íamos parando em cada ponto possível para respirar a brisa do Pacífico e admirar a paisagem, namorar um pouquinho, tirar umas fotos. A vista já era aterrorizantemente maravilhosa, embora não chegasse nem perto da grandeza do Big Sur. Estacionamos em nosso hotel no fim da tarde, e ainda deu pra pegar o pôr do sol numa praia paradisíaca e parcialmente deserta que ficava láááá em baixo, depois de um trilho de trem e de uma trilha de pedras que descia pelas encostas.


Tirando a costa, Davenport em si não tinha atrativo nenhum. Somente uma velha fábrica, um aglomerado pequeno de casas à beira da estrada,  um mercadinho e o hotel / restaurante onde passamos a noite. De um lado a vila começava numa capela quase fantasmagórica, ao fim da única rua perpendicular à estrada. Do outro lado, a cidade acabava num doido barbudo distribuindo high-fives e oferecendo high times. Pois veja. Seja nos parques dos grandes centros urbanos ou nas pequenas cidades de beira de estrada, no coração beatnik da California sempre caberá mais um hippie doidão que vai surgir do nada, como um gnomo gigante, pronto pra arrancar a grana de turistas trouxas em troca de uma ervinha medicinal superfaturada.

Apesar de eu não ter gostado nadinha do aspecto meio abandonado de nosso hotel e nem de Davenport, e embora o quarto não fosse lá aquelas coisas, a praia era bonita, o preço era bom, e a vista da varanda e a comida eram excelentes e do lado do meu amor não tem lugar ruim. Dormi muito bem e no outro dia eu acordei cedo, and again over excited e sem paciência pra ficar na cama. Parecia que a estrada urgia, me chamava, eu estava mesmo ansiosa para continuar descobrindo aquelas rotas. Porém eu sabia que o Bruno ainda deveria dormir por pelo menos mais uma hora e descansar bem pra pegar de volta no volante. Então resolvi sair caminhar pela cidade, mas como a cidade inexistia, fui caminhar pela estrada. 

ON THE ROAD 



Quase não passavam carros. No entanto bastou passar o primeiro – uma caminhonete velha, caindo aos pedaços, mas voando baixo – para eu me dar conta de que eu estava sozinha às sete da manhã no meio de uma estrada sem acostamento. O carro sumiu na primeira curva, levantando poeira e deixando um rastro de diesel e maus pressentimentos no ar.

Que ideia idiota essa de andar na beira de estrada, mas eu lá tenho culpa que essa cidade começa e acaba no mesmo quarteirão?, eu esbravejava. Em dez minutos lá ia eu, no meio do nada, com meu traje fitness cinza da cor do céu e da estrada, e só o cadarço amarelo limão do meu tênis poderia servir como um contraste mais ou menos visível e olhe lá. Isso para um motorista bem atento, que viesse do outro lado da estrada. Tive medo, mas a vontade de chegar na próxima curva, que ficava numa subida, era maior.

Do lado esquerdo montanhas enormes e escuras me ignoravam solenemente aguardando sol. E do meu lado direito outro paredão, este um pouco menor (pelo menos em relação à estrada, porque para o lado do mar aquilo certamente virava um penhasco, eu não vi, mas podia imaginar). Ouvia vindo do lado de lá o Pacífico roncar, rrrroooooooww, chuaá, PLOF! E o mar batia nas pedras e recuava e depois voltava e assim desde sempre. O mar quando quebra na praia é feroz, eu cantarolava.

E cada vez que eu ouvia um carro se aproximando eu diminuía o passo e ia o mais longe possível da faixa lateral da rodovia, cuidando bem para não virar o pé no declive do asfalto, nem pra pisar no matagal que beirava o penhasco e assim não acordar nenhum bicho, alguma cobra, porque ali sim no barranco da beira da estrada parecia ser um lugar perfeito para um ninho de cobras e elas deveriam estar prontas para acordar, bem ali onde eu teria que pisar se tivesse que escapar de algum acidente. Estremeci. Era como se toda a natureza se aliasse a motoristas malucos em suas máquinas mortíferas e todos conspirassem para a qualquer momento alguém me dar um bote.

E logo veio outro carro seguido de um ônibus e agora além do medo eu sentia um nó na espinha; se algum motorista me atropela, eu morrerei esmagada entre as ferragens e um paredão de pedras, ou serei arremessada e cairei tragicamente no penhasco, ou se tiver um pouco de mais sorte apenas serei atacada pelas cobras. Minhas mãos estavam frias e suavam. Eu agora mal caminhava, o medo do medo me paralisava e beirava o pânico e eu pensei preciso sair já dessa estrada.

