domingo, 14 de fevereiro de 2010

14 de fevereiro - Aniversário da Vó Kilda


─ Jãããão! Ôôô, Jão!

Era assim que a minha vó Kilda chamava meu avô. Ela dizia João numa sílaba só, e sempre o tratava com uma certa impaciência.

─ Já vai, Kerda! Meu vô respondia lá do quintal. O vô João vivia lidando com passarinhos. Sempre armando arapuca pra pegar canário. A parede lateral da casa era uma verdadeira exposição de gaiolas, cada uma com um canarinho canoro. Ele passava horas assobiando, trocando idéias com os bichinhos.

Moravam em Tremembé, cidadezinha no interior de São Paulo, na região metropolitana de Taubaté, onde nasci.

Minha vó sempre foi na Igreja, e meu avô ia atrás pra tentar agradá-la. Mas mesmo assim, ela nunca deu muita bola pra ele. Nem ele deu muita bola pra Igreja. Eu era criança e não notava esta indiferença.

─ Vó, por que você não dorme na mesma cama que o vô?

─ Porque ele se mexe muito e puxa a coberta, ela respondia.

─ Vô, conta a história de quando você foi passar a pinguela e encontrou a Maripéba?

─ Uai, mas de novo? Vou contar outra, pode?

Eu sentava de pernas cruzadas e fazia que sim.

─ Era uma vez um gato xadrez. Quer que eu conte outra vez?

─ Não, vô, essa não vale. Conta então a história do Caipora.

─ Era uma vez um gato xadrez...

Um dia meu vô pulou a janela do quarto pra tentar pegar um canarinho que fugira da gaiola. E quebrou a perna. Minha vó, enfermeira, cuidou dele com muito esmero. Ela dedicou a vida inteira para um homem que não amava mais. Tudo em nome de Deus e da Igreja. Mais tarde, só depois que meu avô morreu de um enfarto, eu soube os motivos que a levaram a desamar o João.

João era praça no interior de Minas, na época em que se casaram. Um dia ele foi chamado para colocar ordem num bacanal e acabou entrando na festa. Quando os outros praças chegaram, pegaram ele no flagra e o prenderam, junto com os demais pervertidos. Minha avó, humilhada, teve que cuidar dos 5 filhos sozinha até ele sair da cadeia. Trabalhando no hospital, costurando pra fora, fez de tudo para sustentar suas crias. Sem dinheiro, ela deixou minha mãe morar com uma “irmã” da igreja, que com certeza era a Bruxa Maripéba. Mas essa já é uma outra história. Quando meu avô foi solto, ela o aceitou de volta somente por devoção a Deus. E assim foi.

Minha vó, além de ir na igreja, gostava de assistir Silvio Santos e de ouvir Roupa Nova. Todos os domingos, depois do almoço servido e a louça lavada, ela sentava no sofá sempre dando um suspiro, então apoiava o cotovelo direito nas costas da mão esquerda, e com o indicador ficava enrolando os cabelinhos novos que nasciam bem onde começa o couro cabeludo. E não tirava seus olhos azuis da tela, enquanto não desse a hora de ir pra Igreja de novo.

Pendurado na parede da sala, tinha um quadro enorme que retratava o Juízo Final, em que a terra se partia em céu e inferno. A estrada para o céu era estreita, cheia de curvas e pedras no caminho. Lá em cima, um céu azul, um sol celestial, um arco-íris unindo duas nuvens brancas. Uma orquestra de anjos tocando harpas e trombetas. E um trono iluminado, onde supostamente Deus estava sentado, representado por um enorme olho ao centro dum triângulo (provavelmente representando a Santa Trinade do Pai, do Filho e do Espírito Santo), observando sua meia duzia de filhos que conseguiriam chegar lá. Do lado esquerdo, o quadro escurecia, adquirindo tonalidades degradé do preto para o vermelho e do vermelho para o amarelo. Cores quentes, sombrias, pertubadoras. A estrada que levava para o inferno era praticamente uma highway de ouro em horário de pico, ladeada por parques de diversão, cassinos, bares. E ao chegar na enorme porteira do inferno, lá estava satanás com seu tridente, dominando seus milhões de escravos. Pobres homenzinhos nus, sendo chichoteados por diabinhos metade-homem metade-cavalo. Fogo, lava, fumaça de enxofre. Tinha tudo, e para cada detalhe apontado, tinha a referência do versículo bíblico de onde o artista tirou sua inspiração. Era impressionante.

