quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Cá com meus Platões...

A Morte de Sócrates de Jacques Louis David, 1787

Na falta de assuntos mais práticos, resolvi dedicar esta postagem às inquietações filosóficas às quais tenho me submetido através da leitura de Platão, de quem todos certamente já ouviram falar, mas poucos, infelizmente, já se atreveram a conhecer mais a fundo. Eu, inclusive, conheço Platão desde que me tomo por gente, e nunca havia lido nada dele, com excessão apenas do famoso Mito da Caverna, que na minha ignorância da época (eu devia estar na oitava série) não achei nada demais.

Não que hoje seja muito diferente. Em termos de leituras platônicas, continuo dentro da caverna e delas só tenho projeções trepidantes e deformadas numa parede irregular, úmida e escura. E ao me dedicar a tal estudo, devo confessar que tenho me deparado com uma angustiosa sensação de inabilidade filosófica, pela dificuldade de acompanhar o obtuso raciocínio dos pensadores.

Esta dificuldade tem exigido de mim uma leitura minuciosa e repetitiva - e, mesmo assim, pouco elucidativa - de muitos trechos dos diálogos escritos por Platão, tornando-a deveras cansativa e desafiadora. Como se o próprio exercício de leitura fosse uma forma didaticamente imposta pelo filósofo para nos ensinar, logo de cara, que a gente não sabe nada!

Outra dificuldade que o sujeito pós-moderno poderá encontrar ao se aventurar nas páginas platônicas é de cunho histórico, sociológico e político. Impossível obter pleno entendimento dos conceitos e das condutas filosóficas gregas sem ter, no mínimo, um parco conhecimento da história da Grécia Antiga, da organização social da época e de como a vida daqueles homens era de certa forma inseparável da política e, finalmente, de como a política era inseparável da religião, denominada por nós como "mitologia grega".

Isso exige de nós uma certa dose de desprendimento para que não deixemos de considerar a sabedoria dos filósofos pelo fato de muitas vezes ela estar baseada em crenças religiosas que hoje sabemos não passar de mitos. Por tudo isso, é preciso admitir que ler Platão , para o sujeito pós-moderno, é um grande pé no saco.

Creio que grande parte do fator Platão-pé-no-saco deve-se à nossa atual conjuntura, ao nosso estado quase letárgico de pensamento. Nossa geração desaprendeu a filosofar, a questionar, a desafiar conceitos pré-estabelecidos. Na escola, tudo o que aprendemos são conceitos prontos para serem internalizados - instituídos como verdade plena, até que o vestibular nos separe, de uma vez por todas, destas verdades fixas, nos deixando num vazio filosófico sem precedentes.

A maioria dos sistemas educacionais não ensina o sujeito a construir conceitos, idéias e opiniões, não admite-o questionar, nem a se deter um momento que seja em divagações sobre o bem e o mal, sobre a justiça e a injustiça, sobre a virtude e a iniquidade humanas. Esses são assuntos muito vagos, que não caem no vestibular e que por isso mesmo não carecem de ser abordados. E assim, quando admitimos, impotentes, estarmos num mundo vil e cruel, onde nem sequer com a justiça divina podemos contar devido à nossa impossibilidade de fé nas crenças ou nas tradições, a nossa incapacidade filosófica não nos permite identificar que é justamente a falta desta prática que nos levou a construir essa sociedade doente.

Assim, seguimos alienados, incapazes de analisar nossa própria condição. Não questionamos nada e muito menos nos revoltamos com isso. Aceitamos. Engolimos. Sujeitamo-nos ao nosso limítrofe e ordinário mundinho, porque pensar cansa, entristece, empobrece. Uma virtude a menos para o homem, a de pensar. Talvez prevendo isto que Sócrates tenha preferido beber cicuta ao invés de continuar ensinando seus discípulos.