CALIFORNIA (BAD)DREAMING 


Como uma provisão divina, após aquela curva havia uma trilha bem definida e sinalizada, indicando uma praia. Mas apesar de toda a demarcação na entrada da trilha, passando o trilho de trem ela praticamente sumia, porque a descida era agora pelas pedras que se sedimentavam facilmente e se desprendiam da rocha e iam quicando até cair lá em baixo. Mesmo assim me parecia ser bem mais seguro chegar numa praia paradisíaca do que continuar na estrada, e eu resolvi ir em frente, digo, embaixo, até a paranoia passar.

No entanto a descida me deixava cada vez mais sem ter pra onde ir, e a paranoia só piorava. Um passo em falso e você cai nesse despenhadeiro, eu dizia, e parte de mim me advertindo, outra parte rindo da minha própria cara. Parei e olhei pra cima, depois pra baixo, e pensei, num rasgo luminoso de racionalidade, em dar um check-in no feice só pra sei lá, deixar um rastro caso algo acontecesse. Just in case. Mas é óbvio que ali não tinha sinal nenhum. Não deu nem pra enviar a foto ou as coordenadas do local para o Bruno saber onde me encontrar quando acordasse, caso fosse necessário.

Mas ok, eu ainda tinha controle da situação, eu respirava fundo e tentava me convencer de que agora o melhor que eu tinha a fazer era me concentrar na descida, depois SEI LÁ, poderia sentar e meditar numa pedra, deitar na areia, olhar o mar, e assim esperar o medo passar para depois voltar normalmente para a cidade. Então eu desci lentamente, tateando bem as rochas antes com os pés, certificando-me de que elas estariam bem presas à parede, e me apoiando com as mãos, e tentando me convencer de que esse lance de paranoias era uma bobagem, e fazendo um esforço tremendo para não lembrar da crença que diz que os medos e paranoias são pensamentos negativos e atraem coisas ruins incluindo motoristas loucos, atropelamentos e cobras.

THE IMAGINARY CALIFORNIAN BEAR



Comecei a cantar BECAUSE dos Beatles mas naturalmente fiz a voz mais lúgubre da harmonia (aquela mais grave e quase monotonal), e finalmente o último salto da pedra para a areia foi um alívio. Mas assim que continuei a cantarolar notei que aquela música era tão triste e sombria quanto aquela praia, no meio da qual uma pedra redonda, solitária e gigantesca se erguia, enterrada na areia. 

E se tiver um urso atrás daquela pedra? Depois de ver aquele urso da bandeira californiana em todos os mastros, seria bem possível que eu pudesse encontrar um urso de verdade nessa cova fria de águas geladas. Ou talvez pior que um urso, e se tiver um hippie tarado doidão dormindo na praia? Ele certamente teria acordado com meus aaaaaahhhhhhhh, because the world is round it turns me o-ohohoho-ooon... eu sei, ridículo, tudo aquilo era ridículo e eu sabia que eu estava completamente sozinha, mas mesmo a sã consciência do fato não me ajudava em absolutamente NADA a controlar o medo e botar um um fim naquela projeção patética de alucinações imaginárias.

VIA DAS DÚVIDAS finquei os pés rente às pedras, e observei com os olhos e ouvidos bem atentos aquela pequena boca de mar por alguns momentos. Notei que as areias estavam lisas e virgens, e que as minhas seriam as únicas pegadas humanas naquela praia. De resto, somente os pássaros, muitos deles na beira do mar, bicando as algas e mexilhões que a água lhes trazia. 

A paz distraída de observar os pássaros não durou muito, contudo. Logo eu notei que aqueles pássaros  eram todos enormes e pretos, e grasnavam como corvos, mas eles grasnavam ever more! Ever more! E aqueles emaranhados de algas eles destroçavam em busca de matéria orgânica já em avançado grau de decomposição e gritavam I want more! Ever more! Ever more! À espera de mais restos vomitados pelo pacífico, ou quiçá de um cadáver que o mar a qualquer momento poderia lhes trazer, ou quem sabe se eu mesma não teria chegado ali para me tornar o banquete dessas terríveis criaturas de rapina, e assim as paranoias continuaram cada vez mais absurdas e tão ridículas que até mesmo as aves se riram e depois se calaram e saíram de perto e partiram voando para o outro canto da praia.

