terça-feira, 18 de outubro de 2011

Temores Noturnos


O peixe morre pela boca. Escuto claramente essas palavras vindo da boca da minha avó. Estou louca? Vejo minha vó logo ali fazendo sua prece fervorosa, de olhos fechados, tirando com as unhas os cravinhos que crescem bem onde os cabelos limitam a testa. Todas essas profecias, populares ou não, minha vó dizia num tom de indiscutível sapiência. E toda contradição do mundo se encontrava nos olhos azuis da minha vó – profundos e calmos – e nas sobrancelhas sempre alertas, preocupadas, cansadas, sofridas. E que certamente já tinham sido menos ralas. Ela ia assiduamente na igreja, e ir na igreja era tudo que ela fazia além de cuidar da casa, do marido, dos filhos, dos netos. Vivia uma vida dedicada a Deus e às criaturas que Deus havia posto na vida dela. Era duma doce amargura. Às vezes tinha acessos de raiva ou de culpa. Ela chorava bem baixinho. E se algum neto lhe perguntasse o que foi vó por que vc tá chorando ela soltava todos os cachorros da alma. Uma alma sempre presa na gaiola,  como aqueles canarinhos do meu avô. Em dias de inspiração, ela fazia discursos. Dizia com desdém nada religioso que os negros eram raça de Caim, que Deus marcou a pele daquela raça para sempre. Eu me admirava: como alguém que ia na igreja podia ser tão racista. Eu tinha alguns bons amigos “da raça de Caim” e nenhum deles matou seus irmãos, e o carinho e a amizade que tínhamos uns pelos outros me faziam muito mais sentido do que aquela história odiosa, descaradamente narrada logo no começo da bíblia.

+++

A bíblia começa com o caos, logo vem um dilúvio e seguem-se muitas guerras e tudo isso pra que, pra terminar com um apocalipse. Uma promessa de júbilo seguido de um terrível juízo final, a bíblia, como todas as narrativas trágicas, é incapaz de explicar o mundo e de encontrar uma solução pra os problemas que sabe muito bem apontar. A bíblia, como as tragédias gregas, também acaba num mais do que manjado deus ex-machina. 

+++

Casa de vó. Paredes de cal. Teto sem forro. Chão de lajotas. Galhos de louro pendurados na janela. Aquele quadro, o quadro do menino chorando, cujo artista tinha "vendido a alma ao diabo." Aquele quadro a minha tia arrancou da parede indignada, virou ele de lado e nos mostrou a boca do diabo engolindo o menino que chorava, o coisa ruim tinha chifre, tinha até uma língua de fogo. O diabo era enganador. Minha tia dizia isso enquanto nos levava pro quintal. Logo ateamos fogo no quadro, o menino queimou, como no inferno, e ele estava chorando, o artista que vendeu a alma ao diabo também ia queimar e chorar no inferno, como o menino. Eu que, em comparação com o resto da família, era uma pequena burguesa, já sabia. Toda aquela pobreza me incomodava. Eu tinha medo das lagartixas nos desvãos das telhas. E impressionava-me as venezianas que não fechavam direito. O vento encanava pelas frestras e balançava a cortina. Eu tinha muito medo de lobisomem e sentia pelo menino que chorava, sentia por tê-lo ateado fogo. O menino tinha virado cinzas e o vento soprava as cinzas na janela.

+++

Mas a história que mais me impressionava era a do papa. O papa é a besta. E o número da besta é seiscentos e sessenta e seis. Lá ia minha vó nos mostrar em qual versículo na bíblia isso estava escrito, pegava caneta e papel pra fazer as contas e nos provar que o que estava escrito na coroa do papa, somando tudo em números romanos, dava seiscentos e sessenta e seis. Seus olhos enérgicos se arregalavam harmoniosamente acompanhando o tom de voz que ora subia, ora sussurrava. O conto do vigário era um conto apocalíptico misterioso, e era tudo verdade, ela insistia, jurava por Deus, por Deus! Tudo que estava por vir era tão terrível, mas por quê? Por quê?! Porque o homem pecou! Mas se Deus era Deus por que ele era tão contraditório, por que ele nos deu o livre arbítrio se ele é o alfa e o ômega e tudo sabe, tudo vê? Se o verbo se fez carne, e a carne é fraca, então qual era a de Deus? Deus me parecia um tanto quanto sadomasoquista.

