quinta-feira, 31 de maio de 2012

Boas Lembranças! Breve Homenagem a Nelson Jacobina

Nelson Jacobina e Jorge Mautner

Na minha curta carreria de "cantora MPB" tive a oportunidade de tocar e cantar ao lado de Jorge Mautner e Nelson Jacobina. Na época eu tinha uma dupla com Naína, e lindas e talentosas como éramos (e ainda somos, claro), encantamos grandes nomes da música brasileira, como Sérgio Dias dos Mutantes (que inclusive, produziu um single nosso, Outono), Chico César (com quem gravamos Pirulito, no CD/ Song Book do Braguinha), Jards Macalé. Tudo isso graças ao nosso mecenas, Odilon Merlin, que com ouvido e gosto musical afinadíssimos, sempre apostou na gente, nos promovendo em sua casa de shows, o Era Só o Que Faltava. Hoje veio de Odilon, via twitter, a notícia de que Nelson Jacobina, o tímido parceiro de Mautner, e genial compositor de Maracatu Atômico, tinha morrido no Rio de Janeiro.

Meu contato com Jacobina foi breve e passageiro. Resumiu-se a um final de semana prolongado, talvez de uns quatro dias, na Ilha do Mel. Eu e Naína fazíamos o show de abertura para esses dois mestres da música brasileira -- graças ao nosso outro mecenas, Helinho Pimentel, então dono da única rádio rock de Curitiba.

Eu nunca vou me esquecer do quanto me admirava ver os dois amigos (só parceiros musicais, ou também namorados?, eu me perguntava) na praia, fazendo uma espécie de meditação e alongamento. Não bebiam, não fumavam baseado, e sempre riam um do outro, e se alimentavam muito bem, eram assim uma espécie de últimos dos moicanos macrobióticos naturebas.

Na manhã antes de voltar pra cidade, observando o horizonte na praia, sentados na areia, conversávamos eu e Jorge Mautner sobre música. Enquanto isso, Nelson Jacobina fazia seu ritual meio ioga-tai-shi-shuan, a alguns metros afastado de nós. Eu, ignorante, pra saber mais sobre seu início de carreira, perguntei como foi, se foi muito difícil, se foi fácil. Ele disse que foi natural, que conhecia grande parte dos baianos e que essa relação inevitou sua entrada no mundo da música.

Pois olha, eu lhe disse. Meus tios também andavam com os baianos, um deles inclusive namorou a Gal. Eles chegaram a gravar vocais com Caetano, Gil e o pessoal da tropicália todo. Hoje só um vive, ou melhor, sobrevive, de música. E Mautner, curioso, me perguntou: quem são seus tios? E eu disse, Saulo, Saul, Batista e Bacana. Ele arregalou os olhos e perguntou na mesma hora: Bacana? Você é sobrinha do Bacana? Nelsô, chega aqui!

Jacobina interrompeu o ritual e veio correndinho em nossa direção. As ondas quebrando ao fundo e sua postura impecável davam uma cadência cinematográfica à cena. Ele então se agachou em nossa frente, de costas pro mar, franzindo a testa aumentada pela calva. Você sabe de quem essa menina é sobrinha? Perguntou Mautner. Ele ergueu as sobrancelhas esperando a resposta. Do Bacana! Lembra do Bacana? Nelson sorriu. E eles falaram do meu tio com muita admiração, e perguntaram por onde ele andava, o que fazia, etc. E eu me senti feliz, mas também frustrada, pensando que merda minha família é um desperdício de talentos natos.

Então uma hora da tarde, depois de pegar a balsa e atravessar para Pontal, um sol de rachar e a gente aguardando o carro que ia nos levar de volta, fui numa lojinha dessas de artesanato pra fazer hora. Nisso veio Nelson, pra fugir do sol também, e disse, com aquela serenidade que lhe era característica: que colar bonito! Eu concordei, ainda me olhando no espelho e admirando a peça feita de fio encerado, madeira e sementes. Ele então, sem falar nada, foi comprando o colar e uma presilha de cabelo no formato de peixe, tudo combinando, e me deu de presente.

O colar ainda vive. A presilha quebrou. E hoje a música brasileira perdeu mais um de seus grandes talentos. Mas essa lembrança ficou. A gente não manteve contato. Agora, sorrio aqui, com saudades, e penso: que sorte a minha ter tido a oportunidade de compartilhar a brevidade do tempo e o mesmo espaço ao lado dessa estrela que brilha mais agora em algum lugar do infinito.


6 comentários:

Ivo disse...

Pandinha linda

Tocante a tua história com o Jacobina e com o Mautner.

O que me assusta é que ele morreu aos 58 anos!!! Sabe a idade do sogrão, né?

Beijos

Anônimo disse...

Triste mesmo, grande perda!

Por que uns se vão tão cedo?! Pessoas especiais como os poetas, musicos, genios deviam viver cem anos como o Niemeier...

Panda Lemon disse...

Sogrão, não se preocupe que vc ainda vai viver pra ver seus futuros netos!

Caro anônimo, concordo plenamente e também me pergunto... meu pai, que faleceu quando eu tinha 15, foi um grande, e morreu aos 54 anos. Os bons vão cedo. É o que dizem.

Gil disse...

A temporada desses dois com o Jards no paiol foi dos momentos mais felizes de que posso lembrar nessa cidade. Muito a ver contigo sim Xanda, a naturalidade de dizer as coisas, em paz, e lindamente. Saudades sulinas, viu ?

Panda Lemon disse...

Gil querido!

Sempre visito seu blog, aliás, tenho uma ID misteriosa só pra comentar lá, mas nunca dá certo.

Obrigada pela visita! Saudades tb.

Bjo

Talita disse...

Lo anonimo soy djo mismo, su madrecita jejejeje

Nem sei pq saiu como anonimo, rsrs