E vendo as aves levantarem voo e utilizarem inteligentemente os violentos golpes de vento para flutuarem rente ao paredão, tive a impressão de que a muralha era na verdade uma fila de enormes sentinelas petrificadas lado a lado em seus sonos milenares e que se elas resolvessem acordar, com um breve mover de um dedo mindinho que fosse, deslocariam milímetros da placa tectônica do Pacífico, o suficiente para então estarmos todos na costa oeste da California realmente fodidos. 

Estremeci e dei as costas para as sentinelas e contemplei o mar. Na minha frente, as águas calmas e azuladas do Pacífico quase silenciaram e eu pensei, o mar está calado, ele também está conspirando. Fechei os olhos e respirei fundo. Senti o cheiro e a brisa gelada do mar no sentido contrário. E de olhos fechados, vi o mar recuar formando uma onda gigante imaginária lá no Hawai e swosh, plaff, smash, rrrrrooooooowwwww, voltar carregando tudo, ganhando volume e força e areia, e água e alga, e pedra e coral, cacos de conchas e barcos e peixe, e poxa, meu fim seria morrer esmagada contra as rochas anyway, fosse por um carro na estrada ou por um terremoto seguido de maremoto na praia.

Então eu fiquei tonta e confusa por um momento, mas ainda assim tentando dar uma vazão racional para minha loucura e compreender como e por quê isso foi acontecer, da paranoia afetar assim não somente minha mente como também os meus sentidos e minha coordenação motora. Vai ver a costa da California enlouquece as pessoas. Enlouqueceu o Jack Kerouac em 6 semanas, por que não aconteceria comigo em 6 dias?

Sentei e iniciei um delicado processo de autopsicoanálise e notei que todas as minhas paranoias relacionadas à morte eram um desejo obscuro de ter nascido Jack Kerouac. E depois ponderei que mesmo sem querer ser Jack já que ele está morto, deve ser normal temer a morte depois que a gente passa de uma certa idade e se dá conta de que o tempo é cruel e que nossa vida é uma só e que devemos valorizá-la e bla bla bla.

Tudo bem eu ter medo. IT IS OK eu ter medo de morrer e de terminar essa tão sonhada viagem de uma hora pra outra, e mais ainda, partir sem parir um filho, sem ter plantado uma árvore ou sem ter escrito um livro. E assim eu pensei eu preciso sair daqui ou senão eu morro, literalmente, de medo. Então eu pensei foda-se a paranoia, não vou morrer de medo nem de esmagamento porra nenhuma, e se eu morrer, morri, ótimo, vou deixar saudades por um lado e por outro não vou ter mais nada a ver com esse mundo, e assim subi a montanha rápida e agilmente, porque no fundo ainda fugia do tsunami imaginário que, QUEM SABE se já se aproximava ou não?

Corri até o hotel e lá cheguei sã e salva e esbaforida e beijei o meu amor e lhe disse que a caminhada tinha me dado medo, e ele me deu razão, mas não entrei em mais detalhes porque afinal a paranoia havia passado e eu não queria mais brincar de enlouquecer.

E quando saímos de Davenport o sol brilhava, e conforme a cidade ia se afastando pelo retrovisor ela já nem era mais fantasmagórica, e eu prometi que não iria mais levar tão a sério esses gênios do pessimismo existencialista como Albert Camus, Edgar Alan Poe e Jack Kerouac, porque a genialidade deles corrompeu, de certa forma, a minha normalidade original.

4 comentários:

Ivo disse...

Pandinha linda!

Que aventura, que delícia compartilhar a tua "loucura". Nada mais me resta a dizer.

Beijos do Sogrão

Panda Lemon disse...

Sograo queridao!

Obrigada por me aceitar e continuar me admirando mesmo sabendo agora o quao maluca eh sua nora!!!
hahaha

bjo

Fátima Zagonel disse...

Xanda que pira!!! E eu que sempre achei que o corvo dizia Never more... e não ever more. never more...nunca mais....
Eu heim me dei um arrepio ??!!
Já li a próxima cronica, então vou comentar lá...
Beijins

Panda Lemon disse...

Sim, Fatiminha! O corvo do Poe diz NEVERMORE, porque ele representa o fim de todas as possibilidades de seu amor por Lenore, mas o corvo da Panda dizia EVER MORE porque estavam famintos e queriam mais resíduos para comer, sacou? hehehhe

Mas não precisa sacar, porque como vc disse, que pira mesmo!!!