+++

Eu tinha acabado de aprender esta palavra: pai, o que é sadomasoquista? É alguém que sente prazer no próprio sofrimento e no sofrimento dos outros.

+++

Então Deus era sadomasoquista, eu logo concluí. Minha felicidade de aplicar uma palavra nova num contexto completamente inusitado foi logo arrebatada por dois tapas que levei na boca. Minha vó nunca tinha me erguido a mão. Nunca mais você diga isso, filhinha. Isso aí que você disse é uma blasfêmia! E blasfemar é o único pecado que não tem perdão! Segurei o choro. Por dentro eu blasfemava ainda com mais revolta, porque meus primos, escondidos atrás da saia da minha vó, riam de mim com os olhos, depois debocharam livremente, eu ia queimar no inferno junto com o menino que chorava.

+++

Eu sabia que já estava perdida, mas mesmo assim eu pedi, implorei a Deus, por favor me perdoe. O papa era a besta, e tinham também os quatro cavaleiros do apocalipse e as trombetas e o juízo final e minha vó emendava tudo, tinha horas que ela perdia o fôlego e a última palavra saía sufocada, esprimida no peito, seus olhos lacrimejavam não sei se de emoção ou falta de oxigênio. Eu era pequena, eu temia e admirava e amava muito a minha vó e aquela pele linda, branca, sulcada pelas marcas de um tempo do qual ela pouco falava. Ela vivia para lembrar somente das coisas de Deus e das histórias inconsistentes que faziam tanto sentido porque eram simplesmente a palavra de Deus. Mas por que ainda hoje, por que agora? Você mesmo dizia que se você aparecesse depois da morte não seria minha vó. Satanás é astuto. Astuto e sedutor eram o adjetivos que você usava. E me instruiu a dizer as seguintes palavras caso lhe viesse a encontrar um dia post mortem: Jesus me cobre com seu sangue! O sangue de Cristo tem poder. Eu me recuso a dizer essas coisas porque afinal se você veio até aqui e não foi pra dizer nada, eu também vou me calar e dormir.

+++

No embalo do sono, a voz da minha vó sussurra. Não me diga que sabe todas as respostas. Porque eu também sei as respostas e por todos os motivos do mundo eu juro, sabê-las não faz a menor diferença. 

4 comentários:

Ivan disse...

Admirável: dá vontade de bradar "brava", como se faz com uma cantora de ópera que atingiu notas dificílimas.

Mas aqui há mais que arte e metáforas.

De qualquer modo:

Brava, Alexandra!

Panda Lemon disse...

Aqui ha uma tentativa ainda que inutil de racionalizar as batalhas que meu cerebro trava com os mundos religioso e secular.

Ninguem condena esse tipo de terrorismo cristao?

Eu sim.

Mas nao condeno julgando, condeno apenas constatando que todo o valor historico da biblia poderia ser mais bem explorado nao houvesse tanto interesse por parte da igreja na ignorancia dos homens.

Eu sei que a igreja nao eh de toda ma, mas tambem sei que na minha vida ela me acrescentou muito mais coisas condenaveis do que construtivas.

Panda Lemon disse...

Oops, mas agora saindo da seriedade ranzinza e franzida das minhas temporas devido a essa noite mal dormida, permita-me manifestar o meu apreco por este elogio ivanistico.
Obrigada, Ivan!
Beijos no Ian.

Ivan disse...

Aplaudo especialmente a coragem de se engalfinhar abertamente com essas questões (em inglês soa mais direto: "tackle these questions"), expondo contradições que envolvem sentimentos viscerais e histórias pessoais -

e dar conta de tudo isso com inteligência e personalidade - não é todo mundo que consegue aliar assim espírito crítico com empatia e chegar a essas percepções.

(e o Ianzinho agradece os beijos)