A imagem deste quadro nunca se apagou da minha mente. Minha vó acreditava piamente naquilo. E sabia que sua vida sofrida era o caminho que a levaria ao céu. Numa certa altura da vida ela descobriu que tinha câncer de mama e teve que tirar um dos seios. A gente dizia, carinhosamente, que agora então ela era monoteta. Ela se curou do câncer, mas não viveu muito mais tempo depois que ficou curada... acho que ficou com saudades do João... e foi pro céu. Que Deus os tenha.

9 comentários:

Ivo e Fátima disse...

Sogrão primeirão

Ivo e Fátima disse...

Pandinha linda

Você pode ter estranhado como garanti a pole ontem e mais nada! É que vi a postagem ontem (Domingo) pela manhã, bem na hora que a gente estava saindo para a praia. Dormimos lá e só chegamos de volta hoje. Como computador na praia é algo raro, ficou sem comentários.

Gostei da história do desamor da tua avó. Pegaram o Jãããão no meio da gandaia. Vê se pode.

Como eram diferentes aqueles tempos. Quem, nos dias de hoje, passaria a vida infeliz desse jeito só por causa da igreja!

Viva a liberdade, viva a racionalidade.

Beijos do Sogrão

Panda disse...

Pois é, sogrão! Estranhei sim a falta do comment, achei que vc tava relaxando... hehehe...

Quanto ao desamor de minha vó Kilda por meu vô João, e também sua resignação à Igreja... acho que esses fatos só comprovam o imenso coração que ela tinha, capaz de perdoar mesmo após uma grande desilusão, e de se manter firme nas suas crenças, mesmo com tantas dificuldades.

E nunca testemunhei desamor mais terno, dedicado e fiel do que aquele... que só pode ter sido fruto do mais sublime amor de Deus! Desse amor que falta no mundo, de ajudar o próximo, de ser paciente, de perdoar...

All we need is love!
Love!
Love is all we need!

Talita disse...

Xandinha voc?e se lembrou do aniversário da minha doce mãezinha!
Doce, resignada e sofrida mãe!
Estou com a Guga e Isis numa lan aqui em Sto André, e como eles estão sem net viemos gravar uns cds e aproveitei pra olhar o blog.Grata surpresa! Só você mesmo filha, obrigada, ela lá no céu onde está certamente sorrirá agradecida.
Feliz aniversário mãe querida, em grande estilo, ao lado do Pai!

Fatima disse...

Oi Xandinha,

Parece que vejo sua Avó, tão resignada, terna e compreensiva, parece que vejo sua Avó na minha tia Maria, que era como uma Avó, já que eu nunca tive Avó. Um dia te conto esta história, é triste de contar, mas é tã boa de lembrar.Um beijo no seu coração tão sensivel, tão bom de lembrar, tão triste na falta que faz.

Um beijo

Ana Balbinot disse...

Xandinha,
Amei a história do Jããào! Agora você tem que contar a história da Bruxa Maripéba, e nem adianta vir com era uma vez um gato xadrez!!
Beijos

Panda disse...

Anowsky, acho que a história da Bruxa Maripéba só pode ser narrada com masestria pela minha mãe...

E ainda, a danada da Maripéba estava presente nos vários causos que meu avô contava... não tinha somente uma história, mas era antes uma personagem de vários contos diferentes, cada qual começado com uma aventura de caça...

Fatiminha, que mensagem mais poética e emotiva! Vou adorar conhecer a história da tia Maria... um beijo bem grande da sua norinha que muito lhe ama.

Mamis, que bons ventos Santo-Andreenses a trazem por aqui! Saudades muitas... lembrar das pessoas queridas que se foram é a única forma que temos de imortalizá-las... de mantê-las vivas em nossos corações!!!
Te amo, mamis!!!

E te desafio a registrar essas histórias... assim as publicaria aqui, enquanto a vida na faculdade vai complicando e deixando cada vez menos tempo pra atualizar o blog!!!! Que tal, topas?

Nos vemos em maio!!! Beijos

erica_assayd disse...

Eu sabia que esse quadro não era coisa da minha imaginação... na sua descrição ele foi ficando claro pra mim! E os suspiros que ela sempre dava tbm...
Uma vez eu chorei porque ela ia matar a galinha pro almoço, mas ela logo veio me consolar dizendo que Deus tinha colocado as galinhas na Terra pra gente se alimentar...
Ê vó viu! Queria ter aproveitado mais...
Beijos, prima!
Érica

Panda disse...

Eriquinha, minha linda! Eu tb queria ter aproveitado mais... acho que de todos os primos o Amós e a Bina que se deram melhor nesse quesito né?

Adorei te ler por aqui... Volte sempre!!!