Ao ser condenado por sua amada cidade, Atenas, à pena de morte, Sócrates não demonstrou nenhum receio, de boa vontade foi se confinar na cadeia esperando o dia de morrer. Ao ser questionado por seus amigos, discípulos e homens de grandes posses que certamente o poderiam livrar da condenação, ele se resignou à sua sentença, na esperança de que no Hades ele poderia continuar sua prática filosófica, ao lado de grandes homens que por lá já estavam. Estava excitadíssimo por conhecer Homero! Pobre Sócrates. Na minha opinião, sua tranquilidade ante a morte certamente se devia mais ao cansaço de viver uma vida miserável em nome da justiça, do bem e da virtude, numa sociedade que ele viu se corromper e decair justamente por se afastar desses conceitos que ele tanto prezou por viver e ensinar. Morreu de bom grado, pois morreu sabendo ter cumprido sua missão na terra mesmo sendo ignorado por muitos e odiado pelos mais poderosos. Certamente o inferno não poderia ser pior.

8 comentários:

Tete disse...

Gostei da aula!
Sempre é bom aprender mais um pouco!

P.S. O tenis serviu....tinha esquecido de contar!

Beijos

Ivo e Fátima disse...

Pandinha linda

Quem diria - batido pela Teté - quando vi que já tinha um comentário, adivinhe qual foi o pensamento imediato - kakaka.

Pandinha intelectual nos levando a reflexões existenciais. Maravilha.

Você fala que a sabedoria dos filósofos gregos é "baseada em crenças religiosas que hoje sabemos não passar de mitos". Me diga - qual a crença religiosa, de hoje ou de todo o sempre, que não é baseada em mitos?

Beijos do Sogrão.

Panda disse...

Teté! Legal que temos o mesmo tamanho de pé! E que bom que gostou da lição platônica, mas a intenção não é dar uma aula, e sim fazer um desabafo... ou quem sabe inspirar pessoas! Adoraria que meus sobrinhos e amigos mais jovens, que ainda estão no começo de suas vidas acadêmicas, me lessem e se motivassem a saber mais sobre essas coisas. Mas eu duvido que eles leiam pois quase nunca fazem uma Panda feliz... e preferem jogar video game e falar no msn do que ler um bom livro - ou meu blog! enfim!

Sogrão, mandei uma oferenda para Apolo na ilha de Delos e o oráculo me disse que a primeira coisa que você pensou quando viu que já tinha um recado foi: Pilar fd%^&$%$!

Pois os deuses disseram ao oráculo que por saberem isso lhe castigaram, fazendo com que você se enganasse e, ainda, fosse destituído da pole pela própria irmã querida!

Os deuses são terríveis, sogrão! Terríveis!

Anônimo disse...

QUERIDA PANDA

A CAMISA FICOU ÓTEMA!!E "ORNOU MUITO BEM COM A BERMUDA QUE A TIA DIVA DEU...
O VÉIO FICA LINDÃO COM AS CORES DA CAMISA...
MUITO OBRIGADA MAIS UMA VEZ!!
MUITOS BEIJOS
MANA

Alessandra Pilar disse...

Pandinha!!! Bom, se Sogrão se engasgou eu não sei, mas também pensei que tinha perdido a pole pra ele. hehehe
Bom, sobre o post de hoje: eu confesso que também não tive saco pra ler Platão nem qualquer outro filósofo. Assumo totalmente a minha culpa e me recolho a minha insignificância!!! E queria ter mais culhão pra pegar um livro desses e realmente estudar. Tentei ler Camões e desisti também. Aiai. Mas concordo contigo na questão do ensino atual. Nossos jovens não são ensinados a pensar, questionar nem nada do gênero. Engolem o que recebem pronto, decoram coisas sem sentido para o vestibular e depois esquecem tudo pois não aprenderam nada realmente. Ainda temos algumas escolas que seguem um modelo diferente de didática como as Waldorf, por exemplo, que lutam pelo pensamento criativo. Não sei se elas resistirão muito tempo, né?
E logo temos novidades no blog "Conversa pra Mãe Dormir".
Ufa, acho que falei demais!
bjinhos

Panda disse...

Pilar! Se a gente confessasse tudo que não leu... eu por exemplo não consegui ler Dostoyevski... hehehehe... mas vou retomá-lo algum dia quando estiver mais preparada.
Acho que depois de Platão, qualquer coisa será mais fácil, hahahaha!!!! Bjos

Ana Balbinot disse...

Pandinha,
Há uns 5 anos atrás eu fiz um curso de 6 meses de duração só para estudar O Banquete. Foi muito bom entender Platão!
Adorei sua postagem, aliás, como sempre!
Beijos

Panda disse...

Obrigada Aninha, e boas melhoras para sua gripe felina!!!

=)